Crônicas

Meu primeiro grito de carnaval

Sempre fui tímido. E, para piorar, me meti muito cedo com os livros. Só através da imaginação eu viajava — na vida real, não. Todo carnaval, eu me escondia: procurava ler uma montanha interminável de livros, me informava sozinho no cinema ou passava horas tediosas vendo televisão. Aquela alegria lá fora não me pertencia.

Até que um dia cansei de ficar em casa. Vou para a rua, nem que seja para fazer uma caminhada, bater perna, invejar a alegria dos outros.

De repente, ali no centro, descendo a Rua dos Goitacazes e chegando à Rua da Bahia, um rapaz me parou. Ele estava fantasiado: usava um vestido rosa, batom, luvas. Estava acompanhado de uma senhora vestida de bruxinha.

— Você sabe onde tem um bloco legal por aqui?

— Infelizmente não — respondi.

— Um bloquinho com a gente?

Eu disse que sim. E aqueles dois carnavalescos foram me levando.

Subimos de volta a Rua dos Goitacazes, sentido Barro Preto, e figuras hilárias foram passando por nós. Um palhaço se aproximou e falou para mim:

— Descubra os braços, moço!

A bruxinha e meu outro amigo riram. Logo depois, cruzamos com um casal: o moço vestido de Mulher-Maravilha, a mulher de Superman.

— Ô, casal, vocês sabem onde tem um bloquinho bacana? — perguntou a bruxinha.

— Não. A gente também está procurando.

— Quer ir procurar um bloquinho com a gente?

O casal se recusou, desejou bom carnaval, e nós seguimos.

No Shopping Cidade, o segurança — depois de segurar o riso — nos informou que ali na Augusto de Lima, perto do fórum, tinha um bloquinho. Não sabia o nome. Rumamos para lá.

No caminho, vimos um homem fantasiado de Chaves, segurando uma maçã. Um rapaz vestido de Quico pegou a maçã dele e saiu correndo.

— Ora, meninos, não brinque! — disse a bruxinha.

Passou um padre — um homem fantasiado de padre — e realizou um casamento de brincadeira entre mim e a bruxinha, nos convidando a dar um selinho. Uma policial me colocou contra a parede.

Quando chegamos à Augusto de Lima, cantamos abraçados: “Alalaô, mas que calor!”. Depois: “Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é?”. A multidão se espremia, se abraçava, se apertava, mostrando que, na rua, em dias de carnaval, a gente nem precisa saber sambar.

Daí em diante, decidi que nunca mais ia para o carnaval — sem fantasia.

Como não fui até hoje.

Leandro Alves

Leandro Alves é mineiro. Formado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, a PUC Minas. Como cronista, participou do Jornal Porta Voz de Venda Nova, criou o blog Preciso De Uma Crônica, além de ter publicado também no site OperaMundi. Cinéfilo apaixonado pelo cinema brasileiro, pela MPB, por poesia, Carnaval, sem falar em ler seus cronistas preferidos como Rubem Braga, Carlinhos de Oliveira, Martha Medeiros e Affonso Romano de Sant'anna.

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