Conto de Quinta

  • Negra Lili Marlene

    Negro,

    Escrevo-te estas mal traçadas pra me despedir. Não me culpe, não me leve a mal nem me mande catar coquinho. Fiz, sim, e não me arrependo, e tu sabe por quê? Pra te ajudar, homem. Não faça juízo errado da minha pessoa nem me deseje má sorte, porque isso não vai ser bonito. E depois tu me conhece, sabe que eu não sou dessas, mesmo que pareça.

    Fui embora do cafofo, tu já deve ter percebido que peguei umas mudas de roupa e caí fora. Foi para o teu bem, Negro. Algum dia tu vai compreender todo o tremendo sacrifício que fiz para que tu fizesse sucesso como compositor de samba. Sabe quando tu chega num lugar e todo mundo começa a cantarolar o sambinha que tu fez? Então. Isso tu nunca teve, nunca provou dessa cereja, nunca encostou a língua nesse manjar. Eu te via na dificuldade de inventar uma música para o gosto da comunidade e ganhar algum dinheiro, eu sofria junto de ti, pode acreditar. Então resolvi ajudar te dando um motivo pra ganhar inspiração. Sou boa ou não sou?

    Perdida por ti já fui, que maluca não seria? Tu foi o homem que me deu felicidade, Negro, e isso é coisa que ninguém pode negar. Mas lata d’água já deu, não quero mais. Quero o teu samba, e que tu seja realizado. Faz o teu samba, homem, motivo eu te dou: tua mulher deu o fora. Satisfeito?

    Não pense que te deixei por que ficando do teu lado eu estaria condenada a uma vida de pobreza eterna, e que se eu continuasse no cafofo acabaria me acostumando a comer o reboco das paredes. Não, Negro, não é nada disso, credo! Fui embora porque queria te ver sozinho, triste e abandonado, sem nada ter de teu mais que o violão velho e lascado, porque só assim tu sofreria e conseguiria fazer um samba precioso, e na letra tu falaria sobre a malandra ingrata e cruel, traidora, que só te fez mal. Garanto pra ti que não vou me ofender por isso. Porque o samba só nasce do sofrimento, não é? Então, te faço sofrer pra florescer. Sabe a carta de alforria que o teu avozinho ganhou no passado? Agora sou eu que te dou alforria, Negro. Se quiser, pode me chamar de Isabel, a princesa. Sou a tua princesa que tá te fazendo um bem maior que o mundo, pra que tu conquiste esse mundo mesmo. E agora tu me diz: sou boa ou não sou?

    Ainda, se quiser mais motivo pra incrementar a tua composição, comunico que fui embora na companhia de um cavalheiro que conheci outro dia no Largo da Carioca. Estava vendo vitrine e pensando se aquela saia vermelha ficaria muito justa no meu quadril quando ele se chegou e me disse “Senhorita tão simpática merece ganhar um sorvete duplo de baunilha com morango e um colar de pérolas.” Arrepiei, sabe como? Aí eu respondi “É mesmo? Quero ver se tu não tá mentindo, bonitão de paletó branco. Pode ser framboesa no lugar do morango? Gosto de fruta chique. Tanto calor, não? Ando morrendo pelas tabelas com tanta quentura, Jesus Cristo!” Ele beijou a minha mão e sorriu, o dente de ouro bem na frente. “Evilásio, um seu criado, para servi-la.” Eu não me fiz de rogada: “Marlene, para ser servida.” E beijou mais a minha mão. Escute bem, Negro: beijou a minha mão, igual se beija a mão de uma senhora de respeito. E como uma palavra puxa a outra e as duas lavam as mãos e a cara, no final concordamos que eu iria viver com ele e seria tratada como uma rainha. Sabe rainha? Então. Ele até prometeu me comprar um ventilador pra suportar esse verão, que disseram que esse ano o calor vem pra abrasar a gente. Um ventilador, viu só que luxo? E a francesinha também, toda semana, no pé e na mão. Tu sabe que eu sempre adorei uma francesinha.

    Bota isso no teu samba. Diga que tua negra se vendeu. Não é verdade, mas pode dizer mesmo assim, não levo como ofensa. Não é uma alforria? Eu dei a tua liberdade, Negro. Fala pra todo mundo que eu fui a tua Isabel, te deixei livre pra que tu brilhasse. E agora tu me diz se eu não sou boa. Sou ou não sou boa? Anda, fala!

    Sei que tu deve tá aí chorando as tuas mágoas sobre o violão, e é assim que deve ser: chora tua saudade, tua dor de corno, chora a falta que tu sente de mim. Chora na melodia, molha as cordas do teu instrumento e tira daí a canção mais linda, aquela que te fará famoso. Tu consegue, o motivo tu já tem. Depois descansa e pensa na tua Negra. É assim que tem que ser.

    Adeus, Negro, não jogue a culpa em mim e pensa que tudo o que fiz foi pra que tu conhecesse um pouco de sucesso com uma canção contra mim, contra a tua Negra… Falando mal de mim, ah, que bonita vai ser tua música! E cuida de pagar o aluguel pro seu Vicentino, senão vem ordem de despejo e ele te tira do cafofo. Tem dois meses de atraso, o terceiro ele não deixa passar. Tu não quer morar embaixo do viaduto, quer? Te manda um beijo e um abraço esta companheira que é capaz de tudo pra te ajudar.

    Negra Marlene (agora Lili)

  • Sobre Ester

    Tarde de sexta-feira. Dia dos namorados. Leve frio de começo de junho, nesse clima nunca radical do Estado do Rio, sudeste do Brasil, sul da América, entre os trópicos. Ponho roupa preta, acabada com meu paletó, preto, alemão, de fino corte. É meu único paletó, usado em ocasiões especiais apenas – e, na maioria das vezes, nem nestas. Saio então pelas ruas. Chuva fina. Abro meu guarda-chuva e vou, fugindo das rodas dos carros nas poças. É uma tarde triste. Mas não estou triste, embora meu estado seja, digamos, solene. Meu último encontro com Ester foi na quarta-feira, na casa dela. Naquela tarde, por horas eu a ouvi em seu lindo quartinho branco, com flores e listras verde claro.

    Não estávamos sós, eu e Ester. Éramos quatro naquele pequeno cômodo que mais parece um pequeno templo: eu, dois amigos e ela. Um dos amigos fazia as perguntas. Outro apontava sua câmera de filmar fixada em tripé. Eu apontava também uma outra câmera, também num tripé, mas com movimentos de ida e volta nos detalhes do corpo de Ester, que estava sentada numa confortável cadeira. Imagens em ida e volta, zoom e não-zoom. Detalhes das mãos que não paravam de gesticular, com braços que moviam-se pela emoção daquilo que ela nos falava, terminando em um dedo em riste. Detalhes de sua boca com honrosos dentes amarelados. Detalhes de seus olhos expressivos por trás das lentes que refletiam, às vezes, e de forma mal calculada por nós, a luz difusa de um refletor. Seus cabelos brancos, suas rugas impregnadas de história e poesia, dor e cultura. Cultura poderia ser o nome dessa mulher. Uma mulher, espantosamente, não-triste. Na quarta-feira eu não estava com meu paletó preto.

    Só que hoje meu novo aguardado encontro com Ester seria apenas virtual. Marcamos às quatro na casa do amigo, a fim de dar uma primeira olhada nas imagens captadas na quarta-feira. Ester na tela. Ela ficou bem na tela. E o que ela faz na tela do televisor não pode ser feito por qualquer mulher. Ela nos conta sobre sua infância no Egito, sobre sua vida. Ela nos fala sobre morte. Sobre a morte de parentes ante a foice do nazismo na Alemanha. Sobre a morte do pai – a qual presenciou. Sobre sua passagem na Inglaterra, por Oxford, se não me engano. Reclama que na escola primária, ainda no Egito, as crianças aprendiam “apenas” três idiomas, e que o resto ela teve que aprender sozinha. Ela tem muita história pra contar. Muita. O muito que nos conta, vira e mexe é arrematado com um sorriso maravilhoso – não que ela seja de rir à toa.

    Em nossa frente fotos que ela deixou em nosso poder, para serem digitalizadas. Muitas fotos em preto e branco, evidentemente, de pessoas em sua maioria mortas. Algumas delas mortas em circunstância que não é difícil imaginar. Acho que não me convém – nem a mim e nem a ela – entrar em detalhes agora.

    O que conto é parte da pré-produção do documentário que começa a ser realizado numa parceria entre eu e meu amigo Elano Ribeiro, e com a valiosíssima colaboração de um novo amigo, Janér Baptista. Esther (sim, com “h” no meio) é o verdadeiro nome de uma incrível senhora que conhecemos, a qual nos oferecerá, para um novo projeto, a matéria prima: ou seja, o “livro aberto” de sua vida. De família Judia, nascida no Cairo, formada na Inglaterra, Esther é uma mulher brasileira com oitenta e seis anos. Uma cidadã do mundo. As nuances do mundo de Esther, só poderão saber aqueles que assistirem ao trabalho pronto, que pretendemos entregar ao público ainda este ano.

  • Para que a chuva deixe de doer

    Se naqueles dias de aguaceiro eu tivesse uma corda, e se eu não fosse pouco mais do que uma criança crescida, e se eu pudesse e tivesse coragem, amarraria minha mãe na cama e lhe daria uma surra para ver se ela parava de chorar e de gritar de dor. Quando chovia, os ossos de minha mãe latejavam e ela ficava louca. E me enlouquecia também. Mas eu não tinha uma corda.

