Vinicius de Moraes

  • Ah, o charme

    Acho que não me expliquei direito. Não é que eu seja contra a beleza ou a considere efêmera. Mas só acho que ela não é fundamental. Tudo bem, eu sei que esse meu comentário faria o Vinicius de Moraes sair da tumba para puxar meu pé. Mas a vida tem dessas coisas e não expresso minha opinião levianamente.

    Sim, você não disse que eu faço isso, eu sei. Claro, vou esclarecer meu ponto de vista e se bobear você vai concordar comigo. Vamos lá.

    Considere assim, a pessoa é linda. Mas é bom lembrar que ninguém é lindo para sempre, como se sabe. Porque beleza é um aspecto estético relativamente estático. A movimentação da beleza nas pessoas é pequena. Normalmente ela evolui e se adapta com o passar do tempo, mas muito raramente para melhor. Tem uma cena de Henrique V, de Shakespeare, que o rei inglês diz à princesa Catherine de Valois que ela tem sorte de casar com um homem feio como ele. Porque o tempo, que sempre retira a beleza das pessoas, pouco estrago fará em seu aspecto. É engraçado, se pensar bem.

    Mas enfim, deixa voltar ao raciocínio se não eu me perco. A beleza sofre mutações que são reflexo de aspectos ligados a vivência. Coisas como a quantidade de sol que recebemos ou os aborrecimentos em geral e, em especial as frustrações amorosas, só para citar três exemplos que tendem a alterar a beleza. Tem muito mais e você mesma pode enumerar um quilômetro delas. E é bom lembrar que trata-se de uma tendência não uma garantia porque não estou falando de ciência exata.

    Mas o fato é que esses acontecimentos, que podemos chamar assim, deixam suas marcas em nós, refletindo em nosso aspecto externo, seja em nosso comportamento seja em nossa aparência. Em outras palavras, a beleza que recebemos da mãe-natureza, em coordenação com nossa herança genética, passará por alterações lentas ao longo dos anos. É meio óbvia essa idéia, concorda? Afinal ninguém passa incólume pela vida.

    Mais vinho? É francês, gostou?

    Bom, agora vamos examinar o charme.

    Esse aspecto não vem conosco de berço, como a beleza. Não se herda charme. Trata-se de  algo que você desenvolve, cria, adapta a você e ao meio em que está. É fruto de muita dedicação sua a arte de conhecer as pessoas, percebe-las realmente e entende-las. De buscar na observação e no convívio o que você pode fazer para atrair a atenção delas. Positivamente, lógico. Em essência, o charme é capaz de tornar você mais atraente, mais belo até. E ao contrário da beleza, o tempo só faz melhorar o charme. Sim porque charme é movimento, requer prática diária e se beneficia do conhecimento acumulado. Charme é essencialmente dinâmico.

    Qual conhecimento? Ora, minha querida, o que vem das relações humanas, do querer conhecer melhor outras pessoas em geral e aquelas que são nosso objeto do mais puro e legítimo desejo.

    Sim, isso mesmo, charme é a arma de sedução por excelência. Se bem que chamar de arma é uma palavra absurdamente imprópria. Melhor que arma seria ferramenta? Não, muito pesado. Talvez, deixa ver, habilidade social ou artística ou quem sabe sócio-artística, que tal?

    Gostou né, pois é, charme é habilidade sócio-artistica. Sócio porque está ligado ao convívio social, sem ele não há razão para ser charmoso. E artístico porque é a mais bem-acabada dança de acasalamento que alguém pode fazer.

    Mas claro que derramar charme é exibir-se. Por que não? Isso faz parte do pacote básico que a mãe-natureza nos dotou. Garante desde a perpetuação da espécie até momentos agradáveis e deliciosos. Por vezes, sem exagero, inesquecíveis e que uma vez rememorados sempre nos trazem aquele sorriso saudoso. Ser charmoso ajuda quando a causa é nobre.

    Perceber que há charme no ar é fácil mas precisa estar atento. Porque tem dias que a gente está tão distraído – ou compenetrado ou tão para baixo – que se um elefante fizer um grand jeté na nossa frente é capaz de passar despercebido. Juro, sei como é por experiência própria.

    Mas se você está de olhos bem abertos aí é tranquilo. Se precisasse resumir eu diria que no caso masculino, o charme é a exibição de testosterona do bem, feita na quantidade certa, sem quebrar a cristaleira mas deixando claro que o sujeito está ali pronto e tem muitas coisas interessantes a dizer. Elas normalmente percebem os passos dessa dança com os olhos e com os ouvidos. Bem escolhidas as palavras e o timbre de voz, não há como não prender a atenção dela.

    No caso feminino, o charme é o encantamento diáfano que é atirado ao ar por ela, misturando suas essências e hormônios em um vapor translúcido irresistível. Esse bruxedo é percebido pelo olfato e o olhar. Porque é em silêncio que a mulher é mais charmosa.

    E você me percebeu como?

    Ah minha querida, de todas as maneiras e mais algumas…

  • Beber só

    A expressão “beber socialmente” tem um quê da correção política tão propagada hoje. Designa uma forma civilizada de beber (embora haja algum paradoxo nisso, pois bebemos para fugir à força coercitiva da civilização). Quando alguém diz que bebe socialmente, está querendo dizer que se controla, se policia, enfim, não se deixa dominar pelo “vício”.   

    Mas há outro sentido nessa dimensão social da bebida. Beber socialmente é também (e lá vai o óbvio) não beber só. É aproveitar o ensejo para conversar, rir com os outros, trocar impressões (e sobretudo imprecações) sobre a vida e o mundo. 

    Beber socialmente não exclui a possibilidade de alguém ser alcoólatra, assim como beber só não significa que a pessoa seja viciada. Existem alcoólatras que sempre procuram parceiros com quem beber (e quando não os encontram, se frustram, e bebem com mais intensidade ainda). E existem “bebedores sociais” que vez por outra não querem que ninguém lhes perturbe a comunhão que estabelecem com a bebida.

    Para mim, uma das imagens mais dolorosas da solidão é a de alguém bebendo sozinho. Beber só – sem ter com quem brindar, a quem fazer confidências ou mesmo sobre quem entornar o copo – é pior do que comer ou dormir só. A bebida pede expansão e pressupõe o outro. Está associada aos rituais báquicos, que sempre envolviam muita gente (e às vezes, é verdade, terminavam em agressões e assassinatos). Sozinho se lê, se pensa, se reza – mas não se bebe.

    O onanismo etílico é sinal de que falta à pessoa alguém com quem carnavalizar a vida. Embora ela possa fazer isso solitariamente (no Carnaval existem os blocos do eu-sozinho), nada mais estimulante para subverter as regras do que a presença de outras pessoas. O “indivíduo” é por natureza triste, ordeiro, temente às leis e a Deus. E quando está sóbrio, prefere a reflexão às atitudes que confirmam o instinto. Em grupo ele fica ousado, dribla o superego, deixa emergir a catadupa interior que os diques morais reprimem.

    Tão ruim quanto beber só é beber com alguém que não bebe. Mal comparando, é como fazer sexo com quem sofre de frigidez. A sobriedade do outro soa como uma falta de respeito, uma recusa de sintonia que acaba humilhando uma das partes (a parte que bebe, é claro). Comumente, nessas ocasiões, a parte sóbria assume um ar indulgente à proporção que o outro mergulha em seu delirante torpor.

    O companheiro ideal para um bêbado é outro bêbado. Quando se juntam, um não faz muita questão de entender o interlocutor porque também não está preocupado em se fazer entender. Caso estivesse, teria permanecido lúcido. O importante é que, na língua engrolada em que se expressam, sempre dizem o essencial.

    Existem no entanto aqueles para quem beber sozinho é mais produtivo. Os artistas, por exemplo, e entre esses os escritores. Gente como Vinicius de Moraes, Carlinhos Oliveira ou Paulo Mendes Campos não precisava de ninguém nessas ocasiões. Quando tinham diante de si uma garrafa, estavam em silencioso diálogo com as musas. E com elas faziam intermináveis brindes à eternidade.

  • Só a bailarina que não tem

    Um dia desses, lendo uma crônica do Vinicius de Moraes — O estranho ofício de escrever — senti um alívio maior do que aquele que experimentava, na infância em colégio de freiras, ao sair do confessionário. Minha consciência, até então abalada pelos pecados veniais e mortais que vinha cometendo na escrita, se encheu de uma morna complacência. Afinal, se até Vinicius escorregava, por que não eu?

    Escrever, para mim, envolve uma dor de parto aguda e profunda. O texto vai vindo a cada contração e, por vezes, precisa da ajuda de fórceps para ganhar o mundo. Sempre acreditei que, como escritora, não era uma boa parideira.

    Lia os grandes cronistas e me encantava com a fluidez com que as palavras bailavam nas páginas: ora em plié, compondo sentidos flexíveis; ora em rond de jambe, mudando o rumo da narrativa; muitas vezes arrematadas com um inesperado grand jeté. Eu me consolava pensando que jamais havia treinado em sapatilha de ponta — requisito básico para integrar um corpo de baile como o daqueles escritores notáveis.

    Na tentativa de entender como se dava o processo criativo deles, resolvi bisbilhotar suas rotinas. Descobri um certo consenso: corpo em movimento, mente disciplinada, metas diárias e um caderno sempre à mão para capturar ideias fugidias. Adotei as caminhadas matinais e o inseparável caderninho — e continuei insegura. Meu relógio criativo insiste em funcionar à noite, e me permiti respeitá-lo, até porque método algum jamais garantiu inspiração. As crises criativas permaneceram, fiéis como velhas conhecidas.

    Foi então que me deparei com a confissão de Vinicius. Ele, Rubem Braga e Paulo Mendes Campos escreviam para diferentes jornais e, num aperto, Rubem pediu a Vinicius uma crônica emprestada. Veio A Sopa. Rubem fez pequenos ajustes e publicou. Tempos depois, foi Vinicius quem, sem texto novo para o dia seguinte, recorreu a Rubem — e recebeu de volta justamente A Sopa. Protestou, claro. Mas não era pobre soberbo. Remendou aqui e ali e publicou.

    Foi minha absolvição definitiva. Se até os grandes reciclavam crônicas em dias de penúria criativa, por que não eu?

    Lembrei então da Ciranda da Bailarina, de Chico Buarque e Edu Lobo:

    “Confessando bem, todo mundo faz pecado…
    Só a bailarina que não tem.”

    E só o escritor perfeito também não.

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