Crônicas

Solidão nos olhos

Saio de casa para me encontrar sozinho. Em meio a tantas pessoas, nenhum olhar se prende ao meu. Nenhum par de olhos me atrai.

Uma nesga de rosto permitida pela máscara é insuficiente para perceber outra pessoa. Tenho dificuldade em interagir assim.

Sem a máscara os olhos adquirem outra forma, outra capacidade de interação. Só os percebo em sua plenitude se consigo ver o conjunto do rosto. Acompanhar as mínimas expressões é para mim essencial. São gestos milimetricamente orquestrados que são capazes de revelar um universo inteiro de intenções e emoções.

Com a máscara sobre a boca e o nariz, nada disso é,para mim, possível. Por mais próxima que a pessoa se permita estar, temos entre nós uma barreira, como uma névoa, que me impede de saber quem é ela, com quem estou conversando.

Minha atenção fica prejudicada, me disperso. A janela da alma para mim é uma parede de tijolos. Inexpressiva e distante porque não tenho capacidade de ler esta pequena parte visível do outro.

Não há palavras nem gestos que compensem o que de outra pessoa está escondido. Em nome do bem maior, a necessidade sanitária, os olhos ficam mudos para mim.

Não se discute a importância da medida. Mas a perda imposta por essa pequena barreira, para pessoas como eu, é imensa.

A pequena cobertura de tecido me afasta ainda mais dos demais seres humanos. O isolamento fica mais profundo. Os olhos se tornam subitamente inexpressivos para mim.

Nada entendo dos que me fitam. Nada transmito a eles a meu respeito.

Me sinto completamente isolado em frente às pessoas que me fitam.

Meu par de olhos é incapaz de ler o que os outros pares tentam me mostrar.

Nada alivia a distância.

A todo lado olhos desconhecidos vêem meus olhos solitários.

Fernando Neves

Fernando Neves é carioca, nascido em 24 de setembro de 1965, na cidade do Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Mora na cidade de São Paulo, continua Tricolor de Coração, é separado duas vezes e tem filhas gêmeas do segundo casamento. Jornalista profissional, desde os tempos no Colégio Pedro II sempre se interessou pelas letras, seja como leitor ávido seja como aprendiz de escritor. O jornalismo abriu a oportunidade de escrever e praticar mas não foi suficiente para seu desejo de escrever cada vez mais. As opções de forma são a mininovela e o conto. O estilo adotado pelo autor compreende um arco que inclui suspense, humor, conspiração e realismo fantástico. Semanalmente ele exercita sua paixão pela crônica e poesia publicando em seu instagram @fernandonevesescritor.

Um comentário

  1. Realmente foram tempos em que precisamos encontrar outras formas de perceber as pessoas por inteiro

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