Bia Mies

  • Quando o tempo para: instantes de giz e asas

    “O mundo não está para a paciência. Mas a paciência está para o nosso bom desenvolvimento humano”.

    Assim, de costas, com o velho e conhecido giz branco em punho, desenhando símbolos e números e letras contra uma lousa verde, a professora Vida passa lições aos seus alunos, uma turma heterogênea chamada humanidade. Aparentemente simples, a lição de hoje reprovou quase a totalidade dos alunos. O simples, nem sempre, é facil. O simples, muitas vezes, é um compacto complexo. Que equaçãozinha filo-matemática desafiadora!

    Sentada na primeira fila, Olivia presta atenção não só ao que está escrito no quadro, mas aos gestos da professora, ao tom da sua voz, séria, embora doce. Sempre voltada para o quadro, difícil dar de caras com ela. Voz, o barulho do giz na lousa, pausas, uma figura que se mexe delicadamente ao passo que injeta questões instigantes, ameaçadoras, apaixonantes e que desfazem o mundo tal qual pensamos que o conhecemos. Odor de lancheira do maternal, sabor da promoção de toda quarta-feira do salgado de queijo, tomate e orégano com batida de morango ao leite da cantina da faculdade. Nesta sala de aula não se sente nem frio, nem calor. Um mistério saboroso, sob o movimentar-se de uma discreta silhueta de longos cabelos brilhantes aprisionados lindamente por uma fita de cetim azul. O vulto veste uma peça única de corte reto, bem cintado, tom sóbrio que, ao ritmo dos passos encurtados e decididos, sem se voltar para os estudantes, prenuncia enigmas que jamais se deixarão decifrar.

    ***

    Vernon senta-se no mesmo lugar, todas as manhãs. Entre outros seres de luz, perfaz a rotina dos eternos sem pressa, deixa-se entreter com o canto dos pássaros e as migalhas deixadas pelo vento, na estrada de pedras lisas, de tom marrom, ao lado do rio cintilante que aponta a direção de sua casa, nada distante.

    Alta, trajando um vestido reto e bem cintado, a professora está atrás de uma lousa transparente. Escreve números, letras e símbolos com um giz branco. Todos estão capturados pela luz de seu rosto, lições simples e delicadas que são entendidas de primeira. Ninguém repara em nada além do rosto angelical da professora Vida, cujo cabelo está todo preso por uma fita cetim azul, e do giz que não pára quieto.

    Hoje, entretanto Vernon se sente diferente. Fixa o olhar em uma borboleta verde que pousou sobre a lousa translúcida. Aos poucos, a claridade rareia, as asas do pequeno inseto o hipnotizam e Vernon enxerga Olívia. O tempo para, o espaço físico se diluí. Olivia está crescida e sorridente, a melhor da turma, como sempre. Seu olhar compenetrado não mudou nada. A pele mais clara de quem perdeu o tempo do lazer e do sol de verão, o sol que sempre amou a queimar-lhe a pele e acender as sardas, por todo o corpo… algumas linhas de expressão mais duras se fazem perceber, perto dos olhos. Está mais magra e mais abatida, também. Mas ainda é bela e vívida..É ela, sua Olívia! Quanto tempo! O coração bate em seu peito como há muito não sentia. Vernon então compreende a dor que desde sua morte não sentira: a ausência dos entes queridos, das memórias, dos dias de aprendizado – e erro -, do amor que ainda corre em suas veias, tão incorpóreas, na forma de mulher humana com quem não teve tempo de se casar. A cena entre planos é orquestrada pela professora, a borboleta que bate as asas em um compasso sonolento. Olívia mexe o nariz do jeito de sempre. Vernon sorri. A borboleta invade a lousa transparente, fura o entre mundos, e sobrevoa a cabeça de Olívia. Pousa em seu nariz.

    Por um breve segundo, apenas um segundo, os olhos de Vernon encontram os de Olívia.

    “Vernon, quanta saudade!”, pensa a jovem estudante.

    A borboleta, então, levanta voo e irrompe pelas janelas do cômodo – o bater das asas sublinhando todo o silêncio do instante interminável -, sumindo em direção a um horizonte qualquer.

  • Dentro de uma bolsa de pano, tesouras, café e o bom e velho analógico

    Encontrei dona Selma despretensiosamente no refúgio barulhentomde um salão de beleza. Ela tingia os cabelos, eu aguardava a salvação para a franja que cortei – no melhor estilo DIY, “faça você mesmo”, ignorando minha autocrítica, que me advertira, pontuando experiências prévias, o desastre iminente. Há forças invisíveis que nos impulsionam a mudanças, aquela necessidade feminina de algo maior que nós mesmas – talvez sejamos vítimas de hormônios, mártires mensais da TPM.

    Outra cliente irrompeu no salão, óculos escuros e lenço na cabeça – não era só moda, mas uma tentativa elegante de encobrir o mesmíssimo erro que o meu. Franjas… Instantaneamente, um silencioso elo de solidariedade se estabeleceu entre nós.

    Enquanto aguardávamos, Dona Selma inclinava-se no lavatório, reclamando da temperatura da água, um pouco séria demais. Eu preocupada com a franja, a garota do lenço, na certa, também – recusava-se a retirar o acessório até que fosse chegada a sua vez. Dona Selma, indiferente aos dramas capilares, introduziu o assunto do aumento do preço das coisas. Todas nós, com exceção momentânea dela, por estar no lavatório, tomávamos café em xícaras fumegantes, o suprassumo do luxo – ostentávamos, mais do que podíamos perceber.

