Conto de terça

  • O Patriota

    Depois de muitos anos de resistência, Brasilino, respeitado pesquisador brasileiro, aceitou sair de seu país e ir fazer uma palestra na maior universidade dos Estados Unidos.

    Os norte americanos estavam eufóricos por conseguirem levar ao seu país um dos responsáveis por grandes contribuições no ramo da saúde nos últimos anos. Seu Brasilino, no entanto, não se sentia da mesma forma e sempre viu com maus olhos a saída de terras brasileiras.

    Logo ao descer do aeroporto, ele foi abordado por uma série de jornalistas americanos que disputavam espaço para ver quem seria o primeiro a fazer uma pergunta. Então, uma bela repórter ostentando cabelos loiros e olhos azuis indagou o brasileiro:

    — Qual é a sensação que o senhor sente em palestrar na maior universidade do maior país do mundo? — Perguntou em inglês.

    — Maior país do mundo? — respondeu Brasilino em português.

    — Em inglês, por favor. — pediu a repórter em inglês.

    — Eu sou brasileiro, falo português.

    — O senhor não sabe falar inglês? Como pode um dos maiores cientistas não saber falar inglês? — seguiu a jornalista em tom mais debochado ainda falando inglês.

    Brasilino limitou-se a agradecer a todos os repórteres presentes (em português) e dizer que estava cansado em razão da viagem e que iria descansar.

    Após sua declaração, um furioso repórter gritou para o brasileiro em inglês:

    — Você deveria respeitar o nosso país, sem ele nada do que você descobriu seria possível!

    Brasilino então, respirou fundo, deu meia volta a foi até os jornalistas. Sem dar espaço para nenhuma pergunta, ele começou a falar:

    — Eu sou do Brasil. Minha terra possui riquezas sem fim. Essas, muito antes dos colonizadores chegarem, já eram utilizadas por nossos indígenas para viver. Fomos extorquidos pelas grandes potências mundiais de forma sequencial, cada uma no seu respectivo momento de hegemonia. Ainda assim, temos o país mais lindo da face da terra. Falo não só de nossa natureza, mas também de nossa cultura. Eu venho do país onde nasceu o samba, a bossa, uma música popular riquíssima. Um país que produziu Gonzagas, Gonzaguinhas, Chicos, Caetanos, Gals, Grandes Otelos, Nelsons Pereiras dos Santos, Glauber Rochas, Miltons Nascimentos, Cassias Ellers, Marias Bethanias e tantos, mas tantos outros grandes personagens. Vocês acham mesmo que eu irei concordar que o país de vocês é o maior do mundo?

    Brasilino falou tudo isso em um bom e sonoro português. Depois, pegou suas malas e entrou novamente em seu avião. Sentado na cadeira, só disse mais uma frase:

    — Me levem de volta para minha terra.

  • A guerra íntima de todo leitor

    Quando ia escrever seus livros, o escritor Moacyr Scliar aproveitava, como dizia nas entrevistas, os intervalos da vida: a poltrona de um avião, a palestra do fulano, o aeroporto — qualquer brecha que, entre um compromisso e outro, a rotina oferecesse.

    Para nós, leitores, não é diferente. Lemos na sala de espera do médico, no sacolejo de uma viagem de ônibus, no aeroporto, esperando um amigo no shopping. Quem lê há muito tempo sabe bem o que é isso. Tenho amigos que, apenas para me causar inveja, juram que não se incomodam com barulho; eu, ao contrário, acho que o silêncio virou um artigo de luxo — e pagaria qualquer coisa por ele.

    Como grande parte dos leitores, tudo o que quero é um refúgio. Que, como já disse, anda cada vez mais raro.

    Se abro um livro em casa, num domingo à tarde, o vizinho resolve comemorar o aniversário da esposa, com direito a karaokê, música alta (quando estou lendo, odeio qualquer tipo de música; qualquer uma, até as minhas preferidas) e aquelas palmas estrondosas. Tento ser tolerante. Tento.

    Aí aproveito a sala de espera da dentista, abro o livro, começo a minha viagem… mas alguém liga o WhatsApp, manda e recebe áudios, depois desliza o dedo pelo feed do Instagram. Lá se vai o meu silêncio outra vez.

