
Quase Real
A internet é a cama desarrumada do mundo. Ou melhor: o quarto desarrumado do mundo. Dá na mesma, mas eu precisava começar minha crônica de hoje com alguma bobagem. Sinceramente, abrir um site hoje é como entrar na casa de um adolescente: panela suja, meia em cima do roteador e um cheiro indefinido de pizza com desespero. Cada link é uma gaveta aberta; cada anúncio, uma roupa esquecida da ex. E o pior: a gente fica à vontade nesse caos, como se fosse nosso.
Recentemente, precisei do endereço de um médico antigo, que já tinha saído da clínica onde me consultava, mas, quando percebi, estava navegando por outros mundos: quatro lançamentos de livros que não pretendo ver — porque, se eu for comprar tudo que lançam, e meu Deus, como lançam, num país em que quase ninguém lê, meu orçamento não aguenta. Fora isso, a quantidade de coaches disso ou daquilo é insuportável. Cada página é uma palestra ambulante. Eu só queria um endereço e ganhei uma maratona de autoajuda e promoções que nem pedi.
Navegar na internet é, muitas vezes, como ir ao supermercado e, no meio das compras, esquecer o item mais importante. É como sair com o guarda-chuva, passar no banco, engatar uma conversa com um estranho e, quando percebe, o guarda-chuva ficou lá, abandonado. Aí você sai molhado. Só que, na internet, o guarda-chuva perdido é a informação que você realmente queria, e a chuva é uma enxurrada de links inúteis, anúncios e distrações.
Outro dia, abri meu direct do Instagram para ver uma mensagem de um amigo, alguém de quem estava com muita saudade, e me surge uma sugestão de “quem você talvez conheça”: uma ex-namorada. Eu ali, lembrando daquele pé na bunda horrível, dos pitis, dos bate-bocas, relembrando cada detalhe como se fosse replay de novela ruim. Fiquei um tempo atolado na memória até que, gato escaldado, removi a notificação. E pronto: paz de espírito instantânea — pelo menos até o próximo algoritmo me sacanear de novo.
E quando, no meio de uma crônica, o teclado decide que sabe mais de gramática do que eu e escreve a palavra que eu mais queria errada? Eu reescrevo, ele muda de novo. Tento outra vez; ele insiste. Parece até que o teclado tem personalidade própria — e um prazer especial em me irritar.
E quando eu vejo, já é de manhã; quando vejo, já é hora de almoçar; quando vejo, anoiteceu. Passou uma semana, duas, um mês, um ano. E eu ali, navegando, como se estivesse dentro de um looping infinito de distrações, com o mundo girando lá fora e eu preso na bagunça do meu próprio quarto virtual.
Eu me lembro de que, antes da internet, o mundo era pequeno. Tão pequeno que cabia em dois amigos — três, se muito — que ligavam no fim de semana, chamando para um chope. Na falta de um celular na mão, sobrava tempo para bater papo com a moça do bandejão, o passageiro do banco ao lado no ônibus, o sujeito da fila do banco. A gente socializava mais. Afinal, conversas reais alimentavam mais que Wi-Fi.
Sei que o que eu mais queria mesmo era que alguém desinventasse a internet, que as pessoas voltassem a ter mais conexões entre si do que esse monte de notificações que não servem para nada. Mas não vai dar. O jeito é cada um de nós — eu e você — decidir o papel que a vida real vai ocupar na nossa vida. E, principalmente, aprender a hora certa de silenciar as notificações.













