Viver não é estar vivo

  • Viver não é estar vivo

    Não se pode chamar de viver o ato passivo de ver sem enxergar. Quase como um coadjuvante de si mesmo, um acessório da vida que corre aos seus olhos e você não estica a mão para encostar nela.

    Estar vivo nesse caso não é um ato de sobrevivência mas sim quase uma função controlada pelo Sistema Nervoso Autônomo. As coisas funcionam sem que você tome decisão alguma. Simplesmente você respira, seu sangue corre e seus intestinos, bem, fazem o que tem que fazer. Você, um ser passivo por completo. Está ali e mais nada, sem maior esforço.

    Viver é diferente. Exige decisão, esforço, visão. Escolhas certas e erradas, viver certezas e tremer com as incertezas.

    Viver é achar um livro de autora que não conhecia somente porque, sei lá, deu na sua telha. É ver um filme que parece ruim e de fato é uma droga, mas tudo bem.

    Viver é ficar calado e não revelar um mico desses pela Internet.

    Viver também é confessar as bolas-foras da vida. É bater boca por besteira, entrar em conversa non-sense pelo prazer de criar ideias que se engajam nas dos amigos formando um trem retórico desgovernado mas bem divertido.

    Viver é lembrar e é propor.

    É também passar seu olhar pelas pessoas e achar alguem interessante. Interessante não, muito interessante. Mas ficar quieto, observando, apreciando a paisagem humana.

    Assim como também é viver ser escaneado por algum olhar de desejo por você, mesmo que na maioria das vezes você não faça a mais pálida ideia porque atraiu a atenção daquele par de olhos. Talvez belos, talvez não. Profundos ou rasos. Mas certamente olhos bem atentos.

    Quem vive, aprecia. Quem vive, busca. Quem vive, se surpreende.

    E se decepciona, se volta e revolta e volteia na mesma proporção que a quantidade de sorrisos que deu menos a raiz quadrada das caras-amarradas seguidas de rosnado que soltou pela vida. Equação difícil de entender? Então esquece, vai viver que é melhor.

    Guimarães Rosa escreveu que viver é muito perigoso. Eu acrescentaria com minha pena atrevida: viver é muito perigoso mas mesmo assim pode ser bem divertido.

    Viver vai muito além de estar vivo.

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar