Poesias de 1 a 99

Poema #29: Novas Lendas Urbanas Inventadas do Nada

Eu estava de tocaia na praça em frente à sua casa
aí ela chegou de bicicleta e quando foi abrir a porta
eu ataquei, agarrando-a por trás e já sentindo o delírio
daquelas carnes macias que me foram negadas em vida.

Havia crianças por perto e então eu achei melhor
interromper o procedimento e levá-la para um lugar
escuro e deserto e então fomos a um velho cemitério
com ela protestando que preferia estar com uma amiga.

Mas eu havia morrido por causa dela e não era justo
eu não levar nada daquele amor que atravessou décadas
de sofrimento e dor causadas pela sua frieza e indiferença
como quem prende um coração numa jaula suja e planejada.

Nunca era tarde e agora eu a tinha entre os meus braços
dilacerados pelos cortes de navalha que ela havia operado
enquanto exercia as funções de enfermeira-chefe do posto
médico mais próximo e que era uma espelunca dos diabos.

Consegui fugir das trevas do inferno e antes de executar
o intento planejado eu levei as suas filhas para a casa da avó
que morava numa aldeia vizinha de onde tudo havia começado
a cerca de 5 km de distância e já eram trinta e um anos passados.

Depois retirei o seu vestido jeans de zíper nas costas e com cuidado
fui explorando todos os espaços onde a vida fora afinal consumida
entre equívocos e intervalos enquanto que ela não dizia nada como
quem já esperava pelo pior e estava resignada com a morte próxima.

Mas eu estava cansado de conviver com o sangue e só queria o desfrute
daquele momento com ela viúva e única, como se eu fora um lobisomem
apaixonado pela manhã seguinte e então ficamos a noite inteira naquela
e acho que foram umas seis vezes até eu ficar satisfeito e engravidá-la.

Milton Rezende

Milton Rezende, poeta e escritor, nasceu em Ervália (MG), em 23 de setembro de 1962. Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF, depois morou e trabalhou em Varginha (MG). Funcionário público aposentado, morou em Campinas (SP), Ervália (MG) e retornou a Campinas (SP). Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de quinze livros publicados e quatro e-books. Fortuna crítica: “Tempo de Poesia: Intertextualidade, heteronímia e inventário poético em Milton Rezende”, de Maria José Rezende Campos (Penalux, 2015).

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