Coluna ‘Contos’ de segunda

  • A cana na moenda

    Os caixas do supermercado entraram em colapso, e eram sete horas da noite de um sábado em São Paulo.

    A escala seis por um a devorar a sanidade dos funcionários. Filas com famílias inteiras com carrinhos cheios de caixas de leite e cerveja, misturadas a pessoas que queriam pagar apenas por um ou dois produtos e desaparecer dali o mais rápido possível.

    Crianças gritando porque pediam aos pais pelos produtos açucarados estrategicamente colocados próximos aos caixas, superexpostos ali exatamente para momentos como aquele.

    Essas crianças certamente já ouviam a palavra ‘crise’, pelo menos em algumas de suas modalidades, mas ainda não tinham consciência do desfalque monetário que aquelas caixas de leite e sacos de feijão fariam no orçamento de seus pais., impossibilitando gastos com excessos nada saudáveis.

    Um casal que olhava para aquele pandemônio à espera de pagar por frutas e pacotes de aveia, começou a conversar sobre o tempo de vida perdido nessas ocasiões.

    Torciam com pouca esperança para que  aquelas crianças não crescessem acreditando que todos os caminhos para a felicidade fossem através de compras.

    Ele falou: “Agora com a guerra torando, tudo vai ficar ainda mais tosco.”

    Ela respondeu: “Pelo menos, não estamos na pele laranja de Donald.”

    E olharam novamente ao redor, a cena geral horrenda, em que o protagonista é o lugar, e não alguma pessoa em especial.

    Onde o dinheiro e a falta dele faz um grande salão hospedar o pior do ser humano.

    E ela com uma camiseta do Yo La Tengo e ele com uma do The Saints.

    Pessoas ao redor, também esperando na fila, às vezes faziam menção de entrar na conversa, mas se continham quando percebiam que o teor do que era dito por eles podia ser direcionado a elas próprias e aos constrangimentos por elas causados.

    A conversa evoluiu da chateação de uma fila de supermercado para problemas sociais crônicos.

    Eles partiam do princípio de que se a pessoa dependesse de um emprego formal, em que dorme pouco, sai pela manhã mal alimentado, sempre correndo e atrasado, sempre com problemas no transporte público, ou mesmo num carro confortável, porém preso por horas no trânsito, só para chegar ao local de trabalho, então a pessoa não apenas está absurdamente longe de pertencer a qualquer tipo de elite, como deveria reclamar dessa péssima qualidade de vida.

    Uma minoria consciente de fato reclama, enquanto a absoluta maioria agradece, alguns inclusive tentando ostentar o que nunca teve, tem ou terá.

    Foi mencionado no início apenas o começo do dia desse cidadão médio, que tem emprego e casa.

    Ele terá ainda que lidar com a falta de dinheiro para contas básicas, tendo que reinventar o conceito de lazer, uma vez que esse setor é automaticamente eliminado de sua existência por falta de tempo, energia e dinheiro.

    Possivelmente não teria nem mesmo vontade, pois teria desenvolvido depressão, no caso de realmente pensar sobre o tempo de vida perdido a caminho do trabalho, e depois executando o trabalho que geralmente enriquece mais alguém que já é rico, doando seu tempo e energia.

    O tempo que sobra para os que tem família é curto e imerso em tensão, devido a problemas financeiros e de estresse pelo cotidiano penoso.

    Um cotidiano tão cruel que condiciona a massa a pensar que essa vida padrão é plenamente natural, de tanto que o povo está acostumado a sofrer.

    Ali havia tempo para que o desespero social pela precária situação econômica do país se manifestasse.

    Pais de família abordando clientes na fila, com uma cesta pronta, com produtos alimentícios básicos, pedindo a eles que façam o pagamento.

    Era algo sobre fome, apelidada de ‘insegurança alimentar’.

    Havia o tiozão do churrasco, com camiseta da CBF, comprando cerveja e carne congelada, pais com carrinhos com dezenas de litros de leite, morador de rua comprando corrosivos corotes coloridos e o sistema ineficaz de estrutura da bilionária rede de supermercados para aglomerar toda aquela gente ali.

    Isso fazia o casal falar ainda mais, pois tinham ideia do que significava aquele desespero.

    Tinham o dinheiro para a sua compra contados em moedas pequenas.

    Algumas das pessoas na frente e atrás deles na fila levavam carrinhos repletos de mantimentos diversos, a um custo fora de qualquer possibilidade para os dois.

    Era um casal para o qual o depois de amanhã já era uma perspectiva de longo prazo, mas acima de tudo, uma perspectiva otimista, de que o depois de amanhã chegará com a humanidade ainda sobre a crosta terrestre.

    Naquele momento em que todos ali eram iguais, presos numa capsula de desolação e ansiedade, o casal podia jurar que aproveitaria cada segundo da vida de uma maneira mais cuidadosa, a partir do instante em que deixassem aquele lugar.

    E nem estavam exatamente mal-humorados. O que havia era um tipo de perplexidade que se dá justamente quando a cena é repetida.

    O homem que alegava ser pai de família e pedia pelo pagamento de seu cesto de compras se aproximou do casal e ficou constrangido de pedir algo a eles, depois de uma recusa fria do tio do churrasco.

    Não apenas por ter visto o modesto conteúdo vegano do cesto do casal, mas também por ter ouvido parte da conversa durante suas tentativas de pedir ajuda.

    Já sabia até mesmo que os dois iriam vender canetas no dia seguinte, nas proximidades de um local que aplicaria a prova do ENEM.

    Já haviam feito isso várias vezes. Ajudaria na receita doméstica e renderia um rolê no domingo.

    Tanto o cara com camiseta do The Saints como a garota com camiseta do Yo La Tengo eram graduados.