    ***

    E agora, quantos dias me aguentando? Demasiados. Já são onze dias que chove sem parar, onze dias de confinamento. Devo ser muito resistente, só pode ser isso. Mas sinto que estou próxima do meu limite. E aqui nesta casa não há ninguém que me ajude. Estou sozinha. O que necessito é deixar de sentir dor. E que pare de chover. Olho o chão do corredor à minha frente, penso num poema para me distrair:

    tábua
    irmã gêmea de outra tábua
    assoalha
    todas as tábuas dão-se as mãos de madeira
    e assoalham
    uma casa inteira

    Onze dias! É a primeira vez que aguento tanto tempo sem chorar. Talvez pudesse aguentar um dia mais: doze. Será? Acho que não. Tudo me pesa e dói: a infância — a lembrança da infância, quero dizer, porque já não sou mais criança —, minha mãe, que enlouquecia de dor em dias assim molhados, meu pai, isolado em sua cabana perto da lavoura em que trabalhava e sempre alheio ao que se passava na casa, minha irmã mais velha — e muito mais esperta, porque soube dar o fora no momento certo —, e esses onze dias com suas onze noites de água.

    É difícil acreditar que uma cidade e seus habitantes possam suportar algo assim: onze dias de chuva ininterrupta, obrigando as pessoas a se encerrarem em casa, quando o que elas mais necessitam é sair para trabalhar, para estudar, para fazer negócios, para tocar a vida. Mas a chuva tem linguagem própria e escreve sua história como bem entende.

    Vejo pela janela embaçada alguma gente corajosa e seus guarda-chuvas no meio das poças, amaldiçoando o céu por despejar tanta água. Vejo uns poucos moleques pulando os charcos, vejo três ou quatro automóveis passando pela rua e espirrando água para todos os lados. Vejo a rua transformada em rio, cortando a cidade com sua correnteza e arrastando consigo lixo, coisas soltas, animais mortos, a paciência e a capacidade das pessoas de aguentarem esse aguaceiro bíblico.

    Já suportei muita chuva, mas nunca uma igual a essa. Onze dias! De verdade, não posso mais! Além disso, meu cabelo eriça com a umidade, pareço um leão alucinado querendo meter os dentes na primeira presa que passe pela frente. Não há nada capaz de domá-lo, alisá-lo para eu parecer ao menos uma pessoa normal, com quem se possa manter uma conversa comum sobre qualquer assunto. Não há normalidade possível quando chove dessa maneira.

    ***

    Minha mãe se desesperava com a dor nos ossos por causa da chuva. Uma dor que brotava de dentro dela mesma e a enraivecia e quase a cegava. Ninguém em casa sabia o nome dessa enfermidade. Para saber, era necessário dinheiro, coisa que não tínhamos. Dinheiro para ir a um bom médico e ouvir dele do que padecia minha mãe quando chegava a temporada das águas. Sabíamos que era uma coisa muito ruim. Se soubéssemos o nome da enfermidade, iríamos providenciar um remédio, um calmante para acabar com seu sofrimento. Mas não sabíamos o nome.

    Doía. Mas não doía só nela, doía em mim também. Não doía em minha irmã mais velha no tempo em que ela morava conosco. Não sei dizer se agora dói, já que nos abandonou e sabe-se lá por onde anda. Com o meu pai posso garantir: ele não sente nada, nem poderia, sempre carrancudo e preocupado só com suas coisas. Quanto a mim, digo: doía muito, doíam os ossos, o coração e o corpo inteiro junto com minha alma. Acho até que a chuva doía mais em mim do que em minha mãe. Ainda dói.

    ***

    Quando minha irmã chegou à maioridade, pediu à mãe e ao pai que a deixassem estudar na capital. Queria ser professora. Dizia que, quando tivesse o diploma, voltaria para ensinar as crianças da cidade. A professora Cris. Porque minha irmã se chama Cristiana, mas ela gosta que a chamem Cris. Se ela tivesse ficado em casa e não tivesse usado todo o dinheiro da poupança para se tornar professora, estaríamos agora juntas e nossa mãe teria chance de ao menos conhecer o nome de sua doença. Mas não foi assim. Cris partiu e disse que voltaria já formada e pronta para trabalhar. No começo mandou cartas, tenho todas até hoje e de vez em quando leio. Depois parou, não enviou mais nada, nem um presente. Não soubemos mais dela. Às vezes acho que morreu, mas só penso nisso quando quero desculpar minha irmã por ter nos abandonado.

    Cristiana recebeu o mesmo nome do pai. Um nome como herança de família.

    ***

    Meu pai se chama Cristiano, mas ele não gosta que o chamem Cris. Ele argumenta: Cris é minha filha, não eu. Trabalhou a vida inteira na lavoura e passava pouco tempo em casa. Não o vi envelhecer, e ele não me viu crescer. Tinha uma cabana perto da plantação de trigo e de milho e sempre ficava lá quando anoitecia, depois de podar a plantação e rastelar as folhas secas. Voltava só no dia seguinte. Gostava de estar perto de suas coisas. Era assim que a vizinhança se referia ao trabalho do meu pai: Cristiano, como vão as suas coisas?

    As coisas de meu pai eram sua lavoura e sua cabana no meio do mato. Não eram minha mãe e eu nem as nossas dores nos ossos.

    Meu pai gostava muito da Cris, mais do que de mim. Gostava dela antes de ela nascer, por isso a batizou com seu próprio nome, um nome digno, segundo ele. Era a herança de família que a filha mais velha carregaria enquanto vivesse. A mim ele batizou Maria. Não havia outra Maria na família. Meu nome não era homenagem a ninguém. Quando Cris foi para a capital e deixou de mandar cartas, meu pai quis ir até lá e trazê-la de volta, mas não foi. Ele não sabia como ir. Tentou pegar o trem, mas ficou com medo de se perder e desistiu. Foi para a cabana do mato. Permaneceu lá vários dias, não sei quantos, talvez onze, lidando com sua solidão. Como eu agora, há onze dias encerrada em casa, vendo a chuva cair e sentindo a dor que ela causa em meus ossos. Meu pai não trouxe a Cris de volta porque não sabia como. Ele nunca soube de nada, só sabia das suas coisas. É que ele é homem.

    ***

    Bem diferentes eram os dias em que não havia chuva, nem gritos, nem dor. O pai ficava mais tempo em casa, a mãe fazia comida e me chamava para ajudar. Pedia para cortar as batatas, depois lavar e secar a louça, varrer o chão, deixar tudo limpo. Não tínhamos empregada. Eu era a empregada.

    Saíamos para passear, cumprimentávamos os vizinhos, líamos as cartas da Cris e dormíamos com a janela aberta. Não me incomodava ser a rejeitada de sempre nem ser só a Maria, a que veio ao mundo sem ter sido querida.

    ***

    Minha mãe sentia nos ossos a aproximação da chuva. Assim que as nuvens escureciam, seus cotovelos e joelhos inchavam e começavam a latejar. Primeiro vinham as reclamações dissimuladas, um “ai, que dor!” baixinho a que eu e meu pai já estávamos acostumados. Bastava o céu despejar a água, ela abraçava a loucura. Esfregava unguento pegajoso nos ossos das mãos, das pernas, dos ombros, do quadril, dos pés, falava que tudo doía, que iria morrer de dor. Ela parecia mesmo morrer. Um dia ela morreu. Eu já estava crescida. Cris não estava mais conosco havia muito tempo e meu pai, já nos primeiros pingos, partira para o mato. Ele, ao contrário de minha mãe, gostava da chuva, dizia que ela fazia bem às suas coisas. A água é uma bênção, faz crescerem as minhas coisas, ele costumava falar assim. Também crescia a dor nos ossos de minha mãe, mas ele nunca deu muita importância a isso.

    Nesses dias de aguaceiro em que minha mãe e eu ficávamos confinadas em casa, ela virava bicho. Chorava, gritava, amaldiçoava as paredes, me espancava. Enchia a casa toda com sua dor e, como alucinada, me agarrava pelos cabelos e me sacudia. Não havia nada nem remédio algum que a livrasse dessa tortura. Eu recebia as bofetadas em silêncio, ela gritava por nós duas. Se eu tivesse uma corda, e se tivesse coragem, amarraria minha mãe na cama e lhe daria uma surra para que parasse de chorar e de gritar de dor. Mas eu não tinha uma corda.

    Quando a chuva cessava, a calma voltava milagrosamente à nossa casa. Como se fosse estrangeira chegando a uma terra desconhecida e agradável, minha mãe se lavava e vestia roupa limpa. Fazia chá e comíamos juntas o bolo feito dias antes de começar o aguaceiro. Esperávamos em silêncio pela volta do meu pai.

    ***

    Ela morreu há dois invernos, quando choveu onze dias sem parar. Estávamos novamente presas e sozinhas dentro de casa, duas mulheres em convívio forçado, uma delas fora de si de tanta dor, vendo a água cair sem trégua. A casa ficou pequena para nós e para todo aquele sofrimento. Os ossos de minha mãe trincaram feito cristal. Seu esqueleto desmoronou. Ela se foi, mas não levou sua dor consigo: deixou-a para mim como herança de família. Porque meus ossos também doem quando chove.

    ***

    Estou há onze dias aguentando a dor sem chorar. Talvez pudesse suportar um dia mais: doze. Será? Acho que não. Confinada em casa e em completa solidão, esqueço as tábuas do corredor e olho pela janela embaçada. Vejo alguns guarda-chuvas, vejo os moleques, vejo o rio correndo pela minha rua. Escrevo com o dedo no vidro gelado:

    a casa
    a rua
    os olhos
    o abraço
    é tarde
    mas ainda dá tempo

    Limpo o embaçado do vidro com a manga da blusa e apago os versos. Só necessito que deixe de chover e de doer.

  • O Menino e Matisse

    Na página aberta de um livro, está um desenho de linhas curvas entrelaçadas. O menino percorre com os olhos cada pedaço da imagem, procurando memorizar o caminho sinuoso de cada pincelada dada pelo artista. Pega uma folha em branco e fecha os olhos. Quer se certificar de que o desenho que acabou de ver está inteiro em sua memória. Traça linhas retas e curvas na folha branca. De vez em quando retorna ao desenho original, e percorre novamente, com os olhos e também com os dedos, os movimentos da figura. Ele está sozinho no quarto e desenha. Nada parece perturbá-lo. Não se trata de um simples traçado, mas de uma imitação livremente inspirada na sedução que uma linha curva sinuosa exerce sobre quem a vê. O desenho que começa a surgir na folha é peculiar: uma espécie de mesa oblíqua formada pelo entrelaçamento de numerosas linhas muito leves. Na superfície, um vaso redondo; abaixo, uma roda cheia de segmentos amorfos. Se não estivesse sozinho, o menino seria interrompido por sua mãe, chamando-o para comer; por seu pai, fazendo perguntas bobas sobre o significado do desenho em vez de perceber a beleza das linhas curvas e das linhas retas; ou por sua irmã menor, que poderia, só de pirraça, rasgar a página. Mas ele estava sozinho, desenhando em uma folha de papel as figuras que viu num livro aberto. Ele se concentrou em seu mister e só o interrompeu quando ficou escuro. Foi até a cozinha e se serviu de um copo de leite. Quando voltou ao quarto, por mais que procurasse, não encontrou a folha de papel. A mesa, a roda e o vaso estavam lá, na página aberta do livro, mas não a folha branca com o desenho que ele criara. Esse jamais reapareceria. O vaso, porém, perguntou-lhe se ele havia jantado; a mesa o abraçou, beijou-o e depois o carregou para a cama; a roda chorou a noite toda, mantendo-o acordado. No dia seguinte, a vida continuou dando voltas, como de costume.

  • Quando o nosso nome estiver gravado na pedra

    Até os dez anos me chamei Donato, embora meus pais nunca tivessem gostado desse nome. Por que me batizaram assim é um mistério. “Não está com o rosto definidoainda”, diziam. “Quando for adulto e sua cara indicar que nome deve ter, mudaremos.” E assim foi. Aos doze, com a mudança de voz, decidiram que Donato já não combinava comigo, e que o melhor nome para meu rosto recém-estreado na adolescência seria Adalberto — Beto para os amigos. Esse nome durou até a noite de núpcias, quando, no momento crucial, minha mulher me chamou de César. “Céeeesar!”, gritou ela, antes de largar o corpo na cama, suado e satisfeito. Ela casou com o Beto e tirou a virgindade do César, meus amigos faziam sempre a mesma piada.

    Desde então mudei de nome em outras três ocasiões: no escritório em que fui trabalhar eu me sentia Oswaldo, e assim me apresentava a todos; na faculdade, Péricles; na mesa de jogo, antes de bater o punho e gritar ‘Truco!”, Evanildo.

    Meus amigos se confundiam. Para facilitar a vida deles, aceitei que colocassem no meu pescoço uma tabuleta com o nome vigente e, mesmo assim, ficavam pouco à vontade quando tinham de me chamar. Achavam essa mudança de nome uma bobagem. “A gente nasce, ganha um nome e fica com ele até o fim, até morrer, não é esse o normal?”, perguntavam sempre. Eu respondia que eles tiveram sorte, que o rosto deles se moldou ao nome que ganharam no batismo e não havia necessidade de mudar. Não era o meu caso, meu rosto não era sempre o mesmo e, por isso, o meu nome precisava se adequar. Para tranquilizá-los, eu acrescentava que, um dia, seríamos todos iguais, teríamos o mesmo rosto e o mesmo nome gravado na pedra.

  • A Melhor Estação

    Ela sabe que já é outono pelo barulho crocante das folhas secas rachando sob seus passos. Ainda que não possa distinguir as cores nem os galhos secos, ela sabe. Não percebe a diferença entre os ocres, os marrons ou os amarelos-avermelhados que forram o chão, mas sente a mudança do ar, que é mais fresco na sua estação preferida. Suspira. Já não sente tanto calor quando passeia pelo parque e ainda não faz um frio que a impeça de se deitar na grama e deixar o tempo passar. Está aliviada. No outono ninguém vai persegui-la ou intimidá-la. É o tempo em que seus hormônios relaxam e ninguém irá machucá-la. Será deixada em paz. Em dias assim, não poder enxergar não lhe causa tristeza. No outono não corre o risco de ser violentada. Enquanto durar a estação, seus dias serão dedicados a desfrutar a platitude de cachorra cega e abandonada nas ruas da cidade.

  • Febre de sentir!

    Algumas pessoas têm habilidade em se doar, sentir que em sua condição humana há mais espaço para atender aos interesses dos outros ao invés de suas próprias dores cotidianas.

    São indivíduos que emocionam em manter uma relação mais frequente com o outro trocando ideias, pensamentos, conversas, sem pedras nos bolsos, que são raras e caras para muitos.

    Já, as pessoas pesadas, pessimistas e invejosas, tornam as relações diárias um prato azedo e temperado com sintomas doentios, sem regras saudáveis e com grande efeito dolorido após um encontro, que mais parece um embate competitivo.

    Os invejosos, que são os que tem satisfação com o fracasso alheio, guardam em si o prazer secreto em oferecer um alívio para sua responsabilidade em buscar o melhor de si. 

    Mas que, na verdade, seus medos, os mantém distantes de qualquer crescimento que perceba facilmente ao seu redor.

    Para quem sofre esse ataque emocional, por vezes não permite ter o ato de exteriorizar o que machuca ou incomoda, de transformar experiências difíceis – físicas, mentais ou emocionais – em palavras, ou linguagem escrita, sem receios ou filtros, o que poderia trazer alívio, clareza e serenidade.

    Uma oportunidade singular de colocar pensamentos, medos, angústias e anseios em perspectiva, é transformar experiências em palavras escritas, dando um passo adiante no reconhecimento de problemas e na busca pelo melhor modo de lidar com eles.

    Segundo a psicanalista Daisy Dalmáz, a escrita por si só é um sinal de evolução. “Sabemos que o mundo das ideias pode tudo, mas quando colocamos todo nesse universo interno na escrita, ocorre um salto de qualidade, pois, ele precisa ser organizado, precisa adquirir sentido, expressando um encadeamento de ideias e sentimentos”.

    O processo precisa ser direcionado para um conteúdo que expresse SENTIMENTOS, e não SITUAÇÕES (por exemplo: “senti raiva” ao invés de “gritei muito” ou “senti tristeza” ao invés de “chorei”).

    Aos poucos, as pessoas que seguem com a prática vão se familiarizando com a elaboração dos textos, além de aguçar a criatividade e a percepção de suas emoções mais profundas, num belo processo de autoconhecimento e fortalecimento interno.

    Como escreveu Fernando Pessoa “Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir”.

  • ARREBATADO

    Quase morto de sede, o homem implorou ao céu por chuva, mas não caiu uma gota. Olhou pra cima e não viu uma só nuvem, só luz e azul. Rogou uma praga. Perambulou pela estrada poeirenta, o sol na cabeça. Viu algo no meio do caminho: uma escultura de madeira que alguém jogou fora. Era um rosto, uma cabeça. Uma cabeça completa. O homem a pegou nas mãos e a acariciou. Limpou a poeira e viu surgirem uns olhos, um nariz, uma boca. Um rosto. O rosto de um santo? Ele não sabia. Beijou aqueles lábios, quis saber que gosto havia ali. Colocou a escultura de pé, encostada numa pedra, e tomou distância para avaliá-la por inteiro. Aproximou-se novamente. “Escute aqui, meu chapa”, começou a conversar, como se estivesse na frente de uma pessoa de carne e osso (é assim que um solitário faz com aqueles que não o ouvem, para que o ouçam: “Escute aqui, meu chapa”).

    Pediu que mandasse chover. Não choveu. Pediu que saciasse sua sede. Não saciou. Por último, implorou que o livrasse da miséria. Continuou tão miserável quanto antes. Desolado, contemplou a imagem, os traços rudes, grosseiros, talhados a canivete. Ia atirar a escultura longe, por inútil, quando percebeu um brilho rápido naquele olhar: o rosto também pedia por alguma coisa. Nos limites de sua madeira estropiada e do seu silêncio, implorava que alguém o encontrasse jogado por ali e o limpasse e lhe dirigisse orações. Suplicava que o adorassem como se adora um deus ante seu altar. Então o homem compreendeu tudo. Perdeu a sede, esqueceu-se de si e da chuva e dançou diante daquela carranca de madeira velha e carcomida. Dançou, dançou como arrebatado.

  • Os olhos dela

    Ele ia deixá-los abertos, os olhos dela, mas decidiu cerrá-los para parecer que dormia.

    Conheceram-se numa festa de final de ano, na casa de amigos. Ele gostou do jeito e da graça com que ela levantou a taça de vinho durante o brinde para a contagem regressiva. Viu quando ela tomou um grande gole no “zero!” e abriu os braços para cumprimentar quem estava próximo. “Quero ela, quero essa boneca pra mim”, ele pensou, excitado. Já era quase de manhã quando caminharam pela calçada, buscando um café aberto. Lá dentro, com as mãos sobre a mesa, trocaram carícias e toques de dedos e unhas. Conversaram muito e marcaram novo encontro, cansados demais para irem para a cama àquela hora. O dia estava quase amanhecendo.

    Na segunda vez em que se viram, ela confessou, rindo muito, que era uma bruxa poderosa e podia ver o futuro num baralho. Disse também que não revelava tudo o que as cartas lhe diziam, não gostava de provocar pânico nas pessoas. Só contava os acontecimentos mais leves, do tipo “você vai se casar com um colega da igreja” ou “seu destino será viajar pelo mundo”, coisas assim, inofensivas. Ele falou vagamente sobre seu trabalho numa instituição financeira, atividade enfadonha e desimportante. Não revelou seu fascínio por bonecas, aqueles brinquedos infantis quase insuportáveis de tão perfeitos. Também escondeu que tinha uma pequena coleção delas em sua casa. Foram para a cama naquela noite e em muitas outras nas semanas seguintes. Criaram um laço afetivo e de muita tensão sexual e apertavam-no um pouco mais a cada encontro.

    Começaram a namorar.

    Num dos tantos encontros, na casa dele, ela concordou em ler o futuro do namorado nas cartas, desde que se reservasse o direito de não dizer tudo. “Fechado”, concordou ele. “Diga-me só as coisas boas, como a data do nosso casamento, por exemplo”, ele brincou. Sentados em volta da mesa forrada com um cobertor, ela espalhou as cartas viradas para baixo e se concentrou. Virou uma a uma e comentou em voz alta e aos risos o que elas diziam. À medida que avançava na leitura dos naipes, seu rosto aos poucos se crispou e se transformou numa máscara de pavor. Olhou para o namorado, que sorria de maneira que ela nunca tinha visto. Fez menção de sair correndo de lá, mas ele a segurou pelo pescoço e o apertou até o corpo dela amolecer.

    Agora ela está deitada na cama como uma dessas bonecas que têm uma bolsa na barriga para guardar o pijama. Ele ia deixá-los abertos, os olhos dela, mas estavam tão mortos que decidiu cerrá-los para parecer que dormia. Levou o corpo inerte para o porão, onde costuma executar os procedimentos de retirada de órgãos e a dissecação do cadáver. Tarefa para a manhã seguinte.

  • Cruel

    — Estou aqui, Maria Helena.

    Quando recebeu o recado, ele não deu pelo motivo. Disseram que ela queria vê-lo, insistia em vê-lo. Estavam divorciados havia mais de dez anos, e nesse período só tinham se visto duas ou três vezes para discutir a separação dos bens. Nessas ocasiões, tratavam-se como estranhos. Ela era francamente hostil, como se o culpasse pela vida amargurada que levava após o fim do casamento. Para ele, as coisas também não tinham sido fáceis: a saída do apartamento, a perda dos amigos comuns, a mudança de emprego. E a solidão. Agora, depois de tantos anos de afastamento, ela queria vê-lo. Ele foi.

    Chegou ao hospital no começo da noite. O quarto estava na penumbra e ela, sozinha. O corpo, cheio de fios ligados a aparelhos, denunciava o seu estado terminal.

    — Mandou me chamar, Maria Helena?

    Ela virou o rosto lentamente em sua direção. Ele pôde perceber, mesmo na penumbra, os olhos embaçados, que nem de longe lembravam o belo olhar que a ex-esposa tinha outrora. Sua cabeça, quase sem cabelos, era agora uma bola acinzentada. O corpo magro e sem carnes parecia ser incapaz de suportar o peso de uma folha de papel. Era um quadro grotesco, difícil de encarar.

    — Queria me ver, Maria Helena?

    Ela emitiu um som débil e fixou seus olhos nos dele. Esticou o braço lentamente para alcançar o interruptor e acendeu a luz. Com o quarto todo iluminado, ele pôde ver o indescritível. Mal teve tempo de sair correndo dali, sufocando um grito, quando ela escancarou a boca sem dentes e expôs as gengivas negras numa gargalhada perversa, sem som e repleta de rancor.

    Na rua, apoiando-se numa parede para suportar a sensação de cair num abismo, ele subitamente compreendeu tudo: ela o chamara para que ele testemunhasse a sua decadência física e guardasse na memória, enquanto vivesse, aquela imagem medonha feita de pus, secreção e toda a crueldade do mundo.

  • O doce Augusto

    Nasceu palhaço, um grande palhaço, mas não se deu conta disso, e ninguém lhe disse. E então passou os anos fingindo uma seriedade que não tinha. Jamais prosperou: nunca foi capaz de cuspir nem dar pontapé no traseiro dos outros ou fingir que gostava de criança, pois gostava de verdade. Era mesmo um palhaço, só que não sabia que era. E por isso foi infeliz.

    Um dia, numa reunião familiar sem importância, disse com voz de falsete: “Definitivamente, não sou ninguém-guém-guém.” E todos estavam de acordo, não merecia consideração um homem frouxo como ele, que não levantava a voz ou batia o punho na mesa para defender suas ideias. Quando por acaso alguém lhe dava ouvidos, não conseguia evitar um sorriso. “Você poderia ser um grande humorista, um palhaço”, costumavam lhe dizer, “sempre teve grande talento para o humor, deveria investir nisso, ganhar dinheiro, ficar rico fazendo graça.” Ele não acreditava e mudava de assunto. Sentia solidão com frequência, mas nunca perdeu o sorriso. E era um sorriso triste.

    Numa dessas festas de casamento, teve oportunidade de exercitar sua verve humorística. Deram-lhe um microfone e ele subiu num pequeno tablado.

    — Sabem qual é o menor circo do mundo? Uma bombacha, porque nela só cabe um palhaço.

    Ninguém riu.

    — E por que um bebê de proveta não pode ser palhaço, alguém sabe? Porque não nasceu gozado.

    Novamente nenhum riso. Ele não conseguiu continuar, ninguém lhe dava a menor atenção.

    A última vez que o vi foi num encontro casual. Ele usava um chapéu-coco de feltro preto. Nos abraçamos com carinho, ele sempre atrapalhado com os braços. Dei risada e quis saber como ia a sua vida, o que fazia para viver.

    — Minha vida vai bem, muito bem, bem, bem. Sou zelador daquele prédio ali na frente.

    — E o humor?

    Ele ficou sério por um segundo. Depois sorriu: “Ora, isso acabou. Ninguém queria saber das minhas piadas. Achei melhor desistir. Aliás, você sabe o que um prédio falou para o outro?”

    Fiz que não com a cabeça. E ele: “Você tem um andar lindo!”

    Deu tchau com os dedos e foi embora, perdido nos pensamentos e tropeçando nos enormes sapatos coloridos.

  • Pessoa

    E porque viver não é necessário — necessário é criar —, ele dizia para si mesmo nas horas longas em que, de sua janela, à noite, olhava o mar: Ah, Pessoa, tu tens uma espécie de dever de sonhar sempre, pois, não sendo mais, nem querendo ser mais que um espectador de ti mesmo, tens que assistir ao melhor espetáculo que puderes. Acaso não tens em ti todos os sonhos do mundo? Então sonha, homem, sonha…

    Quando se sentia só, nas noites em que apenas os passos miúdos e rápidos de Maria Jesuína, a empregada, indo e vindo pela casa, eram ouvidos, Pessoa convocava seus amigos mais chegados, aqueles imprescindíveis, para uma festa despretensiosa na sua biblioteca: celebrar a literatura com doses generosas do melhor vinho português.

    Álvaro, Alberto, Bernardo e Ricardo se revezavam na criação da poesia mais sublime. Pessoa os olhava, recostado no sofá, sorvendo lentamente sua taça de Porto. Estava embevecido ouvindo-os falar, contabilizando mentalmente quantos e quão belos versos iria roubar deles naquela noite.

    A festa avançava madrugada adentro e só foi interrompida quando Maria Jesuína, mãos na cintura e bigodes em riste, decretou:

    — Pessoa, ainda acordado? Já pra cama!

    Despediu-se dos amigos e deu boa noite a Maria Jesuína. No quarto, pijama de flanela, ouviu o vento que passava além. Olhou seus botões e pensou: Só de ouvir o vento, vale a pena ter nascido. Sentou-se por um momento nos pés da cama, os olhos nos chinelos: Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

    Pensou nos amigos com carinho e sorriu: São todos fingidores; fingem tão completamente, que chegam a fingir que é dor a dor que deveras sentem. Gostava de tê-los sempre por perto, ainda que fugazmente, porque o valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.

    Deitou ainda uma vez os olhos no mar, além de sua janela. A vista daquela imensidão líquida e salgada apertou-lhe o coração e turvou-lhe a alma: Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal?

    Dormiu, finalmente.

    *(Citações em itálico: Fernando Pessoa)

  • Laranjas azedas com sal

    É pegar uma laranja azeda, cortar exatamente ao meio, e ir colocando sal, aos poucos, em micro-pitadas, à medida em que se vai chupando. Umas três pequenas adições de sal dão conta. O que se sente? Bem. Um pouco do azedume da laranja, um pouco do salgado, obviamente, e, surpreendentemente, um leve sabor adocicado que não deveria estar ali — pois a laranja não é do tipo doce — mas está. Ele transava, desde sempre, experimentações gastronômicas. Contudo, a laranja azeda com sal aprendera com a mãe e com as tias quando ainda menino. Hoje ele é um homem velho a relembrar o seu passado com as cores fortes de um presente que fosse. Cores e sabores, como o da única laranja que neste dia estava em cima da mesa. Para sua alegria, era uma laranja azeda. E ele a chupou com sal. O gosto era de passado.

    No sol da sua longínqua juventude ele se aquecia. Certo dia, muitos anos atrás, perguntaram-no sobre qual era a coisa de que ele mais gostava, no que ele respondeu, depois de pensar um pouco: “ —Maconha e sexo”. Ele não levou mais de trinta segundos para eleger essas duas coisas como as suas preferidas. E pensou em como estava tanto tempo sem fumar um. E pensou também que já não fazia sexo com a freqüência de meses antes — não que n’algum dia estivesse satisfeito com a freqüência de suas relações sexuais. E o fumo… O fato de o fumo ser ilegal o perturbava, pois isso o restringia na impossível liberdade de fumar onde quisesse. Maconha ilegal, sexo restrito. Ah, o sexo… Este requeria um mínimo de paixão, e, ainda, requeria uma outra pessoa, e essa outra pessoa nem sempre estava apaixonada ou presente. Ele buscava na vida o prazer das coisas do corpo – que é o mesmo que alma. Buscava satisfação. Satisfação, para ele, era uma palavra como Comunismo, ou como Extraterrestre: essas coisas que são lindas, mas que não se sabe se um dia poder-se-á ver.

    Numa tarde, ele pegou seu velho carro, que era uma extensão da velha bicicleta — sempre coisas velhas — e foi em direção ao incerto. Uma estradinha de asfalto centenário — datada de quando quase não existia asfalto. O incerto dele nunca era algo muito distante, em termos automobilísticos e viários, dada a situação do tanque com pouco combustível, sempre com pouco combustível. A velha estradinha sempre o esperava. Em silêncio e acolhedora. Ela o recebia, ele, o eterno menino velho — que sempre seria menino e sempre fora um velho –, com seu carro velho e com seu baseadinho, mas sem companhia para sexo. Numa das curvas ele acelerou mais que o considerado seguro, até que colidiu com um animal de grande porte. Era um burro. Na testa agora um pouco de sangue. No burro, caído no chão, não se via sangue, mas se via um animal tentando levantar sem sucesso — provavelmente uma fratura na bacia, ou na perna. Olhou para os olhos tristes, por fim, do burro, que parecia ter, após muitas tentativas, desistido de levantar. Sentou-se na grama, à beira da estrada, a quatro metros do burro e permaneceu, fitando-o. Sentiu vontade de chorar, mas não chegava a chorar em situações trágicas pessoais – os filmes o faziam chorar com muito mais facilidade. A morte de artistas queridos o faziam chorar, fossem contemporâneos seus ou não. Ali não chorou. Aquela situação, no entanto, era muito triste: um rapaz pobre com seu carro velho com o pára-lama direito amassado, sangue descendo na face, um pobre burro deitado na lateral da estrada, a incerteza sobre o que fazer naquele momento. E um burro, por si só, já é uma coisa triste.

    Fugir e abandonar o animal: pensou. Mas que merda… dois burros, sem ação, à beira do caminho: pensou novamente. E pensou um milhão de coisas. E multiplique-se isso pelo efeito da Canabis-sativa em sua mente. Pensamentos de todas as cores, sabores, cheiros, medos e conclusões diversas. Não seria honroso um burro abandonar o outro. Ele pensava em sua honra, ainda que não houvesse expectadores. O sol, o vento frio, o céu que avermelharia com o ir das horas.

    Milagres acontecem. Ela parou seu carro, bem mais novo, vermelho, e o ofereceu solidariedade, perguntando, primeiramente o que havia ocorrido, e como, e o que fazer, e em que posso ajudar, e como posso ajudar, e como isso foi acontecer, e como você pode mesmo ficar aí parado pensando no burro ferido quando podia dar o fora antes que o dono do burro apareça, e achou como ele era bonito, e ele também achou isso dela, e ela pegou na mão dele, e comoveram-se juntos com a situação, e saíram de perto do burro pra pensar na situação sem a imagem triste dos olhos tristes do triste animal, e ultrapassaram uma cerca, e fumaram juntos, e roubaram umas laranjas, e eram azedas, e aquilo era bom, e ela limpou seu rosto com a blusa molhada no riacho, e fizeram amor, e foram felizes, felizes, felizes… Voltando à estrada ela disse: “— Há uma hospedaria de cavalos perto daqui onde podemos avisar que há um pobre burro com a pata quebrada. Tem veterinário lá. Eles poderão dar um jeito. Não precisamos falar que você o atropelou”. E assim foi feito. E assim eles disseram: “— Até qualquer dia!” E eles nunca mais se viram. E o burro viveria feliz até o fim dos seus dias.

    Voltando pra casa com o velho automóvel, de sua pequena viagem, ele trazia na mochila algumas laranjas azedas. Já na cozinha, as chupou com sal.

    *Publicado originalmente no Crônicas Cariocas em seg., 15 de jun. de 2009, 10:21

  • Na casa do pasto

    Perto do pasto só há uma casa. Em pé na soleira, um homem e uma mulher discutem. Em questão de horas sairá dela outro filho, a parteira já deve estar chegando. As outras crianças, cinco ou seis, já crescidas, brincam na terra com o cachorro.

    Da barriga da mulher escorregou uma menina. Pequena, chorona, magricela, sem muita roupa para vestir, ainda bem que estava fazendo calor. A comida que há na casa do pasto não é suficiente para a fome de todos. A mãe precisa comer mais do que os outros, tem de encher os peitos de leite. O leite vai para a criança que ainda nem abriu os olhos.

    O homem se encarregou de enterrar a menina atrás da casa, abaixo da janela. Cova rasa, que o volume não precisava de muita fundura. Foi sem batismo, porque não deu tempo. Cruz, flores e uma tábua para quem quisesse ler o que estava escrito nela: Marilda. O cachorro vive enfiando as patas na terra em volta da casa, cavucando.

  • A doença

    Olhei no espelho e vi uns olhos que não eram os meus. Esse rosto assim magro, assim pálido, assim descolorido, não era o meu. No entanto, era eu que estava refletido, era eu que me olhava. Baixei os olhos, quem sabe a imagem do outro lado desaparecesse e eu voltasse a me ver como era antes. Levantei o olhar e vi, de novo, esse rosto assim magro, assim pálido, assim descolorido. Suspirei, conformado, e comecei. Passei a espuma nas bochechas e fiz massagem delicada com o pincel. O cheiro era agradável, mistura de menta e madeira. A lâmina descia suave sobre a pele, arrancando os pelos indesejados.

    Então me lembrei dela, a maldita. A lembrança se materializou e ela surgiu atrás de mim, olhando-me calada. Senti um calafrio na espinha e medo, muito medo. Sua imagem refletida no espelho me assustou, sua aparência não era bonita, mas isso não tinha a menor importância, não naquele momento em que uma fera se prepara para o bote. Virei-me e a encarei. Precisei pensar se a deixaria ficar ali ou não. Decidi que não. Disse num sussurro: “Seu lugar é no inferno, não aqui, no meu corpo. Vá!” Sem nada responder, ela me mostrou sua mão e nela havia uma ferida, como a chaga de Cristo, aquela produzida por obra de prego e martelo impiedosos.

    Parei segurando a lâmina no ar, a cara ainda cheia de espuma. Ela tentou grudar a chaga em meu peito, como uma tatuagem, uma identificação. Fiz um gesto brusco: “Não seja estúpida!” Não queria ficar marcado para sempre — “Ali vai o homem marcado, que o destino escolheu. Coitado.”

    “Não seja estúpida!”, repeti. Ela recuou. Olhou com medo para a lâmina que eu empunhava e desapareceu. Voltei a ficar de frente para o espelho e continuei escanhoando meu rosto. A espuma foi sumindo e o que surgiu foi meu rosto limpo, ainda magro, ainda pálido, ainda descolorido. Mas agora já o considerava meu de novo.

  • Um dia, uma mosca

    Ainda que não soubesse, não percebesse nem desconfiasse, ele estava esperando por ela. O seu corpo engordurado de suor era como um pote de mel para a mosca que entrou pela janela e se precipitou em voo rasante na direção dele. A modorra da tarde, o calor entorpecente, a ausência de vento e a sala vazia não fosse ele ali deitado, lendo: a mosca recém-nascida começava a apreender o mundo.

    Ele a afasta com um gesto de mão, inútil, os olhos postos no livro. Não entende que, naquele momento, está convertido num banquete de oito talheres para um ser faminto. A mosca volta a se aproximar, sem cautela, decidida. Quer lambê-lo, acariciá-lo, beijá-lo, chafurdar nas lagoas de suor formadas entre as dobras da pele. Amor: ela ama e é dessa maneira que ela ama. Novo desprezo, gesto de mão mais enérgico, tão inútil quanto o anterior. Ela o olha, pousada na borda da mesa. Ele não se dá conta, entretido na leitura, embora tenha perdido um pouco a concentração. É difícil manter-se atento às palavras impressas quando uma mosca – a sua mosca! – está aí tão perto.

    Ela o estuda. Prepara nova investida, tomada pelo desejo incontrolável, lascivo, de se misturar ao cheiro podre que emana daquele corpo suado. Rechaçada uma e outra vez pela mão violenta dele, ela pousa não muito longe dali, perto da janela. Uma lâmina aquosa quase imperceptível desliza, como orvalho, por seu rosto diminuto e brilha durante um décimo de segundo sob o sol daquela tarde. Ela chora a rejeição. Pouco tempo depois estará morta, possivelmente esmagada pelo tapa que ele lhe dará quando ela menos esperar. Pronto. Assim, ele voltará à leitura e à tarde modorrenta, e continuará a suar sem ter nunca a consciência de que um dia houve uma mosca que o amou mais do que ninguém.

  • Juno

    — Não tenha vergonha de olhar para mim.

