Crônicas

Gastando a Vida nos Bloquinhos

Outro dia, me lembrei de uma frase que me caiu no colo de graça no Instagram. É de Mário de Andrade: “Viver é gastar a vida e não conservar a vida”. E eu penso: às vezes, a gente economiza tudo – até o que não era pra economizar. Economiza amizade, esperando a pessoa perfeita, aquela que preenche todas as necessidades, que não enche o saco, não cobra e não liga na hora errada. O amigo sem defeitos. E, com essa exigência toda, quantos amigos a gente deixa passar?

Às vezes, economiza o riso. Ri pouco, preocupado se alguém está olhando. Queremos gargalhar de uma piada boba ou dançar soltos, mas guardamos tudo. Esses dias, fui no Bloco do Padreco – um pré-carnaval aqui em Belo Horizonte, no mesmo dia da Banda Mole. O bordão diz que “o carnaval só começa quando a Banda Mole passa”. Pra mim, só começa quando o Bloco do Padreco sai. Perto dos músicos, na comissão de frente, um grupo de freirinhas que se reúnem todo ano atrás da igreja. Fui com um amigo: duas freirinhas desgarradas rezando no meio do bloco. Tinha de tudo ali – freiras perdidas, padres bêbados, homem das cavernas, Batman. Ninguém economizava nada. Risos? Sambavam à vontade, dançavam e quebravam tudo até onde a coluna permitia. No resto do ano, essa turma só se encontra no pré-carnaval.

Fico pensando: em que época do ano a gente gasta a vida sem ser no carnaval? Em que momento chega pra um estranho, ali meio sozinho na porta de um bar, e o leva pro meio do bloco? “Ei, não fica sozinho, vem brincar com a gente!” Gasta-se torto e a direito aquilo que não era pra economizar: amor, amizade. Quando pinta um clima, uma paquera, basta olhar de longe e sorrir com os olhos, esperando o convite. No resto do ano, a gente se quer, mas olha pro lado – tanta pressa de ganhar dinheiro, fazer coisas, pagar contas.

A chuva não poupou ninguém. A multidão se aglomerava, se espremia perto da padaria na Praça Geraldo Torres. De vez em quando, alguém se animava e voltava a dançar na chuva. Fora do carnaval, mal nos olhamos. Vestida de freira, rezando pela alma dos pecaminosos, vi uma Kombi com “Carreto” escrito. Anotei o número, tirei uma foto sensual e mandei pro cara. O carnaval liberta, solta. Enquanto o bloco cantava “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga, “Marcha do Saca-Rolha”, “A Cabeleira do Zezé”, a energia que a gente economizou ia pro ralo. Gastamos a vida e, de certa forma, nos renovamos. Não há tristeza que sobreviva àquela algazarra toda – ela vai pra algum lugar.

Carnaval deveria ser o ano inteiro. No fim do bloco, comentei com um amigo: “As pessoas andam tão sozinhas, só os celulares conversam pelas ruas. Mas é daquilo que a gente fez no Bloco do Padreco que sentimos falta”. Aquele abraço amigo em gente desconhecida, quando o estranho vira parceiro e os olhos sorridentes viram possível amor. E a música? “Toque que a gente vai pro meio do bloco e não se segura”. É disso que precisamos o ano todo – disso que vivemos em quatro dias intensos.

Leandro Alves

Leandro Alves é mineiro. Formado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, a PUC Minas. Como cronista, participou do Jornal Porta Voz de Venda Nova, criou o blog Preciso De Uma Crônica, além de ter publicado também no site OperaMundi. Cinéfilo apaixonado pelo cinema brasileiro, pela MPB, por poesia, Carnaval, sem falar em ler seus cronistas preferidos como Rubem Braga, Carlinhos de Oliveira, Martha Medeiros e Affonso Romano de Sant'anna.

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