Audrey Hepburn

  • De Diva de Cinema à Madame Mim na Flórida

    Sempre admirei o glamour dos cabelos ao vento. Grace Kelly, Audrey Hepburn, Tippi Hedren… todas sabiam, como ninguém, enrolar as madeixas em um lenço de seda, solto o bastante para deixar escapar charme e liberdade. As cenas de Ladrão de Casaca, Charade e The Birds me provocavam sonhos de princesa: eu, num conversível, óculos escuros, lenço estampado e vestido decotado, enquanto uma brisa perfumada acariciava meu rosto.

    Eis que a vida me presenteia com a chance de transformar fantasia em realidade. A bordo de um Mustang vermelho conversível — ícone de mais de 3.800 produções hollywoodianas — eu faria meu début pelas estradas da Flórida. Escolhi vestidos leves, lenços estampados e até ensaiei, diante do espelho, o gesto charmoso de ajeitar o tecido no pescoço.

    O carro, recém-saído da locadora, veio chegando com toda pompa de um astro de cinema. Fiz uma reverência — não de adoração, mas de necessidade: para entrar, precisei quase me agachar, já que os bancos pareciam instalados no nível do asfalto.

    Uma vez emparedada no cockpit, pernas quase horizontais, respirei fundo. Não importava o aperto: logo sentiria o frescor dos cabelos ao vento.

    Capota baixada, lá fomos nós, rumo a Key West. O que eu não previa: temperatura de 38 °C, sol a pino, céu de brigadeiro. O meu lenço à la Grace Kelly se transformou, em segundos, num abafador de panela de pressão. O calor vinha de cima para baixo e de
    baixo para cima — o carro parecia uma chaleira sobre rodas. Eu, a iguaria em preparo.

    E os cabelos esvoaçantes? Ah, o cinema me enganou! Em vez de ondular delicadamente nas pontas, escapavam pela testa e pelos lados, grudando no batom e no suor. O lenço não parava no lugar; parecia ter vida própria. Resultado: uma cortina desgrenhada de fios colados ao rosto e uma maquiagem que derretia como sorvete no asfalto.

    Olhei no espelho retrovisor, esperando uma diva. Não vi Grace Kelly. Nem Audrey Hepburn. Nem Tippi Hedren. Vi, sim, Madame Mim versão churrasquinho: desgrenhada, vermelha como pimentão e com o glamour de um pastel de feira recém-frito.

    Me recuso, porém, a assistir A Espada Era a Lei!

  • Os Jardins de Áurea

    O ambiente cheirava a alfazema, misturada ao odor morno da roupa de cama recém-trocada, que aguardava no cesto para ser levada à lavanderia. Do lado de fora, um beija-flor pairava diante da janela, como se buscasse algo que havia perdido.

    Áurea já estava pronta para receber as visitas da tarde. Vestia o traje estampado mais elegante do guarda-roupas, embora não fosse aquele que desejava usar. Sentiu as mãos ágeis de alguém prendendo seu cabelo com um elástico no alto da cabeça. Indefesa, agradeceu em silêncio por não haver espelhos ali. No escuro das lembranças, preferiu se ver de pretinho básico, desfilando pelos corredores como Audrey Hepburn, com ares de Bonequinha de Luxo. Quis afastar a lágrima que ameaçava escorrer em direção ao pescoço, mas era impossível. Conformada, fechou os olhos e abriu a fechadura do seu jardim das maravilhas.

    Nesse instante, Carlota entrou, com seu inseparável relógio pendurado no pescoço. Nas mãos, um copo d’água e a sequência de comprimidos amargos do horário. Seu andar era firme, mas automático, como quem já não pensa no caminho. Áurea, com o olhar perdido, viu nas pupilas enevoadas surgir a figura do Coelho Branco, gentil e solícito, oferecendo-lhe os copinhos. A cada gole, o sabor de torta de cerejas, de caramelo, de creme de leite, de torradas amanteigadas. Um fio do líquido escapou pela boca trêmula, aparado de imediato pelas luvas do coelho.

    Tudo pronto. Áurea foi conduzida ao salão, onde balões vermelhos pendiam do teto e cadeiras estavam alinhadas rente às paredes. Aos poucos, vultos silenciosos, de fisionomia pálida e olhar vazio, ocuparam os lugares. Imobilizada em sua poltrona de honra, ela passeou os olhos pela plateia, em busca de algum sinal familiar. Nenhum lampejo. Apenas rostos indecifráveis, sombras de um tempo esmaecido.

    O chá começou a ser servido, cada residente com sua porção, cada qual em seu canto, resignado. Quem a auxiliava era um rapaz magro, de longos cabelos encaracolados presos sob um boné. Seus dentes brancos, manchados aqui e ali, lembravam um teclado de piano desafinado. O olhar impaciente queimava mais do que o chá pelando que descia pela garganta. Ele precisava que Áurea terminasse logo, para atender o próximo da fila. Meio adormecida pelo calor da bebida, ela se viu diante do Chapeleiro Maluco, seu relógio pendurado na lapela, repetindo que o tempo não gosta de ser marcado.

    Então, voltou os olhos para os balões vermelhos, que oscilavam sob a brisa do ar-condicionado. Hipnotizada por seu movimento pendular, começou a rodopiar pelos salões de baile da memória. O tempo brincava com retratos amarelados: ela adolescente, a filha se casando, ela no colo dos pais, as brincadeiras com os netos. Tempos em que a vida resplandecia, de fora para dentro.

    Mas veio o tempo em que, num estalar de ponteiros, a ordem da Rainha foi dada: “Cortem-lhe a cabeça!” E então, nenhum movimento restou — só as pupilas escuras, insondáveis, opacas. Era sua chave para o túnel que a levava ao jardim dos sonhos. Lá onde tudo é luz, onde tudo se reveste de cores, perfumes e sabores.

    De volta ao quarto, Áurea foi colocada em sua cadeira, diante da janela. O entardecer deixava entrar os últimos raios de sol de outono, refletindo em seus olhos imóveis. Sentiu-se diminuindo de tamanho, como Alice após a poção mágica, até que se viu fora de si, pairando no ar. Seguiu então o beija-flor que ainda batia no vidro à sua procura — leve, invisível, em paz.

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