tivemos um olhar-eclipse
após
anos
e
anos
foi tão lindo
que até os deuses
pararam pra ver
e foi assim
mais
uma
vez
até o sol dos seus castanhos partir
para um canto
e restar
somente
essa lua
minguante
no céu
da solidão
tivemos um olhar-eclipse
após
anos
e
anos
foi tão lindo
que até os deuses
pararam pra ver
e foi assim
mais
uma
vez
até o sol dos seus castanhos partir
para um canto
e restar
somente
essa lua
minguante
no céu
da solidão
em frente à rua
um senhor passa
com seu carrinho de doces
e um radinho tocando:
“doce doce doce a vida é um doce doce mel…”
os olhos de minha lembrança
rolam
feito bolinha de gude encaçapando
o buraco mais fundo chamado
túnel do tempo
e percebo
há quanto tempo
já não saboreio mais
o doce
a música no rádio
toca
um clássico rock anos 80
— ainda não sei de quem —
mas sei
que toda vez
que essa música-clássico
toca
todas as estações do rádio
sintonizam
tua imagem-clipe
dando cores
a um passado
que ficou em branco.
*
na calçada dos meus olhos
você passa
um palavrão alto
sai
na boca do beco
da minha mente
a ponta-metal do teu salto
arrebenta
o meu tímpano-peito
num som estridente
e no meio do palco
perco todo o sentido
feito fã cego idolatrando artista
em seu show ao vivo