Conto de segunda

  • Sacripantas

    Zími acompanhou Silvano num sábado pela manhã, para que fizessem um serviço de carreto na Vila Mariana. Às oito horas saíram da garagem do prédio onde moravam, no centro de São Paulo.

    Era um trabalho rápido, e já estariam livres na hora do almoço.

    Zími, com uma camiseta dos Circles Jerks feita em casa, receberia um pagamento modesto, talvez simbólico, mas seria suficiente para as suas necessidades imediatas, até que recebesse mais algum dinheiro trabalhando como copy writer ao longo da semana seguinte.

    O trânsito estava esquisito, mas era perto e logo descarregaram da Kombi caixas de cosméticos para um salão de beleza.

    Naquela rua, numa distância pequena, três bares disputavam clientes entre as poucas pessoas que passavam ali, sob o sol forte que fazia naquele dia.

    Um dos bares tinha um bom público e era o maior deles. 

    Era também o mais novo dos três, tendo sido inaugurado semanas antes.

    O outro era intermediário e ainda assim grande, e havia ali um sujeito tomando cerveja junto ao balcão.

    O terceiro bar era o menor e mais modesto, e também o mais antigo entre eles, e estava vazio desde o momento em que Silvano estacionou a Kombi por perto.

    Fazia muito calor em São Paulo.

    Silvano disse que Zími precisava ver o show que aconteceria no bar intermediário às catorze horas. Silvano explicou que assistiu ao show do mesmo sujeito que tocaria ali naquela tarde, e talvez em todos os outros sábados.

    Disse que aquilo era uma inspiração e um encorajamento para começar uma carreira musical independente, como o duo Crop Circles, banda em que Zími é baterista e vocalista, junto de Mila Cox, que era baixista, vocalista e também usava sintetizadores.

    Eventualmente usavam guitarra nas gravações, mas não nos shows.

    Então estavam Zími e Silvano fumando um baseado encostados na Kombi depois de feita a entrega dos cosméticos.

    Terminaram o baseado e Silvano tirou de algum lugar de dentro da Kombi uma garrafa de cachaça de amora, que havia sobrado de um lote comprado no dia de um show em Itatiba.

    Por volta das catorze horas, sob calor excessivo, um cara estacionou uma Parati na frente do bar intermediário. 

    O sujeito que tomava cerveja desde cedo ainda estava lá. A kombi estava na mesma calçada, poucos metros adiante.

    Silvano pediu que Zími prestasse atenção a tudo que o sujeito fizesse.

    Ele montou o kit do banquinho, microfone e um amplificador, de onde saíam bases pré-gravadas, sobre as quais ele tocava violão.

    Zími pensou que Silvano estava fazendo piada com ele.

    O cantor nem havia começado o show e Zími já havia visto nele toda a canastrice e picaretagem possíveis.

    Do outro lado da rua, o bar menor e mais antigo continuava vazio, e o proprietário estava ali na frente, observando o cantor com a cara de quem sabia que uma presepada estava por vir.

    Oficialmente o público era de apenas uma pessoa, o sujeito que bebia ali sozinho desde a manhã. Ele parecia desinteressado.

    Zími entendeu na primeira música a razão pela qual Silvano havia pedido a ele para que assistisse àquilo. Pegou uma folha do caderno  que levava para onde quer que fosse, e escreveu algo.

    Ficaram ali encostados na Kombi sorvendo a cachaça, até que Silvano foi até o balcão do bar em que o cantor se apresentava, pegou duas latas de cerveja e voltou para a Kombi.

    Zími estava num ótimo momento, vadiando sábado à tarde, depois de trabalhar pela manhã.

    Silvano lhe deu a lata de cerveja, para se refrescarem da cachaça de amora, e disse a Zími que no fim de semana anterior o show do cantor também foi um fracasso, mas havia algumas pessoas a mais.

    Embusteiro que era, o cantor contava para quem estivesse em volta que tinha agenda lotada de shows, que vivia exclusivamente de música e já tinha tocado na Europa. Silvano ouviu as conversas, mas na ocasião não participou.

    Dessa vez só havia os dois ali para que o cantor puxasse conversa. O sujeito que bebia no balcão não demonstrava qualquer reação às tentativas do cantor para estimulá-lo.

    Depois que Silvano voltou com a cerveja para a Kombi, o cantor ainda tocou mais uma música, antes de dar uma pausa, que acabou sendo definitiva.

    E antes dessa pausa, Zími comentou com Silvano que o cantor estava bem cheirado. Comentou ainda que tinha certeza que ele mandava com a narina esquerda.

    Silvano constatou que o cara realmente parecia estar tentando morder a orelha.

    O cantor tirou o violão do colo, e se levantou tentando inutilmente disfarçar seu constrangimento.

    Pediu uma cerveja à garçonete, que do lado de dentro do balcão parecia estar lamentando demais por estar ali naquele sábado à tarde quente, ouvindo o sujeito cantar Legião Urbana em ritmo de pagode e outras aberrações, até que finalmente desistisse.

    Quando o cantor, com a cerveja na mão, fez menção de se dirigir á Kombi, Zími disse a Silvano: ‘Agora!’

    O sujeito então começou a falar, se apresentando como ‘o cantor’, e os dois apenas olhavam para ele, sem falar nenhuma palavra, e nem esboçar qualquer reação que não fosse fumar e se tomar goles de cerveja e do drink de amora.

    A garçonete observava do lado de dentro do balcão, tentando disfarçar o riso quando percebeu o que poderia estar acontecendo.

    O cantor repetiu a conversa ouvida por Silvano, sobre agenda de shows, ter tocado na Europa e sobreviver como músico.

    Até que mencionou alguns artistas que gostava, e quando citou a Janis Joplin, Zími se levantou, tirou a folha de caderno dobrada do bolso de trás e a entregou ao cantor.

    No papel estava escrito que a Janis Joplin é muito chata, e que a música ‘Mercedes Benz’ é a mais chata da história, dividindo o pódio com ‘Hotel California’ dos Eagles e ‘Sultans of Swing’, do Dire Straits.

    O cantor leu, e embasbacado, virou-se e foi de volta para o bar em que tocou. Encostou-se no balcão, sob o olhar não menos embasbacado da garçonete, que trabalhava olhando para o relógio sem parar.

    Antes de entrar na Kombi com Zími e voltar para casa, Silvano foi até a bela área de self-service do local, que estava vazio.

    Pegou um recipiente de isopor, para marmita e o encheu com todos os ovos de codorna que haviam ali.

    Então pegou mais uma lata de cerveja para ele e outra para Zími, pagou e então foram para a Kombi

    No caminho curto entre a Vila Mariana e a República, Silvano comunicou a Zími que se lançaria na música.

    Aquele cretino que eles haviam assistido tinha algo que Silvano não tinha até então, que era coragem de se apresentar em público.

