Vovó ainda está aqui

  • Pé ante [o sisal e a sombra do outro] pé

    Um vulto de cerca um metro e vinte e cinco se esquiva por trás da cadeira de balanço. Gabriel move um pé depois do outro, tentando elevar seu peso acima dos ombros. Primeiro, o indicador do pé esquerdo toca o assoalho de madeira, um marrom rosado escurecido pelos anos. Pisa com cautela para evitar o rangido. Quase não respira. Sua avó, sentada à cadeira, move apenas as mãos. Faz crochê. Há semanas se senta ali para tricotar não se sabe o quê. Faz algo, desmancha. Ao final do dia, quando a luz externa abandona o recinto, ela recolhe as agulhas, estica as pernas, boceja e se levanta devagar. São quatro e treze da tarde. Não vai demorar muito.

    Gabriel continua seus passos lentos e desoxigenados. Um beija-flor entra pela janela e flana um pouco por sobre a Costela-de-Adão, próxima à cortina em linhão branco, recolhida ao vértice da esquadria com a parede vizinha. O pássaro não causa sequer curiosidade à avó, mas o menino quase se faz perceber através de um vocalize. O peito se enche num impulso que retém o pé direito no ar e fica ali, suspenso. Um som redondo começa a subir pela garganta, mas é engolido no momento em que o pássaro faz o percurso contrário, retornando ao pátio. Na sala, apenas o barulho do atrito das agulhas e do pêndulo do cuco antigo, nada apressado.

    Minutos depois, Gabriel está quase em frente a sua avó. Fica ali, alguns metros de distância, a observá-la. Os olhos dela descansam sobre o vai-e-vem das mãos, mas não parecem presentes. São duas jabuticabas dentro de ostras velhas, semiabertas: abrem-se pouco e devagar, deixando entrever o brilho castanho que ainda existe num corpo de mais de oitenta primaveras. Mesmo sem grandes distrações no recinto, tudo além do conteúdo daquela cadeira parece se desfazer. O canto superior dos lábios de Gabriel levanta-se. O neto tem todos os olhares fixos na avó. Suas mãos brincam de mímica, espelhando gerações. A sombra da araucária cresce dentro da sala. De soslaio, ele foca o relógio, dá um último e contido meio suspiro em direção à avó, registrando na memória cada dobra da pele, cada curva dos cabelos grisalhos, cada detalhe do macacão preto de pequenas flores rosas que ela veste. Setenta anos separam uma vida da outra, e são o fio que as liga.

    Quando a sombra alcança o sisal, Gabriel veste seu peso corporal como quem coloca uma mochila e retoma o caminho às avessas, pé ante pé. Sua expressão é outra. “Vovó ainda está aqui”, reverbera em seus pensamentos de criança. Ao quase posicionar-se na porta de seu quarto, o piso de peroba rosa denuncia-o. A cabeça da avó levanta, percebe-se o ondular das madeixas gris. Ela recolhe as agulhas, estica as pernas e boceja. Olha para o negativo dançante de sua árvore favorita, no limiar do grosso do tecido e do liso do piso.

    — Gabriel?

    Sem mover as pernas, a esquerda novamente no ar, o menino leva a mão em concha à boca, como quem finge estar dentro do quarto.

    — Sim, vovó.

    — Que tal uma história?

    O menino instantaneamente corre até a avó, abraçando-a pela cintura ainda encostada à palha do encosto da cadeira. Diz, quando do encontro entre suas castanhas pupilas com as pérolas negras da avó:

    — Me conta de novo como você e o vovô Gomes se conheceram?

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