COntos

  • O leito do hospital

    O leito do hospital era alto de muitos metros. Eu olhava o mundo de cima, com galhardia. Eu olhava o mundo como quem não olha. Eu não olhava o mundo: a vida passava. Era noite alta. O leito alto era um leito de muitos ruídos: motos, carros, ônibus, tratores, uma bomba atômica, meu Deus! Todos os barulhos do mundo chegavam ao meu leito. Era escuro. Eu estava alto, ouvindo todos os barulhos do mundo, e alheio.

    Doía. Em algum lugar do mundo doía. Doía em mim. Em algum lugar de mim. No pulso cortado, no lado direito do corpo, no esquerdo? Em algum lugar de mim, doía. Carros passavam. Na rua, no mundo, nos corredores do hospital. O enfermeiro estava ausente, presente, outra vez ausente. O enfermeiro era um zumbi esvoaçante pelas portas e janelas do quarto.

    E a dor? O que é a dor? O corpo tenso. O corpo ferve. Não há nada e há uma tensão no ar, no corpo. Pior: você não sabe que está sofrendo. Você está sofrendo. Como se estivesse levitando: e sofrendo. Você está atento. Sente todos os ruídos do mundo. Brecadas, um motor, os motores, mudanças de marcha. Sopros, sopros, como se um carro respirasse com o outro. Os carros entravam pelos corredores do hospital a dentro

    Nós, doentes, moribundos, não existimos. Lembrem-se: quem está doente num hospital é um moribundo. A vida é um fio. Você está vivo. Você está mais vivo que nunca. Você sente que está vivo. Você está vivo numa tumba de mortos. O enfermeiro a dois metros de sua porta é um guardião da sua tumba. E que tumba fria. Você fervendo. Você não se importa, mas está fervendo. Você está fora de perigo, é eterno, mas está fervendo. O que está sentindo? Milhares de vezes lhe vem à cabeça a mesma ideia: Não estou sentindo nada. O corpo fervendo.

    Folhas verdes no chão. Folhas verdes e vermelhas. A morte que deveria ter sido e não foi. Você está morto? Vivo? As flores murcham nos vasos, não têm raízes. Eu tenho raízes? Vruum, vroom, vooom, in, ein, iin, voom, vruum, vrooom. As minhas raízes nos ruídos, de fora, de dentro do hospital. O que existe fora, dentro de mim? Que história devo contar? Devo contar alguma história? Quem sou? Sou? Fui já alguma coisa? Ser? Que é ser? Existe um presente de ser? Existe um passado? O ser tem história? Que fazer do meu corpo ilusório? As flores murcham nos vasos, ilusórias.

    A noite prossegue, a noite é infinita. Há um braço negro se estendendo sobre você, um braço enorme, um braço de sombra, pingando sangue. Tudo são perguntas. O que acontece? Até quando? Eu existo? Por quê? Para quê? Um anjo de sombra paira sobre você. A vida é um vaso com um pouco d’água e uma flor dentro. Alguém pergunta: – Quem conspira? Ninguém? Sim? Não?

    A flor é executada. A beleza fenece no devido tempo: antes do tempo. A beleza é perene: mas fenece. A beleza é eterna, mas como uma ideia. A beleza vai morrer. Nós não somos nada. A permanência não existe. Pétala murcha. Pó. A cinza espalhada sobre a terra, a permanência, meu corpo vão. Que me queres? Ó mundo, ó demônios, o nada me espera. Eu sempre soube: o nada me espera. Eu não sou nada. Nada me prende a nada, a não ser este leito de hospital. Estou feliz. Não espero nada. Existe uma dor, mas eu não defino essa dor. Eu não distingo essa dor. Nem sei se dói. Ó vida, para que viver? Eu nem sei se quero viver ou morrer. Quantas vezes mergulhei do alto precipício e era uma visão sem fundo e era o vácuo, era o vácuo, o vácuo. No fim, não caía mais. Assim a vida. Estamos caindo? Cairemos mais? E o vácuo? Quem não sentiu o vácuo de viver? Morrer não é nada, viver não é nada. Que fazer? O leito do hospital me prende. Algemas de aço, estou preso, estou preso. Tenho as mãos e os pés presos em algemas de aço, e o pescoço, a língua, os olhos, o sexo.

    Existir, que é existir? Existo como um morto-vivo existe. O que é realmente viver, morrer? Nem sei se estou sofrendo. Um século algemado a este leito de hospital. Os pulsos sangrando, os tornozelos, o pescoço. A fronte é azul. A fronte é vermelha de sangue e azul, azul, azul fosforescendo no escuro. Como brilha, esse escuro. E o dia não vem, o dia não vem. Por que queremos a presença do dia? O que é o dia? Morrer, viver, alguma diferença? Deuses, acorrentado a este catre negro. Acorrentado num porão de navio que sacoleja, aderna com a tempestade – vamos afundar? Tenho a certeza de que não vou afundar. Tudo é certo neste mundo. Por que sofro? Nada se acaba, a história continua, ninguém tem importância nenhuma. O homem sofre diante do universo, mas que é o universo? Que é o homem? Nada versus nada. Estrelas brincam de cabra-cega, esconde-esconde, mãe-da-rua. O que é a vida? Pirulito nas mãos de uma criança, chupou, acabou-se. Por que, então, viver? Resta, do pirulito, o sabor. Para quem? A criança? Por quanto tempo? Resta do pirulito o sabor. As algemas me roem o pulso. Estou preso a este leito de hospital. Estou preso à vida e olho meus companheiros, que são ninguém. Um coitado com dor de estômago resmunga e vomita no leito ao lado. O enfermeiro cochila na cadeira ao lado da porta. Meus companheiros não nutrem grandes esperanças.

    Sei que vou morrer. Mas não agora. Hoje, nesta noite escura, não penso na morte. Hoje vivo a minha morte. Que longa, a morte. E, no entanto, sei que não vou morrer. Hoje, não penso na minha morte. Estou vivo como o diabo. Sabem o que é isso, estar vivo como o diabo? O diabo abana a cauda no meio do redemunho. Escorregando na vida como o diabo, liso como o diabo, com aquela baba gosmenta do diabo. A vida me escorrega por entre os dedos como o diabo. E eu sei que não vou morrer.

    Não. Hoje não. É dia. Gente entra e sai. Vivi um século sem saber que doía. Sem saber que não estava morrendo muito devagar. Uma aranha me sobe pela cara. Uma aranha se gruda na minha cara. Estou limpo. Estou assustadoramente limpo. Um banho, lençóis limpos, pijama limpo e o mesmo corpo inerme. Inerme? Eu nem sabia que doía. Eu doía. Uma injeção me salva. Dormi. Dormi como um homem dorme. Como um anjo. Muito de leve. Como um morto. O morto que eu fui e sou.

  • A loja de despedidas

    Na estação rodoviária da cidade, entre um quiosque que vende lembranças para turistas e uma lanchonete, há uma loja de despedidas. Ali, os viajantes solitários — aqueles seres que transitam de um lugar para outro sem que haja ninguém que se despeça deles — podem escolher a melhor forma de partir da cidade. Há despedidas para todos os gostos, ânimos e possibilidades financeiras. Os atores contratados pela loja, de todas as idades, são muito experientes e treinados nesse mister, e sabem demonstrar a dose exata de emoção que momentos como esses pedem.

    A um preço bem camarada pode-se comprar um aperto de mão, daqueles que acontecem entre dois conhecidos cordiais, pulso firme e olhos nos olhos. Ou então um abraço sincero de um amigo querido, de quem se sentirá muita saudade. Outra despedida bastante procurada é aquela que envolve a família toda, com direito a lágrimas e a recomendações como “ligue quando chegar lá” e “proteja-se do frio”. Esse tipo de despedida tem como bônus um abraço coletivo e emocionado entre pais, filhos, tios e sobrinhos do viajante.

    A despedida mais solicitada é, sem dúvida, a do beijo e abraço da namorada. É o produto mais caro da loja, mas os viajantes solitários não se importam com o preço. Acreditam que é um dinheiro bem gasto aspirar o perfume que sai dos cabelos da moça quando ela se aproxima sorrindo e de braços abertos. Sua voz sussurrada no ouvido do viajante, dizendo o quanto sentirá a falta dele, o quanto o ama e o quanto sofrerá com sua ausência, é música para quem está sozinho na rodoviária, cercado por desconhecidos. Por um pequeno valor adicional, o viajante poderá ainda desfrutar de uma caminhada de braços dados com a namorada pela plataforma, com direito a olhares de amor, carinhos no rosto e um último abraço apertado pouco antes do ônibus arrancar.

    A lembrança das despedidas compradas pelos viajantes solitários costuma acompanhá-los durante boa parte da viagem, confortando seu coração e seus pensamentos. Assim, fica um pouco menos dolorosa a sensação de exílio que experimentam a cada partida.

  • Beiça

    Beiça era o apelido de César Albuquerque Valladares.  

    Vestia-se como tivesse sido arrumado pela mãe para ir à escola, mesmo com quase cinquenta anos de idade, mas de sua boca qualquer narrativa sobre problemas do cotidiano ganhava uma dimensão épica e fazia quem estivesse por perto pensar e muitas vezes ter vergonha de si mesmo em algum aspecto.

    À primeira vista, parecia ter saído de um retrato de família de 1890.  

    Era designer gráfico. 

    Trabalhava em casa e bem, mas não gastava muito de seu tempo trabalhando. O fazia para as despesas corriqueiras e saía aleatoriamente pela cidade durante o dia, sem uma rotina fixa.

    Era vizinho de Zimi, baterista da banda Crop Circles, no bairro da Liberdade, perto da estação de metrô.

    Viviam no lugar que, segundo eles, mais se aproximava do que um dia foi o Chelsea Hotel, antes de se tornar icônico.  

    Um totem sagrado em meio ao caos diurno e o abandono noturno da região central da cidade.

    Era sagrado apenas para eles, na verdade.

    Zími o conheceu porque frequentavam diariamente a mesma padaria.

    Um dia, Beiça havia bebido durante um jogo de futebol que era transmitido na televisão da padaria e na sequência de um comentário sobre a partida, emendou uma ideia sobre como o que o rebanho mais odeia em quem pensa diferente não é a opinião divergente em si, mas a audácia de querer pensar por si mesmo, sendo essa uma atividade para a qual esse rebanho é inapto.

    Dizia que “a parte das massas sem educação e cultura prefere fazer merda a vida toda do que aprender a fazer o correto, da forma correta. 

    Negam-se a aprender por um tipo de orgulho, e uma estranha repulsa a mudar de opinião, onde a mácula, na cabeça dessa gente, é abrir mão de uma convicção burra e admitir o equívoco, implantado por intuição deficiente, falta de informação, ou por informação falsa.”

    Um dia, na véspera do show do Renaissance e do Curved Air, em São Paulo, Zími  lamentava a falta de dinheiro para esse rolê.

    Tinha pago o aluguel três dias antes, e embora estivesse acostumado à falta de dinheiro nos dias que sucedem o pagamento do aluguel, perder esses shows seria triste.

    Mas Beiça, que tinha em seu quarto um poster da Annie Haslam, mas também não tinha dinheiro para o ingresso, entrou em ação.

    Foram de metrô até os arredores da casa de show, chegando duas horas antes do início, e tendo combinado entre eles no caminho que seria necessário algum teatro, que ficaria a cargo de Beiça, enquanto Zími apenas acompanharia quieto ou falaria o mínimo possível.

    Logicamente, a nata do público alvo tinha meia idade e aparentemente, boa condição financeira.

    Beiça, próximo da bilheteria, simulava uma conversa ao celular, enquanto Zími, ao seu lado apenas ouvia e observava até onde ele poderia chegar.

    Toda vez que alguém, mas de preferência um grupo de pessoas se aproximava para entrar na casa, Beiça se desesperava ao celular, dizendo para alguém que não estava do outro lado, que ele havia esquecido os ingressos em casa.

    Haviam chegado ao consenso, ainda no metrô, que as chances de sucesso na operação eram pequenas, mas ao menos tentariam algo em nome da apreciação de arte.

    Mas não demorou muito, nem foram necessárias muitas tentativas, até que uma família chegou com um ingresso a mais, e um rapaz entre eles abriu mão do ingresso e partiu para outro rolê, pois não tinha interesse no show, e nem ao menos sabia do que se tratava.

    Assim, os dois conseguiram assistir aos shows, lembrando que vinte anos, o Renaissance já era visto nos sebos e feiras de discos com seus álbuns clássicos estampando o que para eles era algo de uma nostalgia que havia muito tempo já era antiga.

    Um evento de valor sentimental inestimável para Zími e Beiça, e que já havia sido adiado pela pandemia. 

    Parecia algo que nunca aconteceria.

    Entraram e logo se separaram, se encontrando novamente apenas na tarde do dia seguinte, na padaria, quando a conversa sobre a noite anterior consumiria a noite seguinte.

    Beiça sempre mencionava que continuava a fazer tudo o que fazia quando jovem, mas que a recuperação física agora era mais penosa.

    Nessas horas, encontrava conforto espiritual trabalhando em seu computador e ganhando o dinheiro do mês seguinte até que estivesse saudável e disposto para começar a gastá-lo com algum critério.

    Para Zími,  cuja cara ostentava as marcas de muitas batalhas perdidas, e que viu aos onze anos o pai ser preso em casa, de pijama, numa manhã em que se preparava para ir à escola, e se tornou músico do underground que se sustenta com biscates, Beiça era um folclórico pregador de utopias permeadas de realismo, mas autônomo e até certo ponto, divertido, e que destoava um pouco em uma sociedade que busca formar apenas consumidores sem alma.

    Estavam de olho na mesma mulher, uma garçonete da padaria que frequentavam, mas não havia rivalidade agressiva, pois nenhum dos dois a havia chamado para uma abordagem mais franca sobre o assunto.

    Coexistiam num mundo em que pareciam ser expectadores de um espetáculo deprimente, em que quase todas as outras pessoas estavam num palco, em que triunfam as nulidades e onde a virtude é motivo de piada.

    Viviam um dia de cada vez, pois sabiam que fenômenos naturais muito mais fortes que a humanidade, e que chegam através de ambientalistas sérios que não são ouvidos podem destroçar planos futuros que não correspondam às imposições da natureza.

    Cada um ao seu modo passou pelo período agudo da pandemia sem terem suas rotinas muito abaladas, pois antes dela já não almejavam superar limites humanos de consumo ou comportamentais.

    E no fim de cada dia, podiam olhar de cima, cada um de sua janela, a cidade em repouso, se preparando para um possível novo amanhecer, cheio de caos, correria e baixa qualidade de vida, no espetáculo humano oferecido pela multidão nas ruas do centro paulistano, em que todos são coadjuvantes escravizados sem nem ao menos saberem disso.

  • Somos filhos da rua e da noite

    O Zé Preto se acomodou, ajeitando o cobertor. O Espanhol deu um puxão:

    — Esse cobertor é meu.

    O Zé Preto empurrou o outro com a bunda. Riram.

    — Vai tomar no “cu” — um disse para o outro. E riram.

    Passou um carro numa poça e jogou água nos dois.

    — Vai se foder — o Espanhol gritou, se levantou e ficou esbracejando contra o carro, que já tinha virado a esquina da rua Brás Cubas. O Zé Preto correu pegar uma pedra. O Espanhol avançou contra ele com uma barra de concreto na mão.

    — Esse carro —, explicou o Zé Preto.

    — Ia me dar uma pedrada? — disse o Espanhol.

    Saiu uma leva de gente da boate Estrela do Oriente para ver os dois amigos se estranhando.

    — Nós somos filhos da rua e da noite — disse o Espanhol, que era preto como o Zé Preto. Por isso os dois se voltaram para os homens e as mulheres do cais, e sorriram.

    Mas, quando o Espanhol se virou para deitar, o Zé Preto viu aquele porrete na mão dele e pegou outro para se defender.

    — Calma, cara, nós somos irmãos — disse o Espanhol.

    Nisso, a Cida Vermelha saiu da boate correndo atrás de um cliente, que entrou no carro e acendeu a luz.

    O Zé Preto, cego, brandiu o porrete. Acertou o ombro do Espanhol, que correu de encontro ao Zé Preto, abraçando-o. Os dois caíram no chão abraçados.

    — Apaga a porra dessa luz, gritou o Zé Preto. A Cida Vermelha ainda viu o Espanhol erguer o porrete com as mãos ensanguentadas.

    — Meu sangue — disse o Zé Preto.

    — Meu sangue — disse o Espanhol, e deu uma porretada.

    As barras de cimento se ergueram e abaixaram sete vezes. A Cida vermelha viu a cabeça do Espanhol aberta ao meio. Sangue e pus na calçada. O Zé Preto geme ao lado: ainda não está morto.

    — Meus amores — disse a Cida Vermelha, olhando o Zé Preto agonizando abraçado ao amigo morto.

  • O magro, o gordo e o miúdo

    Os três dividiam a cela. Um era alto, magro de olhos pequenos e negros, outro era gordo e de corpo nervoso, o terceiro era miúdo e de pouco espírito. Foram condenados à morte por um tribunal improvisado. Isso era tudo o que sabiam a respeito de seu destino. Nem se preocuparam em ler a sentença, conteúdo já sabido pelos três. Também não lhes disseram quando seria a data fatal. Eles só esperavam, jogando baralho e alguma conversa fora. De vez em quando interrompiam o jogo e apuravam os ouvidos para escutar as vozes e os gritos vindos do pátio, e em seguida o barulho dos tiros. Assim que o silêncio se impunha, eles voltavam às cartas.

    Passou o tempo e a rotina da espera da morte entrou nos ossos dos três como uma febre que os deixava inquietos. Os nervos gritavam, e por pouco não chegaram às agressões físicas. Não seria bom para nenhum deles. Sossegavam depois de uns minutos e logo cada um ia para um canto. O gordo às vezes lambia o reboco da parede em busca de outro sabor que não o da comida rançosa que serviam ou da saliva grossa de tabaco que inundava sua língua. O miúdo estacionava os olhos no muro alto na frente da janela; tinha ouvido falar que um tal Leonardo da Vinci fazia isso quando precisava de inspiração: olhar para um ponto e deixar os olhos esquecidos lá até… O magro escrevia um romance; não num papel, que isso não tinha na cela, nem lápis ou caneta ou giz: escrevia na mente. Construía as frases com cuidado, corrigia, lia os parágrafos em voz alta, comentava o enredo com os companheiros, corrigia de novo. O romance progrediu junto com os dias e as horas e chegou a quase trezentas páginas, duzentas e oitenta e nove em conta certa, com espaço dois entre as linhas e fonte Times New Roman. Bem memorizado, uma noite o magro o leu de uma só vez para os outros dois, que gostaram muito da história.

    Mas que inferno se torna a vida quando a espera brinca com a exasperação! O magro, o mais sensato deles, propõe que os três leiam o livro que escreveu. Foi tanta leitura, que o gordo conseguiu memorizar todas as páginas. Fez correções e sugeriu alterações no rumo do enredo. O autor acatou e corrigiu o original. E teve uma ideia: se algum deles se salvasse da morte, deveria publicar o romance em papel. Os três concordaram que aquela era a melhor história que já tinham lido na vida, e o mundo merecia saber disso. O romance ficou ainda melhor com as leituras e correções seguintes, até o ponto em que, quando vieram buscá-los para a execução, nenhum deles duvidava de que se tratava de uma obra-prima.

    O primeiro a ser levado foi o magro, e era um dia de sol quente; bastou um tiro. Depois foi a vez do gordo, e no dia em que o mataram chovia; foram necessários dois tiros porque o corpo dele era grande e a gordura, espessa. O miúdo e de pouco espírito foi indultado. Saiu da prisão e foi para casa, onde ninguém o esperava. Não se lembrou do romance que o magro tinha escrito. Sua memória, tão rachada quanto o muro em que costumava deitar os olhos, nas longas horas dentro da cela, foi incapaz de reter todas as palavras, todos os parágrafos, todos os capítulos da história. Não se lembrava sequer do fio do enredo. Mas afirmava, para quem quisesse ouvir, que era uma obra-prima, o melhor romance que alguém já escrevera. E repete isso até hoje, trinta anos depois do tempo em que dividiu a cela com o magro de olhos pequenos e negros e com o gordo de corpo nervoso.

  • Tempo não é dinheiro

    Mãe: “Meu filho, você está indo pra onde?”

    Filho: “Estou indo pra minha nova casa.”

    Mãe: “Você não tem outra casa! Largue de ser ridículo!”

    Filho: “Eu não tinha, mas agora eu tenho dezoito anos e terei. Vou morar com a minha tia.”

    Mãe: “Com que dinheiro você vai viver?”

    Filho: “Sou copywriter, economizei uma grana, ainda que pouca para os padrões burgueses. E minha tia, que pra mim é como irmã mais velha, já tem o apartamento dela, que será dividido comigo. Além disso, fui aprovado na Federal, e se houver algum futuro pra humanidade, eu terei algum tipo de futuro também.”

    Mãe: ”Seu cretino! Mal agradecido! Hoje é seu aniversário e eu convidei seus amigos pra virem aqui!”

    Filho: “Quem vai trazer a maconha?”

    Mãe: “Vou ligar pro seu pai e contar tudo que você me falou!”

    Filho: “Agora eu não moro mais na casa dele. Já tenho outra. Estava tudo programado desde o ano passado.”

    Mãe: “Você vai morar com aquela maloqueira que não acredita em Deus!”

    Filho: “Se ela acreditasse, eu preferiria continuar morando aqui mesmo. Você e meu pai são cristãos não praticantes. Tem só a parte ruim desse negócio. Não me pergunte qual é a parte boa, porque não tenho essa resposta. Vejo só hipocrisia. Já que acreditam nesse tipo de coisa, deveriam ter medo de estarem sendo observados pra futuramente serem punidos pela série de pecados descritos na cartilha. É que no fim das contas, nem acho que vocês acreditam nisso de verdade.”

    Mãe: “O que eu falo pros seus amigos quando chegarem?”

    Filho: “Não sei. Não combinei nada com ninguém. A não ser com a minha tia. Combinei que mudaria pra lá hoje.”

    Mãe: “Seu maconheiro do inferno!”

    Filho: “Fumar maconha é de menos. Tem um desses aí que você convidou pra vir que toma pico no pé. Ele toma o baque no pé pra mãe dele não descobrir através das veias do braço. De repente você pode presenciar isso hoje.”

    Mãe: “Meu deus! Qual deles?”

    Filho: “Eu não vou cagüetar o cara. Francamente!”

    Mãe: “Imagine você morando com aquela doida da minha irmã! Na verdade, não passa de uma criança também! Mas você é ainda mais pirralho que ela!”

    Filho: “Será uma vida de consumo racional. Nascemos de famílias que nos tiveram sem levar em conta que não há futuro pra espécie humana no planeta.  As gerações anteriores conseguiram foder com tudo de maneira irreversível, e agora estão mortos ou caquéticos, em estado semicomatoso. O mais louco é ver gente fazendo planos de redução de danos para 2050! É de uma bizarrice incrível, mesmo se tratando de governantes.”

    Mãe: ”Por falar nisso, cadê o seu título de eleitor?”

    Filho: “Está aqui comigo, mas só será usado quando eu precisar acertar contas com a justiça eleitoral.”

    Mãe: “Como assim?”

    Filho: “Não sou do tipo que vota. Isso é coisa de corno eleitoral. Aquela gente que sabe que está sendo enganada, e sabe que vai continuar sendo enganada, e não só vai votar novamente como pode até mesmo, em alguns casos, fazer propaganda gratuita pra políticos. Eu não consigo encontrar palavras adequadas pra descrever o quão baixo e vil esse tipo de coisa é.”

    Mãe: “Seu animal! Você precisa estar em dia com a justiça eleitoral pra fazer qualquer coisa relativa à vida em sociedade!”

    Filho: “Eu estarei em dia, ainda que pagando multa pra regularizar a situação. Mas comparecer às urnas e escolher algum daqueles picaretas que ficam piores a cada eleição já é descer baixo demais. Sou antifascista. Tanto a direita como a esquerda cheiram a merda.”

    Mãe: “Você pode simplesmente votar nulo, então!”

    Filho: “Minha escolha é a abstenção e sempre será. Se votar mudasse alguma coisa pra melhor, você pode apostar que não seria permitido. A abstenção do voto não tem nada a ver com abstenção política, embora as massas sejam manipuladas pra interpretar dessa forma, sendo assim cúmplices desse circo de horrores, acionando a máquina que nos esmaga dia após dia. Não votar é uma escolha mais do que legítima em meio à falta de alternativas viáveis que se apresentam historicamente em eleições brasileiras. Todos os candidatos estão sempre comprometidos, antes de mais nada, com a manutenção de um sistema corrupto e perverso que se sobrepõe à individualidade desses candidatos, que por sua vez só se esforçam pra garantir ambições pessoais.”

    Mãe: “Mas eu e seu pai sentiremos a sua falta!”

    Filho: “Não sentirão. Terão mais espaço e menos despesas. Conversaremos através de inúmeros meios de comunicação que existem hoje, e virei visitar vocês, e então nesses dias, logo, lembraremos as razões pelas quais estou saindo. Aí renovaremos a saudade através da vivência de nossas próprias vidas, e então virei visitar novamente, e seguiremos esse ciclo saudável. De qualquer forma, estarei morando na casa de uma parente.”

    Mãe: “Você vai se arrepender! Tem muito o que aprender sobre a vida!”

    Filho: “Uma pequena parte disso eu aprenderei na faculdade, enquanto estiver lá. O resto aprenderei com a convivência humana em várias esferas, e sei muito sobre o quão terrível é essa parte. O resto é relativo a pagar boletos. Pra isso existe o trabalho, que sei que muitas vezes é escravo, como o do meu pai. A escravidão dele tem um agravante, que é o fato dele pensar que é livre. Quanto a mim, sei que liberdade é um conceito muito abrangente, que requer sacrifícios. As brigas por causa de boletos e chateações que ele carrega pra casa são meu sacrifício atual. Nessa próxima fase, uma parte do sacrifício será ter alguns boletos no meu nome. Como trabalho de forma autônoma, não carregarei chateações inerentes à convivência humana forçada no trabalho. A minha tia é suficientemente antissocial para que em casa não tenhamos esse problema. É uma relação que reduzirá nossos problemas com boletos vindouros, e mesmo dentro da mesma casa, cada um estará vivendo a própria vida, compartilhando cultura e bom gosto musical, algo que, convenhamos, não é possível aqui.”

    Mãe: “Nós pagamos a sua escola até hoje!”

    Filho: “É um gasto que faz parte do seu planejamento familiar. Estarei em universidade pública e esse gasto cessou. De qualquer maneira, muito obrigado.”

    Mãe: “E essa camiseta horrorosa? Foi você quem fez a estampa! Você anda assim na rua sem ser tirado de mendigo?”

    Filho: “É que nunca encontrei pra vender uma camiseta do Guided By Voices, essa banda maravilhosa. Conheci através da minha tia, que é sua irmã mais nova e com a qual você nunca aprendeu nada. Por causa da camiseta, eu conheci uma garota mais velha, outro dia, no metrô. Ela me abordou dizendo que gosta da banda. Então por tudo isso, minha tia é a pessoa apropriada pra eu morar junto atualmente. Ela sempre esteve muito à sua frente em qualquer aspecto que possamos abordar. A coleção de discos que ela tem valeu cada centavo que ela diz ter economizado desde que era criança pra comprar. Os livros dela também são foda.”

    Mãe: “Você vai levar só isso?”

    Filho: “Computador, roupas e bicicleta.”

    Mãe: “Sua vida se restringe a isso?”

    Filho: “A vida material, sim. Pelas previsões mais lógicas e pelos alertas feitos por gente séria que nunca é ouvida pelas massas, há coisas muito mais importantes pra se prezar, e muitas consequências vindouras por séculos de devastação pra se preocupar, então esses poucos bens materiais, são suficientes por enquanto. Eu lamento profundamente ser obrigado a confessar que sinto falta de dinheiro, mas levando em conta que tem gente que mata por causa disso, não devo me sentir culpado. Até porque não fui quem inventou essa merda toda.”

    Mãe: “Você é um moleque cheio de soberba!”

    Filho: “Isso é porque você nem imagina quais são meus planos pro futuro!”

    Mãe: “Quais são?”

    Filho: “Ver o mundo acabar, seja da maneira que for, estar presente pra presenciar o fim da farsa da humanidade, vendo o desespero de quem teme por esse momento, e ver o que realmente acontece depois do fim, sem medo, culpa, recompensa ou castigo.” 

  • Enfim, Carnaval…

    Já sei bem que é Carnaval. Os sons da rua anunciam a jornada – repare que até os pássaros são proibidos de cantar, com a arruaça que se desorganiza pelo Centro da cidade. Ronaldo, meu vizinho, saiu cedo, às 5h, e me deu notas de como serão as suas aventuras pelas praias do Ceará. Falou que iria de Beberibe a Paracuru, com os detalhes de ser uma grande viagem em família. Parariam nas praias para curtir um pouco do que tinham para dar. “Sou folião nato, Inojosa, desde que era pequenininho seguia o meu pai nessa trilha!”. Ele sabe que não gosto de festa nem nada, e mesmo assim, por educação, me chamou, num carro lotado com filhos, esposa e bugigangas. Onde já se viu eu participar de um fuá desse?! Coisa de gente maluca! Na verdade, na mente, eu pedia que ele fosse logo e me deixasse em paz – ele conversa pra burro, além do mais. Nem quando Lourdes era viva gostávamos de carnaval. Uma vez ou outra íamos para um bloquinho, mais por ela, e eu fazia a sua vontade. Víamos, no Centro, o passeio das escolas mixurucas daqui, onde os carnavalescos passavam bêbados e desinteressados na beleza. Hoje, me escondo, até mesmo de meus filhos. Eles também não são muito chegados a Carnaval, mas topam ir a uma praia desfrutar, coisa que jamais tenho ânimo de fazer. Carnaval é período de tristeza infernal, não sei bem o porquê. Fico mais depressivo se vejo na televisão o passeio das escolas de samba. A alegria dos outros me incomoda? Não é bem isso, não gosto de ver pessoas mais tristes do que eu; tampouco a felicidade exagerada me atrai. Todo o drama deve ter a ver com o meu pai, que era muito farrista, e minha mãe que ficava em casa chorando, “cuidando” dos filhos, também chorosos por causa da mãe. Era um desastre. Uma lamúria que fazia a minha avó passar os dias de Carnaval enfurnada em nossa casa, para pelo menos fazer a nossa comida, para se preocupar com a casa e com as criancinhas desprotegidas – enquanto minha mãe, como disse, se acabava de chorar; por isso não gosto de pessoas mais tristes do que eu. Ah, sim, deve ser por isso que odeio Carnaval. Não suporto Sapucaí e seus afins. A Bahia, então, tão linda, para mim, no Carnaval, vira o buraco do cão. Por isso eu me circundo, me enclausuro. Mando até Mariana, a minha filhinha mais querida, pastar. Ela veio me pedir para passar este Carnaval com ela, em casa, enquanto o marido se “distraía” em uma praia qualquer – olha a história se repetindo. Cada qual que cuide do seu Carnaval. No meu apartamento não há espaço para som, especialmente no meu quarto, com janelas contra ruídos. Aqui está tudo pronto para o fim. E, assim, deixo o Carnaval passar – simplesmente passar –, como todos os vendavais.

  • Morrer pela segunda vez

    Orfeu chorou tudo o que pôde quando Eurídice desceu ao mundo dos mortos. Suas lágrimas encheram oceanos até seus olhos ficarem secos. Vendo que o pranto havia desaparecido, e como forma de manter viva a memória da esposa a quem amava sobre todas as coisas vivas, passou a cantar. E viu que cantar era bom e que todos os que o ouviam se deleitavam. Os passantes, antes de tomarem o metrô, jogavam moedas e um sorriso para o músico maltrapilho sentado no chão na entrada da estação. Aplaudiam, pediam bis e ele cantava mais. A tristeza de Orfeu não tinha fim e sua voz não conhecia cansaço. Cantava dia e noite a ausência da mulher adorada.

    Com a força de sua canção, Orfeu decidiu buscar Eurídice no mundo das trevas. Manifestou o seu amor com todas as canções que conhecia, o peito repleto de agonia, tristeza e saudade. Hades, o poderoso deus do Reino dos Mortos, se comoveu:

    — Eu devolvo sua esposa ao mundo dos vivos com uma condição: que ela o siga pelos caminhos de volta à vida e você não olhe, nunca, para trás, até que ela esteja inteiramente sob a luz do sol. E também, sob hipótese alguma, nunca mais cante uma canção. Nenhuma canção. Jamais uma nota musical deverá sair de sua garganta enquanto houver sinal de alma em seu corpo. Caso contrário, você a perderá para sempre.

    Orfeu aceitou a condição. Tomou Eurídice pela mão e deram início à jornada de regresso ao mundo dos vivos, ele olhando para a frente, ela seguindo seus passos.

    (Não olhe para mim, Orfeu. Ouça minha voz, escute os meus passos, sinta as batidas do meu coração. Estou bem aqui, perto de você. Não olhe para trás. Não permita que eu morra pela segunda vez — suplicou Eurídice).

    Enquanto andavam, e já próximos da saída, iluminados por uma réstia do sol que brilhava lá fora, Orfeu se recordou de suas canções e do quanto elas agradavam a quem as ouvia. Lembrou-se dos aplausos e das esmolas que lhe davam. Sentiu saudade desse tempo. Percebeu que seria impossível viver sem cantar e sem plateia. E então, como quem sabe que tristeza não tem fim, com o coração doído e apertado, girou a cabeça para trás e olhou para Eurídice.

  • Fervor

    Não tinha nenhuma pretensão de me esquivar. Sou jogo aberto, embora um pouco carrancudo. Apesar da minha masculinidade exacerbada, dei total liberdade aos meus filhos. Paulinho era o único que não se abria muito. Vez ou outra, mesmo depois da separação de sua mãe, tentava uma saída só nossa, para assistir a um filme ou tomar uma. Ele sempre desconversava, e eu sentia uma saudade danada. Paulinho, depois dos dezessete, notei, se tornou introvertido. Um menino superativo na infância havia se tornado tímido, retraído, por conta, decerto, da pressão social. Lógico percebi a mudança de voz, ou uma leve mudança de voz. Acompanhado a isso, traços de feminilidade transbordavam, não tinha jeito, por mais que tentasse camuflar. Nunca toquei nesse assunto, para não o atordoar com bobagens. Que me importava se meu filho fosse gay? Porra, nunca tive preconceito algum! Paulinho não me permitiu ser seu amigo como gostaria de ser. Outras pessoas da família, sim, pegavam no pé, e eu mandava todos se ferrarem. Peguei uma briga foda com parte da família sacana, cacete, bolsonarista – agora, não me faz a menor falta. Nada poderia atacar o meu menino doce e humano. Quando pequeno, na casa dos dez anos, Paulinho começou a ir aos hospitais para cuidar de crianças com câncer. Ele ia vestido de palhaço, com sua trupe, e eu ficava superenvaidecido. Sensibilidade à flor da pele. Paulinho só queria viver sua vida tranquilo, em paz. Os irmãos não o incomodavam. Jorginho e Juninho não metiam o bedelho, e era uma festa quando se encontravam, apesar da diferença de idade – Paulinho era bem mais velho que os novos rebentos de um outro casamento. Estou, na qualidade de pai e amigo, pegando na mão de meu filho neste segundo e rezando para que esse pesadelo passe logo. Ele está na UTI porque consumiu grande quantidade de remédios. Os médicos e a polícia fizeram um calhamaço de perguntas sobre a tentativa de suicídio; se eu sabia qual era o motivo; se alguém poderia ter influenciado essa atitude desvairada. Respondi que a merda da sociedade era que tinha arrebentado o coração do meu filho. “Seu guarda, meu filho só queria ser gay em paz, entende?!”. A psicóloga do hospital veio conversar comigo, para que eu me desarmasse quando meu filho voltasse à vida. Disse a ela que eu era o seu maior incentivador; que isso não era problema algum. Está sedado agora. Mas pode me escutar, eu creio. Prometi que ele seria a bicha mais linda do mundo, ou a mulher que desejasse ser. Que eu faria de tudo para que, de uma vez por todas, ele fosse feliz. Percebi uma lágrima caindo de seu olho esquerdo. A verdade é que vamos sair daqui direto para um salão de beleza, e Paulinho, ou Paulinha, se sentirá a mulher mais bela do Brasil. Todo meu dinheiro será empregado para isso. Nenhuma dor assolará mais o coração de meu filho.

  • O Zé Vesgo

    O Zé roubou a Cida, só porque era vesgo o pai não permitia o casamento? Não foi por esse motivo, a Cida estava prometida a um outro – e promessa é dívida. No dia seguinte, ainda no orvalho da madrugada, escurinho, os dois irmãos bateram na porta do Zé, que ele saísse fora de casa, para morrer.

    O Zé saiu de peito aberto, olhou nos olhos dos cunhados e mandou que atirassem. Os dois tremeram na pontaria – diacho de homem que olha para um lado e a gente pensa que está olhando para o outro. O Zé mandou que atirassem mais uma vez, enquanto os olhos tortos entortavam a pontaria de novo.

    Aí o Zé disse: – Cristo mandou dar a outra face, eu dei. Agora é a minha vez – e avançou com o facão contra os dois.

    Os pobres estavam tão desprevenidos que nem tiveram tempo de reagir, morreram sem saber o que estava acontecendo.

    Quando o Zé viu, o sogro caminhava contra ele. O velho tinha os olhos em brasa: – Excomungado! Tem parte com o capeta! Já me tirou a filha e os filhos, já me tirou a vida – e, apontando o revólver contra o próprio peito, disparou.

    O Zé ficou pouco tempo na cadeia; fora legítima defesa, e ele tinha que sustentar a mulher e a sogra, as duas juntas para ajudar a lembrar.

    Por uns quarenta anos, o Zé amargou um remorso dos diabos. Tanto comeu do fruto doente da árvore da memória, que um dia resolveu ganhar coragem e cortar o mal pela raiz: uma dose de cianureto, e estava selada a abdicação.

  • GUERNICA

    Um dia o azul desapareceu. Olhamos para o céu com cara de espanto. Alguém palpitou que uma tempestade se aproximava, mas aquele cinza parecido com aço sobre a cabeça de todos não tinha nada a ver com os temporais costumeiros do mês de abril. Era diferente. Havia um cheiro, um quê desconhecido que tornava aquele dia distinto. O amarelo também sumira. Ao anoitecer a luz acabou. Os namorados não se encontraram, as ruas ficaram vazias e o silêncio se impôs, tão duro que se podia cortar com faca. Nem carros, nem bulício, nem passos: a cidade estava muda.

    Pouco a pouco, como se fosse mágica, todos vimos o verde sumir diante de nossos olhos e até o carvalho milenar, parte inseparável de nossa paisagem diária, perdeu a pujança. Alguma coisa desconhecida sugou lentamente sua seiva, o tronco já apresentava rachaduras e a árvore imponente logo viria abaixo. Quase ninguém teve coragem de sair para a roça. Quem se atreveu, por força da rotina, regressou coberto de cinzas, como se um grande incêndio tivesse devastado o vale em que vivíamos.

    O choque foi maior quando percebemos que o vermelho também desaparecera e, incapazes de distinguir o sangue do barro, erguemos nossos punhos e gritamos com as gargantas cheias de poeira. O céu despencou com fúria, ferro e fogo sobre nossa cabeça.

    Na tela branca, Pablo desenhou formas delgadas, línguas apontando para o alto, corpos retorcidos em ângulos improváveis, animais em agonia, mães que choram. Foi o que ele viu. Em seus olhos nublados estava refletida a imagem de uma guerra em tenebroso preto e branco.

  • O peso da vida

    Tento não crer nessa tristeza que me abala. Já são muitos os motivos para sofrer. Tá pensando que é por coisas externas, como a falta de minha mãe? Não, absolutamente. Perdi-a, como perdi o meu pai, num acidente de trânsito, ainda na infância. Fui criado por uma tia pobre e carrasca. Ela se satisfazia em me ver padecendo. A comida era fracionada. Seus filhos comiam mais. Nunca fui com a cara de nenhum, todos bandidos, literalmente; são assaltantes finos. Perdi o contato com eles quando o mais velho foi preso, em outro estado. Também não faço questão de tê-los por perto. Na verdade, é um grande alívio não ver titia e os seus filhinhos, que para ela não têm nenhum defeito. Disseram-me para procurar ajuda psicológica, e ri disso, porque ninguém vai saber o que sinto por dentro. Mesmo que eu fale, eles estarão passivos, esperando a minha melhora. Por que sei disso? Porque já fui a um par de psicólogos que me relegaram à sorte da insanidade. Tenho problemas com o que mora dentro de mim. Muitas vezes me acocoro ou me deito no chão para passar a ânsia da dor que me invade – é uma alternativa que me dá um pouco de consolo; e o faço em locais diversos, mesmo no shopping, quando fui pela última vez, há dois anos. Tenho medo dessa solidão, que não tem por quê. Já tive amigos, mas os perdi com o tempo, com a minha modorra, com o meu pouco-caso, por que estava preocupado com as minhas loucuras, com as necessidades geradas por um país capitalista. Mas como poderia trabalhar, se não me dava bem com gente? Sim, tenho muito medo de gente. Um médico, amigo da família, numa simples olhada, disse que eu era bipolar e fóbico. Saí arrasado do consultório. Como pode uma irresponsabilidade tamanha de sequer me ouvir?! Ele não me escutou, tirou o parâmetro por causa do meu histórico familiar, principalmente do meu pai, que era atendido por ele. Não me deu perspectiva nenhuma, maldito. Morreu na covid, com os bolsos estufados de dinheiro e soberba. Sinto muito, mas não sei mais quem sou. Perdi-me em desalinhos, em desconexões da minha mente atulhada de sentimentos vazios. Um único amigo que me restou disse que eu era capaz, que podia superar essa dor. Sei que tenho apoio moral, por causa dele; ele me salva nos momentos mais difíceis. Mas suas palavras, às vezes, se perdem no ar, como se ele estivesse falando com o nada, com o limbo do meu ser. Sou um homem triste do fim dos tempos. Não me acalanto com qualquer pegada. Nenhum evento social me agrada. Na verdade, como disse, me dá um medo desesperador. Quero fugir, e, quando não consigo, vou ao banheiro e passo o tempo necessário para me restabelecer minimamente. Evito os eventos sociais. Nilo, meu amigo, disse que preciso enfrentar, mesmo com medo, e o faço por ele, em encontros na sua casa, onde reúne a patota da infância. É o único momento que sinto ser possível, mas logo, no outro dia, recai sobre mim o peso da vida.

  • A dúvida é mais cruel que qualquer verdade

    Zími acordou cedo e estava em bom estado.

    Trabalha em casa, assistindo antes ao noticiário da manhã, que lhe agrada por mostrar ao vivo as condições surreais do transporte público.

    Ele estava livre disso depois de anos, mas a forma como o povo é obrigado a se deslocar para o trabalho como gado de corte ainda o chocava.

    Nunca havia o menor esboço de rebelião por parte de quem é obrigado a simplesmente doar todo o tempo e energia de sua vida e ainda morrer deixando dívidas para um sistema que cobra caro até para que sejam massacrados diariamente nas máquinas de moer carne que são os ônibus, trens e o metrô de São Paulo.

    Um colapso social mostrado diariamente, que estraga a saúde física e mental das pessoas, e então ficava claro que um setor precário na vida, precariza ainda mais os outros

    Todas as soluções propostas por Zími desde o seu nascimento eram consideradas utópicas.  

    O noticiário local era até certo ponto interessante, enquanto o noticiário nacional, apresentado na sequência, era bastante deprimente.

    Por inércia, deixou a televisão ligada no mesmo canal, e o noticiário deu lugar a um programa pavoroso de variedades.

    Ela ensinava uma receita que gourmetiza a moela de frango, apontada como solução mais barata para que o povo ingerisse proteínas gastando menos que em outras carnes.

    Teve a impressão que a programação, ao invés de realmente salientar que essa sempre foi uma saída financeiramente viável, dava a entender que com a crise aguda e generalizada de então, era possível deixar uma eventual vergonha de lado e comer pelo que se podia pagar.

    Para Zími, sempre foi necessário levar em conta o custo-benefício.

    Alcançar o mesmo grau de nutrição, com um custo menor que o de outrora. Pode supor que grande parte da audiência, em TV aberta, já dominava as técnicas do custo benefício, por força da necessidade.

    Todo o cenário para mostrar o preparo da moela parecia um outro planeta em comparação à vida real das massas, a quem o programa certamente estava direcionado e sendo muito assistido.

    Mais um motivo para que se tornasse vegano. 

    O preço do queijo o ajudaria a não trair o movimento.

    Com tanta desgraça por toda parte, sentia-se quase culpado por reclamar da vida que levava.  

    Não chegava a ser uma vida de merda, mas era limitada por falta de dinheiro.

    A questão do sofrimento matutino no transporte público era tão relevante para ele, que sentiu por anos um tempo precioso de vida escorrendo para o ralo de uma maneira feia, que mesmo vivendo com um salário mínimo e meio, pensava se não era demais privilegiado por trabalhar em home office, fumando maconha de bermuda e chinelo, bebendo muito café, enquanto alguma estação de metrô entra em colapso.

    E entra em colapso numa manhã chuvosa, e compromete todo o sistema da vida de cada uma daquelas pessoas, que estão com guarda-chuva, mas com a meia molhada, esperando por um serviço caro e precário, e tendo vários outros problemas, inclusive o trabalho, que era o destino planejado, em manhãs que em dias comuns já não costumam ser muito promissoras.

    À tarde, Zími aproveitava que tinha que trazer algo da rua, então saía, perambulava e voltava à noite.

    Na tarde do dia da receita de moela, ele saiu e encontrou Tito, um vizinho que morava no prédio e entrava enquanto ele saía.

    Tito era vegano, e seria curioso comentar com ele sobre a crise e as adaptações que as pessoas que comem carne tinham que fazer para não deixarem de comer algo que para essas pessoas é imprescindível.

    A maioria dos amigos de Zími era constituída de vegetarianos e veganos. 

    Ele comia carne, mas não com essas pessoas, e gostava muito da comida deles.

    Tito, logo após cumprimentá-lo, disse a Zími que precisava fazer uma redação para a escola.  

    Carregava um belo case preto e retangular da Fender.  

    Tito havia abandonado os estudos na sexta série e agora, aos vinte e oito decidiu fazer um supletivo para arrumar um emprego com registro. 

    Exímio guitarrista, fez até ali o que pôde para viver apenas de música, mas as cobranças pela inadimplência como inquilino estavam grandes demais para ele.

    Já havia se convidado para integrar a banda Main Drags, que na verdade é um duo, e não teme nunca teria guitarrista, por imposição de Mila Cox, baixista e tecladista, parceira musical de Zími nesse projeto. 

    Não haveria guitarrista nem mesmo para contribuir em momentos específicos. 

    Cox daria conta de fazer o suficiente com o baixo, o teclado e o sintetizador. 

    Zími era o baterista.  

    Por algum motivo, Tito acreditava que o ingresso na banda lhe daria algum dinheiro.

    A tal redação para o supletivo estava deixando Tito aflito, pois teria que entregá-la naquela noite e não demorar para pegar o certificado.

    Tito falou: “Então, o tema da redação é ‘Paradoxos’. Escrever sobre qualquer tipo de paradoxo.”

    Zími falou: “A única referência possível para entender parcialmente esses paradoxos da vida, é a arte em geral, e em especial, paradoxos no mundo da música. Por exemplo: Sem a Yoko Ono, não haveriam bandas maravilhosas que moldaram nosso gosto musical. Dá pra ficar até depois de amanhã citando nomes, mas vamos ficar só no Sonic Youth e B52`s. O fato dela ser mal vista por muitos talvez seja apenas um fenômeno brasileiro, algo profundamente enraizado na ignorância dessas pessoas, que em ampla maioria não saberia citar o nome de quatro músicas dos Beatles. Ainda que ela fosse responsável pela separação da banda, seria absolvida por ter evitado constrangimentos com algum eventual disco ruim gravado nos anos 70, que macularia a banda e possivelmente inviabilizaria a gravação dos bons discos solo gravados pelos quatro na década de 70. De qualquer forma, a persistência dessa birra mostra que há a persistência da burrice e da preguiça de pesquisar minimamente sobre algo que se propõe a falar, mesmo que bêbado. Bebida não faz ninguém burro, fascista ou racista, então não serve de desculpa para muitas situações palosas as quais a culpa lhe é atribuída. Os Beach Boys também tem grandes paradoxos. Mike Love, repudiado por muitos que atribuem a Brian Wilson o fato da banda ter ficado gigante. Mas MIke Love era importante na fórmula que definiu o som pelo qual são lembrados. Isso durou até 65. Aí veio o Pet Sounds, que Mike Love detestou, e os discos que vieram a seguir são os meus preferidos. De 69 até 73. Há aí o paradoxo relativo ao fato de ser esse o período de vendas mais baixas até então. E outro paradoxo: Nesse período, a banda que era a mais americana de todas na década anterior, agora poderia passar por uma banda britânica. E agradava mais aos europeus, naquela fase, do que aos americanos. Acho “Wild Honey”, “Surf’s Up” e “Holland” ainda melhores que “Pet Sounds”. Mike Love defendeu a fórmula simplória da primeira metade dos anos 60 porque queria dinheiro e não se importaria se a fórmula de surf music e carros durasse até hoje, desde que vendesse bem. Poderia ter evitado gravar seu pavoroso disco solo no começo dos anos 80. Provou que a fórmula só funciona com Brian Wilson. Então, a trajetória de muitos artistas e suas obras dão certa luz sobre paradoxos da vida cotidiana. Há quem não entenda a arte, algo típico de políticos, que associaram “Born in USA”, do Bruce Springsteen, a uma ode à América, e não uma crítica. O sujeito pode ter até entendido, mas usou a canção para expressar outra coisa. Até porque, na época do lançamento desse disco, eu mesmo pensei que se tratada de uma ode ao ‘american way of life’. Mas alguns discos gravados antes, como “The River’ e “Nebraska” salvavam o conjunto da obra. Mas no caso do Bruce Springsteen, houve por parte do público brasileiro uma aceitação, ainda que tardia, ao seu trabalho. E shows enormes e lotados no país. Durante muitos anos, no século passado, eu pensava no quanto seria bom ter a vida de algum desses medalhões que não tinham problemas financeiros. Agora, além deles estarem bem idosos, tem que conviver com problemas reais para os quais o dinheiro não é mais solução. Muitas vezes o problema pode ser justamente a redução da fortuna de outrora, somado à idade avançada, o que causa turnês saudosistas que podem macular um legado de muitas décadas. E esses artistas com décadas de carreira ficam famosos no auge e muitas vezes depois descambam para o saudosismo e a decadência. Logicamente há casos em que a decadência é apenas comercial e não artística. Mas adoro a fase decadente de muitos artistas. Aqueles discos bons para os quais ninguém mais se importava, não tocavam no rádio e vendiam pouco. No rock progressivo isso acontece muito. Em tudo que foi lançado de rock progressivo depois de 1975. Mas se for bom, não importa que não esteja na moda. Vá fazer a porra da refação e termine logo essa merda de supletivo.”

    Tito falou: “Valeu, Zimi! Você já me deu uma luz!”

    Entrou no prédio com o grande case retangular enquanto Zími saiu para perambular na rua e pensar sobre o destino da consciência após a morte. 

  • Parada em ventania

    Aqui venta sempre desse jeito, sim senhor. Acho que é por isso que chamaram aqui de Ventania. Em Dois Córregos também venta muito. Foi a minha irmã, a Cida, que me contou. Não, eu não conheço lá. O senhor não está vendo as minhas pernas? Eu não conheço lugar nenhum, eu só conheço aqui. A Cida é quem me conta as coisas. Ela diz que Dois Córregos não é muito grande, mas que é muito maior do que aqui. E deve ser bem maior mesmo, pelas coisas que ela conta que tem lá. É, sim senhor, eu só conheço as coisas de ouvir contar. Ah, também já vi as figuras de umas revistas que a Cida emprestou uma vez.

    O senhor está cansado de esperar? Sente um pouco, fique à vontade. Logo passa um trem. Eu não sei se esse pára aqui, tem algum que pára. Mas o senhor viu o horário na estação, não é? Aqui a gente tem todo o tempo do mundo, não é preciso pressa. Pode olhar as coisas, não se acanhe. Tem sempre muita coisa para se ver. Eu não tenho muleta, não senhor. A Cida vem na hora do almoço, depois da escola, não sei a hora certa. Ela faz a comida, faz o meu prato, depois leva para o meu pai e a minha mãe lá na roça. Depois ela fica ajudando lá até de noite.

    Mas o senhor parece que está impaciente. A gente precisa não se aborrecer com as coisas. Eu gosto muito de conversar. Se eu não estou chateando o senhor, eu continuo. É a Cida quem conversa comigo, quando ela está em casa e tem tempo e paciência. O meu pai às vezes tem tempo, mas não tem paciência nunca. Ele só fala “essa desgraça, essa desgraça”, e olha minhas pernas moles, e bebe pinga. A minha mãe só fica chorando. Mas a Cida não, ela dorme na mesma cama que eu e fica ouvindo enquanto eu falo tudo que eu penso. Eu durmo um pouco de dia e não tenho sono logo de noite e então eu falo, eu falo muito e ela me escuta. Às vezes parece que ela está dormindo, mas ela fala que está prestando atenção. O senhor também parece que sabe prestar um pouco de atenção.

    Eu aprendi muito bem como prestar atenção. É assim que eu passo o dia. Mas eu presto atenção só no que me interessa. É esse o segredo. O senhor fica olhando esse relógio bonito toda hora. O senhor não viu aquele sabiá poca ali no mamoeiro, não é? Olhe como ele faz com a cabeça, como ele ergue o pescoço e gira para um lado e para o outro. Olhe como ele fareja o ar, como ele vigia tudo.

    O senhor fica olhando feito bobo as minhas pernas. Eu já aprendi a viver com elas. Eu não sei o que deu em mim, não. Foi uma doença que ninguém sabe o que é. Um dia elas começaram a bambear, logo ficaram assim molengatas até hoje. Eu até já pensei em me matar. Não era melhor acabar com a vida do que só dar trabalho, não prestar para nada? Foi o que eu falei para o meu pai. Ele ficou louco da vida, disse que ninguém pode mudar as coisas.

    Ainda lembro daquela hora. A minha mãe olhou para mim e começou a chorar. Então eu ri para ela, eu queria mostrar que tudo estava bem, afinal eu até estava rindo. Mas ela chorou mais ainda.

    Foi naquele dia que o padre veio aqui em casa e começou a rezar e a falar que era a vontade de Deus. Foi então que meu pai explodiu. Ele disse que só a vida tem remédio para a vida. Mandou o padre embora e pegou o garrafão de pinga. Eu admiro muito o meu pai, ele gosta muito de mim.

    E é assim que é a minha vida. Eu não sou muito triste, não. Só de vez em quando. A gente se acostuma com as coisas. Eu comecei a gostar de ficar aqui parado na porta de casa. Eu tenho muito tempo. Fico ruminando as coisas, imaginando. Gostando de imaginar coisas boas. E também eu tenho tanta coisa para olhar. Aqui nunca acontece nada, mas eu fico olhando o mato e cada vez gosto mais das coisas que eu estou vendo.

    Tem gente que acha que eu fiquei meio bobo, mas eu não me importo. Acho até bom, assim ninguém fica com dó de mim.

    O senhor não está com dó de mim, não é? O senhor parece que já se cansou de me ouvir, não é? Desculpe não ter nada para lhe oferecer. Tem água no pote, se o senhor está com sede. Se o senhor gosta de pinga, também tem, está atrás da porta. Tinha um pedaço de bolo, a Cida levou na escola. Ela nunca leva lanche, hoje ela levou. É até ruim, é capaz dos outros ficarem com lombriga.

    O senhor já vai? Daqui a pouco tem um trem, sim senhor, mas eu não sei se esse para aqui. Também pode ser de carga. Um tempo eu prestava atenção nos trens. Eu conhecia todos, só de ouvir. Eu só queria pegar um e ir para bem longe, numa cidade grande, bobagem minha.

    Mas o senhor já vai mesmo? Não quer ficar mais um pouco? Eu estava gostando de falar com o senhor. Prefere esperar o trem na estação? O senhor não disse nada. Bom. Se quer ir, o senhor que sabe. Então até logo, senhor.

    (Conto premiado no Mapa Cultural Paulista – 2014)

  • O grande acontecimento

    Ele tinha se tornado a principal atração daquela cidade à beira do mar. Quem lá fosse certamente ouviria na volta: “E aí, foi ver o…? O que achou?”, “Me conte, como é o…?”, “Não me diga que não foi ver o…!”. Era quase uma obrigação, para qualquer turista, visitar o… Ver o… era a revelação de um segredo, a que só pessoas especiais tinham acesso.

    No dia mesmo de minha chegada fui avisado pelo guia turístico de que naquela noite haveria o grande acontecimento: o… iria aparecer. Para vê-lo, eu deveria ir à praia junto com os demais visitantes. Estava já anoitecendo quando uma multidão, em silêncio, pisou a areia. Com devoção e seriedade, todos fixaram o olhar na espuma branca sobre a água escura. Ficamos ali, atentos por horas, esperando o surgimento do… Não se ouvia um pio nem se via movimento ou qualquer gesto de impaciência. Tínhamos todos o sentimento de que iríamos presenciar algo jamais visto. “O sublime”, alguém se atreveu a sussurrar. “A Pombagira, tenho certeza”, murmurou outro. “O enviado do céu”, choramingou a senhora de lenço na cabeça e terço na mão.

    A noite avançava e, quando já não se enxergava nada além da brancura das ondas, um homem saiu do mar. Surgiu da imensidão líquida, de onde não é possível que alguém surja. A água circundava sua cintura quando pudemos vê-lo com nitidez. Tinha barba, altura mediana e o olhar esgazeado, como se olhasse para tudo e nada visse. Chegou até o ponto onde o mar lambe a areia e se ajoelhou. Ergueu os olhos para o céu e assim ficou por muitos minutos. Depois baixou a cabeça e, tão lentamente quanto uma vaca se abaixa para abocanhar o capim, beijou a areia e em seguida escreveu algo com o dedo no chão molhado. Todos esticamos o pescoço para ver o que era, mas o mar foi mais rápido e apagou tudo. O homem virou-se de costas e, assim como veio, desapareceu na água escura sem que entendêssemos como.

    O mar voltou à mesmice de sempre e todos se levantaram e saíram da areia pensativos. Apenas eu permaneci lá, sob a lua, aguardando o grande acontecimento.

  • Matei

    Nada que pudesse dizer me livraria do pecado. Eu havia matado, ainda que por puro instinto e defesa. Naquela noite, eu lembro, estava afobado e cansado. Entrei em casa arrastando a bolsa do trabalho no chão. Havia brigado com o meu chefe Roberto por causa da sua implicância comigo; ele tem a mania de dizer que faço corpo-mole, e isso é mentira: dou o meu sangue para a empresa. Cheguei em casa como um verdadeiro verme ambulante. Não tinha estímulo para nada. Amanhã seria um novo dia bosta de trabalho. E não tinha com quem conversar (Raul, meu filho, viajou, pela terceira vez, com a namorada para a sua casa de praia). Aliás, não tenho amigos, e isso parece ser um grande defeito. Não acredito nas pessoas. Já levei muito cano, então prefiro me afastar de todo mundo, principalmente da minha família, que acha que tenho dinheiro e vive a me pedir uns trocados. O cachorro Brandy foi o primeiro a dar o alarme. Soube que estava em perigo. Armei-me, no ato, para pegar o que fosse capaz. Mais uns barulhos, notei a presença de alguém na casa. Era certo que havia alguém no local, mas tive medo mesmo foi de fantasma. Não gosto de ficar só em casa por isso. Você pode se perguntar se um homem adulto pode ter medo. Tenho porque já vi meu bisavô passeando pela casa. Foi um dia que deu uma tremenda confusão; atirei a esmo, e a vizinhança chamou a polícia. No final, felizmente, não deu em nada. Não identificaram de onde saiu o disparo. Então, perguntei quem era e o que queria. Nenhuma resposta. Não sou covarde. Repeti o chamado, e nada me respondeu. Quando vi a criatura na minha frente, plantada, sem reação, atirei três vezes. O carinha agonizou e morreu rápido. Não deu tempo de a ambulância chegar, já estava morto. Era uma experiência incrível, abominável para mim. Eu havia matado uma pessoa. Nunca havia pensado nisso, que poderia, de fato, matar alguém. Que merda! Não queria que terminasse assim. Pensei em me matar (minha vida já estava uma bosta mesmo). O policial que me prendeu e me levou à delegacia me demoveu da morte. Ele disse que eu teria de prestar esclarecimentos. Depois soube que o homem que invadiu a minha casa era um vagabundo morador de rua, de nome Glauber. Eu o matei e não dei chance de se explicar. Agora, não consigo dormir de remorso. Será que ele queria comida, o miserável? Na verdade, não queria matar. Merda! Dei à polícia a minha arma. Não quero mais me meter com isso. Meu filho veio me ver e disse que arma foi feita para matar, que nunca compactuou que eu tivesse uma em casa. Só faltou dizer que matei um inocente. Meu filho passou mais um dia comigo e se debandou para a namorada. Só choro e não tenho com quem desabafar. Que noite terrível! Agora, é saber elaborar, com os meus cacos, esse triste desfecho.

  • Soberba

    No aniversário do vovô, a neta diz a ele: “Vovô, você foi chamado de soberbo pelo resto da família desde muito antes de eu saber o que isso queria dizer, mas tem sorte por já ter vivido bastante e não ter que se preocupar com o futuro, né?”

    O vovô respondeu: “Nunca me preocupei com o futuro. Sempre temi pelo presente mesmo. Mas nunca na mesma intensidade de hoje em dia.”

    Neta: “Sim, mas você não é tão velhinho como os vovôs dos meus amigos. Tem algum medo de morrer?”

