Angelo Lemos

  • Poema #09: para dias cinzentos

    para dias cinzentos
    é preciso abrir a janela de casa
    pular
    e sair descalço
    pelas calçadas

    encontrar
    algum mato-vivo
    do teu passado
    nas arestas do pasto

    e as terras vermelhas
    que agora bordam teus pés
    (um tanto cansados)
    um dia também pintou tua face

    com as mãos
    semear
    tuas raízes ao vento

    e quando partir o sol
    junto com o sino dos pássaros
    é hora da retomada
    feito menino
    sujo
    deixando rastros
    de aquarela
    por onde passa

  • Poema #08: o velho tênis nos fios elétricos

    só Deus & o Diabo
    sabem
    o quanto eu caminhei
    até chegar
    aqui
    nesse fim de mundo.
    hoje
    joguei
    meus velhos & gastos
    passos
    no alto
    dos fios elétricos.

    acendi uma luz no fim do beco.

  • Poema #06: olhar-eclipse

    tivemos um olhar-eclipse
    após
    anos
    e
    anos

    foi tão lindo
    que até os deuses
    pararam pra ver

    e foi assim
            mais
        uma
    vez

    até o sol dos seus castanhos partir
    para um canto
    e restar
    somente
    essa lua
    minguante
    no céu
    da solidão

  • Poema #05: a vida é um doce

    em frente à rua
    um senhor passa
    com seu carrinho de doces
    e um radinho tocando:
    “doce doce doce a vida é um doce doce mel…”
    os olhos de minha lembrança
    rolam
    feito bolinha de gude encaçapando
    o buraco mais fundo chamado
    túnel do tempo
    e percebo
    há quanto tempo
    já não saboreio mais
    o doce

  • Poema #02: Música-Clássico

    a música no rádio
    toca
    um clássico rock anos 80

    — ainda não sei de quem —
    mas sei
    que toda vez
    que essa música-clássico
    toca

    todas as estações do rádio
    sintonizam
    tua imagem-clipe
    dando cores
    a um passado
    que ficou em branco.

    *

  • Poema #01: Espetáculo

    na calçada dos meus olhos
    você passa

    um palavrão alto
    sai
    na boca do beco
    da minha mente

    a ponta-metal do teu salto
    arrebenta
    o meu tímpano-peito
    num som estridente

    e no meio do palco
    perco todo o sentido
    feito fã cego idolatrando artista
    em seu show ao vivo

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar