Vira-latas

  • Vira-lata Escudeira

    Há exatamente dois anos, no dia 21 de julho, adotei uma rebolativa de cambitos finos. No recesso profissional fomos à feira de filhotes. Queríamos adotar uma cadela como companheira à nossa Pretinha, já idosa, que entristeceu com a morte da parceira.

    Domingo invernoso ensolarado. Descemos a Serra contando o tempo. Chegamos com meia hora para a feirinha acabar. Não planejei e nem nunca quis ter um cão. Elvis, o Canário Belga, como já contei, esbarrou em minha caminhada na calçada. Não voava, só corria e pulava. Como cantava! Parceiro de felicidade por cinco anos. Sofri. Estanquei vontade de outro bichinho. Mas o destino nos prega peças. É pretensioso.

    Na Feira, avistei uma cadelinha de olhos brilhantes, cílios castanhos e orelhas caídas, nos braços da Veterinária. Encantei. Não tenho palavras para explicar. Não sei o que me deu. Me aproximei, encantada com aquele olhar. Está para adoção? É fêmea? Emoção estranha me apoderou. Senti o coração a comemorar em saltitos. Um afeto brotou instantaneamente. Que lindinha! Posso pegar? Tomei-a nos braços. E assim Mafalda, com dois meses de nascida, entrou para a família.

    Dois anos após a adoção ainda não consigo explicar aquele encontro. Mafalda parecia estar me esperando. Só ela restava da ninhada, encontrada abandonada em uma rua de Teresópolis. Ambas viemos para o Rio de Janeiro. Eu de Petrópolis e ela de Teresópolis. Descemos a Serra para o encontro mágico. Ser tão pequeno e indefeso que emana só felicidade. A propósito, também adotamos a Nina para ser amiga da Pretinha.

    Agora tenho vários pedacinhos de alegria durante o dia. Mafalda é minha fiel escudeira. Adora coco seco, ovo cozido e olhar a rua pelo vidro da varanda latindo para os cães que passam. Uma fofoqueira! Sabe quando não estou bem, quando estou para chegar do trabalho e vai comigo para todos os lugares e viagens. Acordo com os olhinhos dela a me darem bom dia. Ao chegar do trabalho, por mais que eu esteja cansada, zangada com o trânsito, tudo se desfaz quando a vejo. Ela me enche de lambeijos e não sossega enquanto não lhe dou carinho. Sou grata por esta artimanha do Universo chamada AMOR.

  • Entre a lei e o ladrão: o que os cães ainda podem ensinar aos homens?

    Nas redes sociais, dois vídeos chamaram a atenção por uma curiosa semelhança, embora, nos fatos, sejam opostos. Em um deles, é o policial quem se derrete diante da presença de um vira-lata; no outro, é o ladrão.

    Começo com um aviso direto: não gosto de ladrão. Para mim, pertencem à escória da humanidade. Ainda assim, convém reconhecer que, por trás de qualquer bandido, há um ser humano e, às vezes, pode correr em suas veias algum vestígio de piedade.

    Peço, então, apenas que contemplem as cenas. Há algo nelas que desarmam o olhar. Mesmo diante da lei, o ladrão não se apavora; move-se e deixa escapar um gesto simples de humanidade ao afagar o cãozinho que se aproxima.

    Do lado do cão, há apenas inocência. Ele não julga, não investiga, não pergunta pelos motivos da prisão. Aproxima-se como os cães sempre fizeram desde o processo evolutivo: um movimento nobre para melhor compreender o ser humano. Talvez seja justamente isso que nos apazigua, porque, diante de um cão, até um ladrão ainda pode parecer um homem.

    Talvez por isso esses dois vídeos, embora contrários em seus papéis, acabem revelando a mesma coisa. O policial e o ladrão estão em lados opostos da lei, mas o cão, alheio, ignora essa divisão.

    Os filósofos antigos costumavam dizer que a natureza revela aquilo que as leis escondem. Diógenes, o velho cínico que preferia a companhia dos cães à dos homens, acreditava que a verdade se mostrava justamente nas coisas simples. Talvez haja algo disso nessa cena: o cão não absolve o crime nem condena o criminoso. Apenas se aproxima e, nesse gesto silencioso, faz aparecer aquilo que ainda resta de humano em nós, mesmo onde a vida já parece ter fracassado.

    Os cães apontam a salvação; o que falta a muitos é entender esse alerta.

    Assista ao vídeo:

  • Vira-lata procura homem de raça

    Vira-lata de estirpe procura ser humano de raça. Pode ser branco, negro, amarelo, vermelho, azul, não importa. A “raça” que realmente conta para um autêntico vira-lata como eu é a fibra, o caráter e o afeto que me garantem perfeita harmonia para os próximos 15 anos. 

    Aviso que sei muito pouco de meus ancestrais. Posso ter sido gerado de um cruzamento de pastor alemão com rottweiler, de labrador com boxer ou de beagle com yorkshire. Ou, mais provavelmente, de um cachorro de raça indefinida com uma cadela de raça ignorada. Isso importa? Sim, se você se preocupar mais com a árvore genealógica do que com a índole.

    Esclareço que sou um vira-lata “raçudo”. Fiel, obediente, amoroso, posso dar minha vida para proteger meu ‘dono’, ou melhor, meu companheiro. Qualidades que você dificilmente vai achar num humano, seja de que raça for.

    Mas isso não me torna especial ou de elite. Sou apenas um cão de rua, marginalizado pela sociedade assim como os mendigos, os poetas e os que lutam por um mundo melhor para pessoas, plantas e animais. Há milhares como eu, largados à própria sorte, expostos em feiras de adoção, cedidos gratuitamente a alguma alma caridosa que possa lhe oferecer um lar. Tão iguais na condição aflitiva, mas com cores, tamanhos e aspectos bem distintos para agradar (ou desagradar) todos os gostos.

    Ignorados pelos bacanas que não vacilam em desembolsar 20 mil reais para ter um cachorro de raça pura ou “pedigree”, seja lá o que isso signifique.  Querem um bichinho de estimação para ostentar suas virtudes congênitas a vizinhos e parentes. Exibi-lo orgulhosos como um item valioso de seu patrimônio assim como seu carro importado ou sua bolsa de grife. Escolhem suas companhias como um vinho num cardápio. Criam cachorros como crianças mimadas, entulhando-os com roupas de frio, brinquedinhos caros, ração importada, spas e outras frescuras. Oferendas que o tornam um cão obeso, acomodado, egocêntrico, vaidoso. Quase como um humano padrão. Gente que não se furta a prover toda espécie de paparicos a seu pet, mas não tem “raça” suficiente para abrir mão de uma migalha de suas posses para auxiliar um semelhante necessitado, abandonado como um cão sem dono, matando cachorro a grito.

    Imaginam poder combater a monotonia de sua vida enfadonha cercando-se de cachorros customizados. Ao sentirem-se em depressão e vítimas de outras patologias da “raça humana” clamam a companhia terapêutica de um cão. Desde que “de raça”.

    Não entendo o comportamento desses humanos desumanos que se dizem com “consciência social”, revoltam-se com o flagelo dos refugiados e de crianças famintas. Ficam com olhos marejados e o coração apertado ao assistirem injúrias cometidas por seres humanos contra seres humanos ou contra animais maltratados. Indignam-se com o racismo e a discriminação. Mas na hora de escolherem um companheiro, exigem certificação de procedência genética…

    Gente assim eu dispenso, muito obrigado. Prefiro continuar livre e solto, um vagabundo sem dama, perambulando pelas vielas da periferia e das pequenas cidades, fugindo da carrocinha e da hipocrisia, junto com outros da minha “raça”.

    Animais não têm preconceitos nem cometem crueldades. Cães ‘de raiz’ como eu só querem viver e deixar viver, ser felizes e levar felicidade àqueles que os acolhem.

    Não tenho grandes exigências, sou de fácil convivência, inteligente, aprendo regras com facilidade e ajudo a proteger a casa de inimigos e de tristeza. Estou à procura de algum humano com bastante raça e com qualidades nobres como as de um vira-lata para iniciarmos uma amizade duradoura e gratificante para nós dois. Mas não estou à venda. Basta me levar para casa.

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