    Vovô: “Não é medo de morrer, não. Quando essa hora chegar, espero estar sedado com alguma droga que certamente será a melhor que já tomei na vida, e espero não sentir nada. É quase inevitável que sejamos soterrados pelo esquecimento coletivo quando morrermos, não importa o quanto alguém seja autoindulgente, orgulhoso e arrogante. Não sou tão velho quanto os vovôs dos seus amigos porque seu pai nasceu quando eu e sua avó éramos relativamente jovens. Seu pai veio sem o nosso planejamento, concebido num feriado em que ela e eu vacilamos.”

    Neta: “Então, consequentemente, eu também não estava nos planos, né?”

    Vovô: “Isso é uma outra história. O seu pai a teve com o devido planejamento, felizmente. Inclusive é casado no papel com sua mãe.”

    Neta:Você e a vovó não são casados no papel?”

    Vovô: “Não. Nunca achamos que isso fosse necessário.”

    Neta: “Que música é essa que está tocando?”

    Vovô: “Essa é ‘Days’, da banda Television, do segundo álbum deles, ‘Adventure’. Obra prima.”

    Neta: “De onde você tirou esse gosto musical tão incrível?”

    Vovô: “Provavelmente das lojas de discos que eu frequentava, no centro de São Paulo. Não havia publicações decentes, as rádios eram ruins e não havia internet. Sem contar que também não havia muitos shows internacionais. Era preciso ir atrás de informação com pessoas que eram do ramo. Era uma batalha.”

    Neta: “Mas eu sou jovem e tenho um futuro cheio de bizarrices pra enfrentar! Essa é a verdadeira batalha!”

    Vovô: “É a mesma sensação que eu tinha quando era jovem. Eu apenas não sabia que as letras das músicas que eu gostava se tornassem realidade. Não a letra dessa que está tocando, especificamente. Mas há outras que previam um futuro bastante sinistro.”

    Neta: “Pra quem ficarão seus discos de vinil?”

    Vovô: “Fiz um testamento, e você pode apostar, só será lido quando eu morrer. Para que não me matem antes da hora. Não há dinheiro envolvido na herança, seria triste morrer por causa dos discos. Ouço música em streaming desde que isso se tornou possível. Mas a vantagem disso não é a facilidade. É ter a música acessível para quem sabe escolher. De uns anos pra cá foi possível ter acesso a discos que antes eram impossíveis de serem encontrados. Muitas vezes sabíamos que existia, mas o acesso era impossível. Tem gente que acha bonito e compra reedições. Eu jamais faria isso, até por razões financeiras. O que eu não tenho em vinil, ouço na internet mesmo.”

    Neta: “A vovó falou que você já apanhou dela de cabo de vassoura nos anos 70 porque era pegador. Isso é verdade?”

    Vovô: “Se eu disser que sim, seria autoindulgência, por confirmar que era pegador, e ao mesmo tempo humilhante por admitir ter merecido apanhar de cabo de vassoura.”

    Neta: “E se você disser que não?”

    Vovô: “Aí eu sei que você dirá pra sua avó que a chamei de mentirosa, e possivelmente apanharia de cabo de vassoura depois de velho.”

    Neta: “É verdade que você nunca votou nas eleições?”

    Vovô: “Quando as eleições eram feitas com cédulas de papel, eu ia só pra escrever palavrões e anular o voto. Aproveitava e voltava com canetas e isqueiros com o nome de candidatos, que eram riscados com uma chave. Quando a urna passou a ser eletrônica, fui só na primeira vez, pra ver como era. Nunca apoiei nenhum desses vermes repugnantes que querem o poder e fazem alianças inescrupulosas, chegando ao poder e fazendo esse país continuar a várzea que sempre foi e continua sendo. Assumem cargos públicos sabendo da situação calamitosa do Estado e logo estão colocando a culpa pela desgraça em seus antecessores, que antes faziam a mesma coisa.  Com isso, a vida da cidadania se deteriora cada vez mais, e logo vem outro eleito em seguida para fazer a mesma coisa novamente. Quando falam em uma ‘nova política’, pode apostar que é mais um picareta querendo sugar dinheiro público. A menos que um eleitor tenha algum tipo de interesse na vitória de um ou outro candidato, trata-se do chamado ‘corno eleitoral’, que às vezes até mesmo faz campanha para aquele em que vota.”

    Neta: “Mas todos são vermes repugnantes?”

    Vovô: “É algo inerente à condição de um político profissional. Política, qualquer pessoa faz no cotidiano. Mas o que essa gente faz é politicagem. Por questões sistemáticas, e não apenas por ética pessoal, não podem chegar ao poder e simplesmente agir contra o sistema que os colocou lá. Tenho certeza que tanta ganância é fruto do fato de se tratar de pessoas infelizes consigo mesmas, que, nesse caso, tem toda razão para isso. A ‘força do seu voto’ é uma falácia. Obedece apenas aos interesses dos envolvidos na disputa pelos cargos.”

    Neta: “Se a vovó não tivesse ficado grávida do meu pai, vocês ainda estariam vivendo juntos?”

    Vovô: Eu era funcionário na livraria dela. Quando nos conhecemos, disse que teria gratidão eterna pelo emprego, que na ocasião, me ajudou muito.”

    Neta: “Mas isso não é agir por interesse?”

    Vovô: “Todas as relações são movidas por algum tipo de interesse.”

    Neta: “Mas existem aquelas que são movidas pelo amor!”

    Vovô: “Não deixa de ser um interesse. Mas eu amo a sua vovozinha.”

    Neta: “Rolavam muitas tretas no começo, quando você era empregado na livraria?”

    Vovô: “Rolou uma outro dia. Saí domingo à tarde, encontrei algumas pessoas, e ela ligou dizendo que ia ter pizza, e por isso eu deveria voltar logo. Tomei só duas pingas de marca boa e um litrão, e ela disse que cheguei bêbado. Nesse dia, quase apanhei de cabo de vassoura. Mas as tretas antigas ficam obscurecidas por fatos mundanos sobre os quais não temos controle, e as tornam esquecíveis e irrelevantes”.

    Neta: “E essa música que está tocando agora, qual é?”

    Vovô: “The Roches. A música é ‘Hammond Song’. É um clássico que só pessoas como a gente ainda ouve.”

    Neta: “Nossa, então como eu não conhecia?”

    Vovô: “É porque o mainstream corporativo é um lixo, e fica cada vez pior. É preciso que haja interesse por conhecer coisas que não tocarão no rádio e nem serão apresentadas pela mídia.”

    Neta: “Mas você gostou quando tocou Badfinger no final do Breaking Bad!”

    Vovô: “Isso pode acontecer eventualmente. Eles mereciam, depois de tantas desgraças que permearam a trajetória da banda. Fui a um show deles no Ginásio do Ibirapuera. Eu e mais meia dúzia de gatos pingados. Só havia um integrante original no palco, os outros já haviam morrido. Mas pra mim, não deixou de ser histórico.”

    Neta: “Esqueci de comprar seu presente. Mas lhe darei algum, mesmo com atraso. Gosto de dar presentes úteis, que deixem o presenteado satisfeito. O que você quer ganhar?”

    Vovô: “Quero apenas que você vá até sua avó e sugira a ela que chame umas pizzas pra gente. Muita pizza, pra sobrar para o café de amanhã cedo. Isso vai encher meu coração de alegria.”

  • Nono marido

    A coisa mais triste do mundo era a vó Ana me fazer as tranças. Eu ficava com a cabeça cheia de caroços de tanto croque que tomava para ficar quieta. Mas todo mal tem o seu bem: a compensação era ouvir a vó Ana falar dos seus maridos.

    Estavam pendurados na parede da sala, todos com a mesma idade, parecia, uns trinta anos, e todos um a cara do outro: ruivos, com a bochecha meio pipocada, um bigodinho aparado bem fininho, o beiço caído, de choro, e os olhos mais tristes que já se viu.

    São a minha galeria de heróis, dizia a vó Ana, e ia apontando: o vô Joaquim, o vô Afonso, o vô Alfredo, o vô Macico, o vô Juca, o vô Pacheco, o vô Vicente, o vô Inácio.

    O vô Alfredo aguentou seis meses; o vô Afonso, só dois; o vô Joaquim, cinco meses; o vô Juca, nove – ia enumerando, orgulhosa, a vó Ana. O que durou mais foi o vô Macico: dezoito meses! Puxa, vó!, eu dizia. A vó Ana falava de-zoi-to, pausadamente, enchendo a boca.

    Só um que não aguentou nada, contava a vó Ana, com o ar de desprezo que Deus lhe deu. Só um que era um frouxo! Nem deu tempo de tirar um retrato. Ou a vó Ana nem quis saber de retrato. Esse nem nome não tem: é o nono marido.

    Saiu do quarto na primeira noite, ia buscar fogo para o pito, e nunca mais voltou. Esse negou fogo, dizia a vó Ana. No lugar do retrato, um quadro representando uns cachos de uva, murchas, desconsoladas.

  • STRIPTEASE

    De longe só se vê que há luz no quarto, mas pouco se distingue o que acontece lá dentro. Com meu binóculo, escondido atrás da cortina no apartamento do prédio em frente, tenho visão privilegiada e posso ver tudo com detalhe. Posso vê-la tirar a roupa, por exemplo. Como agora. Ela acabou de entrar no quarto. Jogou a echarpe no chão e sentou-se na borda da cama para tirar os sapatos de salto. Joga-os num canto. Começa a desabotoar a blusa. Noto que está um pouco mais cansada que o habitual, as rugas da testa estão mais acentuadas e as olheiras, mais fundas. Imagino o dia puxado de trabalho que ela teve e me comovo.

    Agora de pé, abre o zíper da saia e a deixa cair até os tornozelos. Com um movimento da perna direita, joga a peça em cima da cama. Vai de um lado ao outro do quarto, olhando em volta, como se procurasse algo. Para e inclina-se para tirar a meia-calça, que larga no chão. Assim, de blusa e calcinha, descalça, solta o coque e balança a cabeça enquanto os cabelos lhe cobrem as costas. Parece que encontrou o que buscava. Acende o cigarro e fuma na frente da janela, olhando o movimento da rua.

    Volta para dentro do quarto e apaga o cigarro no cinzeiro da mesinha de cabeceira. Retoma o ritual de desnudamento. Tira as rugas, aquelas que ainda povoam seu rosto, resistindo ao creme hidratante. Arranca também as manchas dos braços e as olheiras escuras que lhe dão penumbra nos olhos. Desfaz-se completamente das varizes e estrias das coxas e panturrilhas. Respira fundo como se tomasse coragem e puxa de uma só vez a cicatriz da cesariana. Aos tufos e com movimentos bruscos das mãos, livra a cabeça dos indesejados cabelos brancos que envelhecem a moldura de seu rosto. Olha-se de costas no espelho grande da penteadeira e arranca de uma vez a gordura acumulada nas nádegas. Agora de frente, elimina por completo, com a ajuda de uma esponja, o olhar sombrio que tinha até então. Por último, esfrega os seios e o sexo, empurrando para o chão todos os homens que escreveram a história do seu corpo.

    Completamente nua, o olhar sereno, fecha as cortinas e apaga a luz.

  • Moça em janela de hotel

    Olho pela janela: é o Rio de Janeiro nublado e muito frio. Oculto. Imenso. Quase irreal. Ouço em meu headphopne um dos CDs que ele me deixou. Agora, uma grupo sinfônico que toca música do Metallica. Músicas de vários estilos e artistas estão misturadas num CD que ele me deu, pois ele é viciado em montar coletâneas, mais ou menos como faz aquele personagem do livro Alta Fidelidade, do Nick Hornby. Antigamente ele fazia com fitas, agora são CDs. Agorinha mesmo entrou nos meus ouvidos Jefferson Airplane – nada a ver. Legal e nada a ver. Mas ele é assim mesmo. Daqui a pouco pode pintar um samba com Los Hermanos que só fãs da banda de rock podem conhecer. Vá saber. Suas coletâneas são incoerentes. Como o seu vestuário tosco com alguns esporádicos e inesperados toques de requinte que só no corpo magro, leve e lindamente desengonçado dele podem parecer requintados. Ele só é coerente com uma coisa: suas incoerências.

    Sei que lá fora é frio. Mas o quarto é quente e sou bela. Hoje sou a mais bela mulher do mundo, com minha camiseta branca e calcinha também branca, a me espreguiçar. A TV sem som é um pequeno papel de parede, um quadro vivo, uma caixa preta cheia de gente pequenininha se mexendo e sendo feliz. Volto pra cama e sinto mais uma vez os cheiros de deixamos no lençol e penso em como é bom ser mulher. Vontade de passar o dia nessa cama lembrando da noite que foi. Eu faria isso fácil, fácil. Mas, melhor não. Como o hotel não tem serviço de quarto é melhor eu subir logo para o restaurante e tomar o meu café, enquanto ainda é servido. Engraçado como os dois homens no elevador, que sobem também para o café, me parecem feios. Um barrigudo e com jeito de pseudo-intelectual e o outro, negro, com alguma elegância, porém sem graça. Mas não dá pra ver outros homens agora como machos. Não num dia como hoje. Só os consigo ver como seres humanos assexuados. Não os vejo com antipatia ou desagrado – até gosto de vê-los –, mas o fato é que depois da noite que passou – eu junto ao meu pequeno deus – todos os homens são pra mim seres sem sexo, com exceção dele, obviamente, que é – penso brincando com minha fantasia – o inventor do sexo.

    O café do hotel é muito bom. Muitas frutas e muitas coisas pra escolher. Estou faminta e devo comer como nunca. Na noite que passou, parte do meu corpo se perdeu em suor e demais líquidos. O alimento que ele, o re-inventor do meu sexo, me deu na cama não alimenta o corpo. Muito embora aquilo, de calibre e sustância, seja puro corpo, não sustenta o meu corpo, apenas consumindo-o. É uma pequena morte que me torna viva e com mais fome. Sinto-me leve, não posso negar. Mas é um estado meio vampiresco. O corpo dele junto ao meu e dentro do meu não me satisfaz como um alimento. Aquilo é como um sangue a meio copo. Um vinho a meio copo. Um copo d’água pela metade, que alivia um pouco a sede, mas não a sacia completamente – e isso parece deixar a água mais saborosa que qualquer outra coisa. E ele em mim é melhor que água, melhor que vinho, talvez melhor que tudo. E tudo o que ele faz comigo… Ele só não é melhor que a completude por que a completude não existe. Hoje esses meus olhos que agora olham pelas grandes janelas do restaurante para uma Guanabara cinza são capazes de transformar tudo em beleza. E é disso que eu preciso, de instrumentos que transformem coisas simples em coisas belas. Sempre as janelas. Janelas são fábricas de vida. Graças a estes olhos outrora tão habituados a ver o feio do dia-a-dia da roda semi-viva, e que agora só parecem saber ver o bom das coisas, o meu dia começou assim, agraciado com belezas, onde até um lavatório com a torneira enferrujada é belo. E quanto a ele? Ele, o mais belo dos esquisitões. Como ele estará agora? O que estará passando pela cabeça daquele que tanto me faz sorrir? Sorrir com risadas, sorrir por dentro, e até sorrir chorando…

    Desço. Ruas molhadas. Cachorro na calçada sorri pra mim. Uma velhinha que anda com muita dificuldade sorri pra mim. Policial sorri pra mim. Um lindo bebê no colo de sua mãe faz o mesmo. Bem. Vejo que o mundo sorri pra mim. Só voltarei a vê-lo à noite. Que tipo de dia terei nesta cidade tão bela e tão enigmática? Sou mais estranha no Rio do que seria em Nova York. E o Rio me é por demais estranho. Eu não entendo o Rio. No Rio eu não sei quem eu sou – e isso me aproxima de mim. É o tipo de lugar onde me sinto a todo instante pronta para uma gafe. Só que hoje não. Hoje eu sou da gema. Marisa Monte e Chico Buarque já muito me ensinaram sobre carioquices. E tenho aprendido até que ser carioca é não ser carioca. Não há, por exemplo, coisa mais boba que um carioca sair falando que é carioca. Seria como gente ter que falar que é gente. Não se diz “sou carioca”. Triste do carioca que precisa dessa afirmação. E cariocas não deveriam ser tristes.

