A fuga

  • A fuga

    Um caminhão passou por cima de mim, depois da notícia dada por Flávia, minha filha. Ela veio bem cedo à minha casa, enquanto preparava o café, e disse que Murilinho tinha desaparecido. Minhas pernas tremeram, mal pude ficar em pé – fui colocada na cadeira, segura pelos braços, como uma velha coroca. Sentei-me por alguns segundos, recobrei as energias e corremos para sua casa, logo acima da minha. Como Murilinho poderia escapar, de uma residência toda gradeada e telada? Alguém teria feito essa maldade? Saímos pelas ruas gritando. Seu Nonato, nosso vizinho, que estava na porta varrendo, perguntou que alvoroço era esse: “não estou entendendo nada”. Logo ele também se pôs a buscar o Murilinho como podia, com as suas avarias nas costas. Na verdade alardeava mais do que buscava o menino, com o seu jeito expansivo, ou mesmo amalucado. Certo é que não ajudou em coisíssima nenhuma. Murilinho, preciso dizer, é muito querido por todos, por ser educado e comunicativo; um menino de ouro. Flávia já estava exausta de subir e descer as ruas. Eu não tinha o seu pique, e fiquei caminhando pelas ruas laterais. Dona Enedina disse que viu um menino brincando com um gato. Ora, Murilinho é apaixonado por bichos, só podia ser ele. Dona Enedina disse não ter vislumbrado muito bem se era Murilinho, mas sabia que não era menino de rua. Murilinho fora educado para ficar nas quatro linhas da casa. Nunca saiu sozinho, com seus seis anos de idade. Vale dizer que Murilinho era um menino que vivia de casa para a escola, e em poucos momentos curtia a rua, sempre ligado à mãe ou à avó. Por isso todos estavam apavorados. Seu Francis, o dono do bar, homem de poucas palavras, disse que tinha visto um menino correndo atrás de um gato ou um cachorro. As informações se encontravam, e davam conta de que Murilinho não estava muito longe. Talvez alguém tenha tentado chamar a sua atenção, mas o menino, portador de autismo nível um de suporte, não dava muita bola às pessoas desconhecidas. O certo é que Flávia e outros moradores chamaram os bombeiros. O risco é de que o menino tivesse se embrenhado numa mata que fica perto de onde moramos. Os bombeiros foram muito diligentes. Primeiro perguntaram como eram as características do menino – que mal Flávia conseguia responder, chorando; então tive de intervir –; se ele era acostumado com o local; se brincava sempre ali; se tinha amigos etc. Os bombeiros fizeram a ronda, durante seis horas, entrando na mata densa. Depois de um longo período, voltaram com um menino no colo. Era Murilinho, chorando muito! Ele trazia um gatinho nas mãos. Não tivemos coragem de jogá-lo fora, já que o bichano parecia muito afeiçoado ao menino. Hoje criamos o bichano fujão, mas ficamos alertas quanto aos passos de Murilinho, que, pelo visto, tem medo de sair de casa – a experiência não foi muito boa.

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