Crônicas

Maria Lattes

Eu tenho uma amiga que é Maria Lattes. Não, ela não é parente do Cesar Lattes, físico e prêmio Nobel ainda não reconhecido, e que dá nome ao serviço do CNPq que registra a vida acadêmica e profissional de pesquisadores e estudantes. Não sabe o que é CNPq? Pesquisa, vai, porque a estória que vou contar é outra.

Como eu dizia, tenho uma amiga que é Maria Lattes. Não existe Maria Gasolina? Maria Chuteira? Então, ela é Maria Lattes. Só sai com alguém depois de checar o Lattes da criatura. Juro.

O motivo faz sentido. Se tem um Lattes robusto é com certeza um homem inteligente, argumenta. Tem assunto, sabe dialogar, não é um bugre. Ou arú, como dizem no Pará, que é a mesma coisa que ignorante mas expresso com menos letras. E tambem uma espécie de sapo.

Desisti de lembrar a ela que doutorado não é garantia de a criatura ser agradável. Ela sempre rebate e diz que ao menos é uma boa nota de corte social.

Mas as vezes essa fissura no Lattes cria situações embaraçosas.

Teve uma ocasião em que ela desmarcou o encontro porque o Lattes do cara era anêmico, palavras dela. Perguntei porque ela tinha marcado sem antes ver o bendito Lattes. Embaraçada ela me estendeu o celular com a foto do cidadão. O cara tinha bom fisico e sorriso confiante, pouco cabelo na cabeça é verdade, mas com mestrado em química em universidade europeia.

Ela admitiu que marcou por puro entusiasmo inicial. Mas no exame do Lattes, dançou. Ela descobriu que ele estava há um ano sem publicar artigo. Preguiça intelectual é inconcebível, disse-me ela e completou o veto me informando que o cara declarou que na juventude tinha sido remador do Vasco. Ela bufou e, ao descartá-lo disse, Lattes anêmico e eu sou rubro-negra? Sem chance desse arú encostar em mim!

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Fernando Neves

Fernando Neves é carioca, nascido em 24 de setembro de 1965, na cidade do Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Mora na cidade de São Paulo, continua Tricolor de Coração, é separado duas vezes e tem filhas gêmeas do segundo casamento. Jornalista profissional, desde os tempos no Colégio Pedro II sempre se interessou pelas letras, seja como leitor ávido seja como aprendiz de escritor. O jornalismo abriu a oportunidade de escrever e praticar mas não foi suficiente para seu desejo de escrever cada vez mais. As opções de forma são a mininovela e o conto. O estilo adotado pelo autor compreende um arco que inclui suspense, humor, conspiração e realismo fantástico. Semanalmente ele exercita sua paixão pela crônica e poesia publicando em seu instagram @fernandonevesescritor.

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