    Well. Depois de ter andado um bocado pelas ruas, praças, museus, Metrô, acho que vou beber algo. Chope? Vinho? Chope? Vinho? Não está tão frio assim: chope. Espuma gostosa. Lembra o beijo de ontem com gosto de cerveja. Penso em como eu demorei na vida a gostar de cerveja. Nossa… Demorei a gostar de tanta coisa. Acho que demorei a gostar de homem. E veja hoje como estou… Apaixonada por um. Paixão: esse negócio que o Freud parece ter tratado como desvio comportamental. Não sou especialista em Freud, mas assim li algo a respeito. Eu, finalmente uma mulher apaixonada. Mas quem sou eu? O que posso falar de mim? Meu nome é Michele. Sou filha de mãe brasileira com pai francês. Não conheço meu pai, a não ser pelas lembranças de minha mãe, além de uma fotografia dos dois tirada com uma antiga câmera Canon automática equipada com timer, vejam só, num quarto de hotel. Seus olhos sorriam na foto. Eles se conheceram num carnaval, de onde eu fui concebida. Então ele partiu pra não mais. Não gosto de carnaval. Não que eu não goste de bagunça e de climas orgíacos. Gosto de farra. Pode ser um traumazinho básico, relacionado a meu pai, a quem um dia pretendo conhecer. Eu preciso rever esse negócio com o carnaval. Se eu nasci de um carnaval, e se eu gosto de existir, logo eu deveria gostar de carnaval. É. Mas não gosto por enquanto. Gosto de passar a noite na balada, mas não muito. Prefiro o dia. E não gosto de natal também porque acho que todos ficam hipnotizados – e outros acordados demais, o que os faz mergulhar em tristeza. Também não gosto de ano novo. No entanto, gosto sim de certas celebrações. Difícil entender, eu sei. Sou de Touro, mas isso não faz a menor diferença, pois não acredito em astrologia. Minha cor preferida é o vermelho. No entanto, não uso roupa vermelha. Se eu botar vermelho eu não fico meia hora sem ir a um espelho. Sei lá. Acho que o vermelho é sagrado. Só é bom pra vestir modelo de revista e pra propagandas de Coca-cola. Até batom vermelho na minha boca me acanha. Não acredito em Deus. Tenho muito medo da morte e da velhice. Às vezes quase me pego rezando – rezando não sei em nome de que ou de quem. É a falta que um deus faz. Mas é foda. Deus se foi como o Papai Noel. Mas eu continuo acreditando em um monte de coisas que seriam absurdas para um físico ou astrônomo. Parece uma piada até pra mim: eu costumo acreditar em metade da laranja. E pelo que tenho vivido com esse cara… Puta que pariu… somos as metades de uma laranja. Ah. Que nada. Ele é apenas alguém a quem adoro porque me faz gostar de mim como eu nunca havia gostado. Obviamente isso não é pouco. E, saiba-se, pra eu adorar algo, é porque o objeto é digno de adoração.

    “Posso me sentar aqui?”, ela pergunta. Tenho certeza: é a senhora idosa que arrastando os pés sorriu pra mim quando eu saía do hotel. “Sim, fique à vontade”, respondo. “Mas… a senhora, quem é? Nos conhecemos?” Ao que ela me responde com uma pergunta, no mínimo, estranha: “Você gosta muito de cinema, não é, querida? Gosta da ‘trilogia das cores’ do Krzysztof Kieslowski, não é mesmo?” Essa foi mesmo surpreendente: uma senhora tão velhinha falando de um assunto tão específico. Ainda que ela seja uma cinéfila, a pergunta é desconcertante. Se ela gosta de cinema, esperava-se que fosse falar sobre algum filme antigo, tipo Casablanca, sei lá. Mas Krzysztok Kieslowski foi demais. “Você já me viu antes de hoje”, ela continua. “Sou aquela que aparece nos três filmes, ‘A Liberdade é Azul’, ‘A Igualdade é Branca’, e ‘A Fraternidade é Vermelha’, tentando colocar uma garrafa numa grande lixeira, mais alta que minha estatura, somente conseguido no terceiro filme”. Então trata-se de uma atriz, que coisa legal. “Sim, é claro que me lembro das cenas. Aquelas cenas fizeram muita gente pensar em muita coisa, a senhora deve saber disso. A senhora é atriz profissional?”.

    Sei que todo tipo de estória já foi contada, e que meu caso é só mais um. Já li coisas muito estranhas, como, por exemplo, um livro em que uma menina conversava com sua vagina. Acontece que se acharmos que não falta mais nada pra se mostrar, a literatura pára, a música pára, a arte pára, a imaginação pára, o sonho pára, a vida pára. E sei também que o aconteceu comigo foi real, não é ficção, eu juro. Aconteceu comigo num momento em que eu estava inundada de sentimento. Porém sóbria – não duvidem –, como poucas vezes estive em toda a minha vida. Que coisa chata essa de pensarem que os apaixonados estão dentro de um surto psicótico. Todos tentam viver uma vida emocionante. Gostam de se emocionar com os filmes, de se excitar com as viagens, de ficarem exultantes com a apresentação teatral do filho na escola… Mas quando alguém se apaixona – é isso é a grande emoção do ser – é tratado hoje como um insensato. Apaixonar-se por dinheiro pode. Apaixonar-se por gente é tolice, como parece dizer o novo senso-comum. O dinheiro é o verdadeiro deus deste mundo. Ele passou a ser a premissa para qualquer coisa que chamem de amor ou paixão. Por ele as pessoas vivem e morrem. “Deixe-me esclarecer uma coisa, minha bela menina”, continuou a falar. “Eu jamais tive o privilégio da juventude. Sempre fui velha. Sabe por que? Porque eu não sou uma mulher como você e como as que conhece. Sou uma personagem sem nome dos filmes do Kieslowski. A pobre mulher idosa que mal consegue andar. O que não quer dizer que eu não exista, pois personagens de filmes são mais reais que o que aprendemos a chamar de gente de verdade. O que tive em minha vida? Uma rápida aparição em três filmes. Pode parecer pouco. No entanto, isso me eterniza e me faz existir, compreende? Não se preocupe, você não está ficando maluca. Você está apaixonada, é verdade, mas não louca. Eu estou aqui, pode me tocar”. Levei minhas mãos até as dela e soube que era ela real. Suas mãos enrugadas e manchadas pela idade eram quentes. Subitamente chorei. Sem barulho, chorei com minhas mãos envolvendo as dela. Ela também estava emocionada, porém sem lágrimas – o que é típico de pessoas daquela idade. “O que a senhora faz aqui? Porque me procurou?” Com a voz cansada e mais doce do mundo: “Minha querida… Nós, personagens de filmes somos, imortais e onipresentes, mas não somos oniscientes. Portanto eu não sei o que me trouxe aqui. Talvez o Grande Diretor saiba.” “Grande Diretor? A senhora está me dizendo que Deus existe?” “Todos dizem que sim, não é mesmo? Muito embora eu tenha estado em toda parte e nunca o tenha visto. Eu sou criação da mente de um cineasta. Isso me faz preferir achar que as coisas são criadas por alguém. Já pensou que neste momento você pode estar sendo dirigida, fazendo parte de um filme? Consegue se lembrar, por exemplo, como foi parar naquele quarto de hotel? Você pode me dar um cigarro?” “Sim, claro”. Acendi o cigarro para ela, que tremia. Nesse instante fumávamos juntas, e isso é puro cinema. Pensei em voz alta, com os olhos parados: “Na verdade eu não consigo me lembrar de como cheguei ao hotel. Lembro-me da minha infância até. Mas não de como cheguei ao hotel”. Ela tossiu. “Não interessa ao roteirista, meu amor, explicar como você chegou ao hotel. Eu preciso ir embora” “Não! Por favor, fique mais!” “Adeus, linda moça!”. Ela levantou-se com bastante dificuldade e foi embora vagarosamente. Não sei porque motivo eu não tive forças para me levantar da cadeira e acompanhá-la. Fade out. De repente, como aconteceu com Juliette Binoche em “A Liberdade é Azul”, o sol veio bater suavemente em meu rosto ali na mesa daquele bar. Como é lindo um raio de sol no meio de uma nublada tarde de inverno no Rio. O sol veio como música. Podia ouvir o seu calor em meu rosto. Foi numa situação mais ou menos assim que a personagem de Juliette vislumbrou a velhinha a andar na rua com enorme dificuldade, possivelmente a pensar “e quando eu ficar velha?”.

    Já no hotel, sentada no chão do box, com a água super quente batendo na minha cabeça, com os dedos indicadores tapando os ouvidos pra poder ouvir melhor o barulho da água chocando-se contra meu couro cabeludo sem a interferência do barulho da resistência elétrica do chuveiro, fiquei a pensar em tudo o que havia acontecido. Já não pensava mais no meu homem, mas apenas no que havia representado meu encontro com a velha senhora que me sorriu e me disse aquelas coisas. Engraçado: nos filmes ela não parecia ser o tipo de pessoa capaz de sorrir fácil. A personagem, sorrindo, se modificou pra mim – e como eu gostaria que alguns personagens que margeiam minha vida se modificassem pra mim. Egoísmo, eu sei. Porém seria aquela sempre a velhinha corcunda, ainda que pudesse sorrir, como não tivera a oportunidade de fazer nos filmes onde aparecera tão brevemente. E quanto a mim? Poderia eu voltar a sorrir depois de tudo o que houvera passado naquele dia. Alguém pode sorrir em meio a um turbilhão de dúvida? Alguém pode sorrir ao pensar nas desgraças do mundo, e se existe Deus, etc? Alguém pode sorrir enquanto pensa se sua vida é real ou se está dentro de um filme?

    Seco os cabelos, ainda nua, frente à janela que dá para a Baia de Guanabara. As luzes do anoitecer carioca nesta janela de hotel podem trazer tantos pensamentos que acabamos por misturá-los de tal forma que chegamos a um estado de quase-não-pensar. Tento também não fazer esforço para ter pensamentos recorrentes sobre tudo o que aconteceu. Distraio-me olhando para o meu corpo, meus pequenos seios, meus pêlos pubianos muito negros, minhas pernas finas… Meu magro e belo corpo. Mais magra do que eu gostaria, é verdade. Mas tudo bem. Afinal, quem está cem por cento em paz com seu corpo? Acho que ninguém. Tenho força. Tenho poesia. Tenho pensamentos. Tenho um apaixonado – parece que ele está apaixonado por mim. Já ia me esquecendo, ele vai chegar daqui a pouco. Neste instante gostei de pensar nele, de quem já havia me esquecido. Campainha toca. Visto-me antes de atender. Ao abrir a porta, sorrio. Sorrio finalmente. Ele entra. Pergunto se ele está bem. Nos abraçamos com calor. Sentamos na cama sem muitas palavras. Nos damos as mãos. Venha o filme.

    *

  • A falta

    Na falta de Ana, me apeguei a Larissa. Não é que fosse um pai relapso, mas dei muita importância ao meu trabalho, e deixei a infância de minha filha de lado. Não sou também um pai muito amoroso, apesar de tentar. Minha filha sempre procura chamar a minha atenção com conversas desconcertantes, como paquera e outras coisas do gênero. Não consigo ver sexualidade numa menina de oito anos. Por que ela está pensando tanta besteira? Meu Deus, às vezes me dá um aperreio incomum quando penso que ela pode engravidar cedo, e falo, ríspido, que não me venha com essas conversas de adulto. Quando Ana partiu, há seis meses, vítima de um câncer brutal, percebi que só havia eu e Larissa. Ela, também, fez de tudo para ter a minha atenção. Não quero que sofra um pingo do que sinto. Mas é inevitável, perdeu a mãe, a quem tanto ama. Para isso, não tenho explicações. A menina está rebelde e revoltada com a vida; não aceita que Deus tenha levado o seu grande amor. Ela jura não crer mais num Deus carrasco, que destruiu a nossa família. Tento amenizar, mas não tenho forças, e acho até que ela tem um pouco de razão nessa revolta toda. Marina, minha irmã, diz que há um presente de Deus que eu devo guardar com todas as minhas forças (que me restam), a presença física e o amor da minha filha. Minha irmã é muito católica, daquelas fervorosas e exageradas, então eu escuto o que tem a dizer com parcimônia, nem tudo levo a sério. Ela disse que minha filha é um anjo que Deus colocou na terra para cuidar de mim. Não penso exatamente assim, porque minha filha tem suas arengas, seus defeitos, suas implicâncias comigo, que até cheguei a duvidar, quando minha esposa era viva, se devia mesmo ter sido pai, porque não tenho tanta paciência, sou um pouco estressado com rebeldia desnecessária. A menina agora cismou que quer uma bicicleta motorizada, para ir sozinha à escola, porque jura que já é grande e tem capacidade para isso; porque moramos a cerca de três quadras do colégio. Não vou comprar uma bicicleta motorizada para uma pirralha se achar a dona do mundo, para andar por cima da carne seca (seus amiguinhos). Lutei muito para conseguir as minhas coisas, então lhe disse que terá de trabalhar, na idade certa, para ter os seus bens, inclusive a bicicleta motorizada; não vou dar essa colher de chá, apesar de ainda ter muita pena dela. Na verdade, estamos, os dois, de luto. Apoiamo-nos na medida do possível. Mas permito que ela elabore a perda irreparável, e isso resulta em gritos e pontapés; é uma cena pavorosa de se ver. Ana amou demais, por isso foi tão amada. Só fez o bem. Até eu mesmo me revolto com Deus. Isso não é justo. Ana não merecia ir tão rápido. Ela era uma alma esplendorosa na Terra. Iluminava aonde chegava. Agora estamos órfãos de um amor dadivoso. Não sei como isso vai terminar.

  • Vilania

    Seus trabalhos remunerados os sustentavam e não eram tão degradantes. Mila Cox e Zími sabiam que a distância que mantinham do mainstream era de se esperar. 

    A repercussão que conquistaram resistindo, e às vezes  se arrastando no underground durante os últimos anos, era satisfatória. Eles gostavam de acreditar que a dor existe no que há entre aquilo que as pessoas são, e aquilo que elas idealizam ser. 

    Como eles não tinham o ego inflado, estava tudo bem. 

    Haviam também motivos extra-musicais para essa postura.

    Essa parceria musical tinha pouco mais de um ano quando foi decretada a pandemia.  

    Tinham feito poucos shows até então. Puderam compor e lançar músicas na internet.

    Estavam agora num ponto em que poderiam dizer que  enfrentaram condições gerais hostis desde o princípio.

    Percebiam que em certos momentos, estavam influenciando positivamente vidas juvenis e dando um choque em mentes reacionárias.

    O anonimato que Mila Cox e Zími ainda tinham podia ser uma arma em suas mãos.

    Artistas obscuros eram mais legais para eles.

    O som que faziam era impalatável para as massas.

    Como já mencionado antes, seus trabalhos remunerados os sustentavam e havia um certo tempo livre e de isolamento para criar, e assunto não faltava.

    Manter distância da soberba e presunção de grande parte da cena musical mundial era não só um lema para suas vidas pessoais, como também uma temática para suas músicas.

    “Putsss, tô fudido!” – foi o que Zími pensou ao se lembrar que estava na véspera da gravação de um podcast. Ele adorava podcasts, mas não sabia e não se perguntava quando participaria de um.

    Mila Cox também nunca havia aparecido em nenhum podcast, mas tentava acalmá-lo.

    “Acho que quando você começar a falar, ficará mais fácil. Apenas tome cuidado e não grave chapado.”– ela disse.

    “Eu nunca me tornaria fascista, nem racista e nem machista, mesmo chapado. Mas entrarei careta e falarei somente o necessário.”– ele respondeu.

    Zími disse se tratar de um tipo de nervosismo que bateu na véspera.

    Diferente de quando ele fazia shows, e o nervosismo surgia apenas quando o momento da apresentação estava próximo.

    Apenas pensava que quando fosse o momento, falaria de seu projeto musical.

    Ele até então concentrava sua exposição fazendo shows e lançando músicas na internet, e com eventual produção de mídias físicas, em vinil e cd.

    Analisava a repercussão e algumas consequências positivas e negativas de ampliar a sua exposição para além de um produto artístico, aprendendo com o que foi feito pelos que vieram antes.

    Aproveitava do que havia de bom em ser um sujeito desconhecido que apresentava na internet as suas músicas.

    A semana em que Kevin’Geordie’ Walker e Shane MacGowan morreram quase simultaneamente, representou a queda de dois pilares culturais para Mila Cox e Zími.

    Então começou o mês de Dezembro, e os esboços que tinham para novas músicas naqueles dias eram sobre a insatisfação inerente à existência. Iriam então adaptá-las, para que também servissem como homenagem aos músicos falecidos. 

    Então decidiram que em breve deveriam lançar mais um single, para ficar pronto até o fim do ano.

    Os singles de antigamente tinham duas músicas, uma para cada lado do compacto de sete polegadas. 

    Hoje em dia singles tem uma música só, mas eles fariam à moda antiga, para lançarem também em vinil.

    Dias antes, Zími sentia algo parecido com uma crise de meia idade, algo que ele nunca pensou que fosse enfrentar, e nem mesmo tinha certeza de que fosse esse o caso.

    Desde o tempo em que era um moleque que vivia com os pais, ele não se sentia tão estável na vida, e ironicamente, isso lhe causava estranheza.

    A vida continuava sendo a tentativa diária de equilíbrio entre escolhas e consequências, mas agora tinha uma residência fixa, com as contas pagas em dia, tinha comida em casa.

    Havia enfim uma estrutura geral digna para um cara de quarenta e seis anos que precisava achar equilíbrio entre ação e sossego.

    Às vezes chegava a ser estranho para ele, que agora não vivia mais tão amargurado com os altos e baixos de sua vida.

    O lar é onde uma pessoa cessa as tentativas de fuga .
    Dizia que o casamento duplica as obrigações de uma pessoa, e reduz à metade os seus direitos. 

    Sempre esteve decidido a  continuar solteiro, pois também temia que sua vida artística sofreria, caso ele se casasse, seja lá com quem fosse.

    Enquanto refletia sobre como deixou de desejar tão intensamente viver apenas para ver o fim da humanidade (onde o final definitivo nivelaria de uma vez por todas os indivíduos de qualquer época apenas como pertencentes a uma espécie extinta por autodestruição), pegava embalo no entusiasmo juvenil de Mila Cox para criar e continuar contestando valores estabelecidos que ele desprezava.

    Ao mesmo tempo pensava no grau de seu egoísmo em relação às gerações que o sucederiam, e que pouco ou nada tinham a ver com a situação do planeta e nem com as vergonhas sucessivas causadas pelos poucos humanos que realmente ditam regras, seja em termos de degradação ambiental irreversível, seja nas relações também tão degradadas já no século vinte e um adentro.

    O que sempre houve foi uma força individual e coletiva pela consolidação de uma existência frágil e finita, que pode ser perpetuada pela glória ou pela vergonha

    Muitas vezes sem que os protagonistas ainda estejam vivos para aproveitara glória ou se redimirem da vergonha.

    Zími dizia ser como um cachorro velho, que demora para se acostumar a novos lugares e realidades, e em seu caso isso parecia valer até para a prosperidade material. Talvez por receio de perdê-las por algum motivo, e aí sim ter uma nova mudança desfavorável.

    Sua parceira musical Mila Cox era vinte e seis anos mais jovem, e isso agora lhe motivava a fazer música até morrer, embora não tivesse a pretensão de ser eternizado por isso. Pensava que depois de morto isso não faria mais diferença.

    Tratava-se de aproveitar sua existência em vida, seja lá qual fosse o seu sentido.

    Geralmente um artista não está preparado para uma ascensão meteórica.

    A queda vertiginosa que normalmente a sucede é um golpe ainda pior.

    Mila Cox e Zími nunca viveriam a primeira situação, pois já trabalham há algum tempo para deixarem música relevante para o público que a assimilar.

    Cox costumava dizer que a música deles era um manifesto de esquizofrenia e promiscuidade musical. 

    Dificilmente atingiria um público imenso, mas pensava em colher frutos mesmo com um público não tão grande.  

    Ela nunca considerou outra possibilidade que não fosse questionar tudo, e usar a música como recurso. 

    Sabia que as massas viviam um cotidiano que não fazia referência a nada superior, e explorava essa temática.

    E o resultado a ser colhido seria poder fazer turnês mais estruturadas, para lugares mais distantes, para além de cidades do sudeste e sul do Brasil.

    Aprendera certas lições ao longo da vida, e há muito havia entendido que não há glamour para ninguém, quem quer que fosse.  

    A certeza da morte vindoura, cedo ou tarde, ainda o entristecia um pouco quando pensava no assunto. 

    Seu receio era de sofrer doente antes de morrer.

    Mas estar fazendo rock com quase cinquenta anos, depois de uma pausa que ele pensava ser definitiva, ao lado de uma jovem, que dias antes se desesperava com matérias antigas sobre queimas de arquivo da cultura brasileira em incêndios.

    Cox também adotou pouco tempo antes a palavra ‘estoicismo’ e o mencionava quando Zími estava azedo.

    Ela era pressionada pela família para que fizesse uma faculdade, e alegava ser impossível fazer mais pesquisas do que já fazia, tendo terminado o ensino médio e mergulhado na ideia de ter um emprego para sustentar a vida na música.

    Para Mila Cox, Zími tinha apenas eventualmente o humor de um cara de meia idade, mas não tinha a aparência e nem o comportamento de alguém que tivesse aos trinta e cinco.

    Havia entre eles uma simbiose artística que a permitia seguir sem deslumbramentos ou ilusões sobre a vida no meio musical.  

    Já para Zími, essa simbiose artística permitia continuar com ânimo para fazer música, lançando os trabalhos na internet e eventualmente em mídias físicas, e viajando numa Kombi para cidades do interior para fazer shows.

    A Kombi era do vizinho e amigo uruguaio Silvano, que na mesma faixa etária de Zími, começou tardiamente uma carreira musical, encorajado pela dupla, e passaram a trabalhar apoiando-se mutuamente.

    A parceria com Silvano, que agora era uma banda de um homem só, e misturava influências de punk rock, blues e rockabilly, mudou a vida dos três.

    Mila Cox e Zími formavam os Crop Circles, duo que misturava punk rock, post punk e psicodelia. Cox era vocalista, tocava contrabaixo e sintetizadores, e Zími também era vocalista e tocava bateria de pé, usando um kit minimalista.

    Conheceram-se quando Mila Cox e Zími se mudaram para o mesmo prédio que ele vivia há onze anos. Moravam no mesmo andar, o que facilitou a aproximação entre eles.

    Silvano falava português sem sotaque, pois vivia no Brasil desde pequeno.
    Seus shows eram agendados nas mesmas datas que os Crop Circles tocaram desde então.

    Quando soube que Zími estava nervoso por causa da gravação de um podcast, Silvano falou: “Deveríamos fazer um podcast semanal! Nem sei porque não pensei nisso antes!”

    Zími respondeu: “Publicidade é importante, mas excessos extra-musicais podem levar tudo à ruína.  Aumentar a fama sem ganhar dinheiro é o pesadelo que eu não quero ter. O contrário disso seria formidável, e se encaixa melhor naquilo que eu idealizo. Ter mais dinheiro e andar anônimo na rua seria incrível. Ou pelo menos conseguir que o aumento da popularidade seja proporcional ao do dinheiro.”

    Silvano: “Eu sei que muitas vezes se dá muito mais valor ao anonimato depois que ele é perdido. Mas no nosso caso, por mais bem sucedida que fosse  a estratégia promocional, no caso o podcast, isso não ia nos impedir de continuar frequentado a mesma padaria que frequentamos. Eu comecei a carreira musical agora, mas não ter sido chamado pra uma entrevista sequer, chega a me incomodar”

    Zími: “Eu odeio essa parte. A Mila é quem responde na maioria das vezes, e ela adora. Eu não me importaria se fosse sempre assim. Algumas vezes as pessoas, geralmente estudantes, querem falar especificamente comigo. No lugar do orgulho e do entusiasmo, fica uma certa ansiedade.”

    Silvano: “Você não deveria se preocupar com o surgimento de haters.”

    Zími: “Eu não me preocupo com o surgimento deles. Eles já existem, mas são tão ignorantes que nem mesmo sabem que eu existo. Assim que tomarem conhecimento, gritarão na internet daquela forma que você não vê ninguém gritar na rua. A essa altura, a nossa popularidade será maior. E essas pessoas são tristes, ignorantes, pretensos algozes da liberdade. Eu não aguento nem pensar sobre eles. Há sempre um limite além do qual a tolerância deixa de ser uma virtude.”

    Então Mila Cox disse que estava pensando em chamar um saxofonista para concluir algumas músicas.

    Zími perguntou: “É pra imitar o X Ray Spex? “

    Mila Cox: “Também, um pouco. Mas há muitas  outras influências que apontam essa possibilidade. Não seria nunca um membro oficial da banda. É para intervenções pontuais em uma música. Sei que um saxofone aleatório pode descambar pra cafonice, mas não é o nosso caso. O Zappa fazia bom uso quando precisava porque ele também satirizava. Era isso que cortava o risco de ser ridículo.”

    E ela saiu do apartamento. 

    Pela janela, minutos depois, Zimi e Silvano a viram entrando na padaria do outro lado da rua, provavelmente para beber.
    Ela só bebia quando tinha bloqueio criativo. 

    Eles bebiam muito e ela os chamava de alcoólatras.

    Entraram na padaria e lá estava Mila Cox conversando com Zíron, que provavelmente havia combinado de se encontrar com ela.

    Zíron tocava sax e já estava avisado que não seria membro oficial dos Crop Circles, apenas poderia fazer participações eventuais em gravações.

  • A vó do menino

    A mãe precisa dormir no emprego, mas não pode deixar o menino sozinho em casa.

    – Sabe – ela diz – a minha casa foi da minha mãe, e antes foi da mãe dela. É da família, de geração em geração.

    Serve-nos uma xícara de café, e continua:

    – O menino sente a presença da vó. Tem medo. Ela era brava.

    – Mas ele conheceu a vó?

    – Ela morreu há vinte anos; ele tem onze.

    – Então, é porque fica sozinho naquele casarão?

    – A vó fica com ele. Ela nunca iria sair da sua casa. E ele sabe que ela está lá.

  • Um pássaro

    Duvidou. Não era mais momento para dúvidas, estava já com uma perna sobre a mureta da ponte, mas duvidou mesmo assim. Viu o pássaro que, não fazia um minuto, pousara perto dele e o observava com os olhinhos apertados de ave. Pelo menos foi isso que imaginou: aquele pássaro adivinhou o que ele estava prestes a fazer e veio para dissuadi-lo.

    Foi aí que duvidou. Num repente, a vida não pareceu tão bruta. Sentiu um pouco de alegria, a primeira vez em anos. Havia agora um pássaro em sua vida. Tinha que repensar. Ato contínuo, tirou a perna da mureta da ponte. Iria recomeçar, percebeu-se pronto. Virou-se decidido a ir para casa e celebrar a vida nova que teria dali em diante. Não viu o caminhão que vinha veloz pelo outro lado e o pegou em cheio. Deu três piruetas no ar antes de se transformar numa pasta de ossos, sangue e vísceras em cima do asfalto. Assustado com o barulho, o passarinho voou para longe.

    A hora fatal nem sempre se apresenta como a literatura conta ou como os filmes mostram. Às vezes ela tem a aparência inocente de um pássaro, tem olhos e jeito de pássaro. Com alguma sorte, pode-se até ouvir um trinado como se fosse uma canção de despedida.

  • Herança

    Não há palanque para bobeira. De minha parte, não vou dar cartaz. Lícia tem a mania de aparecer, de se fazer chamativa na internet. Quer ser influenciadora. Mas de quê, meu Deus? Não tem modos. É exagerada. Uma pessoa pobre, insuportavelmente sem intelecto. Não gosta de ler. Já falou que abomina os livros – espero que não diga isso para os seus influenciados – que também não têm nada na cabeça, só pode, para seguir uma pirralha metida a sabichona. É praticamente um dinossauro falante. Uma coisa absurda, que solta fuligem pela boca, para falar, muitas vezes, sobre sexo. Um dia desses assisti a um de seus vídeos. Ele tinha cerca de trezentas mil visualizações. Ela falava sobre o prazer e o gozo, com a espontaneidade de quem tinha anos de experiência. Ela só tem dezenove anos. Até onde pude, proibi. A mãe também é uma desleixada, não cuida da filha como ela merece e precisa. Faz as vontades da pequena guria, para não a ver birrenta pelos cantos da casa. Por último, comprou um celular ultramoderno, desses da Apple, porque ela disse que precisava muito de um material bom (excelente) para fabricar as suas matérias. Além do mais, a pirralha tem um namoradinho baixo-nível, um sujeitinho como ela, com pouca instrução. Quando o conheci, ele teve a decência de pedir a mão da minha filha em namoro, então desarmei. Sentamo-nos para conversar enquanto minha filha se trocava para saírem. Comecei conversando amenidades, depois parti para a guerra em Gaza. Ele não tinha a menor ideia do que seria o Estado de Israel e Gaza; não sabia onde se localizava no mapa; gaguejou ao falar que de fato não sabia o que estava acontecendo. Depois que minha filha saiu do quarto, perguntei a ela se teria alguma noção do que seria a guerra em Gaza. “Ah, pai, lá vem com as perguntas moralistas, para me deixar com vergonha na frente do meu namorado…”. Enfim, enrolou e não falou sobre isso. Para que ela faz vídeo para a internet, se não sabe o que os inocentes passam numa guerra sem sentido? Noutro bendito vídeo, a que assisti pela metade, a menina falava sobre suas maquilagens – algo que domina como ninguém –, e igualmente, como naquele vídeo, tinha uma porção de visualizações. Ela quer mesmo ganhar a vida assim. Deixou a Faculdade de Direito ainda no primeiro ano. Tudo bem, se diz que não tem nada a ver com ela, mas que faça outra faculdade; nem isso ela quer. O namoradinho, Jamal, é cantor de rap. Nada contra, inclusive gosto de Racionais, mas o que ele pode fazer de diferença, se não tem noção do mundo que o rodeia?! São dois bobocas. Minha filha me disse que se baseia em outras influenciadoras. Ou seja, reúne nada com nada na cabeça. Mas é minha filha e eu vou ter de dar um jeito nisso, porque não quero essa exposição tola, essa babaquice como herança.

  • Dinossaura herbívora

    A avó tinha mesmo pintado o cabelo de azul, foi para o churrasco da família só para beber e usava uma camiseta do Circle Jerks

    Ela só falava quando solicitada.

    E embora fosse, a princípio, econômica em suas falas, uma vez que engrenava num assunto de seu interesse, nada podia detê-la.

    Isso deliciava a curiosidade dos netos e causava atrito com os filhos, um casal de gêmeos adotivos.

    Ainda assim, conversava com os netos sobre qualquer tema que lhe fosse apresentado.

    “Vovó, você acredita em vida inteligente fora da Terra?”

    Vovó – “A questão não é sobre haver ou não vida inteligente fora da Terra.

    A questão é sobre a parcela de vida inteligente que há na Terra não se sobrepor à estupidez vigente que nos aprisiona num estágio civilizatório bastante primitivo.

    Há também a questão sobre o porquê de convencionar a humanidade como uma forma inteligente de vida, de um modo geral. É sobre não aprender com experiências anteriores de outras pessoas, e muitas vezes nem mesmo com as próprias experiências, individual ou coletivamente.

    O entendimento do que é progresso deveria ser revisto há muito tempo. Vive-se cada vez pior.”

    Netinho: “Então porque você teve o papai como filho?”

    Vovó: “Ele foi adotado. Ele e sua tia são filhos de uma moça que não tinha condições de criá-los. Eu e seu avô pegamos pra criar, e a moça desapareceu no mundo sem olhar pra trás.”

    Netinho: “Então você nunca teve filhos biológicos?”

    Vovó: “Não.”

    Netinho: “Por quê?”

    Vovó: “Não suportaria o processo que envolve a gravidez e não tinha a maternidade como um plano na minha vida.”

    Netinho: “Mas você sempre cuidou do papai como sendo um filho!”

    Vovó: “Claro, ele é meu filho, independentemente de ter saído ou não da minha barriga, e independente de eu ter ou não planejado algo do tipo.”

    Netinho: “Vovó, porque você nunca vai à igreja?”

    Vovó: “Porque procuro ter a ética como diretriz, e não a religião.”

    Netinho: “Me explique isso melhor!”

    Vovó: “Não sou articulada o bastante, mas vou tentar explicar através da diferença entre essas duas coisas, com as palavras que agora me ocorrem. Enquanto na ética se faz o que é certo, independentemente do que está escrito, na religião procuram fazer o que está escrito, independentemente de ser certo ou não. O medo e o desespero fazem com que muita gente acredite nesses pastores picaretas que pedem dinheiro na televisão. Deus não existe, mas se existisse, sei que não precisaria de dinheiro, e muito menos o teria inventado. E ele sempre foi retratado de modo que o povo sentisse medo de castigos que ele supostamente aplicaria para o caso de suas regras não serem seguidas.

    Mas pense com sua própria cabeça e tire suas próprias conclusões.

    Na verdade, o que deveria intrigar as pessoas é o fato de que quem prega essas coisas são pessoas que seriam então duramente castigadas. Entenda que por trás de todo paladino da moral, vive um canalha.”

    Netinho: “Vovó, é verdade que você e o vovô nunca foram casados?”

    Vovó: “Desde que nos conhecemos, temos cada um a sua própria casa, e passamos tempos juntos numa casa ou na outra, quando consideramos que essa relação é saudável e conveniente para ambos, sem maiores discussões ou lamúrias.”

    Netinho: “Nunca se casaram no papel nem na igreja?”

    Vovó: “Concordamos desde o início que casamento é uma instituição falida, machista e patriarcal. Algo repugnante demais para incorporar no nosso modo de vida.”

    Netinho: “Quem é essa que está cantando?”

    Vovozinha: “Kate Bush.”

    Netinho: “Vovó, por que você é vegana?”

    Vovó: “Porque não acredito que a essa altura ainda seja necessário que matem bichos pra comer. Acredito menos ainda que seja necessário gastar tanto para criarem esses bichos para matá-los.”

    Netinho: “Vovó, você acredita em terias da conspiração?”

    Vovó: “Em teorias não, mas de vez em quando, nas conspirações propriamente ditas. Não costumo pensar muito nisso, porque prefiro acreditar que muitas bizarrices causadas pela humanidade podem ser atribuídas à estupidez mesmo.”

    Netinho: “Quem é esse que está cantando agora?”

    Vovozinha: “Todd Hundgren!”

    Netinho: ”Ele é muito bom!. Por que ele não é famoso?”

    Vovozinha: “Porque querem que você cresça retardado, ouvindo música de merda.”

    Netinho: “Quais as cinco melhores bandas?”

    Vovozinha: “Vou responder sem pensar muito, e se você perguntar amanhã não sei se serão as mesmas. The Kinks, The Jesus and Mary Chain , X Ray Spex, Husker Du e Velvet Underground. Alguns medalhões ficaram de fora por serem muito óbvios.”

    Então colocaram para tocar músicas dessas bandas no celular do netinho.

  • Memórias entre Ruínas

    Ainda há fumaça saindo da cinza. Ainda há um inexplicável cheiro de rosas, entre as ruínas da casa, sob a cinza. Como se o cheiro das rosas saísse de debaixo das cinzas.

    Nenhuma parede em pé, móveis queimados, objetos vagos: ruínas. Ergo um busto de gesso, uma Vênus com a cabeça decepada, ao lado, que sorri ainda o seu sorriso sensual. Olho-a bem: o sorriso se crispa de dor.

    Levanto um martelo do chão. Para que serve um martelo, agora? Quebro o tampo de mármore que restou de uma mesa. Ninguém mais irá escrever nesta mesa. Ninguém irá mais comer. Nem a família se sentará reunida. Lembro-me do papagaio: queria falar mais do que as crianças. Onde estão as crianças? Já são adultos, alguns já morreram. Muito frágil a vida humana.

    Um espelho sob os meus pés, queimado, já não reflete nenhuma imagem. Olho-o com atenção: sou uma sombra. Somos todos sombras do que fôramos. Alguns, nem isso. Cinzas entre as ruínas. E a fumaça se espiralando devagar. Ando de um lugar para o outro: de onde vem essa fumaça? Há algum fogo sob as cinzas? Chego à cozinha, o fogo está no quarto da frente. Chego ao quarto da frente, está na sala. Depois, no quarto dos arreios. No quarto dos meninos. Enfim, só há cinzas.

    Sinto que escorre um filete de lágrimas pelo meu rosto, sujo de fuligem, grosso. Não; não devo chorar. O que morreu, morreu. A casa são ruínas, todos que a habitaram são ruínas, mesmo quem não morreu. A morte chegou de soslaio, cobriu com seu manto amarelo as coisas e os seres. As minhas mãos estão calejadas, duras, de tanto manejar o ancinho da morte. Abri muitas covas, cansei de contar os meus mortos. Que a cinza os cubra, sob as estrelas e o olhar de Deus.

    Bem ao lado do meu quarto, havia uma árvore. Ainda está lá, o quarto é que não existe mais. Tijolos queimados rodeiam a árvore, restos de tijolos, negros, como pedaços de carvão.

    A árvore está queimada, mas resiste: está em pé. O tronco seco, os galhos secos, apontando o alto. Entre os galhos dessa árvore eu imaginava o mundo. Acaricio o tronco frio e duro como pedra. Seria a minha árvore? Seria este o meu quarto? Esta a minha casa? Eu? Serei eu o mesmo que está aqui e o que cresceu entre estas paredes? Escorre zinabre amarelado do que restou das paredes. Escorre zinabre do tempo. Esfarela-se o tempo entre os meus dedos.

    Alheio, farelo estragado, inútil.

    Ana morta no meio da sala. Era como se pairasse no ar. Em êxtase. Percebo: o perfume de rosas vinha da alma de Ana em êxtase no meio da sala. Foi há séculos e ainda sinto o perfume. Falta ver o corpo de Ana e a alma levitando, dançando no ar, não querendo ir embora. E não foi. A casa foi-se embora, ela não: o seu perfume impregna ainda o ar. As coisas que amamos nunca se vão embora. São eternas como o ar que respiramos. As pessoas que amamos são eternas como Deus.

    A casa está tão vazia, desgastada, roída até o caroço, dói, angustia. Quero sentir a presença da casa, do meu pai, minha mãe, meus irmãos, os cachorros. Todos morreram, com a casa. Eu mesmo já morri, com a casa. Onde era a sala, a copa, a varanda que dava para o pomar, vê-se o porão. Medonho. Um poço escuro. Não era à toa que nós, crianças, tínhamos medo do porão. Um território misterioso, um labirinto de galerias, com os seus fantasmas, as suas almas penadas, girando desconsoladas, atordoadas. Nós é que ficávamos atordoados, só de imaginar.

    *

    A casa nem era tão grande. A imaginação, sim. Nem haveria mortos enterrados sob o seu bojo. Nós os criávamos, apavorantes. Brincávamos de medo. Era maravilhoso brincar de medo. Nós que não sabíamos o que era o medo. Depois, muito depois, o universo cairia sobre nós. Sem nos apercebermos do que acontecia, morremos. Morremos aos poucos, profundamente. Mas nunca se morre absolutamente: estou procurando quem fui, quem sou, entre as ruínas da minha casa.

    Há só cinzas e resquícios de fumaça, que engana. Não somos nada. Aninha em êxtase na sala, antigamente, tem mais realidade do que eu.

  • Tem coisas nesta vida que a gente não esquece

    Minha mulher, Maria da Graça, há dez anos padece de esquecimento. Seus olhos enxergam, mas não veem e, quando veem, não reconhecem o que viram, como se tudo que se apresentasse na frente deles fosse novidade: o vaso azul de porcelana, o relógio perto da janela, o caminho de crochê na mesa de jantar, a cortina de veludo — velharias cujo registro a memória já apagou. Há muito tempo a casa está vazia de sua voz e seu abecedário. Nos últimos meses ela tem se dedicado à atividade de caminhar do quarto para a cozinha, passando pelo corredor e, de novo, da cozinha para o quarto, até que suas pernas lhe digam “Basta!” A cada dia ela aguenta esse passeio mais vezes e suas panturrilhas estão bem fortalecidas pelo esforço. Gostaria de saber se algum maratonista faz tantos quilômetros por dia como minha mulher.

    No início, tive pena vendo o sacrifício dela para vencer cada etapa da caminhada, mas agora vejo sua atividade como algo bom. Penso: “Que maravilhosa sorte uma pessoa tem de se esquecer de tudo, que felicidade é dar um passo sem ter a mais remota ideia de quantos já dera anteriormente e de quantos será capaz de dar no futuro!”

    Hoje me sentei no sofá disposto a também esquecer algumas coisas, talvez pelo enorme desejo que tenho de voltar a fazer algo em conjunto com minha mulher. Começo por esquecer sua doença, por exemplo, e vejo seu passeio como aquilo que é — um passeio apenas, que começa no quarto e termina na cozinha, e depois recomeça na cozinha para finalmente terminar no quarto. Pode ser que, num momento raro, ela se detenha no corredor, olhe para mim e se aproxime para, ao meu lado no sofá, ver um pouco de televisão.

    Também procuro esquecer quem é essa mulher com quem divido a casa. Fico atento ao toc-toc do andador na madeira do assoalho. Quando ela aparece no corredor, olho-a e vejo-a como se fosse a primeira vez:“Que mulher linda! Acho que vou me apaixonar”. Ela me olha, nos olhamos, e ela me fala, depois de anos de silêncio: “João da Alegria, João, meu querido, tem coisas nesta vida que a gente não esquece.” Eu a ajudo a se sentar e ela põe sua mão debaixo da minha. Juntos olhamos para a tela à nossa frente.

  • Ano-Novo

    Ano-Novo. 2026 está aí. Caminho em direção à casa de meus pais, solitário. Como moro a cerca de duas quadras, resolvi ir a pé. O sapato esquerdo aperta, por conta do joanete, que quase expõe o osso para fora. Caminho devagar, para amenizar a dor. Penso: por que não fiquei em casa? Não gosto de réveillon. Poucas festas me agradam. Não acredito que alguma simpatia vai mudar o nosso fado. Preciso ver os meus pais, então continuo olhando para o chão. Esbarro num morador de rua. Ele estava em pé ao meu lado, embriagado. Pediu cigarro e dinheiro, para comprar cachaça. Gostei da sua sinceridade. Dei dois contos e dois cigarros que tinha no bolso da camisa amarela enferrujada. O homem falava embolado, mas percebi que me abençoava: “Deus… Deus… Deus”. No segundo quarteirão encontro a cachorrinha de dona Ermínia. Como ela veio parar aqui? Bem fugiu de casa, num descuido da velhinha. Coloquei-a no braço. Teria de levar a bendita cachorrinha para a passagem de ano. Que sina essa minha; esse tipo de “aventuras” parece que só acontece comigo. Num instante, as luzes se apagaram. Poucos carros circulavam. Dois minutos de pleno apagão. Parei um pouco a caminhada, para não me atrapalhar. Fiquei com medo de assalto ou algo do tipo. E o pior, só tinha o meu celular no bolso, o qual, eventualmente, usaria para mostrar a minha identidade à polícia ou fazer algum pix. Logo voltou a iluminação pública, embora meio capenga. Faltar energia na virada de ano não é bom presságio, diria Ronaldo, meu amigo, se estivesse vivo. Caminho ainda mais devagar. Meu pé parece estar em carne viva – é como eu o sinto. Avisto a casinha de meus pais. Adianto o passo para chegar na hora combinada, às 22h45min. Pego a chave no bolso. Abro a porta e entro. Ligo as luzes. Espero, na cadeira empoeirada, a presença de meus pais. Eles chegam radiantes. São dois anjos, vislumbrei, afinal foram e são almas puras. Minha mãe se senta ao meu lado. Pergunta sobre as minhas dores. Diz que vai interceder a Deus para melhorar. Meu pai fica em pé, admirando a nossa conversa. Ele ainda me recrimina por ter vindo passar o Ano-Novo com eles e não com a minha família, com meus filhos. “Papai, foram todos para lugares diferentes, não tem como juntar aqueles capetinhas”. Minha mãe me recriminou por ter chamado seus netos de capetinhas. Já se escutam os fogos. O ano vira. Fico quieto com meus pais. Abraço-os de um jeito infantil, como se pedisse colo, como se fosse o pequeno Nando, como sempre me chamaram quando menino. Minha mãe diz que tem de ir, e meu pai a acompanha. Marina, minha ex-esposa, pergunta por que não vendo a casa, depois da morte de meus pais. Ela não tem ideia do que acontece aqui. Só eu sei o poder que esse lugar mágico tem.

  • Olho Mágico

    A menininha se aproximou com um objeto na mão. Mostrou para o menininho sentado no banco, num canto isolado.

    – Me dá um pedaço do seu lanche. Eu te mostro o meu olho – disse.

    O menininho ficou olhando com olhos tímidos. Depois passou o pão com mortadela para ela, que lhe passou o olho.

    Era bonito, como um olho de gente. Ele nunca tinha reparado que ela tinha um olho de vidro. Era tão alegrinha. Ele até diria: “Tem uns olhos lindos.”

    Os dois comeram juntos. No intervalo, enquanto mastigavam, erguiam o olho contra o sol. Era azul, da cor do céu, combinava com a carinha alegre da menina.

    – Um dia você me dá o seu olho? – o menino disse.

    – Dou – ela disse, rindo com os dois olhos azuis.

    – De verdade? Eu vou poder levar para mim? – ele disse.

    Ela riu encantada, ele riu encantado. O olho azul outra vez nas mãos sorria como se fosse mágico. O menino pulava de contente:

    – É meu! É meu! Vai ser meu! Vai ser meu!

    Quando a menininha se mudou daquele lugar, não foi embora para sempre; o menininho já tinha ganhado o olho mágico e ficava vendo nele o sorriso da menininha. Nas horas mais tristes da vida, ele tirava o olho do bolsinho da calça, apertava contra o coração e sabia que nem tudo estava perdido:

    – É meu! Ela é minha! Ninguém morre para sempre, ela deixou o olho para mim.

    Beija o olho com carinho, ergue contra o sol e suspira:

    – Amorzinho!

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