Carlitos

  • Tempos modernos

    Eu procuro entender um pouco sobre as máquinas. Procuro mesmo. É verdade! Não sou muito simpático a elas não! Sabe qual o problema? É o apertar de botões! Aperta aqui, aperta ali! Imagino Carlitos em Tempos Modernos, enlouquecido entre as engrenagens.

    Aperta aqui, aperta ali e as imagens vão se acumulando na tela do computador, uma após outra, sucessivamente. Não reparo muito em imagem alguma. O que importa nesse jogo não é o conteúdo, mas a velocidade. Minha cabeça parece enlouquecer! Mas a pergunta que me faço e que repasso a cada um de vocês é: qual será o futuro disso tudo?

    Estamos comprometendo uma parcela importante do nosso tempo e de nossas vidas ao maquinário, à tecnologia. Deixamos de viver, de beber, de comer, de sorrir, enfim, deixamos tudo de lado para olharmos fixamente o monitor.

    Seremos deletados porque nosso programa possui falhas! Adquirimos vírus! É absurdo, patético e irônico: as máquinas têm vírus! E como sofrem! Sofrem como nós! E nós, sofremos ainda? Não! Não mais. Estamos muito ocupados com o computador para pensarmos nisso!

    Quando o sistema cai o mundo inteiro também cai: não há banco, não há dinheiro, não há negócio, não há emprego, não há sonho. Ficamos à espera da manutenção! E esperamos horas e horas! Muitas horas!

    Há pessoas que não vivem sem verificar religiosamente os e-mails (caso não o façam há a possibilidade de entrarem em depressão). Há aqueles que deixam a vida toda registrada (fatos e fotos íntimos demais para serem compartilhados com qualquer um) nos sites de relacionamento para que o planeta todo veja e pense qualquer coisa a respeito. Ou não pense absolutamente nada. Há, ainda, os que se apaixonam e se encantam por namorados virtuais. Nada contra isso. Mas existe muito exagero!

    Eu realmente procuro entender um pouco sobre as máquinas. Escrevendo esta crônica agora vou levando os meus dedos sobre o teclado (e que diferença para a máquina de escrever) e pensando nas comodidades e na praticidade da vida moderna. Você pode acessar (olha aí, na linguagem também) qualquer informação sobre qualquer assunto na Internet. Pode, aliás, conversar com o mundo todo, literalmente. Mas há que se ter um cuidado, um cuidado apenas: não ser escravo desse aparato tecnológico.

    Posso andar despreocupado sem o fone no ouvido, sem o MP3 (e já inventaram o MP4 e, com certeza virão 5, 6, 7…), sem o iphone, sem a câmera digital, sem o notebook, sem o GPS, sem… Opa! Peraí! Acho que perdi… Perdi…

    Deixei tanta coisa pelo caminho que não sei mais o que é humano…

    A minha identidade. Aquilo que me marcava como ser único e pensante se perdeu. Em algum lugar entre o mouse e a webcam

  • A procura da poesia

    Ah! Carlitos! Se você soubesse da correria desse mundo!

    Corremos ainda mais! E não prestamos atenção em quase nada! Acelerados em quase tudo! Sentimos com pressa! Amamos com pressa! Brigamos com pressa! Desviamos com pressa! Olhamos com pressa! Chegamos ao despudor de morrermos com pressa!

    Os tempos pós-modernos são intensos e corrosivos! Tempos controversos e destrutivos!

    Ah! Carlitos! Se você soubesse…

    O seu humano máquina se transformou ainda mais em produto! Ele não aperta mais os parafusos, mas continua sendo vigiado, monitorado, controlado, etiquetado… incansavelmente!

    E não dormimos direito! E não descansamos direito! E não comemos direito! E não vivemos direito!

    Ah! Carlitos! Se pudéssemos mudar isso tudo!

    O mundo precisa com urgência da poesia do seu andar.

    O mundo precisa com urgência da poesia dos seus gestos.

    Como temos pressa para tudo, não temos mais tempo para a poesia! Ela, coitada, está em algum lugar que não é possível ver na confusão das coisas.

    Mas ainda há esperança…

    Existem criaturas teimosas que leem e que procuram a poesia nas ruas, nas casas, nos muros, nos becos, nos rostos…

    Estas criaturas, resistência destes tempos apressados, não têm pressa e, por isso, procuram a poesia de cada dia em tudo que encontram.

    Ah! Carlitos! Saudade do vagabundo, do garoto, das risadas e brincadeiras ingênuas.

    O mundo já estava se transformando e não tínhamos a menor noção de tudo o que viria, entretanto, no seu tempo, a poesia era mais visível e palpável…

    Em meio aos chips e à fumaça poluidora, a poesia se esconde…

    Em meio ao tremor da luz azul das telas, a poesia se fragmenta…

    Em meio aos gritos e delírios das redes sociais, a poesia se encolhe…

    Mas, de todo o jeito, esse ofício de escrever é de uma teimosia sem igual…

    E enquanto houver olhos que leem e entendem palavras, a poesia será a porção de sensibilidade de que precisamos durante a caminhada…

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