A arte de não se levar a sério

  • A arte de não se levar a sério

    Poucas são as pessoas que realmente sabem como não se levarem a sério. Infelizmente, não faço parte desse privilegiado grupo. Mas posso afirmar que esses seres iluminados costumam ter uma expectativa de vida mais longeva que os demais mortais, com menos cortisol e mais endorfina. Em outras palavras, menos estresse e mais alegria. A bem da verdade, para não ficar apenas em elucubrações pseudocientíficas e melhor sustentar minha tese, usarei o exemplo de um velho e estimado amigo chamado Jânio.

    Diferente de seu tocaio Jânio Quadros – que se levou muito a sério, tentou uma manobra política estapafúrdia e deu com os burros n’água -, meu amigo Jânio sabe como não se levar a sério com maestria. É o tipo de sujeito que faz galhofa de si, escarnece de seus defeitos e zomba de seus erros. Mas quem o conhece bem, como é o meu caso, sabe que suas idiossincrasias não se dão por autocomiseração tampouco por autodesprezo. Pelo contrário! A leveza característica com que lida consigo e com os outros sugere uma paz de espírito e uma inteligência emocional invejáveis.

    Creio que a primeira vez que a elevada maturidade espiritual de Jânio chamou minha atenção foi quando assisti a sua derrota no campeonato de botão do bairro. Em plena adolescência, não tínhamos tantos compromissos para os quais dar mediana importância. Aquele torneio, entretanto, valia mais que a honra de todos os seus competidores. Um fim de semana inteiro dedicado à magia do futebol de botão, desde o sorteio de grupos até a entrega do troféu. Jânio, notório botonista do bairro, era considerado o favorito ao título por todos os comentaristas esportivos da região. Embalado por uma campanha avassaladora e invicta, chegou à final com pinta de campeão. O problema é que, ao comemorar seu único gol na partida, machucou sua mão direita. Com apenas a esquerda à sua disposição, não conseguiu mais jogar satisfatoriamente e levou uma virada triunfal de seu oponente. Apesar dos olhos marejados, superou o baque e, muito dignamente, reconheceu a vitória com um sorriso no rosto e um abraço em seu adversário.

    A segunda vez foi quando soube de seu fracasso no concurso para a Receita Federal. Muitos podem até tentar contemporizar o feito, mas fui testemunha de seu comprometimento e de sua dedicação para aquele certame. Sei o quão importantes eram aqueles malditos exames para ele. Por mais de um ano, Jânio dedicou, diariamente, horas a fio na preparação para as provas. Priorizou os estudos, prescindiu do futebol das quartas-feiras, abriu mão de muitas festas. Mas, infelizmente, a aprovação não foi conquistada. Todos nós, amigos de Jânio, pensávamos que ele sucumbiria a uma fase de desgosto e de tristeza profundos. Ledo engano! No dia seguinte à divulgação da lista de aprovados, lá estava Jânio fazendo piada de seu malogro e organizando o futebol daquela semana.

    Devo admitir que por muito tempo, esses e outros feitos de Jânio me passaram despercebidos. Geralmente, levamos um tempo para compreender o significado e a importância de muitos dos eventos que testemunhamos. Talvez por desatenção, talvez por insensibilidade. O fato é que a vida seguia seu rumo, sem que a altivez de Jânio pudesse ser, devidamente, apreciada por mim e pelos demais amigos. Até que um dia assisti à uma entrevista dada por uma veterana e renomada atriz. Com mais de seis décadas de trabalhos na televisão, no teatro e no cinema, a octogenária artista foi perguntada sobre qual seria seu segredo para tamanha longevidade.

    Não se levar a sério – sentenciou, muito originalmente, a jovem senhora.

    A simplicidade e a objetividade de tal resposta cativaram minha atenção. Quase imediatamente, a figura de Jânio veio-me à mente como um poderoso exemplo de vida. Não somente pelo modo com que lidou com alguns de seus fracassos, senão que por suas atitudes mais cotidianas. Livre das insanas métricas de perfectibilidade e de produtividade, meu amigo concebe uma vida mais equilibrada e saudável. Ciente de suas limitações, mas também de suas qualidades, celebra menos os resultados instagramáveis do que os longos processos de aprendizagem. Longe de levá-lo ao desleixo ou à passividade, sua visão de mundo permite-lhe desfrutar da graça e da beleza da vida nas coisas aparentemente mais simples e banais.

    Pessoas que se levam, demasiadamente, a sério tendem a ser chatas e egocêntricas. Em tempos de tantas rabugices e malquerenças, nada melhor do que desfazer carrancas e maus-humores com boas doses de humor. Colocando em xeque, antes de tudo, nossa sisudez, teremos mais chances de administrar nossas falhas e de apreciar nossas conquistas. Oxalá possamos todos aprender mais com pessoas como Jânio!

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