     Eles olhariam para aqueles estudantes cheios de medo, ansiedade e majoritariamente sob a mais profunda falta de preparo.  

    Sentiriam mais uma vez todo o desprezo por políticos que deixaram de herança essa situação vergonhosa.

    Sentiriam também alívio por estarem ali sem serem um daqueles estudantes, mas sabendo exatamente o perrengue que aquilo representa.

    Os portões se fechariam, eles olhariam o desespero dos que ficaram de fora e depois se deitariam na grama, já com dinheiro para ir novamente ao mercado, à noite. I

    Para aquele domingo, estaria ótimo.

    A soma da renda de ambos, os classificava como classe média. Antifascistas desde antes de nascerem, de acordo com eles.  

    Diziam sofrer de vergonha alheia a cada vez que se agrupavam por motivo alheio à vontade.

    Mas ainda era sábado, e com a classe média ali misturada aos mais pobres e geralmente sem qualquer empatia com eles.

    A classe média que está tão longe de ser rica, parece ainda mais desolada e vulnerável.

    O medo de empobrecer mais é perene, e atinge o ápice naquela hora da verdade capitalista.

    O pavor de atingir um nível de dificuldade financeira que já é tão concebível nos pesadelos que preenchem as poucas horas de sono semanais castiga milhares de pessoas ainda associados a esta camada social.

    A parcela consciente desse grupo, naturalmente em número muito menor, tem vergonha e constrangimento, desesperando-se diante do fato de o rebanho ser completamente cego.

    Quando finalmente chegou a hora de pagar e sair, a garota do caixa, enquanto passava os produtos, perguntou a eles o que eram um do outro. 

  • A escova de dente que não era de ninguém

    Os atritos começaram quando ela, aos dezesseis anos, se recusou a tirar o título de eleitora.

    Vestia uma camiseta desbotada dos Bad Brains e disse que teria o título apenas quando fosse obrigada, aos dezoito anos.

    Dizia sempre que jamais votaria, em quem quer que fosse.

    Desprezava todos os políticos.

    Dizia para quem perguntasse: “Tanto a direita quanto a esquerda cheiram a merda, e são as duas pernas de um esqueleto moribundo.”

    Seu tio estava em campanha para vereador e vinha se sujeitando a todas as presepadas que só um político profissional é capaz, e naquele momento, não contar com o apoio irrestrito da família era para ele uma derrota e um insulto.

    Muito antes das questões relativas à sustentabilidade virem à tona, impulsionadas pelas catástrofes ambientais agora visíveis até pelos mais desprezíveis defensores de falsos conceitos de desenvolvimento, que envolvem lucro sujo e imediato, ela criticava o descaso por consequências de médio e longo prazo para que se mantenha a possibilidade de vida humana no planeta.

    Ela vivia questionando também se a vida humana no planeta de fato valia a pena.

    Sabendo que a máquina estatal é um moedor de sonhos populares e sucumbindo às vaidades do poder e às suas ambições materiais, o tio finalmente foi eleito vereador.

    Temia o repúdio eterno da sobrinha, mas aquele propósito era um projeto de vida que para ele visava a garantia de um futuro sem preocupações materiais, uma aposentadoria precoce e o resto de sua vida contabilizando dividendos que fariam a preocupação com os temidos boletos da vida se transformarem numa lembrança pálida e distante.

    Quando viu seu adesivo de propaganda eleitoral com sua cara retrabalhado pela sobrinha fazendo de sua imagem um meme para o avacalhar diante de todos, e fazendo dele um motivo de chacota para a família, soube como nunca que seu caminho não tinha volta.

    O escárnio por parte da família ainda era discreto e corria às suas costas, exceto por parte da sobrinha, cuja opinião sobre políticos em geral ele conhecia bem.

    Os outros parentes ainda sustentavam resquícios de reconhecimento pelos seus esforços para atingir aquele objetivo, que uma vez atingido, se revelou ser menos relevante, sobretudo do ponto de vista ético.

    Agora eleito e cumprindo protocolos que garantiam seu salário vantajoso, podia desfrutar acima de tudo do esquecimento de seu eleitorado, que desesperado a cada dia na luta pela sobrevivência, não cobrava por promessas eleitorais feitas enquanto ele cinicamente comia pastel na quebrada dizendo que a vida do povo iria melhorar.

    Esse distanciamento vantajoso era contrastado com o vazio familiar antes anestesiado pela sede de poder que o acompanhava ao longo da vida e que durou até pouco depois da eleição.

    A sobrinha era o pivô dessa sua nova inquietude existencial, já que era impossível fugir dos noticiários que, mesmo mostrando de forma parcial e editada toda a vergonha que representa a máquina estatal, ainda assim apunhalava agora a sua consciência.

    Isso passou a atormentá-lo cada vez mais à medida em que o tão desejado objetivo foi se mostrando oco e opaco diante de um cotidiano permeado por relações corruptas que invariavelmente se sobrepunham a qualquer fagulha de boas intenções inerentes à sua essência humana.

    O carro luxuoso, a dispensa cheia de importados e o terno cortado sob medida eram agora tão cotidianos, que a tão sonhada aposentadoria precoce e sem problemas financeiros logo se tornaram uma confusa perspectiva, uma névoa sobre qual seria seu legado deixado quando sua finitude natural começasse a se aproximar e pesar muito mais que seu poderio financeiro.

    A sobrinha ingressou na faculdade, mudou-se para o interior e seu distanciamento com o tio era apenas uma molécula de desprezo se comparada ao sentimento que ela tinha pela classe política como um todo. 

    As conversas sobre política que ela ouvia quando entrava em qualquer padaria faziam tanto sentido quanto a existência dos envolvidos.

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