    Como assistiram ao que de mais patético poderia acontecer numa tentativa mal sucedida de entretenimento, agora Silvano, sabendo que poderia contar com as estratégias de Mila Cox para se apresentar ao vivo deixando a timidez de lado, e os pitacos de Zími na produção do disco no estúdio caseiro, estava encorajado e poderia abrir os shows dos Crop Circles.

    Compor as músicas e gravá-las não seria problema, pois ele já tinha idealizado o que seria o primeiro disco Músicas de dois minutos, psicodelia dos anos sessenta, misturada com punk rock e alguma canastrice latina seriam suficientes para a estréia em disco.

    Dez faixas e menos de meia hora de duração.Sairia em vinil, cd e K7.

    Chegaram ao prédio em que moravam e cada um foi para sua casa.

    Zími contou para Mila Cox sobre o rolê.

    Ela falou que já tinha pensado em Silvano como músico, seguindo a linha de Bob Log lll ou Dead Elvis.

    Ela disse que estava apenas esperando o momento oportuno para dizer isso a ele.

    Zími começou a contar a história do cantor e ela começou a fazer café.

  • Rupestres

    Zími saiu para comprar cigarros e desceu pela escada porque o elevador estava demorando.

    Morava no sexto andar, e quando passava pelo terceiro, parou para pegar, perto da lixeira, um suplemento de cultura do jornal do dia anterior, com a Patti Smith na primeira página.

    O assinante daquele jornal leu apenas o caderno de esportes, que estava desmembrado, deixando o resto dos suplementos intocados.

    Antes de guardar o jornal na mochila e sair, estava lendo uma parte da matéria principal, enquanto havia uma conversa alta naquele andar, dentro do apartamento que ficava mais perto da escada.

    Um cara falou para uma mulher: “Eu me casei com a sua filha só pra destruir o seu marido”.

     Zími morava naquele prédio com Mila Cox havia cinco meses, mas ainda não conhecia todos os vizinhos.  

    Não soube identificar a voz do sujeito, e sem esperar para ver se conseguiria contextualizar aquela fala com o desenrolar do diálogo, desceu o resto das escadas até o térreo.

    Então foi buscar o cigarro e na volta lá estava Mila Cox, sua parceira musical, na sala do apartamento parcialmente isolado acusticamente, em concentração obsessiva para uma missão que ela mesmo tornou árdua.

    Precisavam terminar mais uma música naquele dia, para que a faixa entrasse no split que lançariam com a banda Major Flops.

    O disco teria duas músicas de cada lado, um lado para cada banda, com a duração de um EP.

    Já estavam demorando porque uma das músicas já havia sido gravada antes. Nela Zími apresentou o esboço, Mila Cox concluiu, então foi logo depois gravada num único take concluído ainda pela manhã.

    Na música a ser gravada à tarde, a ideia partiu de Mila Cox, que se recusava a dar a gravação como concluída. Segundo ela, a canção era sobre desinventar tudo o que era desprezível, tanto na música como na vida.

    Tinham sorte por não precisarem pagar em estúdios mais profissionais.

    Zími sabia que quando isso acontecia, a pessoa acaba desistindo sem que considere que o trabalho teve resultado pleno, ou que foi realmente finalizado. Mas para aquela ocasião, havia um prazo que estava por vencer.

    Ele já havia gravado a sua parte de bateria e poderia até sair dali até que ela terminasse, mas ele jamais perderia as coisas que ela falaria ao longo do processo.

    Ela havia dito logo no começo do projeto, que dividir o disco com outra banda aumenta ainda mais a responsabilidade do lançamento.

     Seria a estreia dos Major Flops em disco. Zími gostou do que viu sobre eles, mas nada lhe faria parar de pensar que em alguns momentos havia uma influência exagerada de Cabareth Voltaire.

    Zími gostava de Cabareth Voltaire, mas naquele caso, a semelhança era proporcional à que havia entre o Mighty Lemon Drops e o Echo and the Bunnymen.

    Ele sabia que provavelmente Mila Cox percebeu essa semelhança, mas sabia também que para ela isso pouco ou nada os desabonava, e haveria benevolência com uma banda que estava começando.

    Mas Mila Cox estava furiosa porque Zími escolheu colocar uma cover como sendo uma das músicas dos Crop Circles no split. Ela só admitia isso para lado b de singles, e ainda assim com ressalvas.

    Mas para aquele caso, a música era ‘Fixin to die’, de Bukka White.  

    Zími passou os dias anteriores fazendo carretos com Silvano e também passando horas no Sebo do Messias, e não teve como fazer uma música, mesmo porque Mila Cox combinou esse split de última hora.

    Mila Cox fez a guitarra, que aprendeu rapidamente, ouvindo a música original duas vezes.

    Antes, repudiou a ideia de chamar o guitarrista virtuose que conheciam e que morava no mesmo quarteirão que eles. 

    Ele andava na rua com um estojo retangular da Gibson.

    Mas ele não seria necessário porque era uma música simples.

    A rapidez com que ela gravou sua parte naquela faixa lhe deu confiança e credibilidade para seguir sem chamar músicos convidados, principalmente para a guitarra.

    Ela gostava de tocar e gravar guitarra, mas ao vivo prefere ser baixista e se desdobra até com instrumentos de brinquedo adaptados para preencher a falta de um guitarrista nos shows.

    Já fizeram isso mantes, mas a principal ideia a ser seguida é a de trabalhar com o que há disponível.

    Os dedos de duas mãos eram suficientes para contar os shows que fizeram com participação de guitarristas. 

    Mila Cox não chegava a repudiar esses episódios, mas prefere não falar sobre as lembranças que tem dessas ocasiões.

    Havia algo nos guitarristas que ela conhecia, desde o mais virtuoso até o mais tosco, que parecia travar o processo criativo para compor ou gravar uma música.

    Talvez fosse algo relativo ao ego deles.

    Ela também tinha vontade de ter controle sobre o direcionamento artístico da banda, mas curte fazer parcerias. 

    Zími era importante para não deixar que ela fique eternamente tentando finalizar uma única música. 

    Ele fazia intervenções importantes.

    Os Major Flops eram uma banda de Taubaté, e o baterista é neto da ex- vizinha de Mila Cox no bairro da Penha, onde ela até meses antes vivia com a mãe e a avó, que vivem lá até hoje.

    Fariam um show em São Paulo dois dias depois, e chegariam na cidade no dia seguinte, se hospedando na casa da avó do baterista, que é a vizinha da avó de Mila Cox.

    Os Crop Circles enfim terminaram a música, chamada ‘When monday comes’.

    No dia seguinte iriam buscar os Majos Flops na rodoviária, ao meio-dia, na Kombi do vizinho uruguaio Silvano, que os levaria para a Penha.

    Eram dez e meia, quando Zími, Mila Cox e Silvano entraram no elevador, no sexto andar, onde moravam. Iam para a garagem, sair com a Kombi, a caminho da rodoviária.

    O elevador parou no terceiro andar, e um sujeito incrivelmente parecido com o Brian Ferry entrou e deu bom dia.

    Quando ouviu aquela voz, Zími ainda processava em seu cérebro qual seria a zoeira sobre a semelhança do sujeito com o Brian Ferry.

    Foi quando soube que aquele era o cara que se casou com a filha de alguém para destruir o marido dessa pessoa.

    Mila Cox já saiu do elevador segurando uma risada, e Zími agora pensava que o fato do cara parecido com o Brian Ferry provavelmente ser um canalha merecia ser mencionado.

    Já estavam ouvindo o primeiro álbum do Roxy Music quando a Kombi saía do prédio.

    Na rua, durante a música ‘If there is something’, Zími contou sobre o que o vizinho parecido com o Brian Ferry falou, e ninguém falou mais nada até chegarem à rodoviária.

  • Urubu de pelúcia

    Mila Cox já nasceu em revolta contra o machismo e o racismo que via em muitos homens mais velhos e em muitos de seus contemporâneos.

    Ela praguejava ainda mais quando se tratava de pessoas mais jovens que ela, nascidos no século vinte e um, e com mentalidade tosca e medieval.

    Cox diz que apesar da obrigação de morrermos menos estúpidos do que nascemos, essa lógica parecia não se aplicar entre muitos jovens, na proporção devida.

    Exceção feita a Zimi, seu velho amigo e parceiro musical, esse era um problema recorrente na sociedade.  

    Conheceram-se através de Sara Cox, prima de Mila, pois Sara e Zimi estudaram jornalismo na mesma classe da faculdade.

    Zimi, apesar de já ter feito muito merda na juventude, era agora um exemplo de conduta para Mila Cox.

    Ele, tão criticado por uma inadimplência bancária que por décadas pareceu crônica, mas que foi superada por meio do desapego, quando vendeu a casa em que morava, herança de sua avó, para viver de renda, quitar a dívida no banco, comprar uma parte do sítio das Cox e morar numa quitinete alugada em São Paulo.

    Mila Cox era baixista e Zimi era baterista, e juntos atendiam pelo nome de Crop Circles.

    O sobrinho de Cox veio conversar sobre uma redação que precisava entregar no colégio, sobre sustentabilidade libertária, tema escolhido por ele mesmo, já que o professor passou a tarefa com o tema livre.

    Era um tema que o garoto conhecia satisfatoriamente para escrever sobre, porque era algo aplicado por sua tia e por Zimi, especialmente quando eles estiveram em quarentena durante a pandemia, no sítio que tinham em Itapecerica.

    Mila Cox desde criança já era tia. E mesmo sabendo que era jovem e aproveitando gloriosamente essa condição, ainda assim era tia.

    Ostentava, em sua cabeça, uma posição hierárquica superior, mas não opressora, na relação de parentesco  com o rapaz, sobretudo pela necessidade de não permitir que o jovem seguisse a cartilha machista que lamentavelmente ainda era seguida por alguns familiares.

    No entanto, era preciso ter cuidado para não se colocar naquela posição de soberba que tanto desprezava.

    No mesmo dia em que soube do trabalho escolar do sobrinho, resolveu escrever uma música sobre um dia do futu,ro em que ela estaria mais velha e tocando num festival europeu ao ar livre, numa tarde de sol, bem antes dos shows das novas atrações musicais desse período vindouro.

    Essas  atrações contemporâneas tocariam à noite, e os Crop Circles agora estava ali só para assistir e tomar umas bebidas atrás do palco.

    Ela havia sonhado com isso na noite anterior e gostou do sonho.

    Ela e a banda (na verdade era um duo formado por ela e Zimi, e que contava eventualmente com a participação de algum guitarrista em shows ao vivo) estavam escalados como coadjuvantes veteranos para o festival, embora tivessem prestígio de banda ‘cult’ na comunidade indie de então.

    Um sonho que lhe renderia viagens que jamais pagariam com um emprego comum de escravo assalariado.

    No sonho, sua aceitação entre os indies europeus do futuro, munidos de estrutura para um evento memorável, fariam finalmente com que a vida valesse a pena. 

    A partir daí, gostaria de se tornar um ser inorgânico, um espírito livre.

    Em contrapartida, o anonimato entre o grande público na vida acordada também podia ser vantajoso. Poder andar nas ruas sem serem abordados por quase ninguém (pelo menos no que se refere a tocarem em uma banda) era bom.

    Na vida real, quando ela ganhava algum dinheiro como copywriter, guardava um terço. pagava as contas com o segundo terço e gastava o resto.

    Os festivais europeus do futuro a encontrariam madura e entendendo que o envelhecimento é uma consequência dura e implacável, que demanda a busca de uma trajetória digna, de preferência com algum legado autoral.

    Mila Cox fez o trabalho escolar para o sobrinho e ainda não havia escrito uma linha sequer da música a que havia se proposto a fazer.

    O sobrinho pediu que ela fizesse o trabalho, pois estava ocupado gravando uma música, como uma monobanda. 

    Alegou que a ideia sobre o trabalho já estava cristalizado em sua mente, mas a música em que trabalhava ainda estava em desenvolvimento.

    Ele exercitava tal modalidade há algumas semanas, tendo um single gravado, sob o nome de Cox.

    Afirmou que Brian Wilson era futurista quando apostava na longevidade da sua obra, e que isso demandava tudo, principalmente tempo, e ela entendia o porquê.

    Para ela, enfatizar o que parece óbvio era um ingrediente na receita de hits.

    Uma receita que muitas vezes pode dar errado.

    O erro, nesse caso, nada tem a ver com sucesso ou fracasso comercial, mas sim poder ouvir a música anos depois sem ter vergonha de ter gravado.

    A consciência da finitude pessoal também é algo que apesar de óbvio, muitas vezes não é assimilado, mencionado e aceito. É algo, que no entanto deve ser levado em consideração caso haja a intenção de criar algo mais duradouro do que o autor.

    Mila Cox, que nos primórdios de sua banda, também teve em seu embrião uma fase dela como monobanda.

    Ser tia do estudante que ganhou fama de nerd com um trabalho feito por ela era bom.

    Ela sabia que o sobrinho realmente tinha conhecimento sobre o conteúdo do trabalho, antes mesmo de ter aceito a incumbência de fazê-lo.

    O garoto alegava que exercitaria seu poder de edição numa canção sua que lhe seria bem mais exigente do que escrever sobre uma ideologia que já havia assimilado.

    A tia, em troca, prometeu jogar duro na avaliação da música.

    Era uma responsabilidade, pois o sobrinho sabia que carregaria aquelas palavras para o resto de sua vida artística.

    O que lhe preocupava era saber da importância da dosagem de confiança que se deve imprimir numa empreitada como aquela, e  não era o caso de estar abusar dessa confiança naquele momento.

    Se a tia tivesse acesso ao rascunho que existia da música até então, saberia quem ele estava tentando plagiar. 

    Havia, portanto, uma parte significativa da música a ser feita.

    Ele precisava apenas distorcer o que parecia óbvio com outra influência que fosse obscura a ponto de sua menção como influência se tornasse exagero, tornando o produto final aceitável no que diz respeito à originalidade.

    Tentaria aplicar a fórmula de um hit, mas sua equação para isso era mais complicada do que os padrões de produtores clássicos.

    Envolvia camuflar influências, que apesar de soarem óbvias para sua tia, pesando negativamente em seu critério de avaliação.

    Mas confiava que se safaria alegando plágio involuntário, na pior das hipóteses.

    Ele lembra de ouvir a tia praguejar os piores horrores sobre os artistas que desprezava, e sabia o quão doloroso seria ouvir aquilo sobre sua própria criação artística.

    Ele havia escolhido o nome da família para batizar o projeto, o que também pesaria na avaliação de sua tia.

    Acabou por fazer um trabalho satisfatório, mas não escapou da observação de Mila Cox, que comentou que a música parecia uma mistura de Brian Eno com a primeira fase do Ultravox.

  • Defasagem

    Quando Zími ouviu Mila Cox bater à porta de seu quarto, pensou que fosse por causa das pilhas do controle remoto da televisão da sala.

    Ele as havia trocado,colocando pilhas usadas no lugar.

    Pecou miseravelmente e estava envergonhado.

    As pilhas dele já tinham acabado e eram da mesma marca das pilhas usadas por ela na outra televisão, pois foram compradas na mesma ocasião.

    Compraram poucas, mas ele compraria outras no dia seguinte.

    Antes de dividirem o apartamento, Zími nunca tinha tido à disposição tantos canais de documentários para assistir sozinho, numa tela grande.

    Isso deixava sua parceira musical intrigada, pois antes eram apenas os livros que o deixavam ausente por horas, como se ela estivesse sozinha em casa e ele fosse uma planta em outro cômodo.

    Ela gostava disso, mas era uma condição inédita em sua vida.

    Cox vivia antes numa casa de classe média na Penha, com a mãe e a avó, que consideravam o novo apartamento um muquifo. 

    Mas para ela era ideal. E para Zími era como um hotel de luxo.

    Ela não reclamou das pilhas.

    Na verdade, Mila Cox estava aflita naquele momento por conta de um e-mail que recebeu de um cara que assistiu a um show dos Crop Circles numa festa de aniversário em Santana do Parnaíba, no fim de semana anterior.

    Ela estava ali bebendo café numa caneca de chope e usava uma camiseta rosa, furada, do Black Flag.

    No dia desse show, aconteceu a estreia do amigo Silvano tocando ao vivo, que ensaiou seu repertório em menos de uma semana, em seu apartamento, vizinho de andar de Zími e Cox, isolado acusticamente com caixas de ovos nas paredes.

    No tal e-mail, o sujeito fez elogios à apresentação de Silvano e dos Crop CIrcles, acrescentando que nunca tinha ouvido falar deles, e que instantaneamente os viu como uma ‘pérola da obscuridade’. 

    Disse também nunca ter visto de perto, ao vivo, algo tão ‘cool’.

    Mila Cox sabia que Zími estaria satisfeito se passasse o resto da vida no underground, com trabalhos paralelos à música, para pagar as contas. 

    Ele prezava ir ao mercado e sair de bicicleta sem ser abordado a todo momento.

    Sabia também que continuar no underground era, na concepção dele, continuar sendo ‘cool’.

    Ele sabia que ela queria as duas coisas. 

    Ter algumas vantagens do mainstream, mas sob uma aura underground.

    Zími dizia que uma vida brasileira normal, com preocupações financeiras, políticos escrotos, fanáticos religiosos e a repulsa que a maior parte da população tem pelo rock, e especialmente pelo rock alternativo, dão legitimidade ao trabalho.

    Em tempos de internet, uma eventual repercussão no exterior se torna mais possível agora do que quando ele tinha a idade dela.

    Zími tinha quarenta e seis anos, e Mila Cox, dezenove. Além disso, ele gostava de se expressar através da música, sem pitacos de gente que não é do ramo. 

    Queria poder até mesmo errar de forma livre, e depois fazer de novo da maneira correta.

    Pediu que ela, no contexto do e-mail, pensasse apenas nas palavras ‘pérola’ e ‘cool’, ignorando a palavra ‘obscuridade’, caso se incomodasse com ela.

    A Zimi, isso não incomodava.

    Damo Suzuki era obscuro ao grande público e era uma das principais referências artísticas para ele, que também nunca escondeu seu desprezo por tudo que é mainstream no Brasil.

    Segundo Zími, toda sua contribuição para a banda, formada apenas por ele na bateria e vocal, e Mila Cox no baixo, vocal e sintetizadores, sem um guitarrista, é tirada do que ele via no dia a dia, admirando ou repudiando o que estava lá, e muitas vezes se favorecendo de seu anonimato.

    Cox sabia, no entanto, que ele adoraria se ganhasse dinheiro suficiente para que não tivesse que fazer mais nada que não quisesse.

    Com o dinheiro, ele poderia perder o interesse pela música, pagaria as contas no débito automático e ficaria em casa fumando maconha e vendo documentários enquanto estivesse acordado.

    E ele estaria tão pleno, etéreo e abstrato, que ela jamais ousaria incomodá-lo, sabendo principalmente que ele diria, de imediato, que estava com os boletos pagos. E a sua tendência de se tornar recluso e misterioso se acentuaria.

    Sem contar que não era segredo que Zími preparava um livro havia um bom tempo, e dizia que ainda não havia ficado pronto por causa dos compromissos musicais, sendo essa a vertente cultural a que daria prioridade.

    Mas dizia que o livro ficaria pronto a tempo do lançamento futuro de um box da banda, com todo o material gravado, para atender aos desejos megalomaníacos de Mila Cox.

    Ele desconversava quando o assunto era ter mais dinheiro do que ele jamais teve, porque não contava com essa sorte, e não queria gastar seu tempo de sonhar com algo que considerava ilusório.

    Enquanto não escondia sua vontade de se tornar relevante para um público maior, principalmente fora do país, Mila Cox alegava que não podia entrar nos sonhos dele para saber se ele dizia a verdade., em relação ao que ela chamava de conformismo.

    A isso, Zími chamava de aproveitar a recompensa pelos esforços do passado, e não contava com essa recompensa enquanto não considerar ter feito tudo que podia.

    Ele disse que a arte tem que ser produzida de forma independente porque ela jamais vai se sobrepor aos valores do mercado, que poderia estar vendendo o que fosse, desde que gerasse lucros.

    Então, sempre que as conversas entre eles sobre esse assunto chegavam a essa parte das diferenças que tinham entre si, Zími dizia que para ele nunca houve zona de conforto em nenhum setor da vida, em nenhum período, e a arte, antes de uma fonte de renda, deveria ter um propósito em si mesma, antes que pudesse ser vendida como o produto arte.

    Insistia também sobre o fato do amanhã ser um bônus. Tudo o que tinham de fato, era tempo, sem saber quanto.

    Ele lembrou que enquanto Silvano fazia seu primeiro show no último fim de semana abrindo para os Crop Circles, eles já estavam no show de número duzentos e trinta e nove, além de trinta e quatro singles e duas coletâneas.

    Silvano nem mesmo havia terminado seu disco no dia de sua estréia.

    Tinha gravado um esboço tosco com as dez músicas que entrariam no disco, e se apresentou tocando guitarra sentado, também tocando bumbo e caixa acionados por pedais. Zími usava o mesmo kit,acrescentando apenas um chimbal.

    A guitarra era uma imitação de Rickenbacker, comprada na semana anterior, e seu amplificador era um cubo preto sem marca aparente.

    Deixou para lançar o disco no show seguinte, que ainda não havia sido marcado, e seria gravado com a produção de Zími.

    Silvano queria ver a reação do público e também a sua própria diante dele, perder a virgindade de tocar ao vivo e só então disponibilizar o álbum na internet.

    No caminho de ida, ouviram duas vezes seguidas o álbum ‘Enemy of the enemy’, do Asian Dub Fundation, colocado por Silvano, que dirigiu em um silêncio nunca visto antes em dias de show.

    Zími e Mila Cox não sabiam se ele estava muito nervoso ou se estava apenas concentrado para seu show. Era um sítio grande, e havia ali, entre muitos carros, uma Veraneio 73 de colecionador, que fez com que Silvano parasse para olhar por vários minutos, sem soltar o case de sua guitarra, nem o amplificador, que levava com a outra mão.

    Mila Cox tirou a foto e postou no dia seguinte nas redes sociais da banda.

    A garota que fazia aniversário em Santana do Parnaíba era filha do dono do sítio, e havia ouvido falar deles por conta da repercussão de um show em Tanabi, semanas antes. Alguém que esteve presente os recomendou para que tocassem na festa.

    A providencial aparição do uruguaio Silvano em suas vidas fez com que eles mudassem de patamar em termos de estrutura, e mais do que nunca seria preciso, de acordo com Zími falando para Mila Cox, ter paciência para que a popularidade deles também alcançasse um nível superior, como ela desejava.

    Agora que viajavam na Kombi de Silvano, Zími deixou de se queixar das noites seguintes aos shows, com eles dormindo no Chevette Jeans 79 de Cox. 

    Dormir na Kombi era bem mais fácil e o veículo era muito mais apropriado para aquele tipo de rolê.

    A estreia ao vivo de Silvano correu bem, durou trinta e cinco minutos e gerou curiosidade das cerca de trezentas pessoas presentes e conseguiu arrancar aplausos. Antes do show estava tenso, mas se controlou na bebida, deixando para beber depois da apresentação.

    Era uma monobanda, algo ainda mais minimalista que o duo que tocaria em seguida. 

    O som era uma mistura convincente de blues e punk rock.

    Ninguém ali diria que era o primeiro show daquele sujeito.

    De maneira nenhuma Silvano era alguém que projetava sua autoestima na própria aparência, mas ele tinha um tênis Pony de cano alto, uma calça preta de moletom e um colete jeans, que foram o suficiente para que as pessoas saíssem da frente quando ele passava.

    Parecia um Pappo Napolitano brasiguaio.

    Ele assistiu ao show dos Crop Circles na lateral do palco, sem camisa e enrolado numa toalha, com uma caneca em que bebia alguma das cachaças artesanais que, como sempre, haviam sido compradas com antecedência num alambique local.

    Bastava que Mila Cox anunciasse um show fora da cidade de São Paulo, para que ele pesquisasse onde compraria as bebidas, e logo entrasse em contato com o fornecedor.

    Ela havia colocado o Chevette à venda, para comprar um amplificador Orange para seu baixo.

    Zími mencionou também esse fato para lembrar a ela que estavam evoluindo, e o tempo que os separava de uma eventual fama maior, deveria ser aproveitado para tentarem entender o que seria ter problemas que não fossem financeiros.

    Mila Cox respondeu dizendo que problemas financeiros infelizmente são, no mundo tosco em que viviam, a causa de muitas outras aflições.

    Zími concordou e pediu a ela novamente que tivesse paciência, salientando que se ela conseguir logo viver apenas de música, isso pode se tornar tão ou mais exaustivo do que ter trabalhos paralelos para sustentar a banda.

    Os trabalhos que eles pegavam como copywriters podiam ser chatos às vezes, mas eram previsíveis, toleráveis e pagavam o suficiente para que eles existissem como pessoas e artistas.

    Ao bater na porta de Zími, Mila Cox interrompeu um pensamento sobre como a maturidade não vem com a idade, e agradecia pelo fato de Mila Cox compensar essa sua defasagem.

    A isso, eles chamavam mutualismo não simbiótico.

  • Bichanos

    Larissa me pregou uma peça. Chegou em casa com uma gatinha filhote, embrulhada em sua camisa da malhação. Disse que a pobrezinha estava embaixo de seu carro, no centro da cidade, abandonada, que ela não poderia ficar assim. Logo rebati, mandando que levasse para doação. Larissa, com mil beijinhos e abraços – é assim que ela faz quando quer alguma coisa –, suplicou que ficássemos com a “neném”. Fiquei emburrado e desajeitado com a nova integrante, mas, aos poucos, coisa de horas, ganhou a minha afeição. Ela de fato é muito meiga e carente, está sempre nos meus pés, pedindo algo – penso que a ânsia da fome por que passou a deixa assim. Achei estranho que nos primeiros dias ela procurava um lugar para se esconder. Arranjou um esconderijo dentro do nosso guarda-roupas. Fez do lugar um ninho, literalmente. Um mês depois, já estava com a barriga por acolá. Meu Deus, entrei em pânico, a neném estava doente ou o quê? Levamos à veterinária, nossa amiga, a Sara. Assim que tocou na neném, disse que estava grávida. Que no primeiro cio teria engravidado! Ou seja, uma gravidez adolescente, complicada, no mínimo, pois não tinha mais do que seis meses de idade. Eu não queria bicho nenhum em casa e agora teria uma grande família de bichanos. Que horror! Como seria possível isso? Tivemos uma conversa séria, e disse à Larissa que a pequena teria os bebês, mas não ficaríamos com nenhum, iriam todos para a adoção. Larissa ainda implorou para que ficássemos com pelo menos um, para fazer companhia à neném. Não disse que sim nem não. Eu estava completamente alvoroçado com essa notícia, e não sabia agir diante de tamanha questão. Era, para mim, um grande desafio, já que teria criado, na adolescência, somente um cachorro, o Téo, que morreu com treze anos e deixou muita dor. Prometi a mim mesmo que não queria outro bicho, porque não tinha capacidade emocional para lidar com a situação, de alguma doença ou mesmo a morte. Fato é que, na verdade, só teríamos que esperar e ver no que ia dar. Fomos à veterinária no sábado, e a neném teve os bebês na segunda, sozinha. Chegamos em casa, e vimos cinco miúdos, lindos, parecendo uns ratinhos. Me empolguei e quis arranjar um lugar no nosso quarto para ela ficar. Aliás, separei o lugar que ela, a neném, já tinha escolhido. Larissa estava tão feliz quando um pinto no lixo. Mas não conseguia pegar as criaturinhas. Eu que seria, portanto, o intermediário entre a mãe e o mundo dos humanos. Os dias foram passando, e os bebês foram crescendo. Eu já repensava em doá-los. Mas claro que não dizia à Larissa. Com um mês e meio os lindinhos estavam prontos para a adoção e resolvemos, em conjunto, ficar com todos. Isso já faz dois anos. Temos maravilhosos seis gatos, que amamos muito. Cada um com sua personalidade, mas todos amáveis e carinhosos.

  • Na parede do banheiro

    Mila Cox estava filmando e gravando uma entrevista a que seu parceiro musical Zími estava sendo submetido.

    Estavam na sala do apartamento que dividiam no bairro da Liberdade.

    Eram cinco horas e sete minutos de uma tarde de chuva e São Paulo estava caótica.

    Notícias de alagamentos e quedas de árvores eram a tônica dos noticiários locais.

    Fazia tempo que não sentiam tanta satisfação por poderem trabalhar em casa e poderem ficar de boa quando as condições climáticas tornam a cidade inviável.

    Moravam no sexto andar de um prédio na Rua da Glória, e o barulho que vinha da rua durante os dias influenciava diretamente no som que faziam.

    A entrevista era para um universitário que foi ao show dos Crop Circles em Registro, no sábado anterior.

    Era parte de um trabalho para a faculdade de jornalismo que o jovem cursava, e tratava sobre música alternativa.

    Crop Circles é a banda formada por Mila Cox e Zími.

    Eles tinham piadas internas sobre quando eram chamados para entrevistas.

    Cox toca baixo e sintetizador, e Zími toca de pé um kit minimalista de bateria, como fazia Bobbie Gilespie nos primórdios do Jesus and Mary Chain.

    Os dois eram vocalistas, alternando as músicas em que cada um cantava.

    Eles pagam as contas trabalhando como copywriters.

    Nunca davam entrevistas juntos. 

    Mila Cox era quem geralmente atendia esses jovens.

    Dessa vez Zími aceitou falar, a pedido do universitário, porque no dia do show em que eles se conheceram, o jovem tentou uma aproximação com Mila Cox, e prontamente levou um toco.

    Agora ela estava acompanhando a conversa, porque sentia que seria necessário editar o resultado antes que o estudante o mandasse para o professor.

    À certa altura, já conversando pela webcam, o rapaz perguntou sobre a motivação de Zími para fazer música com uma parceira musical mais jovem.

    (Zími tem quarenta e oito anos, e Mila Cox tem vinte e três. O estudante que está entrevistando Zími tem dezenove.)

    A entrevista havia demorado alguns minutos para decolar, mas de repente, com aquela pergunta, o jeito que Zími se mexeu na cadeira, de frente para o computador, fez Mila Cox saber que naquele momento ele começaria um grande discurso, que logo se transformaria numa metralhadora verbal que poderia perder a linearidade e fugir do assunto a qualquer momento, caso sua raiva seguisse aumentando.

    Então, enquanto Cox já suspeitava de encenação, Zími começou a falar, quase exaltado:

    “Algumas pessoas podem pensar que há algum tipo de glamour a ser alcançado, mas isso não existe. É um trabalho sério, porque é a sua imagem entregue a um público, seja qual for seu tamanho. E se a internet serve muito bem pra divulgar a qualidade artística da pessoa, serve ainda mais para expor milhares de cretinos ao ridículo eterno. A minha vida melhorou depois que montamos essa banda. Melhorou inclusive financeiramente. Mas nós nunca lucramos com a banda. Eu estava bastante falido, e agora provavelmente sou um pobre premium. Provavelmente nunca pagaremos as contas tocando. A questão é que para que a banda pudesse existir, era preciso que eu mudasse de vida antes mesmo de ter uma música pronta pra lançar na internet sob o nome de uma banda. Estarmos vivos também é uma motivação fantástica. Nosso vizinho morreu na pandemia, ainda jovem, sem nunca ter bebido, fumado ou dado um teco. Eu reclamo muito, mas prezo demais pela vida. Tento aproveitar. Mas uma coisa que nunca conheci foi o que chamam de ‘zona de conforto’. As pessoas que podem fugir pra essa zona quando o negócio fica louco não vivem a mesma realidade que eu, e provavelmente a maioria das pessoas não conhecem de verdade essa área. Mas me surpreende que eu ouça tanto falar sobre isso.”

    Zími então fez uma pausa em sua fala, deu um trago no cigarro e soprou a fumaça mirando a tela do computador, diretamente na cara daquele jovem. 

    Estava imaginando que ele fosse criado pela avó, que tinha cabelo de algodão e fazia uma vitamina para ele tomar antes de ir para a escola. 

    Possivelmente teve babá até pouco tempo atrás, e talvez até motorista.

    Ele tinha o cabelo penteado e não podia confrontar as expectativas da família, e muito menos expectativas sociais mais abrangentes.

    Então, sem falar ainda, Zími fez uma careta ao imaginar que aquele cara deixava a cama desarrumada e cheia de farelo, e a encontraria arrumada quando voltasse.

    Ele vestia uma camiseta desbotada da banda Carniça de Bode, a mesma que usou no dia do show em Registro.

    Mila Cox sabia que ali Zími, quando voltasse a falar, responderia de uma só vez a todas as perguntas que o estudante poderia conceber, antes que ele perguntasse qualquer coisa novamente.

    E então Zími voltou a falar.

    “Quando montamos a banda, ela tinha dezoito anos e queria se tornar inesquecível. Eu tinha quarenta e três, e queria mesmo era ser esquecido, e viver do jeito que eu quisesse, muitas vezes pagando caro por escolher esse caminho. Para muito além do gosto musical, o que nos atraiu pra esse projeto de vida e de arte foi reconhecermos um no outro a completa impossibilidade de ser domesticado. Continuei vivendo do jeito que eu quero, embora continue insatisfeito com certas bizarrices , que lamentavelmente existem ou ocorrem independente da minha vontade. A sociedade já estava falida desde muito antes de eu nascer, eu sei que há coisas sobre as quais não temos controle, e que nunca vão mudar. Já tive bandas antes, uma delas antes de existir internet. Eu não tinha qualquer ilusão sobre encontrar glamour nessa atividade. E repito: O que deve haver é um propósito muito mais verdadeiro, porque sendo popular ou não, é a sua imagem que está ali, premeditadamente exposta. As bandas legais ficam soterradas pelo lixo de quem não tem a menor ideia do que está fazendo e nem ao menos gosta de arte. Hoje o perigo de fazer um papel ridículo e virar meme é, ou deveria ser, muito mais assustador do que um fracasso comercial. E para quem já tem algum legado, o esforço pra mantê-lo deve ser tão intenso quanto a vontade que se tinha pra emergir. Um legado pode se tornar algo tentador pra ser vendido, quando se quer resolver o setor financeiro da vida. No meu caso, esse sempre foi o setor que me causou depressão e desespero. A lida com algumas pessoas também pode ser um pesadelo, mas que muitas vezes pode ser remediado justamente pelo dinheiro. Comprando o conforto de um isolamento que só é rompido por quem desejamos.”

    Depois disso, combinaram que o universitário editaria a entrevista e enviaria para Zími e Cox, antes de mandar para o professor.

    Mila Cox falou para Zími:

    “Tem que aguentar mesmo. O cara é parte do nosso público. Talvez esteja logo na imprensa.Isso será editado a fim de cortar partes machistas, por exemplo. Toda semana tenho que conversar com um deles.Esse aí parece mais playboy, tem alguma coisa estranha nele que não gostei.”

    Zími falou:

    “Ainda bem que se aparecer alguém da imprensa mesmo é você que vai falar.”

    Ela respondeu:

    “Talvez com eles seja mais fácil e certamente a repercussão será melhor também.”

    Cox se levantou e foi fazer café.

    Zími então atentou novamente para o barulho que vinha da rua e foi olhar pela janela.

    Bateu o cheiro do café e ele ficou feliz, mas não só pelo café.

    Ele estava bem alcoólatra, e até os bêbados mais clássicos do bairro falavam isso para ele.

    À noite ele beberia com certeza, mas naquela hora ele queria café, porque ainda não estava tremendo.

    Ele achou que Mila Cox tinha sorte por beber pouco.

    No momento em que ela implicou com o universitário, ela bebia depois do show.

    Zími pensou em puxar esse assunto, mas Mila Cox era uma das pessoas que o alertava sobre o abuso de cachaça.

    Zími resolveu que beberia na padaria do outro lado da rua, que estava enchendo porque à noite haveria um jogo do campeonato brasileiro.

    Da padaria ele podia ver a janela de seu apartamento e isso era muito confortável para ele.

    Então, justamente ele, que praguejava horrores apenas por ouvir o termo ‘zona de conforto’, talvez estivesse descobrindo que a sua era a calçada da padaria, onde ficava bêbado e estaria perto de casa.

    Zími tomou banho e desceu. 

    O porteiro daquela noite em seu prédio era gente fina.

    Atravessou a rua, e na padaria ninguém parecia estar com medo de ingerir metanol.

    A alienação ali era tão completa, que Zími se sentia livre de qualquer culpa.

    Ele estava com a sua caderneta e no dia seguinte estaria entregando à Mila Cox a ideia de uma nova música, que ela concluiria.

  • Cheiro de jaula

    Ainda era um pensionato aquela casa da rua Humaitá, onde Zími sempre parava na frente quando passava por ela, e ficava olhando durante a duração de um cigarro .

    Ele havia morado lá por alguns anos, atravessando o período da pandemia ali. Aquele lugar não havia sido a sua última moradia antes de dividir um apartamento com sua parceira musical Mila Cox.

    Ele alugou o quarto menor no apartamento de seu irmão mais novo, e ficou ali por seis meses. Era o prazo que tinha para tomar outro rumo.

    E então Mila Cox, que queria sair da casa em que morava com a mãe e a avó, no bairro da Penha, aceitou dividir um apartamento com Zími, num lugar mais perto do centro.

    Encontraram o lugar com melhor custo-benefício no bairro da Liberdade. Num domingo, Mila Cox estava de bicicleta, voltando da feira cultural do Bixiga, e parou na frente da pensão que Zími havia morado.

    Viu um casal que morava ali sair para a rua. O portão ficava destrancado, Não havia placa indicando que ali havia aluguel de quartos.

    Então ela entrou na casa e a conheceu parcialmente a parte de baixo por dentro. Havia ainda uma escada e um andar superior.

    Pela escada, logo apareceu um sujeito que era gerente, e ele mostrou a Cox um quarto que estava disponível. Depois mostrou-lhe o resto da casa.

    Os moradores ficaram curiosos com a presença de qualquer pessoa nova na casa dela. Abriram suas portas e a viram passar com o gerente.

    O cheiro que pairava nos corredores era uma mistura de xampú, maconha e incenso. Nos quartos em que moravam mulheres, havia mais ordem e limpeza, mas na maioria dos quartos, onde apenas moravam homens, havia quartos em ordem e outros degradados.

    Mas havia um quarto que tinha cheiro de jaula. Dois sujeitos dividiam o cômodo. Havia um deles que Mila Cox já tinha visto antes, e não estava lembrando de onde. O cara também a olhou como se já a tivesse visto.

    Antes de sair, Mila Cox perguntou ao gerente se ele conheceu Zími.

    O cara disse que sim, mas que nunca mais teve notícias desde que ele foi embora dali. Falou também que Zími dividia o espaço com um dos sujeitos que ainda morava no quarto com cheiro de jaula, o que esclarecia parcialmente a questão sobre como ela conhecera aquele cara.

    O gerente falava e a olhava embasbacado, quase intrigado com aquela figura tão cool. Quase baixinha, jovem, cabelo chanel vermelho, com franja, tatuada, e usando uma camiseta com estampa do álbum ‘No more heroes’, dos Stranglers.

    Tinha um olhar seco, sério e fulminante.

    O sujeito pensava sobre como ela conhecera Zími, se havia entre eles algum parentesco ou se havia outros motivos.

    A verdade é que antes de Mila Cox nascer, Zími foi colega de faculdade de Sara Cox, tia de Mila, e os dois ajudaram muito a moldar o gosto musical da garota.

    Zími e Sara se formaram em Jornalismo nos anos noventa. Depois, ela se mudou para a Inglaterra e ele seguiu uma jornada errante, da qual ele nunca se arrependeu.

    E agora Mila Cox pensava novamente sobre a podridão do universo masculino, ao mesmo tempo em que tentava imaginar o que aconteceria com o apartamento que dividia com Zími, caso ela tivesse que se ausentar por alguns dias.

    Cox saiu da pensão sem memorizar a fisionomia do cara que a atendeu, mas não esqueceu do cheiro de jaula até chegar em casa.

    Ela pegou a bicicleta e desceu da Bela Vista até a Liberdade. O caminho era de descida e ela chegou rápido.

    Subiu ao apartamento e ali estava Zími.

    Com ele estava Silvano, o vizinho uruguaio que morava na porta ao lado, que é multiinstrumentista e morava sozinho em seu apartamento.

    Silvano já morava naquele prédio muito antes de Mila Cox e Zími. Seu apartamento, embora não tivesse cheiro de jaula, não primava pela ordem.

    À essa altura, Mila Cox já entendia e partilhava dessa que era a razão em comum para quem resolve morar sozinho.

    E era muito simples. Poder fazer em casa o que não se fazia quando ainda se morava com a mãe. E provavelmente o que não faria depois, se a pessoa fosse casada.

    Zími e Silvano fumavam, bebiam a comiam no sofá.

    Ainda não estavam tão horrendamente bêbados. Nunca ficavam muito loucos antes que ela chegasse em casa.

    Ficavam mais bêbados só depois que ela soubesse antecipadamente que isso aconteceria inevitavelmente, quando era dia de folga das atividades que exerciam para pagar as contas, ou atividades musicais.

    E preferiam beber em casa, pois é mais barato que beber na rua.

    O assunto era música e Zími dizia: “Pelo menos três discos dos Beach Boys são ainda melhores que o Pet Sounds, e estão naquele período posterior a ele. Nesse bloco, entram o ‘Friends’, ‘Wild Honey’ e o espetacular ‘Surf’s Up’, que tem na faixa título a prova daquilo que estou querendo dizer. O ‘Holland’ também é muito bom. Depois veio aquela coletânea que só abrangia a primeira fase, sobre surf e carros, o que estigmatizou ainda mais a banda, depois da tentativa de fazer uma música muito mais abrangente nas temáticas. Foi uma tentativa muito bem sucedida, mas não comercialmente falando O que importa é que aqueles discos ficaram pra provar a relevância que deveriam ter também na época. Mas no fim dos anos sessenta e início dos anos setenta foram lançados tantos discos maravilhosos e as pessoas ainda associavam os Beach Boys à velha fórmula com que tiveram sucesso dez anos antes, falando de surf e carros.”

    Silvano queria fazer uma cover de Beach Boys.

    Zími falou: “Se é pra fazer cover, que seja como os Byrds fizeram com as músicas do Bob Dylan, dando uma roupagem diferente, recriando as músicas.”

    Quando ele falou essa frase, Mila Cox percebeu em sua voz, agora já um pouco pastosa, os primeiros sinais de embriaguez.

    Então ela falou: “Entrei na pensão que você morava, na Bela Vista.”

    Zími respondeu: “Nem posso imaginar o atual estado daquele lugar. Mas a época em que morei lá será mencionada no livro que estou escrevendo.”

    E o cara com quem você dividia o quarto?” – Mila Cox perguntou.

    “É o Elton, é baterista, tocou em várias bandas.”– Zími respondeu.

    Mila Cox: “Ele estava lá, e eu não lembrava de onde o conhecia. Na verdade não lembro ainda”

    Zími: “Foi num show em Catanduva, a banda dele tocou no mesmo evento. Na época ele era baterista de uma banda chamada ‘Quase’. O tempo em que morei lá com ele foi o pior momento da minha vida. Eu estava sem grana e dividi quarto pra baratear o aluguel. Dividir um quarto com quem quer que seja é inconcebível pra mim. Não sei quanto aos outros, e espero que façam o que quiserem com suas vidas, mas ter um quarto individual é essencial.”

    A pergunta seguinte de Mila Cox seria sobre o cheiro de jaula, mas ela preferiu deixar quieto naquele momento, já que Zími, de uma certa forma, já havia respondido.

    Antes de ter lembrado do cheiro de jaula e esperado pela oportunidade de falar sobre isso, Mila Cox pensou sobre sua antisociabilidade, já que tinha apenas vinte e um anos e também preferia beber em casa, independente da economia feita com a compra de bebidas no mercado.

    Eventualmente bebiam na padaria que havia no quarteirão onde moravam, quando o aluguel já estava pago e havia como gastar ali para beber.

    Mesmo sendo jovem, viu o declínio das competências linguísticas e intelectuais das pessoas, produto da falta de leitura e de referências culturais de qualidade.

    A qualidade humana, de uma maneira geral, parecia estar em declínio, principalmente pelo fato de tanta gente ter perdido a capacidade de pensar com a própria cabeça, ou mesmo nem ter desenvolvido essa capacidade ao longo da vida, o que resulta em vidas infelizes e a espera de uma recompensa póstuma. Essa é uma deixa para pastores e coachs picaretas lucrarem milhões. E a quantidade de charlatões não para de crescer.

    Então Mila Cox via aqueles dois sujeitos que só sociabilizavam realmente quando faziam shows. Quem realmente importava estava lá e havia diálogo.

    Nessas ocasiões havia amigos que eles não podiam encontrar sempre e mulheres que gostavam de rock.

    Por isso ela os compreendia. A diferença é que os dois já beiravam os cinquenta anos e ela tinha vinte e um.

    Ela já havia lido nos livros o que os filósofos dizem sobre não se misturar ao rebanho e sobre como é alarmante se ver ao lado da maioria, no que quer que seja. Zími era o baterista e eventual vocalista da banda Crop Circles, um duo formado por ele e Mila Cox, que além de tocar contrabaixo e sintetizadores, se revezava com Zími nos vocais. O mote da banda eram as angústias da existência e o som lembra o da banda Suicide. Quando se uniram para tocar, Zími já conhecia essa banda, mas Mila Cox, ainda não.

    Silvano era uma monobanda. Autodidata, Nos shows, ele tocava guitarra e fazia a parte de bateria minimalista de suas músicas no pedal.

    Eles e Zími diziam que Mila Cox era um prodígio em coisas que eles tanto prezavam, entre elas, buscar sempre frustrar as expectativas capacitacistas, higienistas, competivistas e produtivistas da asquerosa sociedade neoliberal em que vivem.

    Os três sabiam que qualquer solução ou revolução só pode realmente acontecer se for primeiramente pelo indivíduo, e talvez depois pela sociedade. Nunca pelo Estado.

    Eles sabiam também que o medo da opinião dos outros é a maior escravidão do mundo.

    Para ter paciência com a maioria das pessoas, lembravam que nem todo mundo é artista.

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