    — a carne de boi está um absurdo de cara…

    — mas você viu o preço das hortaliças?

    — é esse calor, garota! Imagina, daqui a pouco a água também vai estar impossível de se comprar..

    — leite, açúcar…

    — e o café?

    — nem me falem, sou movida a café…

    [Todas, em uma espécie de ritual inconsciente, levamos as xícaras aos lábios, ao mesmo tempo].

    Para dissipar o clima, Simone, amiga e cabeleireira, chamou a próxima cliente para a escova: uma mulher com os cabelos molhados envolvidos em uma toalha branca.

    — Mas, e a Dona Selma?

    — Selminha traz seu próprio secador de casa! O dela não tem igual!

    — eu mesma seco os meus cabelos, pode se sentar aí, por favor – e dizendo isso, levantou-se do lavatório, abriu a bolsa e, após alguns instantes de mãos inquietas, tirou um modelo compacto, preto e bastante antigo. Uma relíquia, na certa, ainda em ótimo funcionamento. Fiquei fascinada. Ela me entregou o aparelho, com orgulho:

    — Este secador foi apenas uma vez para o conserto. No Catarcione, que consertava tudo para durar. Na época, eu viajei e me esqueci de trocar a voltagem… fez um barulho diferente, um cheiro de queimado e
    desliguei na hora. Não virara a chavinha! Não era comum os hotéis terem secadores, hoje é normal. Eu carregava até um ferro de passar roupas. Elétrico.

    — E ainda funciona perfeitamente, uau! É incrivel. Hoje nada mais é feito para durar… – eu completei, admirada. Artefatos antigos, tecnologia analógica -aquela a qual as gerações mais recentes se referem com a ideia de mundo –, me atraem, verdadeiramente. Sinto-os como queridos desbravadores no campo da criatividade.

    — Hoje tudo é descartável. Mas tem que ser, filha. A população está crescendo, os velhos continuam aí.. tem que ter emprego para todo mundo. E dizem que as empresas estão preferindo os idosos aos jovens, olhe bem, porque nós não temos problema em trabalhar fim de semana… também porque não ficamos no celular o tempo todo. É, filha. Está tudo invertido. Igual a essa história de pix, cartão… ninguém nem tem mais troco nas lojas, em dinheiro. Mas, está certo. Eu continuo com meu secador que só foi para
    o conserto uma vez. Olha aqui a etiqueta do número – e eu até coloquei o meu nome, olha só.

    Havia algo de paradoxalmente cativante naquela mulher: de uma geração diferente da minha – a minha que já sofre para se encaixar e entender essa loucura de mundo atual – em prol do descartável. Um discurso empático, humano, aceitando a realidade mutável, embora não abrindo mão das suas raízes e convicções, a visão de um mundo em que as pessoas consertavam o que tinham. E isso não é [somente] sobre secadores ou eletroeletrônicos. Conversamos um pouco mais antes de ela ir secar seus próprios
    cabelos no banheiro.

    Minha vez de me deitar ao lavatório. Vejo Dona Selma ajeitar os últimos fios pelo seu reflexo no espelho, através da porta entreaberta. Me sorri. Em seguida, ergue sua bolsa simples, de pano, e diz, a alta voz:

    — Para carregar coisas boas. Principalmente dinheiro, mas deste, tem pouco – e sorrindo para todas nós, pegando a sua xícara de café. Um gole, um sorriso. Olha ao redor, todas entretidas com seus celulares,
    principalmente minha companheira de más decisões. Pousa os olhos sobre mim, um olhar que atravessava os anos.

    — Estou conversando com a Ana… você é igual a esposa do meu neto. Ela é uma gracinha.

    — Que honra, Dona Selma! Obrigada, ela deve ser uma pessoa especial…

    — Especialíssima! Um doce de criatura! E , obviamente, ela também é ruiva… – o olhar torna-se maroto com uma piscadela.

    [Rimos todas].

    No fim, nada como ajeitar os cabelos, tomar um café e compartilhar palavras soltas que, de tão reais, grudam na memória e permanecem em nós. O mundo pode se tornar cada vez mais efêmero, cada vez mais mediado por interfaces… mas há instantes — singelos, fugazes e imortais — em que secadores analógicos resistem à obsolescência.

  • Romantismo anárquico

    Cerâmicas bejes, com um rejunte que nem se faz perceber, emolduram 1/4 de circunferência de uma toalha de Natal, assim disposta junto ao chão, em plena manhã nublada de sábado de Carnaval. Uma xícara moldada pretenciosamente orgânica, um falso orgânico, um orgânico em linha de produção, repousa sem o seu pires sobre o tecido dobrado, com viéis vermelho. Um café o está preenchendo, e a
    fumaça abraça um ramo de Alecrim, há o registro do envolvimento de ambos nas ondulações do líquido, escuro, quase confundindo-se com a própria xícara. O Alecrim faz as vezes de uma colher, mexendo um café sem açúcar.

    Café com aroma de alecrim, picnic solitário e instantâneo no chão da cozinha. Magia que preenche uma rotina, para que esta não exista, padrão de si. Rituais únicos. Anarquia poética.

    “Não vamos morrer por falta de coisas admiráveis, mas por falta de admirá-las”.
    Chesterton

    Memórias como pedaços do que somos, partículas palpáveis, feitas do mesmo material que as estrelas. Somos a explosão de partículas, nossas memórias, as memórias de nossos pais, avós, cidade, imenso planeta. Somos colagens belíssimas de micropartículas interestrelares, por vezes de galáxias antes impossíveis de se misturar, anos luz distantes. Somos arte. Somos instantes eternos, milagres pulsantes. Somos, além: despedidas. A todo tempo. Em todos os lugares. Somos instantes. Um breve momento em que se saboreia, com o congelar do tempo e o fechar dos olhos, o cheiro inesquecível do perfume da Dama da Noite, flor roxeada no meio de uma rua de pedestres, silenciosa no tarde das horas, que testemunham um pai ensinar ao seu filho como saborear as miúdezas de algo singelo e poderoso, beleza como promessa de se passar adiante, geração a geração. A Dama da Noite, branca, repousa e cresce as folhagens em um vaso plástico reciclado na minha varanda, sem brotar, como da primeira vez, anos antes, no aguardo, não se sabe do quê.

    Olfato. Visão. Tato.
    Paladar. Audição.

    Memória deveria pertencer ao rol dos sentidos, sexto membro. Ela não é um, tampouco outro. Por vezes os cinco, simultaneamente. Sem sombras de dúvida é um sentido, sentido da vida, do existir.

    “Estou me tornando um passageiro. E eu não sou um passageiro”.

    Filmes, pessoas e situações aparecem como resultado dos ouvidos atentos de uma tecnologia para melhorar nossas experiência de vida; ela é anterior às inteligências artificiais, e responde pelo nome de acaso. ‘Memórias de um Amor’ é uma película incrivelmente transbordante, que nos traz personagens passageiros de um veículo do qual não queriam ter embarcado.

    Memória é, na concepção que vou lhes apresentar agora, sinônimo de apego.

    Sou apegada às coisas, aos momentos, às pessoas. Herdei tal característica do meu pai, que, sem se dar conta em vida, transformou nossa morada em um verdadeiro “sebo” – definição da querida salvadora, que aparece de quando em quando para domar a bagunça e espantar o pó e os pelos do Zeca. Vassoura e
    microfibras em punho, pôs álcool, água sanitária e sacolas de lixo à obra, resgatando a dignidade arquitetônica daquele apartamento de mais de 100m², onde habitam memórias de cinco vidas, móveis para cinco casas e minha mãe. Pequeno demais para a vontade imensa de se viver que era o meu pai.

    Coisas, registros, pessoas; tenho uma queda por tudo o que é analógico, principalmente a relação que o tempo imprime às mesmas coisas, registros, pessoas. E aqui entendo a relação entre amar e a intensidade das reminiscências; não tem jeito: amo a risada dos meus amigos e, se me chegam por áudio em um smartphone, sinto-me compelida a escutá-los como se rebobinasse uma fita cassete insistentemente, a ponto de romper a fita magnética, ou arranhar um disco de vinil, fossem esses os meios. O som, as palavras, as vozes que atravessam o tempo me transportam ao passado-refúgio. Amo verdadeiramente os meus amigos. Ao voltar de Perugia, um mês que já se completou em 15 anos, colei os rostos de cada um dos que lá fiz, unidos pelo aprendizado da língua italiana, cujos endereços estão espalhados por todo o mundo, no pilar semi enterrado na parede do meu apartamento em Botafogo, acima da mesa de refeições. Assim, arrastava o prazer de tomar café todas as manhãs em suas presenças.

    Sou apaixonada por refeições sem pressa e arrumadas para o ato de se comer, saboreando tudo ao redor. Só os que me conhecem sabem de sua importância e simbolismo – e como transformei uma
    inauguração da árvore de Natal da Lagoa Rodrigo de Freitas em um aniversário mais do que emblemático, um entra e sai de amigos, dedilhar de violões, toalha xadrez, frutas e muitos quitutes, fogos de artifícios… dificilmente um picnic se tornou memória em tantas pessoas, como aquele – talvez o que teve de ser recolhido às pressas, no ano seguinte, com tenda e tudo, da Praia Vermelha, por conta de uma (baita) tempestade. Meu diminuto apartamento em Botafogo se transformou em uma releitura da confraternização ao ar livre.

    Açaís, cervejas, vinhos e limãos sicilianos. Pizzas. Karaokes/ palcos/ microfones; amo MUITO cafés. Amo mais ainda reencontros. Sou techfriendly por necessidade. Amo a vida. Amo gente (ok, ok, talvez menos do que o que sinto por cachorros – e percebo que me tornei o discurso da minha avó paterna, o que me fazia torcer o nariz).

    Amo, ainda, e talvez mais que todos os outros: cartas. Meu maior tesouro repousa em uma caixa de papelão em formato de mala – que já quase cospe papéis mais velhos que meus afilhados -, verdadeira guardiã das memórias mais preciosas. Insubstituíveis. Primeiro amor. Primeiros registros da escrita. Primeiro namoradinho. Primeiro namorado. Quase todos os outros à exceção do primeiro casamento, que evoluiu de memória ao posto de uma importante lição, apenas. Verdade seja dita, lhe sou imensamente grata pelo amadurecimento forçado e finalmente aprender que existem pessoas passageiras. Compreendi a necessidade de respeitar meus próprios limites, a limitar o acesso, consciente, de quem tira os sapatos e transpõe a porta da minha casa.

    Dentro da caixa, não estão apenas vestígios dos romances que se foram; se encontram meus melhores amigos, a “sogra” que certamente foi minha mãe em outras vidas, todos os muitos e imprescindíveis bilhetes e cartinhas dos meus pais – e do papai Noel, e do coelhinho da Páscoa. Os primeiros registros da minha irmã, nossos primeiros bilhetes. Cartões de aniversário e Natal da vovó, sempre acompanhados de um “tico-tico”. O último bilhetinho da minha avó austríaca, a melhor vizinha, que me deixou primos e tias de alma como legado. Papéis dobrados com desculpas entre primas dinda/afilhada (como brigávamos e nos ameaçávamos com “não sou mais sua dinda”, e vice-versa!). Bilhetes de “deixei o café preparado, bom dia”, da tia- mãe que me abrigou no início da faculdade. Bilhetes de amigo contendo bombom durante a aula da Pós, para amenizar minha TPM… tantas recordações… medalhas, páginas de jornais, entrevistas, prêmios… Há ainda papéis que são lembranças do que já não existe, como o embrulho de balas cujo sabor é inesquecível, passagens de ônibus com valores que beiram o surrealismo na cotação atual, de tão baratos. Cartões fidelidade de supermercados. Minha primeira viagem de avião. O recibo do primeiro aluguel da vida. A primeira compra na Italia. Camisas assinadas por todos das turmas, sempre ao final de cada série. Declarações de amizade de coleguinhas que não sei nem por onde andam. Cartas que se desenrolam em mais de um metro de papel, simbólicas entre as meninas da minha época. Elos atemporais. Bilhetes de museus. Fotografias 3×4. Polaroids, negativos, fotos 10×15, autógrafos de celebridades. Ingressos de cinema cuja tinta já impossibilita dizer de qual filme se trata – e quando. Provas de que o tempo passa deixando marcas, e que, elas mesmas se modificam. Aqui, nas cartinhas, a felicidade me espera, e me arranca lágrimas e risadas, sempre.

    Eu amo a vida que eu construi e as memórias que me construíram. Minhas lágrimas, percalços, dores, conquistas, fundos do poço, reconquistas. Meus erros, que eram primeiros passos em outras direções. Meu passado, amo-te, como amo meus livros! Biblioteca eternamente ao alcance do coração, que me empodera de mim mesma, me lembra que os meus dons são importantes – e não permite que se percam. Lanterna mágica a iluminar os momentos obscuros da estrada que percorro sozinha, de buracos e belezas necessárias.

    Um barulho irrompe pelos vidros, vibrantes e fechados das portas-janelas; sombras de serpentinas e confetes imaginários. Minha folia de 2025 não tem espaço para alegorias e adereços; fantasiei-me das minhas profundidades. Embriaguei-me dos meus sentimentos mais verdadeiros. Fiz picnic com novos amigos, abracei os de sempre, tomei vinho com cartas fresquinhas e chorei com amigos inesperados. Não preciso das fuligens, assim como carnavais não precisam de fins. Como trunfo, posso pedir reforço a querida salvadora, ocasionalmente a postos com os materiais de limpeza. Meus planos são outros, percorrem calendários e sites de viagens. Há sempre o amanhã. Há sempre recursos. E há de existir sempre uma Bia por aqui, como um você, para você, com você, por você. Eu me permito ser meu eterno e original carnaval sem quartas-feiras de cinzas.

  • Rotina há 8 – os meses que passam, mas não se vão

    .

    ( )… e no silêncio da inexistência, também nutrimos sentimentos vivos:

    — a presença que não está mais, mas persiste;

    — lembranças em fotografias,

    — objetos humanizados: as roupas – que podemos vestir, a qualquer hora, em busca de abraços —, o perfume, alegoria perfeita, as coleções pausadas e e empoeiradas;

    — a poeira, que coça, nos coça, permanece;

    — o barulho das chaves;

    — o som dos passos pisados pela sola dos chinelos de dedo;

    — vozes;

    — o amor, tal tatuagem indelével na alma dos que ficam;

    — o amor próprio, que de nada parece valer;

    — o vazio, sensação inquieta de imobilidade, desagradável, além da conta;

    — as dores emocionais que afetam o corpo;

    — a baixa imunológica;

    — as flores que perdem suas cores;

    — todas as plantas que amarelam suas folhas;

    — as contas que não cessam, em nome dos que já não existem;

    — a cama, o sofá, a netflix;

    — o celular, de lado – é inútil;

    — o relógio, controverso em seus negócios com o tempo;

    as cartas, na caixa de correios
    ao lado das cinzas.

    no silêncio da inexistência, a vida é um breve e eterno hiato branco, no qual vestimos nossos corpos de amálgamas incertos que somam todas as cores, escravizando em nós os dias, que não anoitecem.


  • SEM TÍTULO, dezembro dois mil e vinte e quatro

    Ler – sendo eu o “recheio de um sanduíche” composto pelo conjunto de lençóis praticamente novos, verdes, vacilando entre o algodão 100% liso e o de arabescos geométricos, aroma envolvente de quem acabou de sair da máquina lava e seca -, confortavelmente descansando as intermináveis horas de trabalho que se seguiram nas últimas semanas – mal tive tempo de me deitar ou introjetar minha nova idade, não fosse a viagem – que sempre faz parte do meu ritual de ano novo pessoal. Pois bem.

    Aqui estou eu, a ler um livro pelo qual me apaixonei a partir de uma minissérie na Netflix; nos esbarramos em uma feira de sebos na praça central da cidade, eu que passei e ele que segurou decidido meu braço esquerdo, em meio a profusão de outros livros, e disse “desculpe.. hey, oi, tudo bem?! Olha quem está aqui, que coincidência! vamos tomar um café e ir para um lugar mais… privativo?” Sem ter como contradizer a cantada – muito da bem arquitetada – e com o tal apetite de leitor faminto e sempre, sempre à caça literária a me cutucar, paguei pelo café, onde fomos logo em seguida nos conhecer, e trouxe não só o homônimo da telinha para casa, como um segundo volume do mesmo autor, muito superior em páginas. Me dou de presente esses momentos após uma exaustão daquelas, na qual o único conforto é por em ordem a caixola pensante, como se organizasse meus armários, limpasse o banheiro e ordenasse os itens que descansam ou apodrecem na geladeira. Zeca me acompanha, pêlos brilhantes e cheirosos do segundo dia pós-banho profissional no pet shop – e incontáveis lenços umedecidos, escovações de pêlos e dentes -, em suas poses que fazem meu coração transbordar de amor, de agradecimento por sua companhia fiel e vigília incanssável.

    Pela inteligência sem igual e sempre sorrisos – e pedidos de comidas e petiscos. Sobre a cama, eu e Zeca nos entretemos em nossas atividades, cada um na sua. Um mesmo colchão, dois mundos que não se misturam, mas convivem em perfeita harmonia. E para saudar as festividades de fim de ano, que estão em baixa por aqui pelas baixas que a vida nos impôs ao longo dos últimos meses, pedi a Alexa que tocasse músicas natalinas.

    Jingles conhecidos, outros novos, alguns jazz e assim seguiram-se 40 páginas. Meu ser de quatro patas prefere o chão duro e o espaço imediatamente acima – quase inexistente – entre o fundo da minha cama box e a superfície preferida pelos pés descalços à cama delícia, colchão de molas. Em questão de instantes, divido-o apenas com Anthony Doerr. Entre pernas que se entrelaçam – as minhas -, e as que me devoram – o livro -, este texto poderia muito bem se encaixar na coluna Contos Eróticos, inaugurada pela minha querida amiga e também sagitariana Carol Meyer, mas basta um pouco de imaginação para perceber que Zeca e Doerr estão sempre pela cama, e nada além de pêlos e palavras servem como prova de uma tórrida cena de prazer – há distintas formas de se gozar a vida. Qual não foi minha surpresa, contígua a um sonoro “Happy Christmans everybody”, o preto no branco da sentença do último parágrafo do capítulo em que pausaria a leitura desta noite:

    “Madame morreu, madame morreu”.

    Respirei fundo, encarei a dupla página que me contava a notícia, levantei o rosto em direção a uma Alexa festeira às 23h de uma sexta-feira pré Natal. “Alexa, volume 2”. Zeca ronca alto, a cama estremece. Como podem, também, os personagens terem suas mortes ressoando dentro de quem as lê?

    Respiro profundamente. Fecho os olhos, medito, rezo. Pondero sobre ler mais umas páginas para aliviar o novo luto. Faltam poucos dias para não ser mais 2024. Guizos chacoalham minh’alma

    “Must be Santa… Must be Santa… Must be Santa…. Santa Klaus!”


  • Crônica biografia do mundo de hoje

    Tenho sobre a minha mesa de canto all’aperto1 (como gosto de mesclar palavras e expressões das minhas duas línguas de fluência, o português e o italiano, a minha rotina! É uma forma de sintetizá-las numa só coisa, o meu eu real, a configuração amorfa do que sou enquanto um ser em constante expansão) cerca de duas dezenas de livros, referências de uma vida “pré” graduação e especializações várias. Me preparo para um estudo de caso que validará mais um diploma ao rol das coisas que vira e mexe me proponho a aprofundar-me – ou abrir sob meus pés um abismo de questionamentos profundos, quiçá sem respostas, que, como curiosa intensa e exploradora de mundo, me dedico numa corrida sem fim. Em tais exemplares, o assunto, se sintetizarmos, pontua-se, sempre nas recônditas zonas do espírito humano: das codificações de mundo que criamos à ideia da extinção das nossas mortes, passando pelas transformações dos desenhos das cidades e por nossas interações com artefatos e com as nossas casas, reflexo material do que pensamos e do modo como agimos – consequente demonstração de como o desenho urbano atua sobre nossas atitudes.

    Um destes exemplares, publicado em 1967, foi presente de meu pai (como sempre, em tudo na minha vida, ele me presenteou com referências de todas as formas possíveis – e como me tornei essa parte dele, que agora me acompanha em espírito já que não é mais possível tê-lo fisicamente). “A crise das cidades”, de Wolf von Eckardt com prefácio do então administrador de recreação e assuntos culturais da Cidade de Nova York, August Heckscher, é um marco na minha existência, pois, além de me batizar como a cronista que sou (Bia Mies nasceu de um ‘apelido’ extraído do meu nome “oficial”, Nú Bia, acrescido de um “pseudo sobrenome”, Mies2, originado do nome de um dos arquitetos que mais aprecio, o Mies Van der Rohe, que conheci através das páginas deste livro), reforçou minha escolha pela graduação em Arquitetura e Urbanismo, numa época em que as dúvidas me jogavam para o jornalismo, para as artes cênicas e para essa inenarrável responsabilidade e comprometimento de vida que é titular-se arquiteta e manter-se firme em tal posição com todas as provações da vida profissional. Reforçarei uns recortes do prefácio, que julgo ser de interesse educacional geral:

    (…) Aliás, a influência da Arquitetura sobre nossa vida – Arquitetura
    compreendida nos termos mais amplos, incluindo o planejamento e
    preocupação com o ambiente total – pode ser tão grande que
    quase ficamos estarrecidos com as responsabilidades que cabem a
    essa profissão. Não faz muito tempo, bastava que o arquiteto
    tivesse a habilidade de desenhar prédios individuais, elegantes ou
    utilitários, conforme o caso. Agora, ele concebe e planeja cidades e
    regiões e pensa em termos da filosofia do homem e dos seus
    valores fundamentais. Portanto, é essencial que se desenvolvam
    bons críticos de Arquitetura (…) Também é indispensável que o
    público possa compreender plenamente o que o arquiteto está
    procurando fazer. (…) também falar sobre limites num sentido mais
    exato – o ponto além do qual os arquitetos não podem ir sem ousar
    fazer o trabalho de estadistas – ou mesmo de deuses. (…) este livro
    deixa claro, o arquiteto não é apenas um construtor; ele também é
    um artista e, como artista, arca com o peso da profecia e da
    compulsão por nos dizer o que é o bem-viver.”

    A crônica de hoje começa quase biográfica, mas hei de traçar o paralelo com o todo, fora de mim: se compreendemos o mundo a partir de uma leitura pela íris de nossas bagagens pessoais de experiências, todos os textos são um tanto quanto biográficos, mas ao passo que se transformam em publicação, destinam-se aos que os leem, e, portanto, tornam-se públicos, sem domínio direto de seu conteúdo, um descolamento do pessoal por trás da escrita. Enquanto a minha vida assemelha-se cada vez mais ao
    casamento entre uma esponja e um liquidificador, tento gerar filhos que sejam produtos das receitas que pelos seus progenitores se misturem, e assim, ser crítica, ser artista, ser técnica e ser humana, colocando-me a serviço da sociedade, em tempo integral. Habilidade ou loucura?

    Uma busca constante, um eterno esforço a caminho de algo que nunca chega; é sobre o tempo que eu gostaria de dissertar: o que somos, não basta. O presente é constantemente tratado como o momento em que devemos viver; mas a condição humana que nos difere dos outros animais é ter a noção da finitude. E seria essa uma habilidade adquirida com a educação? De quando passamos da fase em que tudo é plena novidade e tentamos nos comunicar através de gestos, sorrisos, choros ou sons incipientes e sem nexo, Kairós é derrotado por Chronos, dois deuses da mitologia grega que simbolizam, em breves palavras, o tempo eterno – sem quaisquer referências ao passado ou futuro, sinônimo de qualidade – e o tempo cronológico e implacável – passagem do tempo, o presente constante que esquece de si mesmo,
    sinônimo de quantidade.

    Se cada um de nós é formado, independente do seu grau de instrução – basta viver em sociedade -, para agir, adquirir, aprender e tantos outros verbos de A a Z, como é que conseguimos dar conta de puramente ser, no fim das contas? Na filosofia é comum aproximar ambos os deuses à ideia do estado de flow, esse tempo distorcido da realidade que nos permite ter espaço para a consciência. O que somos não basta, repito. Se temos um intenso contato conosco, somos, provavelmente, improdutivos. Se não produzimos, somos excluídos; se produzimos elevamo-nos a um estado de esforço profundo que afrouxa as presilhas da nossa identidade. Mas todos esses esforços em favor da vida levam-nos à morte. E a morte é o que devemos combater, acima de qualquer coisa. Então construímos sociedades, cidades, casas, famílias, seres humanos. Quantidades. E nos baseamos em leis – palavras formuladas para ‘um todo’, acessível universalmente à ideia imperativa do que seja isso, a cada época -, que procuram ser democráticas, mas que excluem. Ontem assisti a um filme contemporâneo do cinema italiano intitulado Nata per te3, que narra a história verídica de um jovem homossexual católico que tenta adotar uma bebê com síndrome de Down (disponível a todo público brasileiro pelo link CLIQUE AQUI do Festival de Cinema Italiano até 08 de dezembro). Na prática, o abandono de um ser deveria ser julgado com mais profundidade do que a tentativa de criá-lo, com todos os percalços que a vida irá impor – além da dialética Kairós e Chronos, obviamente. Mas percebe-se como o peso das culturas, construções humanas de grupos, e as leis são de maior relevância do que a vida, em si. Como nossas habilidades são poderosas demais perante o que realmente é de vital importância. Quantidade ou qualidade? Como é a verdadeira face do tempo se nos vestirmos com qualidades reais, uma roupagem de amor, a nós mesmos e aos próximos, nossas habilidades qualitativas? O que somos, não basta?

    Minha pilha de livros tende sempre a aumentar; eu não sei basear-me em pouco para ser uma pessoa só. Culpa do tempo (in)visível que nos molda, culpa dos meus pais, que fizeram o melhor frente ao que a sociedade sempre os impôs. Culpa de ser humana, imperfeita e performática. Culpa da arte pela qual extravaso meus dilemas, e com a qual as coisas – palavra mais significativa e influente deste tempo – nos vulgarizam.

    Termino com a tradução e letra original da música Il mio canto libero4, de Lucio Battistini, que foi base do filme aqui comentado (e cujo link do QR CODE).

    Em um mundo que
    In un mondo che
    Não nos quer mais
    Non ci vuole più
    O meu canto livre é você
    Il mio canto libero sei tu
    E a imensidade
    E l’immensità
    Se abre ao nosso redor
    Si apre intorno a noi
    Além do limite dos seus olhos
    Al di là del limite degli occhi tuoi
    Nasce o sentimento
    Nasce il sentimento
    Nasce em meio aos prantos
    Nasce in mezzo al pianto
    E se levanta bem alto e vai
    E s’innalza altissimo e va
    E voa sobre as acusações das pessoas
    E vola sulle accuse della gente
    Sobre todos os seus legados indiferentes
    A tutti I suoi retaggi indifferente
    Apoiado em um anseio de amor
    Sorretto da un anelito d’amore
    De verdadeiro amor
    Di vero amore
    Em um mundo que – Pedras um dia casas
    In un mondo che – pietre un giorno case
    Prisioneiro é – recobertas pelas rosas selvagens
    Prigioniero è – ricoperte dalle rose selvatiche
    Respiramos livres eu e você – revivem, nos chamam
    Respiriamo liberi io e te – rivivono ci chiamano
    E a verdade – Bosques abandonados
    E la verità – boschi abbandonati
    Se oferece nua a nós e – por isso virgens sobreviventes
    Si offre nuda a noi e – perciò sopravvissuti vergini
    E límpida é a imagem – abrem-se
    E limpida è l’immagine – si aprono
    Agora – nos abraçam
    Ormai – ci abbracciano
    Novas sensações
    Nuove sensazioni
    Jovens emoções
    Giovani emozioni
    Exprimem-se puríssimas
    Si esprimono purissime
    Em nós
    In noi
    A roupa dos fantasmas do passado
    La veste dei fantasmi del passato
    Caindo deixa o quadro imaculado
    Cadendo lascia il quadro immacolato
    E se levanta um vento quente de amor
    E s’alza un vento tiepido d’amore
    De verdadeiro amor
    Di vero amore
    E te redescubro
    E riscopro te
    Doce companhia que
    Dolce compagna che
    Não sabes pedir, mas sabes
    Non sai domandare ma sai
    Que aonde quer que irás
    Che ovunque andrai
    Ao teu lado me terás
    Al fianco tuo mi avrai
    Se tu o queres
    Se tu lo vuoi
    Pedras um dia casas
    Pietre un giorno case
    Recobertas pelas rosas selvagens
    Ricoperte dalle rose selvatiche
    Revivem
    Rivivono
    Nos chamam
    Ci chiamano
    Bosques selvagens
    Boschi abbandonati
    E por isso virgens sobreviventes
    E perciò sopravvissuti vergini
    Se abrem
    Si aprono
    Nos abraçam
    Ci abbracciano
    Em um mundo que
    In un mondo che
    Prisioneiro é
    Prigioniero è
    Respiramos livres
    Respiriamo liberi
    Eu e você
    Io e te
    E a verdade
    E la verità
    Se oferece nua a nós
    Si offre nuda a noi
    E límpida a imagem
    E limpida è l’immagine
    Agora
    Ormai
    Novas sensações
    Nuove sensazioni
    Jovens emoções
    Giovani emozioni
    Exprimem-se puríssimas
    Si esprimono purissime
    Em nós
    In noi
    A roupa dos fantasmas do passado
    La veste dei fantasmi del passato
    Caindo deixa o quadro imaculado
    Cadendo lascia il quadro immacolato
    E se levanta um vento quente de amor
    E s’alza un vento tiepido d’amore
    De verdadeiro amor
    Di vero amore
    E te redescubro
    E riscopro te

    1 = ao ar livre, tradução da autora.
    2 Mies é um real sobrenome; através do Crônicas Cariocas, em 2008, “ingressei” para a família Mies
    através do querido Paulo (saudosos abraços, espero que conheça meu pai aí no céu), que me encontrou
    através dos meus textos neste nosso portal Crônicas Cariocas e me enviou mensagens perguntando se
    éramos parentes próximos.
    3 “Nascida para você”, versão do título da película em português.
    4 O meu canto livre


  • Nunca iguais, revisitadas

    Assim como as folhas altas nas copas das árvores balançam com o prenúncio de intensas chuvas… tal qual o som de passos ligeiros em direção a um compromisso que estar por iniciar… ou ainda a terceira badalada de uma campainha teatral que, após outras duas de igual duração, alerta os desavisados de que o espetáculo se iniciará, assim é a vida dos recomeços. Nunca iguais, revisitados. E entre tantos reinícios em minha vida ao longo deste último ano, as campainhas, os passos e o vento trazem o Crônicas Cariocas novamente à minha rotina, o acender de uma vela em meio às trevas. O portal, que há 18 anos está colado ao meu corpo, pelo avesso; uma sinfonia interna que faz dançar o coração – e atento ao olhar sobre o cotidiano. É como se eu adentrasse pela porta da frente uma casa que sempre foi meu lar. Pois bem.

    Como em qualquer reenceto, há de se dividir o espaço com certa cautela, nada muito marcante, porém presente: o segurar da pena que vacila ao encontrar o nanquim, trechos sem amarração de uma narrativa base – logo papéis amassados por fora de cestos de lixo. A emoção é enorme. O timing da escrita, não. Em se tratando de time, ou tempo, este que é cada vez mais escasso se mostra faceiro aos olhos inocentes de minha versão quase 3.6. Eu não quero falar sobre o tempo. Não o tempo que se esvai por entre os dedos ao manusear páginas de livros novos, tampouco aquele que não se sente ao deleitar-se com amigos, familiares ou cachorros. O tempo que mais se destaca – e ecoa, como ecoa – é o do barulho dos ponteiros analógicos, o vigia implacável que nos demonstra estarmos sempre por fazer algo, por nos deslocar, por agir – sem tempo para o sentir. O tempo movimento, o tempo espaço, o tempo objeto.

    Assim como a pena está para o nanquim, na correlação da escrita, eu estou para as artes, mero instrumento a serviço de algo maior. Energias que explodem ao se chocarem; o zumbido de uma Bialetti anunciando que o espresso está pronto – reforçado pelo cheiro maravilhoso deste líquido perfeito. Tudo não passa de um chamado de alma. E este é o ponto que só os artistas compreendem. Com a volta do Crônicas Cariocas, a Bia ressurge das cinzas poeirentas, o estojo verde da Olivetti deixa de ser apenas enfeite; neste ínterim, a Núbia vem abrindo novamente as cortinas vermelhas, pelos palcos de teatros e espaços de leituras dramatizadas. Há o retumbar da essência italiana, materializada na figura dupla de secretária de uma Colônia de descendentes e responsável pelo seu Departamento Cultural. Como ainda sobram horas à rotina de microempreendedora individual, uma cadeira no Conselho Municipal de Políticas Culturais é bem-vinda. E, resgatando a minha criança interior, aulas de costura. Processo terapêutico em dia, em dia com os momentos pós pandemia que deixou todos doidos varridos, e a minha loucura particular foi casar no civil e religioso para, obviamente, findado o último grande surto mundial, divorciar-me, não somente de um relacionamento pernicioso, como de uma parte podre de mim mesma. 

    Terapia não é teatro. Mas para dar certo na terapia, o terapeuta não pode por seu juramento numa balança, e escolher como tratar pacientes com base a se estão pagando com o cartão do plano de saúde ou via Pix. Desisti das sessões com psicólogos após muitas tentativas frustradas. Eu prefiro viajar, viajar é preciso, viajar é fazer com que a vida não escape de mim mesma, encontrar o desconhecido, perder-me e encontrar-me ao mesmo tempo. Mas a viagem de 2024, ao invés de envolver o Aeroporto de Antônio Carlos Jobim, como tem sido nos últimos dois anos, envolveu altas turbulências em solo. Após me desfazer da ideia fantasiosa de um casamento que só existiu em minha cabeça – ou talvez nem isso -, tornei-me mãe solo de um recém desmamado spitz alemão. Perdi minha cachorrinha, amor de toda a minha família e praticamente contemporânea a minha entrada no Crônicas Cariocas, passei por mudanças sensíveis em meu escritório, fiz minha segunda exposição como artista luminosa.  Uma homenagem ao meu pai, que nem soube que era para ele, pois, quis o destino tirar sua presença do nosso mundo desajustado. A alma de uma pessoa como a que foi meu pai não merecia mesmo passar pelas provações de um mundo cada vez mais Macunaíma. E se fez um rombo no que era a fortaleza de toda a minha história. E ruiu parte do muro que ainda estrutura a minha família – que seria só de mulheres, agora, não fosse o Zeca, meu pequeno e maravilhoso spitz. Revisitar não significa retornar, mas se por/estar no lugar de um visitante. E como visitante, sem amarras ou destino, me deixo aperfeiçoar itens no rol das atividades econômicas do meu CNPJ, sem acompanhar o ritmo do relógio, ao mesmo tempo que a burocracia do luto e descobertas de malandragens de pessoas próximas vão tratando de escaldar meu carater e visão de mundo. Desencaixotar e encaixotar caixas e mais caixas. Empilhar. Selecionar. Pensar. Pesar. Ter pena do apego, e não. Lembranças em todos os cantos, nos bibelôs e coleções, nas fotografias, cds e discos de vinil, nos móveis, tantos e tão apertados na casa de minha mãe, assinatura da paixão do papai pelas coisas incríveis. O luto é algo inebriante e assustador. Então me cerco das artes, esses aliados, fiéis escudeiros, que tratam de cuidar do meu interior, enquanto o lado externo é moldado pelas aulas de pilates e fisioterapia.

    Voltar é sempre um movimento após, há sempre o antes que não será repetido em sua exatidão. Pintar os cabelos, fazer minhas próprias vestimentas, ajustar minhas predileções gastronômicas, cerca-me das artes e dos verdadeiros amigos – apenas realmente aqueles que se importam. Interpretar coisas ou ideias novas. Aprender. Conhecer lugares e pessoas. Aos poucos, sem me dar conta, lá estou eu a escrever! Um passo, uma campainha, uma rajada de vento e a vida que passa, de novo, sendo vivida.


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