Crônicas

Quando um amigo bom tem uma playlist ruim

Pois é: eu ali, de carona com um amigo que não via fazia um tempo, recém-chegado da Europa, que me chamou para um chope — e eu aceitei. Só que, infelizmente, não sei se tinha tomado iogurte vencido, ou algo parecido, mas a playlist do meu amigo estava horrível.

No caminho, “Beija Eu”, da Marisa Monte; depois, “Já Sei Namorar”, dos Tribalistas. Até que, de uma hora para outra, me toca Ivo Pessoa, com “Quando Eu Te Vi”.

— Linda, né?
— É…!

Ouvir Ivo Pessoa, para ser mais generoso, é como ouvir a vizinha do apartamento de cima andar de um lado para o outro, de salto alto. Pior que barulho de furadeira, pernilongo em noite de calor ou a empregada da vizinha cantando louvor.

— Falta muito para esta música acabar?
— Três minutos.
— O quê? Não tem como tirar?
— Não.

E começou, ali mesmo, a cantarolar, numa espécie de karaokê involuntário. Uma música que fala de anjos, outras vidas, aves, aquele romantismo boboca de adolescente apaixonado, espinhento, virgem.

Prefiro mil vezes A Hora do Brasil ou as músicas do Padre Marcelo.

— Nossa. Mas que trânsito, hein!?
— Pois é.
— Falta muito pra chegar?

A todo momento eu perguntava: “Tá chegando?”. Tem gente que luta para sobreviver a um amigo com TOC; outros pelejam com um amigo de tique nervoso; alguns tentam tolerar o boca-livre, o que pede dinheiro emprestado, o que assalta a geladeira, o pessimista, o ruim de bola. Mas um que realmente merece o Nobel da Paz é aquele que sobrevive — resignado e mudo — à playlist pavorosa do amigo.

— Mas você não gostou mesmo, não é?
— Meus ouvidos já viveram tempos melhores.

Ivo Pessoa é aquela música besta que mistura vibe de novela das seis, barulho de obra e o som de um caco de vidro arranhando o capô do carro.

Minha alma queria descer, pegar carona em outro carro, com outras pessoas, outra playlist.

Quando finalmente desci, falei pra ele:

— Da próxima vez coloca outra coisa. Até barulho de obra.

Meu amigo riu. Eu não.

Fomos tomar um chope que, numa hora dessas, é só o que se pode fazer.

Leandro Alves

Leandro Alves é mineiro. Formado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, a PUC Minas. Como cronista, participou do Jornal Porta Voz de Venda Nova, criou o blog Preciso De Uma Crônica, além de ter publicado também no site OperaMundi. Cinéfilo apaixonado pelo cinema brasileiro, pela MPB, por poesia, Carnaval, sem falar em ler seus cronistas preferidos como Rubem Braga, Carlinhos de Oliveira, Martha Medeiros e Affonso Romano de Sant'anna.

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