Van Der Graaf Generator

  • Eutanásia

    Um dia, Zími falou para Mila Cox:

    “O seu destino é criar, não cumprir.”

    Ela nunca esqueceu dessa frase, não esqueceu também que naquele dia Zími usava uma camiseta com a cara do Mark E. Smith, mas esqueceu das circunstâncias em que ela foi dita.

    Já fazia anos, foi antes da pandemia, e eles tinham acabado de montar a banda Crop Circles.

    Ela ainda morava com a mãe na Penha, e ele morava sozinho na Bela Vista.

    Agora moram juntos num apartamento na Liberdade. Mila Cox perguntou para Zími se ele já tinha algum hater. 

    Zími respondeu:

    “Eu nunca tinha pensado nisso, então provavelmente não tenho. O que eles fazem? Falam merda na internet? É um pântano cheio dessas criaturas cheias de ódio. Eu tenho certeza que falho na minha promoção pessoal, falho na minha publicidade individual, porque eu cago pra isso. Já existe a publicidade sobre a banda, que você faz da maneira certa, e pra mim é o bastante. Mas se algum cretino que nem me conhece começar a falar mal de mim, a publicidade em cima de mim seria muito maior do que qualquer publicidade que eu mesmo possa fazer. Quando se trata de outra pessoa falando, ganha mais peso, por mais contraditório que possa parecer. Na música, nos manifestamos contra a barbárie e o fascismo, e quem está no sentido contrário terá problemas com o mundo e com a vida, não será comigo. Mas nunca recebi mensagem de ninguém que se declarasse hater. De qualquer forma, se existirem, quero que se fodam.”

    Mila Cox respondeu: 

    “Perguntei só pra ouvir o que você responderia. Eu sei que você não tem haters, eu saberia se tivesse.”

    Zími falou:

    “Quando esse tipo de coisa surgiu, de ter haters ou ter seguidores, eu já tinha idade pra não levar essa merda a sério. Antes da internet já havia a noção geral de que não devemos nos animar com elogios e nem desmoronar com críticas. Mas ao longo desse tempo, o que mais me choca é que existem os “influenciadores”. A pretensão de quem se autodenomina influenciador é algo  que até hoje eu não sei nem mesmo se quero entender. E se formos falar do influenciados, estaremos revisitando as músicas que fazemos, sobre como as massas são teleguiadas e precisam desesperadamente de um líder, que surge em alguém que simplesmente se autoproclama líder. Qualquer picareta com certa audácia é capaz de fazer enormes estragos sociais.”

    Cox foi a primeira garota vista por Zími a usar uma camiseta do Van Der Graaf Generator. Agora ela reclama da domesticação do rock e tripudia a absorção do gênero pelo corporativismo. Critica a auto censura, o silêncio e a conformidade da cidadania diante de escândalos bizarros da elite. Tem vinte e um anos e seu combustível é literatura beat, rock obscuro e tensão urbana. Mas ela nunca saberá como era o mundo antes da internet, e não se importa com isso.

    Ela diz:

    “Isso foi no século passado. Agora é tempo de tentar impedir a agonia da esperança de que estejamos não apenas em um novo século, mas também em uma nova era. Infelizmente estamos em meio à terceira guerra mundial. Pelo menos não falta assunto para novas músicas.”

    Estava com um caderno aberto escrevendo sobre como a sociedade é mais desagradável do que uma noite dormida num terminal de ônibus. Zími dizia que Cox parece a mistura de Lydia Lunch com Harriet Wheeler.

    Ela diz que Zími é a mistura de Slim Jim Phantom com Jello Biafra.

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