    Outro dia, no parque, procurei um lugar com sombra, longe dos casais, das crianças, dos grupos com violão. De repente, um sujeito para perto de mim, diz “bom dia”, começa a se alongar e — adivinhem — está acompanhado do seu inseparável radinho de pilha.

    Não sei se você reparou, mas, atualmente, ninguém faz nada em silêncio: academia, caminhada, natação, estudos, dirigir. Só resta ao leitor a sua luta diária por um pouco de sossego.

    Outro dia, sentado num banco bem no centro da cidade, minha viagem pela imaginação era frequentemente interrompida pelo flanelinha: “Aí, gente boa!”, “Aqui, gente boa!”.

    Abro o livro, fecho. Torno a abrir, fecho de novo. E assim, sem sucesso, vou tentando.

    Tento a sala de espera do teatro, do dentista, a praça, a biblioteca, o pronto-socorro, as gôndolas do supermercado, um lugar debaixo da árvore do estacionamento. Às vezes — como já me aconteceu — vou ler em frente aos hospitais, onde não se pode buzinar, falar alto ou fazer festa.

    Exageros à parte, é maravilhoso quando, em meio a este mundo tão barulhento, encontro um lugar quieto e posso saborear, finalmente, o livro. Só a imaginação me ajuda a suportar a vida. Tudo o que peço é que me deixem em paz.

  • Melancolia

    A melancolia me invadiu e fez morada – há tempos, desde que me entendo por gente. Pequeno, ainda, me apegava a objetos desimportantes e canções tristes, principalmente, que me levavam ao processo de reflexão. Não participava da maioria das brincadeiras que meus amiguinhos brincavam no colégio. Colecionador, mantinha intactos álbuns de figurinha e ficava lendo e observando cada uma delas na hora do recreio. Tinha, por isso, todas as mais raras, que eram objeto de troca, literalmente, somente para dar aos coleguinhas mais chegados a figura que lhes faltava. Uma vez meus pais viajaram com meu avô materno, para Uruguai, Argentina e Paraguai, em um passeio muito realizado à época, pela empresa Soletur, de ônibus, que saía exatamente do Rio de Janeiro com direção ao Sul do País e adjacências. Não conto as vezes em que chorei amalgamado às perturbações e tristezas provocadas pela solidão e abandono. Não entedia que meu pai e minha mãe fossem voltar. Minha avó, já idosa, não dava muita bola, mas me deixava escutar as canções que passavam no rádio. Uma bem famosa era Hunting High and Low, do a-ha, que me fazia chorar em desabalada desesperança. Talvez por isso, na vida adulta, tenha me apegado às músicas desse gênero, que trazem uma dorzinha no coração, como as da banda Toto também. Para falar mais sobre a melancolia, devo dizer que não me esqueço das palavras do poeta João Cabral de Melo Neto, que dizia ter a melancolia entranhada – e parece que já se acostumara com isso; relatara o fato a seu psiquiatra, que já não sabia o que fazer. De fato, com o tempo, aprendi, a partir de estudos aprofundados, que a melancolia é diferente da depressão. Na Psicanálise, a depressão é a perda da experiência, do desejo, da vontade, enquanto a melancolia é possuir um corpo sensível muito aguçado, para o bem ou para o mal. Mas não vim aqui falar de teorias. As pessoas não entendem que nasci assim, e que não é culpa minha ser melancólico. Já perdi amizades por isso, pela minha introspecção, por não entenderem que não estou sempre à disposição, que tenho meus momentos de angústia e solidão, necessários à minha sobrevivência. Quando criança, fui tido como depressivo e, pasmem, “um projeto de homossexual”, dada a minha hipersensibilidade. Nunca liguei. Coisa de gente pequena. Meu pai mesmo comprava revista de mulher pelada para um menino de cerca de dez anos e me dava, para me “divertir”; sem nem eu saber o porquê disso. Descobri tantas coisas, como a minha capacidade para as Artes… E não há nada que me impeça de viver da minha forma, neurodivergente, pois que, além do mais, sou autista, nível 1 de suporte. Levei tempo para me acostumar comigo. Agora quero ser feliz assim.

  • No fim sempre dá certo

    Engraçado: sou fã de carteirinha de muita gente séria e focada que vejo pelas ruas. Parece que, de tão preocupadas, vão resolver o problema da humanidade, todas as injustiças do mundo. Gente que não se distrai nunca, não perde tempo, não olha pro lado.

    Queria ser assim, mas não sou.

    Estou mais preocupado, claro, com coisas que se passam dentro de mim: uma música que ouvi e não me saiu da cabeça, uma piada que me faz rir sozinho na rua, uma saudade de um amor que passou, um filme que eu vi.

    Aí, naturalmente, quando saio de casa, não me lembro se minha ideia era ir no açougue ou no hortifruti do bairro. Se era pra comprar pão ou alpiste do passarinho.

    Outras coisas que, invariavelmente, eu esqueço: horários de compromisso, datas, aniversários — a vida organizada dos outros.

    Mas, quer saber?

    Acaba dando tudo muito certo.

    Se eu deixo passar a data de um concurso, as inscrições são prorrogadas.

    “Você viu que as inscrições foram prorrogadaa?” — me avisa um amigo.

    Se eu perco o horário de um ônibus, um conhecido passa e me dá carona. Se eu perco um documento de RG, alguém acha e me liga.

    Acho que, de certa forma, o acaso gosta dos distraídos. Vive dando uma forcinha, arrumando um atalho, uma saída de emergência qualquer.

    Como aquele motorista de ônibus que, solidário com a minha pressa, desviou a rota só pra me deixar no trabalho. Ele disse que não podia. Mas fez.

    Acho que o mundo tem pena dos distraídos. Ou, quem sabe, simpatia.

    O mundo está cheio de gente certinha demais, preto no branco demais. Talvez seja por isso que ele ajuda tanto gente distraída como eu.

    Que sai pra comprar pão. E volta com saudade.

  • BORNOUT

    Nasci um nada. Fui criado para ser um nada. Desde pequeno, nunca soube que o dinheiro pode ser usado para o lazer. Aliás, qual o significado disso? Meus pais só trabalhavam e tudo era minimamente economizado para podermos pagar as parcelas de nossa casa em um condomínio classe média e do carro do ano, a grande paixão do meu genitor. Objetos nos quais ele empregava seu tempo livre e sua matéria.

    Enfim, fui criado para ser insignificante e decidi vencer esse destino.

    Logo aos dez anos de idade comecei a trabalhar vendendo doce na porta da escola. Era onde eu estudava? Não. Para sustentar seus desejos de aparência, meus pais sempre me matricularam em escolas públicas. Longe da minha casa, é claro. Ninguém tinha grana para comprar doce de criança. Então, eu não podia vender lá. Por isso, ia para um colégio de bacanas onde a playboyzada sempre comprava tudo. Nunca soube se era por pena ou só para se livrar rápido de mim. Foda-se, isso não importava, estava fazendo o meu dinheiro.

    Minha relação com a grana sempre foi de respeito. Ao mesmo tempo em que eu queria juntar cada vez mais, tinha medo de ficar deslumbrado e gastar tudo. Por isso, deixava ela lá, guardada, bem no cantinho dela. O único motivo justificável para mexer nas economias era para investir. Sempre buscava novas formas de aumentar minhas economias.

    Trabalhei durante toda a minha infância e adolescência, nunca tive tempo para brincadeira ou para perder tempo com inutilidades. O trabalho era meu único foco. Quando fiz dezoito anos, peguei o que tinha, comprei uma moto, aluguei uma quitinete e sai da casa dos sonhos. Nunca mais voltei a falar com meus pais, apesar de eles terem tentado muito. Eu não tinha raiva deles. O que não tinha era tempo.

    Passava os dias fazendo entregas em meu “amigo” de duas rodas, quase nunca ia para a casa. Quando raramente estava livre, ficava pensando em qual era a utilidade de pagar aquele lugar. Entretanto, logo caia na real. Ali, ao menos, poderia jogar meu corpo cansado quando precisasse. Não dá para morar em uma moto.

    Por esse motivo, meus anos como motoboy foram sempre objetivando comprar um carro. Não queria um modelo pra aparecer para ninguém. Queria um econômico que não quebrasse muito. Trabalhei como boy por cinco anos até tingir esse objetivo.

    Agora, eu precisava de mais, eu sempre quis mais. Meu objetivo era conseguir juntar o meu primeiro milhão. Dá para juntar isso sendo motorista de aplicativo? Impossível? Eu não conhecia essa palavra. Se alguma hora ela viesse em minha cabeça, eu ligava o celular, colocava um vídeo de motivação e assistia focado. Meu pouco tempo livre era unicamente dedicado a assistir um canal de um cara que saiu do nada e ficou rico. Ele ensinava os outros a fazerem o mesmo. Eu ouvia aquilo até cansar para ver se acontecia
    comigo.

    Comecei trabalhando dez horas, muito pouco. Passei para doze, dá pra aumentar. Quatorze, posso fazer um esforço. Dezesseis, foca no seu objetivo. Dezoito? Tá puxado, quase não pareço um ser humano, mas preciso aguentar.

    Certo dia, eu já estava completando umas dezesseis horas de trabalho, meu corpo pedia arrego, mas minha mente me chicoteava pedindo pra aguentar mais. Faltavam “só” duas horinhas. No meio dessa briga, eu apaguei. Quando fui acordar, estava em cima de uma cama de um hospital. Quando acordei, meus pais logo se aproximaram. Olhavam com uma puta cara de tristeza de merda. Eu fiquei puto, falei “o que ta acontecendo“. Minha mãe apenas falou “Filho, sinto muito, você perdeu todos os movimentos da cabeça para baixo“.

  • O gato subiu no telhado

    O gato subiu no telhado. Na sala. Na lareira. E na janela.

    Brigou com as gatas, espantou o sono, o frio, rompeu a madrugada, fez barulho, fez rosnar, assustou. Fez miar.

    O gato preto e branco queria comida, queria carinho, queria estar. Queria o lugar das gatas, queria mudar o rumo, queria dominar o mundo, queria brincar.

    O gato subiu no telhado e desceu na lareira para apavorar. Botou terror na madrugada, tirou meu sono, tirou o sossego do meu lar. Ficou preso na janela, morto de raiva sem cumprir seu plano, sem mais apavorar.

    O gato subiu no telhado e desceu pela janela, tirando meu sono, meu sossego, mas sem conseguir me dominar.

    Sem sono, sem festa. Só me resta contar.

  • Pink Flamingo, o devasso e o certinho

    Peguei o táxi na Visconde de Pirajá como quem vai saltar de paraquedas — eu, sedento pela farra, e o poeta carioca ao meu lado, trajando cachecol marrom e sorriso aberto, pronto para qualquer desvio de conduta. No rádio, Caetano entoava seu inconformismo poético:

    “Vaca das divinas tetas
    derrama o leite bom na minha cara
    o leite mau na cara dos caretas”

    E eu, espremido entre banco e sede de noite, absorvia cada verso como promessa de libertinagem, enquanto o carioca soltava um riso baixo, fingindo anotar tudo num diário imaginário.

    O mineiro acomodado ficou no hostel, reclamando que só queria pizza, redes sociais e cama cedo. “Vai lá e depois me conta”, disse ele pelo whatsApp, sem imaginar que a noite carioca nos devoraria vivos.

    Quando o táxi estancou em frente à Pink Flamingo, cumprimentamos a hostess com um aceno torto — convite formal para o desenrolar da loucura. Em seguida, descemos a calçada e fomos comer uma pizza ali perto, vapor subindo em redemoinhos dourados:

    — Tira foto da minha bunda pra mim?

    — O quê?

    — Uma foto da minha bunda. O jeans tá muito justo.

    O casal chileno da mesa ao lado, estupefato, se entreolhou em silêncio, incapaz de decifrar a pepita de humor brazuca — um homem fotografando a bunda do outro numa pizzaria, só em Copa mesmo.

    O carioca, metódico que nem relógio suíço, tirou do bolso uma folha de papel e começou a riscar cada centavo: táxi, ingresso, pizza, deslocamento do Méier a Ipanema. Tudo anotadinho para a planilha do Excel no fim do mês — certinho com o botão de camisa engomado; eu, já com o cartão pronto pra estourar e a alma pronta pra esgotar quaisquer limites.

    Recarregados pela fome saciada, fomos a pé de volta à Pink Flamingo. A chuva miúda fazia do asfalto um espelho trêmulo, realçando o letreiro cor‑de‑rosa no fim da rua. E foi ali, sob aquele brilho artificial, que vimos a drag Cútis Negra descendo de um Uber, batom borrado e aura de quem invade um palácio. Outras drags se amontoavam, homens de mãos dadas cochichavam segredos e mulheres de saias curtíssimas sacudiam o quadril como lei. Ali, percebi que o escárnio e o êxtase formavam uma única batida — e era nela que eu buscava redenção.

  • Rosa, verde e rosa

    Rosa. Apenas Rosa. Nascida e criada na Estação Primeira de Mangueira. Primeira estação do trem e do seu coração.

    Rosa ganhou esse nome por duas paixões do seu pai. O samba de Cartola e a Mangueira. Rosa nasceu em 1980, ano em que Cartola morreu e seu pai resolveu lhe prestar essa homenagem. Ele assobiava “As rosas não falam”, quando se lembrava da mulher, que havia lhe abandonado alguns anos após Rosa ter nascido. Dizem que sua mãe era uma mulher linda, sorridente, mas não tinha nascido para ser mãe. Depois de ter parido Rosa, ela estava sempre triste, pelos cantos, como se não gostasse mais de viver.

    Seu Reynaldo tentava de tudo. Fez até um canteiro de rosas para ela, inspirado por Cartola. Dizem que a letra de “As Rosa não falam” foi quase totalmente composta quando Cartola levou à Dona Zica, sua esposa, umas mudas de rosas que plantou no jardim. Dias depois, ao abrir a porta pela manhã, ela percebeu que muitos botões haviam desabrochado e ficou deslumbrada com tanta beleza e quantidade. Chamou seu amado e perguntou:

    – Cartola, venha aqui! Venha ver o jardim! Por que é que nasceu tanta rosa?

    E o sábio respondeu:

    – Não sei, Zica. As rosas não falam!

    Mas a mãe de Rosa parecia imune a qualquer beleza. Nada mais lhe interessava, lhe fazia sorrir, lhe animava. Sua última lembrança da mãe foi no desfile que consagrou a Mangueira, em 1984, na inauguração do Sambódromo. Quem puxava o samba era um tal Jamelão – puxava não, porque ele não gostava de ser chamado de puxador – um senhor mal-humorado com a voz de trovão, que assustou Rosa quando ela passou ao lado do carro de som. Ele parecia estar sempre bravo e a menina se agarrou ao pai com cara de choro, enquanto sua mãe se misturava ao mar verde e rosa da ala das passistas. Depois disso, ela nunca mais a viu. Nesse ano, aconteceu um dos feitos mais marcantes da história da escola: Depois de desfilar, a escola retornou pela Sapucaí, sendo aclamada pelo público. A comunidade toda ficou em festa, mas seu Reynaldo não conseguiu comemorar. Procurava sua amada em todos os cantos, parecia um louco a procura do nada. Só encontrava o vazio e se enfurecia gritando por ela.

    Mas será que alguém tinha perguntado para a sua mãe se era isso que ela queria? Mulher negra da favela, casou-se com o seu primeiro homem para sair de casa e da fúria do pai. Queria pôr fim ao ciclo de humilhação e violência que vivia com a mãe, que tinha um filho atrás do outro pelo simples motivo de que não apanhava enquanto estava grávida. Se tornou uma mulher fria, sem brilho. Paria como um bicho e fazia de tudo para engravidar novamente. O marido se gabava, enquanto ela só queria sobreviver.

    Nair era o contrário. Seu sorriso cativava a todos, seu brilho era natural. Mas precisava ser livre, desfilar, cantar seu amor pela vida. O casamento com Reynaldo ia muito bem até a notícia da gravidez. Apaixonados, nunca pensaram em evitar. Muito pelo contrário, Reynaldo sempre dissera que queria ter muitos filhos, um para cada ala da sua escola. Mas sua amada começou a se sentir como a mãe, presa pelo ventre, amarrada pela obrigação. Não falava sobre o bebê, não queria saber de pensar em nomes, não se importava se seria menino ou menina. Tinha pesadelos constantes e, por mais que Reynaldo lhe acalmasse e jamais tivera coragem de lhe erguer a mão, a barriga crescendo era muito mais um fardo do que um acalanto.

    Nesse dia em que ela sumiu na multidão, fazia 3 anos que ela não saia de casa. Depois de muita conversa de amigos e parentes, ela resolveu voltar para a sua escola. Seu Reynaldo imaginava que ela só precisava voltar a sorrir, voltar a brilhar. Como se todos os seus fantasmas fossem desaparecer na magia verde e rosa do Carnaval. Ela se aprontou com esmero especial. Vestiu-se como se fosse a última vez. Se despediu do marido e da filha com lágrimas nos olhos. Acharam que era a emoção. Mas era um adeus.

    Depois que a mãe de Rosa foi embora, Seu Reynaldo a criou do jeito que pode. Pedindo ajuda para a mãe e as irmãs que se revezavam enquanto ele trabalhava, fazendo bicos pela comunidade de pintor, eletricista e o que mais precisassem. Rosa cresceu cercada de amor, mas a falta da mãe parecia uma chaga aberta, um afago que nada conseguia substituir.

    Rosa foi se tornando uma bela moça e fazia vista pelas ladeiras da Mangueira. Mas enquanto todas as suas amigas sonhavam em desfilar na escola do coração, Rosa queria escrever o samba enredo. Queria cantar sua tristeza, colocar para fora a falta da mãe, as aflições do pai, o abraço que não encontrava parceria, o choro que só encontrava eco.

    Fazia versos como quem ama. Como quem padece. Mas não mostrava para ninguém, sabia que não tinha lugar no meio dos adultos, nem dos homens. Se deslumbrava quando seu pai entoava os clássicos da escola, imaginava novas rimas, corria para anotar suas ideias em um bloquinho cor de rosa estrategicamente guardado sob o seu travesseiro. Se escondia no barracão enquanto os homens bebiam e batucavam na mesa imaginando novas canções.

    Nas festas de família, todos gostavam de mostrar os seus talentos. Sua tia Ana cantava enquanto seu primo José tocava violão. A alegria era enredo fácil e as reuniões de família iam até o dia amanhecer. Era aí que o morro ficava mais bonito, com os tons de rosa inundando os becos e iluminando os corações.

    “Mangueira, teu cenário é uma beleza. Que a natureza criou…”

    Seu primo José era parte importante na vida de Rosa. Como um irmão mais velho, era ele quem a defendia dos outros meninos, fazia às vezes papel de pai quando seu Reynaldo viajava para fazer serviços em outras cidades e lhe dava sempre bons conselhos. Era mesmo um bom primo. Um dia, ao voltar da escola, deu de cara com ele deitado na sua cama com o bloquinho cor de rosa na mão. Ela deu um pulo e o arrancou da mão dele:

    O que você está fazendo aqui?

    Minha mãe mandou dar uma olhada em você, parece que seu pai vai voltar tarde. O que você escreve nesse caderno?

    Não interessa!

    Interessa sim. É lindo!

    Você acha mesmo?

    Acho sim. Para quem você escreve isso?

    Antes que José imaginasse que ela estava apaixonada por alguém, Rosa tratou de inventar algo. Ela não queria dizer da saudade da mãe, da tristeza do pai, mas também não queria fazer papel de boba dizendo que queria ser compositora de samba. Seu primo ia rir da sua cara.

    Fala, Rosa. Já sei, você está apaixonada!

    Claro que não! Só…escrevo.

    Pois eu acho que tem poesia aqui. Posso copiar algumas coisas? Vou hoje no barracão e acho que dá para fazer um samba.

    Os olhos de Rosa se iluminaram.

    Fazer um samba com as minhas letras?

    Claro. Mas, olha só. Melhor eu dizer que é meu. Você sabe, os coroas não iam aceitar uma menina na roda de samba.

    Pode fazer o que quiser. Será que eles vão gostar?

    Só podemos tentar.

    À noite, José foi se encontrar com os outros compositores já com um samba na ponta da língua.

    Vocês precisam escutar isso!

    E José foi, pouco a pouco, emendando frases, batucando aqui e acolá, falando mansinho…E as palavras foram se tornaram música e ganhando som. Seus companheiros de roda, já munidos com seus instrumentos, foram dedilhando acordes e cobrindo o silêncio. Era uma melodia triste, como todo samba deve ser.

    Rapaz, ou você está muito apaixonado ou sofrendo muito. O que, no fim, dá na mesma!

    Todos riram enquanto José não se aguentava:

    Gostaram mesmo?

    Falta um arranjo melhor, mas tem cheiro de sucesso!

    Rosa não tinha conseguido dormir. A todo momento esperava o retorno do primo que havia prometido lhe falar sobre o que acontecera no barracão. O pai, seu Reynaldo, abriu a porta da frente, cansado de mais um dia de labuta e Rosa estava lá de pé, achando que fosse José.

    O que você faz acordada, Rosa? Seu primo não lhe avisou que eu iria demorar?

    Sim, papai, mas não conseguia dormir. Estava preocupada com o senhor.

    Isso não era de todo mentira, mas Rosa queria mesmo era saber notícias do seu samba. Fingiu um bocejo, abraçou o pai e voltou para o quarto. Espiava a lua longe, se escondendo por nuvens finas que pareciam se desfazer com um sopro. De repente, um barulho na janela. Deu um pulo tão rápido que quase caiu da cama.

    Rosa…tá acordada?

    José, pelo amor de Deus! Como poderia dormir com tanta ansiedade no peito?

    Vou falar rápido para não acordar o seu pai. Eles adoraram a letra, vamos fazer os acordes e a música amanhã. Vai ser um sucesso! Agora vai dormir.

    Dormir? Como Rosa poderia dormir depois de uma notícia como aquela? Ela se revirou na cama até os primeiros raios de sol e não conseguia parar de sorrir e pensar e compor até na hora de fazer o café até chegar na escola e ainda depois. Tinha que dar um jeito de ir até o barracão naquela noite para ouvir – imaginem só! – o seu samba ser tocado, apreciado e amado pelos melhores músicos da escola. Tinha a sorte de ser sexta feira e não ter escola no dia seguinte. Seria mais fácil convencer o pai.

    O dia passou devagar, a tarde chegou preguiçosa e quando os últimos raios de sol inundaram o morro e todo o rosa que fazia a tristeza ir embora se dissipou, Rosa já estava pronta e faceira na espera do pai chegar para pedir autorização para ir ao barracão. Sorte das sortes, seu Reynaldo chegou cedo naquele dia e muito bem humorado, o que era novidade.

    Pai, que bom que chegou cedo. Preciso lhe pedir uma coisa.

    Onde você está pensando em ir tão arrumada assim? Não me diga que está namorando!

    Claro que não, pai! Só quero ir no barracão ver o meu primo tocar um samba novo.

    José voltou a compor? Essa eu quero ver. Podemos ir, mas tem certeza que não tem namorado por aí?

    Juro, papai!

    Esse comportamento da filha, ao mesmo tempo que deixava seu Reynaldo aliviado, também o deixava pensativo. Será que a menina tinha medo do amor?

    Os dois chegaram cedo no barracão e os músicos ia aparecendo aos poucos, vindos do trabalho, alguns ainda famintos, pois a vontade de chegar logo no local do samba era maior do que a de jantar em casa. Todos tinham um trabalho formal, pois viver de samba ainda não dava dinheiro. Mas eram tão apaixonados pelo que faziam, que talvez até se arriscassem.

    Uma figura diferente estava na roda naquele dia. Uma mulher sorridente, forte, com lenço colorido amarrado no cabelo. Seu pai correu para cumprimentá-la:

    Zica, quanta honra ter você aqui!

    Reynaldo, meu amigo…Como você está? E a pequena Rosa?

    Rosa não conseguia acreditar no que via. Era dona Zica, viúva de Cartola. E ainda sabia seu nome!

    De pequena ela não tem mais nada, Zica!

    Rosa foi se aproximando devagar como quem chega no fim de uma peregrinação. Como toda a sua vida se resumisse naquele momento.

    Mmmuiito pprazer, dona Zica. Sou muito sua fã!

    Reynaldo, sua filha já é uma mulher! Estamos ficando velhos! E ela sorriu, enquanto puxava Rosa para perto em um abraço com cheiro de peixe e cebola.

    Vieram para o meu vatapá? Ela era famosa pelo prato.

    Nem sabia, mas viemos também pelo samba novo do José.

    Samba novo? Essa eu quero ver.

    E no meio do preparativo para o vatapá, o barulho das latinhas de cerveja abrindo e os instrumentos se afinando, chegou José. Muito bem arrumado, penteado e perfumando, como um mestre sala à espera da sua porta bandeira.

    Caprichou, hein?

    Todos os homens fizeram questão de brincar com a aparência de José, pois era o único que havia tido o cuidado de ir em casa antes de chegar no barracão.

    Só pode estar mesmo apaixonado!

    Mas a farra durou pouco. Eles queriam era escutar o samba. Até Dona Zica saiu da cozinha e pediu para outra pessoa ficar de olho no vatapá. Rosa se sentou perto do primo, que com um aceno carinhoso, a chamou para mais perto.

    A música falava de perda, de amor, mas também de esperança. Rimava a vida com alegria e Rosa a cantava baixinho, com aquela segurança de compositora. Seu Reynaldo tentava segurar as lágrimas, pois não conseguia parar de pensar na sua amada Nair. O “Jorge da Cuíca” fingia tirar um cílio do olho esquerdo que teimava em não cair. Seu Jair, no violão, viu uma lágrima descer pelas cordas e quase desafinou. Na verdade, todos os homens tentavam segurar alguma emoção escondida – homem não chora, afinal – mas Dona Zica estava atenta aos lábios de Rosa. Ela cantou a música toda transbordando de sentimentos. Quando a última nota entoou e todos aplaudiram José, Dona Zica perguntou?

    Quem fez essa letra linda?

    Fui eu, Dona Zica. – Respondeu, cheio de orgulho, José.

    E Rosa?

    A menina, que estava ainda celebrando em silêncio o seu sucesso, foi tirada daquele torpor pelo seu nome dito daquela maneira tão certa.

    O que eu fiz, Dona Zica?

    Eu que te pergunto. O que você fez? Esse samba?

    Todos se entreolharam como se aquilo fosse uma brincadeira. Seu Reynaldo, quase envergonhado, correu para intervir.

    Imagina Dona Zica. Rosa é uma criança, onde ia arrumar imaginação para isso?

    Rosa continuava calada, sem saber onde era o seu lugar naquela situação. Mas José, consciente do talento da prima, disse:

    Foi Rosa que escreveu sim, Dona Zica. Eu só dei uma ajeitada, meus parceiros fizeram a melodia, musicamos… Mas a letra é de Rosa.

    Seu Reynaldo não sabia se abraçava a filha ou a colocava de castigo, Quanta ousadia escrever aquele samba. Mas quanta tristeza também na vida dessa menina, meu Deus!

    Os outros sambistas também não sabiam como lidar com aquela menina que, de repente, se mostrava uma grande compositora. A filha do Reynaldo, quem diria! Mas ainda era uma menina, no fim das contas.

    Parabéns Rosa. Você foi aprovada no mundo do samba! – Disse Dona Zica como para dar um fim àquela confusão de valores – É isso o que você que fazer?

    É sim, Dona Zica.

    Então tem a minha benção e de todos aqui. Concorda Reynaldo?

    Mas é claro que sim. Se é isso o que ela quer!

    Ninguém iria discordar de Dona Zica e nem mesmo José ficou chateado por ter a prima alçada quase ao estrelato do samba em uma noite. Ficou feliz em não precisar mentir mais e prometeu ajudar Rosa nas próximas composições.

    Sempre falta alguma coisa, né?

    Rosa sorriu como estivesse em um sonho. Mal sentia o seu corpo, parecia levitar por entre todos. A música recomeçou e Dona Zica pediu a vez. Queria homenagear Rosa, com o seu segundo intérprete favorito.

    Que Cartola não me ouça, onde ele estiver. Mas eu sempre fui apaixonada pelo Orlando Silva! – Todos riram e ela entoou:

    Tu és divina e graciosa
    Estátua majestosa
    Do amor, por Deus esculturada
    E formada com ardor.


    Da alma da mais linda flor
    De mais ativo olor
    Que na vida é preferida
    Pelo beija-flor.


    Se Deus me fora tão clemente
    Aqui neste ambiente
    De luz, formada numa tela
    Deslumbrante e bela…

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