    Ele falava com uma senhora muito elegante, cujo cão tinha parado para fazer suas necessidades perto de onde ele estava sentado, sobre um papelão sujo, com as costas apoiadas na parede de uma padaria no centro de São Paulo. A senhora, que esperava o bicho se aliviar, olhava de soslaio para ele: o corpo magro, a barba branca que lhe cobria quase o rosto todo, os cabelos compridos e também brancos, os andrajos imundos, os pés pretos de sujeira enfiados em velhas havaianas, uma mochila surrada ao lado. Perto, um copo de plástico com duas ou três moedas, uma garrafa de água, um guarda-chuva, uma sacola de supermercado com algumas frutas.

    — Não tenha vergonha de me olhar, já estou acostumado. Posso suportar. — Ele repetiu, esboçando um sorriso.

    A senhora se agachou com um saco plástico na mão para recolher o cocô do cachorro e, ao se levantar, manteve os olhos baixos.

    — O senhor pode suportar, mas eu não. — A mulher deu um nó no saco plástico com as fezes do animal e olhou em volta, procurando a lata de lixo mais próxima.

    — Senhor não, não precisa. Pode me chamar de você. Meu nome é José Núncio. A turma me chama de Juno.

    — Maria do Carmo. Desculpe, o meu cachorro fez sujeira bem perto de você.

    — Não tem problema. Vejo que você carrega um livro.

    — Sou professora. De História.

    Juno pegou a mochila e tirou de dentro um exemplar de História do Mundo Contemporâneo: um velho livro de bolso com as folhas encardidas pelo manuseio.

    — Já li outros livros, mas este foi o único que me sobrou. Ler é instrutivo e eu gosto muito.

    — Ler é uma das coisas mais importantes da vida. — Maria do Carmo concordou, ainda procurando onde jogar o saco com o cocô do seu cachorro.

    — Uma vez ouvi dizer que só existem duas maneiras de se ganhar conhecimento: viajar e ler. Como não posso viajar, eu leio.

    — Se você quiser, amanhã trago outro livro para você.

    — Como não vou querer? Se puder, me traga um sobre o mundo antigo, para comparar com esse de história contemporânea que tenho aqui. Ficarei agradecido.

    Maria do Carmo fez um aceno com a cabeça e se despediu. Andou oito ou nove passos e voltou para deixar algumas moedas no copo de plástico.

    — Não precisava ter se incomodado.

    — Não foi nenhum incômodo.

    — Deixe comigo também o saco de cocô do seu cachorro. Tenho que me desfazer do meu cocô também.

  • ESCOLHAS

    Pode-se não dizer nada (e isso talvez não seja tão difícil). Pode-se guardar as palavras, esquecer os substantivos, calar os adjetivos, ignorar os verbos. Pode-se não pensar no toque de peles mornas nem em anoiteceres compartilhados, muito menos em entardeceres com cheiro de comida. Pode-se não intuir nem imaginar. Pode-se tirar tudo da frente dos olhos: os relógios, os mapas, as geografias, as histórias, as memórias, o passado e o futuro. Pode-se não ler livro algum. Pode-se ler todos os livros. Pode-se queimar todos os livros do mundo. Pode-se cancelar os nomes e as coisas, confundir as línguas, negar as emoções, camuflar as lágrimas, dissimular os sorrisos, refrear os abraços, interromper os diálogos, prantear ou não os mortos. Pode-se fingir que a lâmina não fere rente.

    Pode-se fazer tudo isso e segurar as consequências nos dentes. Ou então se sentar na frente de uma montanha, passar a vida contemplando-a e morrer lentamente de morte natural.

    Está posta a escolha.

  • Agora não é hora

    Agora não é hora, e peço que não me perguntem quando e como aconteceu. Se fazia frio ou calor, se a lua estava cheia girando no céu ou, ao contrário, se havia nuvens se juntando para a conspiração da chuva, se a cidade estava tranquila ou era o formigueiro habitual de cotovelos se chocando, se os pássaros gloriosos de Harold e Maude singravam a amplidão ou se havia quietude no firmamento, se os carros tiravam faíscas do chão ou se o asfalto dormia seu silêncio: não me perguntem nada, nem queiram saber de nada.

    Perguntem-me, isso sim, se me lembro de sua blusa florida aberta até a altura dos seios, de sua saia rodada que terminava perigosamente na altura dos joelhos, de seus sapatos pretos que faziam círculos na terra sob o banco em que estávamos sentados sob aquele céu, naquele parque, naquele dia. Não tenham receio de querer saber se ainda me recordo de seu pescoço descoberto, com a cascata de cabelos cuidadosamente depositada sobre um dos ombros, deixando o outro exposto para a contemplação e o desejo. Sim, disso tudo eu me lembro.

    Minhas retinas também não esquecem suas mãos, sempre nervosas, seus olhos, inquietos todo o tempo, e seus lábios, de onde saíram as palavras que me mataram por dentro. Perguntem-me sem medo se ainda sinto o contato de seus dedos no meu rosto, nas minhas pernas, no meu cabelo, mas não queiram saber se havia pessoas ao redor ou se algum cachorro latiu naqueles momentos intermináveis de agonia. Disso eu não sei.

    Perguntem-me pelo rosto dela, ainda que não saiba defini-lo nem descrevê-lo e ainda que ele esteja gravado em minha memória. Mas não me perguntem pelas lágrimas que brotaram daqueles olhos, por aquela forma de chorar que me cortou o coração, que era a forma líquida, junto com a concretude das palavras, de me matar. Nem falarei de como ela enxugou o rosto com o dorso das mãos, de como se soltou de meus braços, de como se levantou e caminhou pelo parque, se distanciando de mim, perdendo-se entre as pessoas, sumindo na cidade para entrar definitivamente nos meus sonhos: ela, convertida em sombra; eu, em nada.

    Eu sou esse nada sentado sozinho nesse banco, nesse parque, sob esse céu que ainda não se decidiu se despeja a chuva ou se mantém lá no alto a lua cheia girando sem sentido, sem razão, sem porquê. Mas não me perguntem nada, agora não é hora.

  • O velho piano

    Com as costas curvadas e as mãos apoiadas nos joelhos, o velho Amadeu contabilizou o produto de sua semeadura: recolheu duas cenouras que tinham brotado no meio das alfaces e das couves. Gostou da surpresa. Analisou e viu que as cenouras eram boas. Preparou e comeu uma salada fresca no almoço. No mesmo dia, resolveu experimentar algo novo: plantou no meio das abobrinhas uma flauta, um violino, duas partituras de Bach e um Dó Maior. Cobriu tudo com muito cuidado, apalpou com força a terra, regou e foi descansar. Sentou-se na varanda e contemplou o bom trabalho que fizera. Cuidou da plantação por dias, semanas. Arrancou as ervas daninhas e nunca deixou que faltasse água. Uma manhã, quando abriu a janela, gritou de alegria. Chamou os vizinhos e apontou sua horta, onde reluzia um majestoso piano de cauda.

    Tinha brotado ali, por sua dedicação e cuidado, o mais belo piano de cauda que todos jamais viram. A notícia correu a cidade e virou assunto de todas as conversas. Logo a multidão chegou para ver e passar os dedos sobre a madeira cintilante. Discutiram sobre a excelência da marca, a qualidade das teclas, o branco tão branco e o negro tão retinto que até doía nos olhos. Que instrumento imponente! Não tardou os professores e artistas da cidade organizaram concertos, aulas de música a preços camaradas, concursos para descobrir novos talentos musicais em toda a redondeza. O velho Amadeu não cabia em si de contentamento. Quando perguntavam, dizia que o segredo daquilo tudo era… um segredo. E mais não contava.

    Numa tarde de abril, o velho Amadeu levou as mãos ao peito e fechou lentamente os olhos. Estava sentado na varanda olhando o piano no meio de sua horta. Pensava nas belezas sonoras que brotariam daquela madeira reluzente. Quem o encontrou disse que ele partira com um sorriso.

    O tempo e sua crueldade se encarregaram de diminuir o viço daquela novidade extraordinária. Uma manhã, quando somente os passarinhos visitavam o piano e o limo cobria quase todo o teclado, veio uma máquina e levou o velho instrumento para o depósito municipal de sucatas e ferro velho. E lá ele permanece até hoje, silencioso e coberto de poeira, ao lado do projetor de filmes, dos aparelhos de som, do foguete espacial e de outros objetos que já não têm mais nenhuma importância ou serventia nos dias de hoje.

  • Striptease

    De longe, só se vê que há luz no quarto, mas pouco se distingue o que acontece lá dentro. Com meu binóculo, escondido atrás da cortina no apartamento do prédio em frente, tenho visão privilegiada e posso ver tudo com detalhe. Posso vê-la tirar a roupa, por exemplo. Como agora. Ela acabou de entrar. Jogou a echarpe no chão e sentou-se na borda da cama para tirar os sapatos de salto. Joga-os num canto. Começa a desabotoar a blusa. Noto que está um pouco mais cansada do que o habitual, há rugas acentuadas na testa, olheiras fundas. Imagino o dia puxado de trabalho que ela teve e me comovo.

    Agora de pé, ela abre o zíper da saia e a deixa cair até os tornozelos. Com um movimento da perna direita, joga a peça em cima da cama. Vai de um lado ao outro do quarto, olhando em volta, como se procurasse algo. Para e inclina-se para tirar a meia-calça, que larga no chão. Assim, de blusa e calcinha, descalça, solta o coque e balança a cabeça enquanto os cabelos lhe cobrem as costas. Parece que encontrou o que buscava. Acende o cigarro e fuma na frente da janela, olhando o movimento da rua.

    Volta-se para dentro e apaga o cigarro no cinzeiro da mesinha de cabeceira. Retorna ao ritual de desnudamento. Tira as rugas, aquelas que ainda povoam seu rosto e que resistem ao creme hidratante usado diariamente. Arranca também as manchas dos braços e as olheiras escuras que lhe fazem penumbra nos olhos. Desfaz-se completamente das varizes e estrias das coxas e panturrilhas. Aos tufos, e com movimentos bruscos das mãos, livra a cabeça dos indesejados cabelos brancos que envelhecem a moldura de seu rosto. Olha-se de costas no espelho grande da penteadeira e arranca de uma vez a gordura acumulada nas nádegas. Agora de frente, elimina por completo, com a ajuda de uma esponja, o olhar sombrio que tinha até então. Esfrega os seios e o sexo, empurrando para o chão todos os homens que escreveram a história de seu corpo. Por último, respira fundo como se precisasse tomar coragem e puxa de uma só vez a cicatriz da cesariana.

    Completamente nua, o olhar sereno, fecha as cortinas e apaga a luz.

  • Uma nova quadrilha

    Carlos gostava dos dias frios. Laura, dos ensolarados e quentes. João, dos chuvosos. Laura assistia a todas as telenovelas. Carlos, às partidas de futebol. João preferia os livros. Laura falava muito, sempre. Carlos, um pouco menos. João, só o necessário. Laura acreditava em Deus sobre todas as coisas. Carlos era ateu. João, agnóstico. Carlos adorava dançar e era ótimo nos bailes. Laura gostava mais dos concertos; ficava louca com Debussy. João era cinéfilo e sabia de cor os diálogos de Cidadão Kane. Laura se vestia com simplicidade e descontração. Carlos sempre combinava o sapato com o cinto. João não abria mão do jeans e camiseta.

    Carlos, Laura e João eram grandes amigos. Colegas de faculdade, não se largavam. Iam os três ao cinema, para que João ficasse feliz. Ou aos concertos, para que Laura pudesse chorar de tanta emoção. E aos bailes, para que Carlos mostrasse suas habilidades de bailarino. Laura amava Carlos, mas não era correspondida porque Carlos amava João. E João não escondia sua paixão por Laura. Até que Laura, num concerto de Stravinski, conheceu Edgar e se casou com ele (morria de medo de ficar para tia). Carlos mudou de sexo, adotou o nome artístico de Kátia e fez carreira como cantora lírica na Itália. João ficou solteiro e tornou-se escritor; Laura, Edgar e Kátia foram convidados para o lançamento de seu primeiro romance, Quadrilha

  • Os esquecidos

    Existe esse bairro do qual pouco se ouve falar, encravado na periferia extrema de uma grande cidade. Um lugar miserável feito de papelão, barro e lata velha, com cadeiras coxas nas portas e arremedo de jardim sem flores debaixo das janelas. Nesse ermo, sempre deixado de lado, vivem os esquecidos, uma gente feia à qual a gente da cidade entende por bem dar as costas. É um aglomerado de mortos-vivos que perambulam, comem quando conseguem o que comer, transformam coisas em cores e só têm olhos para onde seus pés pisam.

    Um dia desses, um dia qualquer desses, algo surpreendente aconteceu no mundo. A terra tremeu e rachou, o mar se agigantou para além do que é ser gigante, bilhões de insetos romperam os ovos ao mesmo tempo, a lavoura secou, os animais caíram doentes, os homens e as mulheres sentiram o pavor na pele e choraram pelo destino de seus filhos. A água que se bebia ficou podre, a comida escasseou, o mato cresceu e tapou a paisagem, uma enfermidade veio após a outra, o ar se encheu de poeira, a lua se aquartelou atrás de um planeta desconhecido, o sol perdeu seus raios e pareceu esfriar.

    Enquanto tudo isso acontecia, o bairro dos esquecidos, de tão esquecido que era, foi deixado de lado. Em lugar já tão miserável, não havia espaço para mais miséria. Quis a sorte que as latas velhas e as pessoas que viviam dentro delas sobrevivessem ao apocalipse.

    Agora é com eles, com os esquecidos, e só com eles, que está esse negócio de crescer e se multiplicar de que falava um tal livro que eles nunca leram.

  • Trama subjetiva nas mentes!

    O poder político mantém certas ideias para gerir uma nação, desenha caminhos fartos de opções no cotidiano do povo, que está a espera de sua colaboração e sustento. 

    O poder da biologia carrega em suas raízes a capacidade de escrever a data de seu velório. 

    O poder espiritual, sustenta a igreja com certas regras e posturas limitadas pela fé, diferenciado substancialmente com espírito e alma aos pés de sua prole. 

    Carrega a eternidade como salvação das almas e mantém o religioso atento às esperanças de paz no céu após sua partida. 

    Como entender o predomínio de um poder que tal data manda, tal povo, tal decisão e aspirações, se os propósitos parecem distintos e as forças diferenciadas? 

    No tempo de Milcíades, um jovem General Helenico que comandou a vitória sobre os Persas no mundo mediterrâneo, ignorava-se a existência do mundo extremo-oriental, e o poder exercido em tal época não tomava conhecimento de absolutamente nada mais, além da poderosa Atenas, maior potência da antiga Grécia. 

    Esse isolamento vaidoso, transformou esse general soberbo em um derrotado, e preso, ao final malogrado. 

    De maneira similar faziam os guerreiros de Atenas, para suas mulheres. 

    Elas Teceram para seus homens, soldados, ausentes além da morte, dedicadas aos filhos e sustento da família. Subservientes a supremacia masculina, talentosas, entregaram suas vidas e desejos ao se dedicarem exclusivamente as lides domésticas, a servidão sexual, a procriação, para alimentar a guerra, e por isso sofreram suas perdas.

    A Grécia Antiga não era uma nação, mas sim um conjunto de cidades-estados cujos povos possuíam algumas características em comum, como a semelhança linguística, por isso foram chamados genericamente de gregos. 

    Porém, ninguém jamais exerceu tanto poder na terra quanto a soberania da opinião pública, que é a força radical, e que produz, nas sociedades, o fenômeno de mandar e descobrir o que é verdadeiro.

    A verdade é algo instável, resultado de uma negociação, porque a história é contada com a versão de cada narrador, e o poder é a questão central de nossa existência, é a maneira como estamos dispostos a aceitar o valor de certos discursos contra outros. 

    E isso depende de quem está falando, se é poderoso, homem ou mulher, branco ou negro, sempre irá exercer uma trama subjetiva nas mentes do povo, que se mantém na expectativa do próximo passo, que o leve a redenção. 

    Além da morte, não sabemos ao certo o que é verdade, apenas até o seu momento.

  • Diário do comandante do grupo de sobreviventes

    Segunda-feira, 15 de março

    Cruzamos a linha que tínhamos marcado no chão como limite infranqueável e com isso provocamos esse desastre que nos trouxe até aqui, à beira do abismo. Fomos imprudentes e as consequências não tardaram. Acredito que nada possa piorar. É grande a sensação de que fodemos com tudo. Quase podemos sentir a respiração dos inimigos em nosso pescoço, o bafo quente deles em nossa nuca. Estamos vulneráveis, mas ainda armados e lutando e nos defendendo todos os dias. Abatemos três esta manhã.

    Sexta-feira, 26 de março

    É hora de levantar e respirar um pouco. Temos que recobrar os ânimos e buscar a cor verde para alegrar as pupilas de todos. Precisamos ver árvores, florestas, bosques, passarinhos piando entre as folhas. Para onde estendemos os olhos só vemos o cinza, a fumaça, o céu preto. Está na hora de nos abraçar e começar de novo. Necessitamos de um pacto entre nós. Sobreviver, para poder viver.

    Tenho animado a tropa na medida do possível, quando o tiroteio dá uma trégua. Não está sendo fácil, mas vou conseguir.

    Quinta-feira, 2 de abril

    Esse tem sido o meu maior erro nos últimos tempos: ignorar a verdadeira natureza do ser humano, que é capaz de produzir o desastre mais inacreditável sobre ruínas já existentes. Não nos contentamos com o ruim, queremos sempre chegar ao pior.

    Perdemos o Desidério, ele se deu mal no corpo a corpo com o inimigo. O Anacleto pisou numa mina que estraçalhou seu corpo, tivemos que enterrá-lo aqui mesmo, perto da trincheira. O Negro quase pisou também, mas viu a tempo e conseguiu se salvar.

    A comida está perto de acabar. A água também. Todos comemos uma vez só ao dia. Estamos economizando a ração que nos resta.

    Aqui o tempo demora a passar. Às vezes parece que nem passa.

    Quarta-feira, 15 de julho

    Não há mais razão para continuar lutando. Tudo degringolou de maneira que ninguém poderia imaginar. A catástrofe de alguns meses atrás foi somente um prelúdio inocente em comparação com o que ocorre agora. Estou escondido numa cova com uns poucos soldados. Eles resistem com bravura, mas não sei por quanto tempo estarão dispostos. Eles são cada vez em menor número e dia após dia perdem o entusiasmo. Tenho que ser criativo para animar a tropa. Não é sempre que consigo.

    Sexta-feira, 17 de agosto

    A bravura dos soldados se esfumaçou. A vida deles também. Enterrei um ao lado do outro. Pus um pedaço de tábua com o nome de cada um para identificar quem era quem. Fiquei só. A comida está no limite. Água, só a que está dentro do meu cantil.

    O tempo ainda demora muito para passar.

    Sábado, 18 de agosto

    Esta guerra, qual é mesmo a razão dela? Já não me lembro mais por que tudo começou. Ou como viemos parar aqui. Ou quem nos mandou para cá. Não vejo a hora de voltar para casa, tenho muita saudade.

    Domingo, 19 de agosto

    Estou só. O inimigo teve tantas baixas quanto nós. Percebo que no outro lado há apenas um também. Já o localizei com a mira telescópica da metralhadora e tenho a cabeça do sujeito no alvo. Sei que ele também aponta sua arma para o meio da minha testa.

  • Os imitadores

    São excelentes na arte de fingir que vivem e que respiram como nós. Imitam com tanta perfeição os movimentos humanos, que só a constante e mecânica repetição de gestos e olhares os denunciam como bonecos de palha. Homens, mulheres e crianças vagam pelas ruas e cidades parecidos com o que pretendem ser e são bastante convincentes. Só não têm alma ou qualquer vestígio de emoção. Não salivam de alegria na frente de um sorvete de morango nem piscam de excitação diante de uma obra de arte. Nada os desequilibra ou impede que se multipliquem e invadam todos os lugares, casas, restaurantes, escolas, museus, parques, transporte público. Estão por toda parte e é fácil identificá-los: orgulham-se de sua semelhança com os humanos e demonstram isso falando alto em público e gargalhando de maneira esganiçada para chamar atenção.

    O dono desses seres exercita sua habilidade criadora nos menores detalhes: forja à perfeição o brilho da pele, o volume da carne, o torneado dos músculos, o arregalado dos olhos, o floreio das mãos, o sorriso na visita ao zoológico. Um homem tem tique nervoso, uma mulher esboça de maneira permanente um meio sorriso, uma criança resfriada engole o muco que desce do nariz como se fosse gelatina.

    Tudo transpira a humano, mas não é. São criaturas manipuladas como títeres, sujeitadas por cordões invisíveis e se movimentam e agem de acordo com a orientação que receberam quando vieram à luz: “Façam o que os humanos fazem, suguem como esponja as palavras e os gestos deles, misturem-se à multidão, aos pedestres que zanzam nas ruas e avenidas. Em pouco tempo serão como eles são. Boa sorte a todos.”

    Se são quase perfeitos na imitação da vida, eles se superam na perfeição absoluta da morte: quando ela está para chegar, o rosto deles é tomado por uma palidez inicial e, aos poucos, ganha tonalidades intensas de vermelho, marrom ou roxo, o corpo perde os movimentos e a elasticidade e, de maneira surpreendentemente rápida, apodrecem. O destino, implacável, cuida do resto: a sobrevida dessa gente artificial se dá por pouco tempo, em alguma fogueira aleatória. É no meio das chamas que estrebucham pela última vez, contorcendo o corpo e agitando os membros em súplica. Transformam-se rapidamente em cinzas, que é o fim de tudo o que cai na língua do fogo. O vento termina o serviço.

  • CINZAS

    As cinzas dele

    “Espero que me perdoe, querida, pelo trabalho que lhe dou como meu último desejo.” Assim terminava a carta que ela leu com alguma indiferença. Era um pedido do marido (nem quando morto ele deixava de incomodar), que a essa altura estava convertido num montinho de cinzas. Saiu do crematório com a urna embaixo do braço. Pensou durante uns minutos. “Não vou dirigir duzentos quilômetros até o litoral nem morta.” Foi para casa. Parada no meio da cozinha, olhou em volta. Descartou de imediato, por uma questão de higiene, as panelas, a batedeira elétrica e o liquidificador. Pelo mesmo motivo não considerou a banheira nem o bidê. Decidida, foi até a área de serviço e jogou as cinzas na lavadora de roupas. Adicionou uma colher de sal. Escolheu um programa de lavagem rápida e ligou a máquina. Olhou o giro do tambor por alguns minutos, apreciando como as cinzas se misturavam à água salgada. Não era mar, mas parecia. Deu como cumprido o último desejo do marido. Que Deus ou Seja-Lá-O-Que-For o tenha. E pronto.

    As cinzas dela

    Tu tranquila aí, meu bem, que teu marido aqui ainda tem sangue, nervos e coração. Tô com um dilema, matutando aqui, mas vou resolver isso logo. Tu fica aí, quietinha e sem medo, que as coisas se ajeitam. Hum… O vaso grego, tá lembrada? Vai ser dentro dele, acabei de decidir. Sou muito rápido pra cuidar desses assuntos, tu me conhece. Tu quis comprar esse troço cafona porque combinaria com as almofadas do sofá, foi assim que tu disse, mas no mês seguinte tu trocou a estampa das almofadas, tem cabimento? Agora o vaso não combina com porcaria nenhuma nem tem serventia. Bem que pensei em usar a peça como bebedouro do Pipoca, ou então encher de terra e plantar margaridas, mas desisti. Fique sossegada, nada de terra aqui, que não sou um homem desalmado, ora bolas. Não me esqueci da paúra que tu tinha com a ideia de um monte de terra em cima de ti, por isso mandei te cremar. Agora tu é esse montinho de cinzas e não precisa temer mais nada. Tua última vontade foi cumprida: não vai ter terra em cima do teu corpo mirrado. No máximo, coloco na boca do vaso aquela toalhinha de crochê que tua mãe deu, que é pra não entrar bicho. Assunto enterrado, ops, encerrado.

  • Pink Flamingo, o devasso e o certinho

    Peguei o táxi na Visconde de Pirajá como quem vai saltar de paraquedas — eu, sedento pela farra, e o poeta carioca ao meu lado, trajando cachecol marrom e sorriso aberto, pronto para qualquer desvio de conduta. No rádio, Caetano entoava seu inconformismo poético:

    “Vaca das divinas tetas
    derrama o leite bom na minha cara
    o leite mau na cara dos caretas”

    E eu, espremido entre banco e sede de noite, absorvia cada verso como promessa de libertinagem, enquanto o carioca soltava um riso baixo, fingindo anotar tudo num diário imaginário.

    O mineiro acomodado ficou no hostel, reclamando que só queria pizza, redes sociais e cama cedo. “Vai lá e depois me conta”, disse ele pelo whatsApp, sem imaginar que a noite carioca nos devoraria vivos.

    Quando o táxi estancou em frente à Pink Flamingo, cumprimentamos a hostess com um aceno torto — convite formal para o desenrolar da loucura. Em seguida, descemos a calçada e fomos comer uma pizza ali perto, vapor subindo em redemoinhos dourados:

    — Tira foto da minha bunda pra mim?

    — O quê?

    — Uma foto da minha bunda. O jeans tá muito justo.

    O casal chileno da mesa ao lado, estupefato, se entreolhou em silêncio, incapaz de decifrar a pepita de humor brazuca — um homem fotografando a bunda do outro numa pizzaria, só em Copa mesmo.

    O carioca, metódico que nem relógio suíço, tirou do bolso uma folha de papel e começou a riscar cada centavo: táxi, ingresso, pizza, deslocamento do Méier a Ipanema. Tudo anotadinho para a planilha do Excel no fim do mês — certinho com o botão de camisa engomado; eu, já com o cartão pronto pra estourar e a alma pronta pra esgotar quaisquer limites.

    Recarregados pela fome saciada, fomos a pé de volta à Pink Flamingo. A chuva miúda fazia do asfalto um espelho trêmulo, realçando o letreiro cor‑de‑rosa no fim da rua. E foi ali, sob aquele brilho artificial, que vimos a drag Cútis Negra descendo de um Uber, batom borrado e aura de quem invade um palácio. Outras drags se amontoavam, homens de mãos dadas cochichavam segredos e mulheres de saias curtíssimas sacudiam o quadril como lei. Ali, percebi que o escárnio e o êxtase formavam uma única batida — e era nela que eu buscava redenção.

  • O Sótão

    Se desejava chorar, a avó subia até o sótão. Ali cobria o rosto com as mãos para, inutilmente, conter as lágrimas, imaginando que ninguém a escutava. As crianças todas íamos devagar e colávamos o ouvido na porta. Ouvíamos quando ela suspirava, quando assoava o nariz no lencinho, quando ficava em silêncio, esperando que a calma secasse seus olhos. Se algum de nós ficasse com dó e fizesse menção de entrar para fazer um carinho em sua cabeça, a mãe nos impedia com um gesto de “deixe que isso logo passa”.

    Quando queria rir, a avó também subia para o sótão e gargalhava de quase se acabar. Também nessas ocasiões íamos pé ante pé e ficávamos escutando o riso atrás da porta. Mãe dizia que, se o caso era de riso, podíamos entrar no cômodo e rir junto com a avó, mas preferíamos ouvir as gargalhadas ali mesmo, diante da porta fechada.

    Um dia, a avó resolveu que nunca mais iria chorar ou rir, nem que tivesse vontade. Desde então, nós, em dias alternados da semana, subíamos até o sótão para rir ou para chorar. Ignoramos se a avó nos escutava atrás da porta.

  • Compreender a Natureza

    Escapou do cercadinho quando ainda era madrugada e todos dormiam. Teve um pouco de medo, mas percebeu de imediato que o medo era bom e fazia a imaginação voar. Foi para o campo aberto e se maravilhou com os tons de verde e dourado que cobriam a vegetação rasteira. A lua ainda brilhava pendurada no céu, quase desaparecendo já. “Então é esse o mundo de que tanto falam”, disse para si mesmo. Dilatou as narinas: “E esse é o perfume das flores!”

    Descobriu o sorriso na própria boca. Chafurdou nas plantas do rés do chão. Lambeu o orvalho fresco que pingava das pétalas das margaridas. Mastigou os talos tenros e suculentos da grama ao redor. Queria a todo custo fazer parte desse novo mundo. Olhou para o horizonte e pensou o impensável: “Tivesse asas, chegaria até lá.” Tudo em vão, porque compreendeu sua natureza e, por mais esforço que empreendesse, sempre seria um porco.

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar