brisa morna

  • A Caruta

    A velha Caruta acordou sobressaltada. Um desassossego lhe correu pela espinha, um arrepio de premonição de desgraças. Esfregou os olhos lambuzados de sono, destrancou a janela, abriu meia folha, xingando o gemido nos gonzos, e espiou o dia.

    Lusco-fusco, brisa morna, como se soprada pela lua sufocada no entremeio das gameleiras, obra de dez braças dali. Parava no escuro, pesava. Isso não era bom sinal.

    Não sabia o quê, mas o peito oprimido, carregado – sentiu o coração estremecer. Lembrou-se do sonho de uns momentos antes: que estava morta – branca, fria, espremida num cantinho da cova, sobre umas folhas de taioba, como uma quarta de geleia, se desfazendo, se desfazendo.

    Gelou: e se não era, num aviso, mais que um aviso? Não seria que estava morta e ninguém sabia? Apalpa-se. Não representava que estivesse mais morta que sempre. Tinha cruzado a cumeeira da velhice, antiga de não se lembrar mais. Era um pouco morta, era, de verdade.

    Sacudiu a esquisitice de cima dos ombros. A velhice era um castigo de que não tinha salvação. Escancarou a janela e, arrastando as chinelas, virou para a porta da cozinha.

    Mal distinguia o vulto do dia. Deu dois passos no terreiro e estacou. Bem que não estava assim atrapalhada à toa: o mundo amanhecera diferente demais. Onde a estripulia do amanhecer, esse estrupício de todo santo dia?

    O silêncio reinando – como não pusera reparo nessa reinação estranha? Mas que era? Meu Nosso Senhor! Onde a passarinhada dos diabos? Pôs sentido nas coisas, estudou as redondezas.

    Quietude. Divulgava a cerca, as árvores, os cornos da serra, os beiços do bambual. E a quietude. Bicho nenhum. Seria que só ela de vivalma nesse fim de mundo? A Caruta começou a se enfezar. Embrulhada com o que não existia, gente! O silêncio, onde se viu? O mundo mais quieto que a morte.

    Que é isso, minha Santa Luzia! Enfiou os dedos nos vãos dos olhos, jogou a remela na poça d’água. A água barrenta se esguedelhou num remelexo. Estou viva, se disse a Caruta.

    Esgaravatou os ouvidos com os dedos nodosos. Não fosse esse silêncio! Um despropósito. Chamou: Dourado! Palerma! Chumbado! Boca-Preta! A cachorrada estava metida nalguma biboca perdida. Cachorrada sem préstimo, o diabo se serviu,
    comeu.

    A Caruta juntou nas conchas das mãos um punhado de quirera, semeou no tempo. As pombas? Nenhuma. As galinhas? Os bichinhos na disputa, nas pinicadas, brigando para encher o papo? Tudo deserto.

    Já não ouvira o galo, fugido da obrigação – acender a manhã. Estranhice. Será que eu estou morta e não sei? E morto sabe da morte? O mundo despovoado. Não posso eu sozinha ser o povo deste mundão. Sozinha e Deus! O Diabo não.

    Sozinha – e se eu for só um punhado de pó e eu nem sei? Creio em Deus Padre! E se benze, a Caruta. Será que ela está morta? Não é dada a essas pensamentações. Umas cismas trançadas.

    Mais um argumento: Só se estiver morta! Já vivi tudo quanto tinha para viver, gente! Pensava e pensava. Trançava as suas cismas. Devagar. O dia amanhecia de repente, atordoado, mais morto do que vivo. A Caruta atolou as canelas na lama do mangueirão. Onde o diabo dessas vacas? As amaldiçoadas das porcas?

    Sentou num tronco podre, os cotovelos ossudos nos joelhos, segurou os queixos com as mãos. Pois é, pois é! Sim, senhor! Não pode ser, mas é. Estou morta, mortinha que nem este pau, que já vai se decompondo.

    Apalpou os bolsos do vestido, achou o pito, remexeu o fumo, bateu o isqueiro. Tudo muito meticulosamente. E chupou, chupou fundo. Morto não pita? Ela se ri: Não pitava!

    Relanceou os olhos na casa, o paiol, a tulha, uma plantação deste lado, uma capoeira, depois o mato grosso na beira do morro. Tudo como sempre. Mas o silêncio. Que silêncio! Só se ouve o vento resmungar, inda que a contragosto, irritado, descompassado.

    A velha soltou um suspiro fundo. Pois é, nenhum sintoma de vida, em lugar nenhum. Observou o horizonte, e voltou às pressas para casa, chegou, deu um tranco na porta emperrada, na frente, e ficou zanzando na sala.

    Regular bem eu regulo. Louca não estou. Só se eu virei o morro, saí de fininho da vida no sono, no sonho. Ainda bem que eu não me desesperei de nervosa, tanta bobagem para escarafunchar na cabeça. Ainda bem que eu virei o morro sem perceber, como quem sacode o pó da estrada para retomar a caminhada. A estrada da vida não tem fim, continua até depois do sonho.

    Cismou e cismou. Nada mais a fazer. A vida se acabou, pronto. Valeu a pena? Isso não lhe competia. Arrazoar de Deus ou do Diabo. Estranhava o mundo deserto, isso era. Mas devia estar acostumada: a vida na Tapera da Onça sempre fora um deserto só. Quem se esquecera da vida numa furna como aquela, decerto que desertara do mundo.

    Mas, e os bichos? Não faz sentido um mundo sem bichos. Tinha só duas vacas, duas porcas e a cachorrada. Mas, e a passarinhada? Tinha uma égua que era só pereba, pele e osso. Onde a Gateada? Para onde fugiu o mundo todo?

    Só se o mundo acabou. Ora veja! Não era ela também uma mulher perdida no mundo? Deu com aquele buraco, ali se hospedou para o resto da vida. O Quim da Tapera botava nela os olhos sonsos, não dizia nada. Nem precisava. Foram se cheirando, como dois bichos. Quer ficar? Fique. Daqui não tem mais além – teria dito? Há muito tempo, sem conta.

    Muito antigamente a Caruta ganhou as estradas da vida, ave sem pouso, até pousar no estrado de varas do Quim da Onça, o Quim que um dia uma onça comeu.

    Enterrou o homem, os restos, no pé de um jequitibá. A onça, sapecou fogo na bicha, o cano grosso da espingarda goela a dentro. Ela se lembra. Coisas que pareciam ter acontecido há um século.

    Agora estava morta, embora desenterrada, oras. Mas quem iria enterrá-la? Ali ninguém aparecia, nunca, jamais. Morta, ufa! Já cansara de se dizer morta, em cima das pernas, pererecando entre as taipas.

    Destapou os caldeirões no fogão. Encostar o estômago? Que nada! Nunca fora de muito comer. E morto lá come? Arre! Isso de morto virou uma ideia fixa! Mas, se eu estou morta? Se não tem vivalma neste fim do mundo – por que eu?

    Olhou o picumã nos caibros da cozinha, que nem morceguinhos dependurados. Se ao menos houvesse morcegos! Só se isto for o purgatório, Deus e o Diabo disputando a minha carcaça.

    Mas ninguém se conforma com a própria morte. A Caruta deliberou tirar a limpo o acontecido, que só parecia doidice. Como? Não sabia. Desinventar a morte! Dependurou a espingarda, socou com raiva a pólvora e o chumbo, tomou o rumo do mato, desembestada. Uma plantação abandonada. O sujo da mataria escorada na serra.

    Gozado: quietude demais, como se fosse uma fantasia. Onde os veadinhos? Os macacos nos galhos que nem uns diabinhos pretos? A passarinhada? Santo Deus! É um silêncio dos infernos!

    Pegou numa trilha funda, alcançou o Ribeirão da Capivara, subiu a ribanceira à cata de vau. As águas claras gorgolejando num verde cheiroso. Peixe nenhum. Mosquito nenhum. Sozinha só. Nenhum bicho no mundo. Nem ela. A Caruta abre bem as pernas, para se equilibrar melhor, arregaça o vestido, para dentro d’água. Deus louvado! Apoia a espingarda no ombro, aponta para o alto, aperta o gatilho. Um estrondo trovejando, ecoando a solidão.

    Depois, nada. Barulho nenhum. Só as folhas bolem, caem. Passarinhos voando assustados? Nada. Bicho fugindo? Bulha nenhuma. Escorou a coronha numa pedra, despejou o polvarinho na boca enorme, socou, e atirou de novo. Como um trovão. Será?

    Quase nem se ouviu o eco do tiro. A velha desanimou.

    Voltou para casa às pressas. Virgem! E grunhiu, num riso destrambelhado. Não foi nada, não, só o mundo que acabou. Gingou o corpo para trás, rápido para casa. Que teimosia, gente! Morri, está bem. Vou resguardar o meu cadáver na minha cova. A par do finado, a cova aberta há quantos anos! Pegou com raiva o facão dependurado do ombro esquerdo e, no caminho, cortou umas folhas de taioba. Tal e qual no sonho, bem forradinho o leito da última jornada.

    Deitou o corpo no buraco, revirou-se, esperou. Não se sentia cômoda. Diacho. Não estava à espreita da morte, mas já mortinha bem morrida. Tinha que arejar a mente. Não tem cabimento tanta preocupação, lembrando os problemas da vida.

    Bem que gostaria do Palerma ali na cabeceira. Cachorro inteligente, sempre jurara que o bicho iria assistir a sua morte, se afogar na tristeza, ganir a dor do peito e, desalentado, se acabar junto dela. Peste! Tudo era uma peste, tudo tinha sumido. Por que o diacho da peste desse cachorro tinha que sumir também? Culpa dela, que partira sem aviso. Esquisitice. Morrer na sequela do sonho, sem nem reparar.

    Bom. Agora é se despedir de quanta bobagem se imagina. Imaginando as coisas da vida em cima de nada, oras! Quem diria que isto é o outro lado da vida? Tudo que é vivente se esfarinha no tempo – só resta você, alforje de nada?

    Morrer, o mundo deixar de existir? Só você de bicho. E não tem sentido chorar a miséria, você já era. Ah Caruta, sossega! Que esfrega, a vida! Essa cama não é de empréstimo, é para todo o sempre. E não cansa? Todo o sempre é tempo demais. Mexe e remexe na cova. Incomodada como o diabo. Esta casca de ossos é velha demais, não tem posição que aguente.

    Ela se encolhe, se põe de cócoras. Uma coisa fazia falta: o pito. Faz mal morto pitar? Amansa as iscas de fumo na cunha das mãos, enche bem cheio o cachimbo. E pita com gosto. Chupa no canudo com sofreguidão – e, a cada chupada, a cara mais chupadinha. A pele esticada, lisa, lisinha – parece pele de rã, rãzinha. Serenada, a Caruta cachimbava. De longe se distinguia a fumacinha se suspendendo da cova, bamboleando no ar.

    A Caruta morreu entanguidinha no resvalo da cova – uma geleia de carniça, comidinha dos urubus. Bichos do demo! Ao pé da velha, uma pelanca podre, uns ossinhos, decerto de cachorro – decerto o Palerma, vindo arrefecer seus dias junto da dona. Decerto um urubu lhe bicava o olho, outro urubu sugava o olho da Caruta.

    Vejam! Na caveirinha, os dentes cravados no canudo do pito – a Caruta fungou o derradeiro respiro no oco do pito. O canudo encravado na boca, não sai não. Nem o demônio preto do urubu roubou.

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