vida [e mundo] como um sopro

  • vida [e mundo] como um sopro

    Intranscritível o sussurro aerado dos tempos à beira de uma lagoa. Folhas balançam, cabelos se descabelam, passarinhos tentam passarinhar, todo um compasso descompassado e, por isso mesmo, incrivelmente belo. Há algo de poético em se perceber só existindo, às 16h16 de uma tarde com sol entre nuvens, pessoas – poucas -, zunidos de um linguajar que não se compreende, que preenche tudo o que parece ser vazio. De repente, uma cor vibriônica desponta veloz e… pára.

    Algo de si resiste, altaneiro, em meio à imensidão de água, à primeira vista repleta de ondulações, suaves carneirinhos pululando sobre a superfície aquosa. Duas pessoas são perceptíveis entre linhas — 4 linhas, 5 linhas, linha de segurança. De um lado, a água é flat, do outro, tudo é um grande mexido de uma coisa com outra coisa qualquer: movimento. Ao nível do chão, só corpos muito frágeis são abalados pela antiestática. A grama dorme, plena. Sacolas de plástico vacilam e se perdem. O vento molda comportamentos.

    Contra a direção das monções, asas importam? As dos albatrozes, sim. Plumas driblam a leveza primeira e transbordam solidez em meio ao desequilíbrio. Plainam. Se arrefecem, mergulham de bico na água, fazem acrobacias aéreas.

    É bonito, é bonito de se ver. Cada piscada dos olhos, uma nova, tenra e terna fotografia nas retinas de um que passa, sem pressa.

    Aves diminutas, quase domésticas, encaram a instabilidade dos ares como um parque infantil: forçam seus corpinhos até o limite possível, descem para perto do chão e voam em zigue-zague zague; debochadas, tentam de novo. E retornam. Uma atrás da outra, como quem jura nada disputar, mas disputa, sim, discretamente, a melhor fatia do vento ou o direito de tocar, de forma pioneira, esse céu infinito, carne invisível, o nascimento de um desejo profundo; competição talvez — dessas que ninguém
    confessa, mas todos praticam, com a seriedade das coisas leves e a urgência de um pulsar de vida contemporâneo.

    Em Atenas, com doze metros de altura e oito de diâmetro, planta octogonal, toda em mármore, existe a restauração do Horológio de Andrônico. Na ancestral Torre dos Ventos, um barbudo inclina seu caldeirão e lança o início invernil de todas as Eras. Ele mantém seu posto, sob vigília, entre Boréas e Zéfiro, os deuses dos ventos norte e oeste.

    O primeiro nomeia os ventos boreais; o segundo sopra eternamente, graças às pinceladas de Botticelli, a vida à deusa wɛnʊs, representante suprema dos mares, cujas águas banham o mundo de amor, beleza, desejo, sexo, fertilidade, prosperidade e vitória.

    É possível encontrar essa cena na Galeria degli Uffizi, na italiana Florença, ou impressa em ecobolsas, camisas e até cangas, por todo e meio mundo.

    Imaginem-se passando uma temporada curta de suas rotinas atravessando praias ao sabor do vento, sem rumo ou direção que não a do destino, portando apenas garrafas de água, roupas de banho, smartwatches e uma canga com esse quadro em estampa.

    O vento sopra pela orla e você olha para a canga. O vento muda de direção, você decide levantar acampamento. Sacode a areia da cara da Vênus; Zéfiro e uma das Horas engasgam-se na tentativa de soprar e engolir os grãozinhos indesejados do tecido.

    E, entre os carneirinhos sobre o mar, quase dá para ver o Pequeno Príncipe, lançando ondas como quem tenta compreender o que não é seu. Ou é. Procurando respostas em um mundo que nunca lhe pertenceu por inteiro, sempre a dois passos do paraíso, inquieto, atento, preocupado com a sua rosa, em outro planeta.

    Os carneirinhos permanecem enquanto há vento, balizando a possibilidade de velejar com seu próprio corpo e o desejo de ir e estar além. Ele segue, pequeno, insistente, aprendendo que existir talvez seja aceitar o sopro, confiar nas asas e continuar caminhando, águas na altura dos joelhos, mesmo que não saiba exatamente para onde.

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