Coluna ‘Contos’ de quarta

  • Pais de filhos mortos

    Não sei o porquê de tanta encrenca na vida. Aliás, é muito mais que encrenca, é uma calamidade familiar. Onde foi que eu errei? Dei um duro danado para educar os meus filhos, e de retorno só recebo ingratidão. Morro de desgosto, e, inclusive, minha saúde tem se debilitado progressivamente. Malu não sabe também o que fazer. Será que demos amor demais? Ou será que não foi suficiente? Paulinho, nosso primogênito, cedo caiu nas drogas, por influência dos colegas. Ele foi, quando menor, muito dado, alegre e educado. Foi catapultado para a vida marginal. “Por que, meu Deus? Por que?”. Logo passou a fazer pequenos roubos, porque não admitíamos a sua condição, degradante. Pensávamos que dar dinheiro facilitava a vida dele para buscar os seus abusos. Mas, ainda assim, o fiz incontáveis vezes – por pena, por dor. Ele parou de estudar logo em seguida, e isso foi uma punhalada no meu coração – eu que tanto estudei, fiz duas faculdades, para dar uma vida melhor para meus filhos, levei uma rasteira, mais uma vez, da vida. O guri dizia que escola era coisa para trouxa. Mandei que trabalhasse, então, de qualquer coisa. Ele me mandou à merda. “Vai trabalhar tu, velho lazarento! Não pedi para nascer, e tu é obrigado a me sustentar!”. Quando me lembro dos momentos felizes de sua infância, que ele era grudado comigo, choro de emoção. Paulinho, como disse, foi um menino meigo e superinteligente; brincávamos muito, íamos aos jogos do Internacional, tínhamos uma vida “normal”. Tudo mudou para pior – bem pior. Agora está amasiado com uma qualquer, que sequer sabemos quem é. Malu não concebe não conhecer a própria nora. Já chegou a brigar com o Paulinho, quando ele, pontualmente, apareceu em casa – para pedir dinheiro. Soubemos, por acaso, que está esperando o nosso primeiro neto. Paulinho, talvez por isso, é entregador. Diminuiu as farras. Quiçá melhorou – não para os pais; ele ignora a nossa existência. Não sei como uma pessoa assim não pode ter sentimentos. Será que ele não tem lembranças boas de mim? Choro de saudade do que vivi e do que não vivi. Não dá atenção aos pais. Somos meras fontes de dinheiro. Vivo esperando o dia em que ele vai voltar, como homem, me abraçar como homem, e se mostrar uma pessoa digna… Flavinha, nossa menina rebelde, não partiu para o mesmo caminho, mas, vendo a influência do irmão, resolveu parar de estudar – não tive pulso para segurá-la na escola. Uma psicóloga amiga sugeriu que ela poderia ser psicopata, pelo seu estilo atrevido e por não demonstrar nenhum tipo de emoção. É uma menina bonita, então, absurdamente, inventou de abrir uma conta no OnlyFans, e ganha o seu dinheirinho. A princípio, relutei – sentia uma vergonha monstra. Mas, depois, vi que o corpo é dela, e, já adulta, pode fazer o que quiser. Malu suspeita que faça programa, porque às vezes sai muito arrumada, cheirosa, e não diz pra onde vai – sim, ela e ele não nos dão nenhuma satisfação. E Flavinha sempre está bem financeiramente, sem “trabalhar”. A verdade é que, com relação ao dinheiro, já me arrastaram tudo. Vivo da minha aposentadoria mirrada, de funcionário público estadual. O dinheiro que juntei por uma vida serviu para comprar um carro para o Paulinho e outro para a Flavinha. Carros do ano. Dei de coração, para começarem a vida. Queria que, com isso, nossa relação mudasse, mas vejo, hoje, que é praticamente impossível, que foi a pior coisa que fiz – bem, para Deus nada é impossível. Malu quase morre de um princípio de infarto, de tanto problema que carrega. Eu sou diabético e hipertenso, tenho que regular a alimentação à risca. Somos dois velhos pais de filhos mortos. E isso não convém a uma boa velhice. Somos mais velhos do que queríamos.

  • Não sei se isso faz sentido

    Cheguei ao fim da linha. Não basta seguir por seguir, sem propósito. A vida me impôs barreiras e superei quase todas. Agora, depois dos sessenta, estou endividado, falido e exausto. Tudo por causa da minha consciência franca, para acreditar nas pessoas. “Celso, tu tem condições de comprar isso! Tu pode viajar, espairecer”. E fui entrando numa bola de neve, apesar de ganhar bem. Trabalhando na iniciativa privada, é hoje, não é amanhã. Tudo pode mudar num piscar de olhos. Mudou, para pior. Descartável – como suponho –, fui posto para fora do trabalho. Soube que ocupa o meu lugar hoje um rapazinho de seus dezoito anos. Tem mais gás – é verdade –, mas não tem a minha experiência em analisar planilhas, escrever os relatórios etc. e tal. Por isso a minha falta de ânimo e de crença no amanhã. Não fosse uma reserva que guardei, passaria fome. Digo que só sou eu no mundo. Meus pais morreram, e apenas sobrou uma tia-avó endinheirada, mas mão-de-vaca. Não posso, nunca, contar com ela. A fortuna dela provavelmente ficará comigo, caso não tenha feito um testamento para doar ao clube de terceira idade, onde participa, ativamente, das atividades, como o bingo. A única alegria que tenho é o Biloro, o meu cachorrinho. Não me cobra nada, a não ser carinho. É um bichinho inteligente pacas. Sabe quando estou mal e passa o dia deitado perto da minha cama, para me fazer companhia. Ligo para titia, para trocar umas palavras, e ela logo desliga, dizendo que não tem tempo. É durona, aos noventa e três anos. E é intragável (esqueçamos dela)… Tenho algo como mais seis meses para gastar as minhas reservas. Algo de bom tem de acontecer. Entrego meus currículos em várias empresas – sem aquela loucura de ser manual; é tudo virtual –, inclusive internacionais. Posso trabalhar como jornalista e redator, já que tenho curso superior em ambas as áreas. Paula diz que conseguirei dar a volta por cima. Ela é minha amiga e ignora o estado em que me encontro. Na verdade, é um pouco infantil e fantasiosa. Quer que eu faça algum exercício para não entrar em depressão. Mas a maldita já me ataca há anos. Falei a ela e a coitada disse que não se lembrava: “Perdão pelo lapso!”. Como vou conseguir superá-la? É algo sério que venho tentando há anos lutar contra, e fracassando arrasadoramente. Os médicos também me cobram alguma atividade física. Terei de fazer, a contragosto. É isso. Não tenho muito mais a dizer. Recomecei a psicanálise, e o analista pediu para eu escrever este relato, para que pudesse “elaborar” os meus problemas. Fábio, o tal psicanalista, é um tanto romântico, imagino, porque tem muitas ideias felizes. “Faça um passeio no parque e leve o cachorro. Vocês terão um dia muito agradável!”. Gosto do Fábio, ele realmente sabe me convencer, com jeito e cuidado. Tenho pouco a quem recorrer. E às vezes sou convencido de que há saída. Mas as minhas emoções são voláteis; tenho dias bons e ruins. Hoje, acho que devo continuar, lutar pelos meus sonhos. Um deles é escrever o meu primeiro livro. Será uma realização. Nunca tive tempo para coisas assim, agora aproveito para escrever. Escrevendo viverei. Oxalá esteja certo desta vez.

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar