Angelo Lemos

  • Poema #10: para algum lugar

    há muito não via um
    trem.
    com o peito ofegante
    e os ombros dormentes,
    não por carregar latinhas e papelão
    o dia todo,
    mas algo invisível
    na corrente de seu pescoço
    pesava mais que mil cachorros.
    arfava, junto aos matos
    e entulhos, um bafo quente de boas-vindas.
    estava a menos de cinquenta passos da linha férrea.
    olhou pra cima.
    um céu sem estrelas, sem lua. outra noite sem filme.
    imagens granuladas
    invadiam sua míope memória em noites assim.
    abriu um Corote,
    sentou-se na varanda
    e uma estrela cadente 
    atravessou
    alguma história de criança.
    há muito não via um
    trem.

  • Poema #09: para dias cinzentos

    para dias cinzentos
    é preciso abrir a janela de casa
    pular
    e sair descalço
    pelas calçadas

    encontrar
    algum mato-vivo
    do teu passado
    nas arestas do pasto

    e as terras vermelhas
    que agora bordam teus pés
    (um tanto cansados)
    um dia também pintou tua face

    com as mãos
    semear
    tuas raízes ao vento

    e quando partir o sol
    junto com o sino dos pássaros
    é hora da retomada
    feito menino
    sujo
    deixando rastros
    de aquarela
    por onde passa

  • Poema #08: o velho tênis nos fios elétricos

    só Deus & o Diabo
    sabem
    o quanto eu caminhei
    até chegar
    aqui
    nesse fim de mundo.
    hoje
    joguei
    meus velhos & gastos
    passos
    no alto
    dos fios elétricos.

    acendi uma luz no fim do beco.

  • Poema #06: olhar-eclipse

    tivemos um olhar-eclipse
    após
    anos
    e
    anos

    foi tão lindo
    que até os deuses
    pararam pra ver

    e foi assim
            mais
        uma
    vez

    até o sol dos seus castanhos partir
    para um canto
    e restar
    somente
    essa lua
    minguante
    no céu
    da solidão

  • Poema #05: a vida é um doce

    em frente à rua
    um senhor passa
    com seu carrinho de doces
    e um radinho tocando:
    “doce doce doce a vida é um doce doce mel…”
    os olhos de minha lembrança
    rolam
    feito bolinha de gude encaçapando
    o buraco mais fundo chamado
    túnel do tempo
    e percebo
    há quanto tempo
    já não saboreio mais
    o doce

  • Poema #02: Música-Clássico

    a música no rádio
    toca
    um clássico rock anos 80

    — ainda não sei de quem —
    mas sei
    que toda vez
    que essa música-clássico
    toca

    todas as estações do rádio
    sintonizam
    tua imagem-clipe
    dando cores
    a um passado
    que ficou em branco.

    *

  • Poema #01: Espetáculo

    na calçada dos meus olhos
    você passa

    um palavrão alto
    sai
    na boca do beco
    da minha mente

    a ponta-metal do teu salto
    arrebenta
    o meu tímpano-peito
    num som estridente

    e no meio do palco
    perco todo o sentido
    feito fã cego idolatrando artista
    em seu show ao vivo

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