COntos

  • O homem da casa

    Eduardo acorda cedo e, como de costume, não faz a cama. Não tem de se trocar, dormiu de roupa. Toma um café preto e ralo e sai de casa tremendo de frio. Não calçou o Nike, preferiu o sapato velho, já que sabia bem aonde tinha de ir. Como companhia, um cajado pequeno como seu tamanho, dois sacos vazios de supermercado e um lenço que sua mãe lhe amarra no pescoço. Em determinado momento esse lenço vai servir para cobrir seu nariz e sua boca: lá há gases, cheiros, micróbios e outras porcarias. Era o lenço de seu pai, agora é seu, pois virou o homem da casa. A mãe grita da porta: “Não esquece de cobrir os olhos também e não respire a fumaça.”

    Depois de andar por mais de trinta minutos, Eduardo chega ao monte enorme. Percebe que está atrasado e quase não há onde fuçar: mais de cinquenta meninos chegaram antes e fuçaram primeiro. Mesmo assim, Eduardo cobre o rosto com o lenço, mete os pés no monturo e com o cajado espanta os urubus.

  • Padre no avião

    Tem mais de 20 anos eu estava em um vôo para os Estados Unidos. Ao meu lado estava um padre brasileiro que foi deslocado para a diocese de Chicago.

    Sujeito de conversa agradável e bom de copo. Cada vez que o carrinho de bebidas passava não menos que quatro pequenas garrafas ficavam ali com a gente, duas para cada um, é claro. Nesse ritmo nós dois nos igualamos ao avião e estávamos bem altos.

    Foi nessa hora que o papo ficou mais animado. Lá pelas tantas o padre me disse que na paróquia de onde ele vinha, lá na pontinha do mapa da zona Leste de São Paulo, ele tinha uma abordagem diferente quanto ao casamento.

    O padre disse que quando os moços, nas palavras dele, o procuravam querendo casar ele aconselhava que fossem morar juntos primeiro. Diante dessa revelação questionei-o.

    Perguntei se ele não percebia que estava estimulando a fornicação, o sexo antes do sagrado matrimônio.

    Ao que o padre replicou: meu filho, casamento é um contrato com Deus. Isso não se rompe.

    Fornicação é um mal menor. Se resolve com qualquer penitenciazinha, uma meia dúzia de ave-marias e fica tudo bem.

    Foi difícil não gargalhar naquele vôo.

  • A trama

    Assim que chega a manhã, as esposas dos pescadores se dirigem às docas e ali se sentam, os pés dentro d’água. Todas trazem linhas e agulhas de tamanhos variados e se dedicam à tarefa de fechar os buracos das redes que seus maridos utilizam no trabalho. Cantarolam enquanto cosem, e cosem com diligência e sem distração: ao entardecer, seus homens precisarão das redes prontas antes de saírem para o mar em busca do alimento e do sustento de todos os dias.

    Em determinados pontos da trama, que escolhem cuidadosamente tal qual um segredo bem urdido, elas substituem a linha de tecer por fios dos próprios cabelos, arrancados da cabeça num puxão seco e dolorido, e prosseguem a costura, embaladas pela cantoria que sai das dezenas de bocas em uníssono. Dessa maneira, um pequeno pedaço de cada uma — seus cabelos — acompanha o marido quando o barco em que ele está toma a direção do desconhecido, noite e mar adentro.

    Na manhã seguinte, repetem o ritual da costura e da cantilena e, quando necessário, em conjunto, solidárias, tratam de decapitar as sereias que, por atrevidas e insolentes, sem serem convidadas, aparecem na rede de vez em quando, no meio de centenas de milhares de sardinhas e outros peixes maiores. Deram-se mal, as tais, se tinham por objetivo alcançar a terra firme para seduzir homens que têm dona.

  • Carta para Maria Santa

    Maria Santa, preciso muito lhe dizer umas coisas. Coisas que andam acontecendo aqui em casa desde que você foi embora. Coisas incríveis, sabe? Os primeiros que vi estavam atrás da geladeira. Eu os encontrei numa manhã de setembro, justo naqueles dias de passagem do inverno para a primavera, quando a solidão fica mais pesada. Lembro-me de que fazia um mês que você tinha partido e eu estava me sentindo tão só, tão só, que resolvi limpar toda a casa para me ocupar. Arrastei a geladeira e os vi.

    Eram dois. Não fiquei muito surpreso quando os encontrei. Lembra-se de que falávamos que nossa casa era muito úmida? Além disso, tem chovido bastante nas últimas semanas. O barulho da água batendo na janela sempre me desperta de madrugada, e não pego mais no sono até amanhecer. Não consigo me acostumar a dormir sozinho, Maria Santa, e qualquer bobagem, como o barulho da chuva, faz com que meus olhos permaneçam abertos.

    Poucos dias depois vi mais alguns, debaixo da mesinha de canto e também sob o sofá. Estava arrumando os livros na estante, lembrando-me de como fazíamos isso juntos, e encontrei uma verdadeira colônia deles atrás do móvel, e já estavam se espalhando pelo rodapé. A casa está infestada de cogumelos. Como crescem rápido! Brotam do assoalho como se isso fosse natural. Não consigo compreender, Maria Santa. Parecem suculentos e apetitosos, e poderiam muito bem fazer parte de uma saborosa refeição. Aliás, pensei nisso: convidar você para jantar e conversar. Você ficaria surpresa com as habilidades culinárias que adquiri desde que você foi embora. Procurei na internet o melhor modo de preparar uma boa refeição com essas coisinhas, mas não encontrei nada sobre essa espécie que há aqui. E se forem venenosos?

    À noite, quando procurava meus chinelos, descobri outro grupo deles embaixo da cama. Eu sei, Maria Santa, esta casa sem você é um caos, não acho nada, onde estavam meus chinelos? Não consegui encontrar. E digo mais: na manhã seguinte, ao pegar uma camisa limpa, vi dezenas deles dentro do armário. Se você estivesse aqui, Maria Santa…

    Eles crescem em qualquer canto, sobre a escrivaninha, no teto, no banheiro, sob a pia da cozinha. Até comprei um livro que falava deles, mas, novamente, nenhuma informação sobre essa espécie. Acho que tenho aqui um tipo ainda desconhecido de cogumelo. Vou chamá-lo de “cogumelo do homem só”.

    São bonitinhos e quase não me dão trabalho. Eles não são como as plantas normais, que exigem cuidado e atenção. A essas eu me dediquei. Eu cuidei delas, sabe? Coloquei água e as deixei tomando sol para que, quando você voltasse, não as encontrasse murchas. Mas sempre me esquecia de que já havia regado, e punha água novamente. Um dia morreram afogadas pelo excesso de cuidado meu. Sob suas mãos, Maria Santa, seguramente isso não teria acontecido. Os cogumelos, não, eles não precisam de nada. Eles são assim, crescem em qualquer lugar sem ajuda, sem que lhes peçam. Apenas brotam. Gosto de acordar de manhã e ver os novos que surgiram durante a noite.

    Sempre converso com eles. Falo sobre você. Digo que, um dia desses, você cruzará a porta e os conhecerá. Também ponho músicas para tocar, aquelas que ouvíamos juntos. Às vezes leio poemas, principalmente os do Neruda, daquele livro que você me devolveu sem nunca ter lido. Eu sinto que eles gostam e estão agradecidos. E crescem. Um deles, que brotou no canto da sala, já está com quase meio metro de altura. Eu o utilizo como mesinha para o telefone e para o café. Olho para eles enquanto as horas correm. Mas as horas são lentas, Maria Santa. Desde que você me deixou, uma hora leva duas para passar.

    Mesmo gostando dos cogumelos, às vezes fico angustiado com a casa desse jeito, inteiramente tomada por eles. Tenho de fazer contorcionismo para me movimentar e andar até o quarto. Não consigo mais sair para a rua, porque eles já bloquearam o corredor e a porta. E as janelas também. Às vezes, sem querer, piso num deles e ouço seu gemido de dor, parecido com o som que sai do meu peito.

    Não há mais espaço para mim aqui.

  • UM SUJEITO PECULIAR

    Silas Arruda é um sujeito peculiar, do tipo que, vagando pela cidade dentro do ônibus, observa pela janela as pessoas que andam apressadas pela calçada e tenta encontrar seus olhos, adivinhar sua história, criar-lhes uma vida. Registra tudo com o olhar silencioso. Não conversa com ninguém, fechado nos próprios pensamentos.

    Na padaria, enquanto aguarda sua vez, fixa os olhos na vitrine cheia de pães e escolhe dois do fundo, aqueles que — ele acredita — ainda não foram tocados pelo atendente. Vai se sentir mais seguro quando, ao preparar seu lanche habitual, colocar na boca um produto sobre o qual ninguém pôs as mãos. No miolo estenderá três fatias de queijo e duas de presunto, sobras da noite anterior. Se ainda houver tomate na geladeira, cortará duas fatias pequenas e as colocará nas extremidades do pão, nunca no meio. O copo de leite com chocolate amargo em pó será o complemento líquido de sua refeição noturna e solitária, degustada na frente da televisão.

    Costuma passear pelo bairro à noite, depois que assiste ao jornal de notícias. Não se olha no espelho antes de sair. Também não leva guarda-chuva, mesmo que esteja chovendo. Prefere se esgueirar pelas marquises das lojas e supermercados e até se molhar um pouco, se não houver outro jeito. Anda com as mãos nos bolsos, os passos ritmados, uma sombra com olhos de carcará que tudo vê e pouco é visto. Respeita os faróis e nunca atravessa fora da faixa de pedestres. Se decidir parar para tomar um café, ficará em pé na extremidade do balcão, de onde poderá observar, em silêncio, o movimento das pessoas; verá, por exemplo, quem passa por ele para ir ao banheiro sem se importar com sua presença.

    Trabalha vendendo seguro de vida de porta em porta, e não se incomoda nem um pouco quando lhe respondem secamente “Não me interessa” ou se apenas o espiam por trás da cortina e nem se dão ao trabalho de abrir a porta. Silas Arruda, o corretor, está acostumado com isso e não leva essas grosserias em consideração.

    Andando pelas ruas para fazer o seu trabalho, escolhe aleatoriamente a casa do próximo cliente. O instinto o guia e raramente o engana. Na maleta de mão, além de formulários e outros documentos, carrega sempre uma garrafa de vinho, porque lhe apraz comemorar com uma taça o fechamento de um negócio. Toca a campainha e espera. Hoje quem abre a porta e o atende com surpreendente gentileza é a Dona Jurema, viúva que mora sozinha. Silas põe os pés na sala e olha em volta. Enquanto a dona da casa lhe serve um café, avalia em pensamento, e por antecipação, o quão fácil será tudo.

    Antes de sair tem o cuidado de verificar se a sala continua do mesmo jeito, com tudo em seu lugar, e se o corpo está bem acomodado no sofá. Fecha a porta da frente e caminha devagar até o ponto de ônibus. Sobe no coletivo, senta-se no banco dos fundos e solta o nó da gravata. Pela janela, observa em silêncio as pessoas que andam apressadas pela calçada.

  • Carmen, a faxineira prática

    Os familiares da morta explicam que querem a casa limpa o mais breve possível, já há um comprador interessado. O imóvel precisa virar dinheiro logo e ser dividido entre eles. Perguntam a Carmen se não tem medo de entrar sozinha na residência de uma defunta. Ela responde que deixou o medo lá na terra dela, depois da chacina que matou seu pai e seus irmãos. Que necessita trabalhar, que trabalha desde criança e que não escolhe serviço. Que gente morta não faz mal a ninguém, só gente viva. Que faxina é faxina, não tem segredo nenhum, é só deixar limpo o que está sujo e pronto. Que pede a Deus para nunca lhe faltar trabalho, seja em casa de vivo ou de morto, tanto faz. Que, brinca ela, um leproso nunca reclama de uma ou duas feridas a mais num corpo todo cheio de chagas. Carmen não se mostra disposta a alongar a conversa fiada e trata logo de combinar dia, horário e pagamento para fazer o trabalho. Informa que levará o próprio material de limpeza. Dizem para voltar no dia seguinte, às dez horas.

    Carmen gira na fechadura a chave que lhe deram, empurra a porta de madeira escura e olha o ambiente por alguns segundos. Casa pequena, em dois palitos eu limpo isso aqui e recebo o pagamento, ela calcula. O silêncio lhe agrada. Morte recente, parece que ninguém da família mexeu em nada ainda. Devem ter medo de entrar aqui, pensa a faxineira. É a primeira vez que limpa casa de defunto. Isso é bom, avalia Carmen, não vai ter patroa enxerida e de mau humor vigiando o serviço nem espreitando se a gente rouba alguma coisa. Fecha a porta com o calcanhar. Veste o avental, prende os cabelos, coloca as luvas de borracha e começa a faxina pelo banheiro.

    A falecida deixou meio rolo de papel higiênico no suporte e um tubo de pasta de dente quase cheio em cima da pia. Carmen pega os dois e os guarda no bolso do avental. Os tempos não estão para se ter nojo de nada e ninguém vai notar a falta. Esfrega o vaso sanitário e a banheira com limpa-manchas abrasivo e depois aplica desinfetante perfumado. Passa pano no chão, que brilha. Fecha a porta e vai para outro cômodo.

    Na cozinha, encontra um saca-rolhas e uma garrafa de vinho pela metade sobre a mesa. Põe o saca-rolhas no bolso. Essas coisas custam barato no mercadinho, Carmen avalia, mas se não precisar pagar por elas, tanto melhor. Cheira a boca da garrafa e faz careta: O vinho azedou, que merda! Joga a bebida fora e lava a garrafa. Esfrega tudo com detergente antigordura. Enxuga a pia, recolhe o lixo, limpa o piso e sai.

    Na sala quase sem móveis, Carmen olha para a cortina listrada de tecido grosso. Decide levá-la, deve servir para alguma coisa. Sobe num banquinho para tirá-la do varão, sacode a poeira e a dobra. Pode virar uma toalha de mesa ou uma colcha de cama. Se alguém perguntar, ela dirá que não havia nenhuma cortina na janela. Na pressa de vender a casa ninguém vai reparar nesse detalhe.

    Por último, o quarto da falecida. Carmen encontra uma bonequinha de pano jogada no chão. Guarda-a no bolso do avental, porcarias assim sempre têm alguma utilidade. Decepciona-se ao ver a cama sem lençol e sem colcha. Avalia o colchão: pesado e grande demais, não teria como levar, a família daria pela falta. Suspira e se conforma. Vasculha as gavetas da cômoda à procura do que mais interessa: as pílulas. Essas mulheres remediadas são loucas por remedinhos tarja preta pra dormir, pra acordar, pra ficar alegre, pra ter energia, pra relaxar. Tomam remédio pra tudo, onde será que estão escondidos? Não tem nada aqui, vai ver algum parente já pegou, que azar! Passa o aspirador no piso e um pano com lustra-móveis nas portas do guarda-roupa. Ouve um ruído parecido com um gato arranhando a madeira, vindo de dentro do armário. Abre a porta. Uma menina de presumíveis três anos está encolhida e parece assustada. Carmen olha a criança e tem vontade de pegá-la no colo. Antes, porém, faz cálculos: é bonitinha e parece saudável, mas cuidar dela vai custar um bocado de dinheiro, além do tempo necessário até crescer, criar corpo e conseguir trabalhar. Não valia a pena. Empurra a menina de volta para o fundo do armário e fecha a porta. Termina de tirar o pó e limpar o chão do quarto. Dá a faxina por encerrada e sai para devolver a chave e receber o pagamento.

  • Silenciosa

    Toda noite uma mulher atravessa minha casa por dentro. Passa pela sala, alcança o corredor e sai pelo terraço dos fundos. Pede desculpas assim que me vê, diz que este é o seu caminho até o trabalho e que não conhece nenhum outro. Com o tempo me acostumei com sua presença. Ela é linda, e nem em sonho vi mulher igual. Espero-a todas as noites, e todas as noites ela vem. Algumas vezes cheguei a pedir que fizesse uma pausa e gastasse uns minutos comigo. Poderíamos beber algo juntos, rir sem preocupação, esquecer o mundo um pouco. Ela nunca aceitou.

    Hoje resolvi fazer-lhe uma surpresa. Preparei um jantar caprichado. Arrumei a mesa, acendi velas, arranjei flores. Ela não veio. Nem nessa noite nem nas seguintes. Talvez tenha descoberto um caminho diferente ou foi despedida do trabalho. Ou então retornou, tão silenciosa quanto viera, para o sonho do qual saiu.

  • Os dedos de fogo de Angústias

    Angústias é uma menina com dedos de fogo e por isso é uma menina triste. Tudo o que toca arde. Vive longe do mar, num lugar parecido a um deserto, mas muito frio, com terra avermelhada como tingida de sangue. Pouco chove ali e, quando isso acontece, a terra se transforma num espelho e lança brilhos que chegam às nuvens. Só em ocasiões assim Angústias fica feliz, chora de alegria e passa horas admirando as poças d’água, tocando-as com a ponta dos dedos que, assim, ficam livres do fogo por algum tempo. Angústias é uma menina sem amigos.

    Agora é inverno onde Angústias mora e o frio tem sido impiedoso. As aves e os roedores foram embora em busca de paragens mais quentes. A menina sofre com o vento e o ar gelado, que lhe trincam os dentes, mas sai de casa mesmo assim, ao menor sinal dos primeiros e débeis raios de sol. Sai para admirar os montes esbranquiçados de geada e orvalho, as lágrimas que pendem do olho verde das folhas, a manada de búfalos correndo com elegância e fúria pelo descampado. É dessa forma que ameniza a tristeza que traz na testa franzida e no olhar que busca lonjuras. Mas hoje os búfalos não apareceram, e Angústias se fechou em melancolia profunda. Ficou sem sua pequena alegria. Teria gostado de escutar de novo o barulho do galope dos animais enormes tremendo na sola de seus pés e em seu coração, como se todo o seu corpo galopasse junto. Para a menina, os búfalos são força e poder, nada fica em pé na frente deles, ninguém consegue domá-los ou prendê-los. São bichos valentes, corajosos, truculentos, destemidos. Angústias queria um dia ser como eles.

    Mesmo sem querer, Angústias provoca fogo no que está ao seu redor. Por isso não pode fazer tarefas corriqueiras como colher uma flor ou ler um livro sem destruir o objeto sobre o qual se debruça. Não pode fazer nada sem luvas corta-fogo. Se não usá-las, tem que molhar os dedos o tempo todo. Até se vestir é arriscado, mas com as mãos protegidas, evita incendiar o vestido.

    Em sua cama de pedra, Angústias costuma sonhar com pássaros de grande envergadura, sobre os quais, agarrada ao pescoço delgado e duro, pode subir e subir e subir mais alto, planando sobre o descampado até chegar ao mar imenso. E essa imensidão líquida a acolhe e a abraça como faria uma mãe. É quando ela sente que nada mais pode representar perigo, nem mesmo a terra avermelhada do deserto, onde as florestas e bosques estão em risco permanente com sua presença. No sonho, Angústias está carregadinha de mar, as mãos ensopadas, e as árvores e toda a vegetação estão a salvo de seu toque: não arderão, não crepitarão como antes, quando bastava um leve roçar de seus dedos no tronco, nas ramas, nas folhas, nas flores, no sumo, e tudo virava labareda e, depois, cinza.

    É um sonho recorrente esse, que traz um pouco de felicidade ao rosto de Angústias. Quando acorda, percebe que as coisas não mudaram e seus dedos continuam quentes, faiscantes, capazes de provocar tragédias. Ainda assim, fica quieta e pensa nos búfalos. Todo dia espera vê-los em corrida destrambelhada pelo campo, só parando quando sentirem fome; então se aquietarão e comerão o almoço já servido ali mesmo, ao pé deles. A grama que pisotearam com fúria minutos antes é agora a sua refeição.

    Enquanto eles não vêm, a ela, Angústias, só resta passar as horas e brincar perto do rio que circunda a cidade (a cidade que mais parece um deserto): ali não há perigo de incendiar tudo e transformar um povoado inteiro num terreno devastado, cheio de fumaça e cheirando a queimado, como uma grande fogueira que lentamente perdesse labaredas, faíscas e brilhos e, no fim, se apagasse.

    Angústias já nasceu com as ilusões mortas. Sabe que não é como as outras meninas de sua idade. É perigosa. Desde cedo intuiu que era preciso ter coração de ferro para suportar o inferno, ou não ter coração. Enquanto houver água por perto, porém, ela ficará tranquila e seus dedos não causarão mal a nada nem a ninguém.

  • Rosa, verde e rosa

    Rosa. Apenas Rosa. Nascida e criada na Estação Primeira de Mangueira. Primeira estação do trem e do seu coração.

    Rosa ganhou esse nome por duas paixões do seu pai. O samba de Cartola e a Mangueira. Rosa nasceu em 1980, ano em que Cartola morreu e seu pai resolveu lhe prestar essa homenagem. Ele assobiava “As rosas não falam”, quando se lembrava da mulher, que havia lhe abandonado alguns anos após Rosa ter nascido. Dizem que sua mãe era uma mulher linda, sorridente, mas não tinha nascido para ser mãe. Depois de ter parido Rosa, ela estava sempre triste, pelos cantos, como se não gostasse mais de viver.

    Seu Reynaldo tentava de tudo. Fez até um canteiro de rosas para ela, inspirado por Cartola. Dizem que a letra de “As Rosa não falam” foi quase totalmente composta quando Cartola levou à Dona Zica, sua esposa, umas mudas de rosas que plantou no jardim. Dias depois, ao abrir a porta pela manhã, ela percebeu que muitos botões haviam desabrochado e ficou deslumbrada com tanta beleza e quantidade. Chamou seu amado e perguntou:

    – Cartola, venha aqui! Venha ver o jardim! Por que é que nasceu tanta rosa?

    E o sábio respondeu:

    – Não sei, Zica. As rosas não falam!

    Mas a mãe de Rosa parecia imune a qualquer beleza. Nada mais lhe interessava, lhe fazia sorrir, lhe animava. Sua última lembrança da mãe foi no desfile que consagrou a Mangueira, em 1984, na inauguração do Sambódromo. Quem puxava o samba era um tal Jamelão – puxava não, porque ele não gostava de ser chamado de puxador – um senhor mal-humorado com a voz de trovão, que assustou Rosa quando ela passou ao lado do carro de som. Ele parecia estar sempre bravo e a menina se agarrou ao pai com cara de choro, enquanto sua mãe se misturava ao mar verde e rosa da ala das passistas. Depois disso, ela nunca mais a viu. Nesse ano, aconteceu um dos feitos mais marcantes da história da escola: Depois de desfilar, a escola retornou pela Sapucaí, sendo aclamada pelo público. A comunidade toda ficou em festa, mas seu Reynaldo não conseguiu comemorar. Procurava sua amada em todos os cantos, parecia um louco a procura do nada. Só encontrava o vazio e se enfurecia gritando por ela.

    Mas será que alguém tinha perguntado para a sua mãe se era isso que ela queria? Mulher negra da favela, casou-se com o seu primeiro homem para sair de casa e da fúria do pai. Queria pôr fim ao ciclo de humilhação e violência que vivia com a mãe, que tinha um filho atrás do outro pelo simples motivo de que não apanhava enquanto estava grávida. Se tornou uma mulher fria, sem brilho. Paria como um bicho e fazia de tudo para engravidar novamente. O marido se gabava, enquanto ela só queria sobreviver.

    Nair era o contrário. Seu sorriso cativava a todos, seu brilho era natural. Mas precisava ser livre, desfilar, cantar seu amor pela vida. O casamento com Reynaldo ia muito bem até a notícia da gravidez. Apaixonados, nunca pensaram em evitar. Muito pelo contrário, Reynaldo sempre dissera que queria ter muitos filhos, um para cada ala da sua escola. Mas sua amada começou a se sentir como a mãe, presa pelo ventre, amarrada pela obrigação. Não falava sobre o bebê, não queria saber de pensar em nomes, não se importava se seria menino ou menina. Tinha pesadelos constantes e, por mais que Reynaldo lhe acalmasse e jamais tivera coragem de lhe erguer a mão, a barriga crescendo era muito mais um fardo do que um acalanto.

    Nesse dia em que ela sumiu na multidão, fazia 3 anos que ela não saia de casa. Depois de muita conversa de amigos e parentes, ela resolveu voltar para a sua escola. Seu Reynaldo imaginava que ela só precisava voltar a sorrir, voltar a brilhar. Como se todos os seus fantasmas fossem desaparecer na magia verde e rosa do Carnaval. Ela se aprontou com esmero especial. Vestiu-se como se fosse a última vez. Se despediu do marido e da filha com lágrimas nos olhos. Acharam que era a emoção. Mas era um adeus.

    Depois que a mãe de Rosa foi embora, Seu Reynaldo a criou do jeito que pode. Pedindo ajuda para a mãe e as irmãs que se revezavam enquanto ele trabalhava, fazendo bicos pela comunidade de pintor, eletricista e o que mais precisassem. Rosa cresceu cercada de amor, mas a falta da mãe parecia uma chaga aberta, um afago que nada conseguia substituir.

    Rosa foi se tornando uma bela moça e fazia vista pelas ladeiras da Mangueira. Mas enquanto todas as suas amigas sonhavam em desfilar na escola do coração, Rosa queria escrever o samba enredo. Queria cantar sua tristeza, colocar para fora a falta da mãe, as aflições do pai, o abraço que não encontrava parceria, o choro que só encontrava eco.

    Fazia versos como quem ama. Como quem padece. Mas não mostrava para ninguém, sabia que não tinha lugar no meio dos adultos, nem dos homens. Se deslumbrava quando seu pai entoava os clássicos da escola, imaginava novas rimas, corria para anotar suas ideias em um bloquinho cor de rosa estrategicamente guardado sob o seu travesseiro. Se escondia no barracão enquanto os homens bebiam e batucavam na mesa imaginando novas canções.

    Nas festas de família, todos gostavam de mostrar os seus talentos. Sua tia Ana cantava enquanto seu primo José tocava violão. A alegria era enredo fácil e as reuniões de família iam até o dia amanhecer. Era aí que o morro ficava mais bonito, com os tons de rosa inundando os becos e iluminando os corações.

    “Mangueira, teu cenário é uma beleza. Que a natureza criou…”

    Seu primo José era parte importante na vida de Rosa. Como um irmão mais velho, era ele quem a defendia dos outros meninos, fazia às vezes papel de pai quando seu Reynaldo viajava para fazer serviços em outras cidades e lhe dava sempre bons conselhos. Era mesmo um bom primo. Um dia, ao voltar da escola, deu de cara com ele deitado na sua cama com o bloquinho cor de rosa na mão. Ela deu um pulo e o arrancou da mão dele:

    O que você está fazendo aqui?

    Minha mãe mandou dar uma olhada em você, parece que seu pai vai voltar tarde. O que você escreve nesse caderno?

    Não interessa!

    Interessa sim. É lindo!

    Você acha mesmo?

    Acho sim. Para quem você escreve isso?

    Antes que José imaginasse que ela estava apaixonada por alguém, Rosa tratou de inventar algo. Ela não queria dizer da saudade da mãe, da tristeza do pai, mas também não queria fazer papel de boba dizendo que queria ser compositora de samba. Seu primo ia rir da sua cara.

    Fala, Rosa. Já sei, você está apaixonada!

    Claro que não! Só…escrevo.

    Pois eu acho que tem poesia aqui. Posso copiar algumas coisas? Vou hoje no barracão e acho que dá para fazer um samba.

    Os olhos de Rosa se iluminaram.

    Fazer um samba com as minhas letras?

    Claro. Mas, olha só. Melhor eu dizer que é meu. Você sabe, os coroas não iam aceitar uma menina na roda de samba.

    Pode fazer o que quiser. Será que eles vão gostar?

    Só podemos tentar.

    À noite, José foi se encontrar com os outros compositores já com um samba na ponta da língua.

    Vocês precisam escutar isso!

    E José foi, pouco a pouco, emendando frases, batucando aqui e acolá, falando mansinho…E as palavras foram se tornaram música e ganhando som. Seus companheiros de roda, já munidos com seus instrumentos, foram dedilhando acordes e cobrindo o silêncio. Era uma melodia triste, como todo samba deve ser.

    Rapaz, ou você está muito apaixonado ou sofrendo muito. O que, no fim, dá na mesma!

    Todos riram enquanto José não se aguentava:

    Gostaram mesmo?

    Falta um arranjo melhor, mas tem cheiro de sucesso!

    Rosa não tinha conseguido dormir. A todo momento esperava o retorno do primo que havia prometido lhe falar sobre o que acontecera no barracão. O pai, seu Reynaldo, abriu a porta da frente, cansado de mais um dia de labuta e Rosa estava lá de pé, achando que fosse José.

    O que você faz acordada, Rosa? Seu primo não lhe avisou que eu iria demorar?

    Sim, papai, mas não conseguia dormir. Estava preocupada com o senhor.

    Isso não era de todo mentira, mas Rosa queria mesmo era saber notícias do seu samba. Fingiu um bocejo, abraçou o pai e voltou para o quarto. Espiava a lua longe, se escondendo por nuvens finas que pareciam se desfazer com um sopro. De repente, um barulho na janela. Deu um pulo tão rápido que quase caiu da cama.

    Rosa…tá acordada?

    José, pelo amor de Deus! Como poderia dormir com tanta ansiedade no peito?

    Vou falar rápido para não acordar o seu pai. Eles adoraram a letra, vamos fazer os acordes e a música amanhã. Vai ser um sucesso! Agora vai dormir.

    Dormir? Como Rosa poderia dormir depois de uma notícia como aquela? Ela se revirou na cama até os primeiros raios de sol e não conseguia parar de sorrir e pensar e compor até na hora de fazer o café até chegar na escola e ainda depois. Tinha que dar um jeito de ir até o barracão naquela noite para ouvir – imaginem só! – o seu samba ser tocado, apreciado e amado pelos melhores músicos da escola. Tinha a sorte de ser sexta feira e não ter escola no dia seguinte. Seria mais fácil convencer o pai.

    O dia passou devagar, a tarde chegou preguiçosa e quando os últimos raios de sol inundaram o morro e todo o rosa que fazia a tristeza ir embora se dissipou, Rosa já estava pronta e faceira na espera do pai chegar para pedir autorização para ir ao barracão. Sorte das sortes, seu Reynaldo chegou cedo naquele dia e muito bem humorado, o que era novidade.

    Pai, que bom que chegou cedo. Preciso lhe pedir uma coisa.

    Onde você está pensando em ir tão arrumada assim? Não me diga que está namorando!

    Claro que não, pai! Só quero ir no barracão ver o meu primo tocar um samba novo.

    José voltou a compor? Essa eu quero ver. Podemos ir, mas tem certeza que não tem namorado por aí?

    Juro, papai!

    Esse comportamento da filha, ao mesmo tempo que deixava seu Reynaldo aliviado, também o deixava pensativo. Será que a menina tinha medo do amor?

    Os dois chegaram cedo no barracão e os músicos ia aparecendo aos poucos, vindos do trabalho, alguns ainda famintos, pois a vontade de chegar logo no local do samba era maior do que a de jantar em casa. Todos tinham um trabalho formal, pois viver de samba ainda não dava dinheiro. Mas eram tão apaixonados pelo que faziam, que talvez até se arriscassem.

    Uma figura diferente estava na roda naquele dia. Uma mulher sorridente, forte, com lenço colorido amarrado no cabelo. Seu pai correu para cumprimentá-la:

    Zica, quanta honra ter você aqui!

    Reynaldo, meu amigo…Como você está? E a pequena Rosa?

    Rosa não conseguia acreditar no que via. Era dona Zica, viúva de Cartola. E ainda sabia seu nome!

    De pequena ela não tem mais nada, Zica!

    Rosa foi se aproximando devagar como quem chega no fim de uma peregrinação. Como toda a sua vida se resumisse naquele momento.

    Mmmuiito pprazer, dona Zica. Sou muito sua fã!

    Reynaldo, sua filha já é uma mulher! Estamos ficando velhos! E ela sorriu, enquanto puxava Rosa para perto em um abraço com cheiro de peixe e cebola.

    Vieram para o meu vatapá? Ela era famosa pelo prato.

    Nem sabia, mas viemos também pelo samba novo do José.

    Samba novo? Essa eu quero ver.

    E no meio do preparativo para o vatapá, o barulho das latinhas de cerveja abrindo e os instrumentos se afinando, chegou José. Muito bem arrumado, penteado e perfumando, como um mestre sala à espera da sua porta bandeira.

    Caprichou, hein?

    Todos os homens fizeram questão de brincar com a aparência de José, pois era o único que havia tido o cuidado de ir em casa antes de chegar no barracão.

    Só pode estar mesmo apaixonado!

    Mas a farra durou pouco. Eles queriam era escutar o samba. Até Dona Zica saiu da cozinha e pediu para outra pessoa ficar de olho no vatapá. Rosa se sentou perto do primo, que com um aceno carinhoso, a chamou para mais perto.

    A música falava de perda, de amor, mas também de esperança. Rimava a vida com alegria e Rosa a cantava baixinho, com aquela segurança de compositora. Seu Reynaldo tentava segurar as lágrimas, pois não conseguia parar de pensar na sua amada Nair. O “Jorge da Cuíca” fingia tirar um cílio do olho esquerdo que teimava em não cair. Seu Jair, no violão, viu uma lágrima descer pelas cordas e quase desafinou. Na verdade, todos os homens tentavam segurar alguma emoção escondida – homem não chora, afinal – mas Dona Zica estava atenta aos lábios de Rosa. Ela cantou a música toda transbordando de sentimentos. Quando a última nota entoou e todos aplaudiram José, Dona Zica perguntou?

    Quem fez essa letra linda?

    Fui eu, Dona Zica. – Respondeu, cheio de orgulho, José.

    E Rosa?

    A menina, que estava ainda celebrando em silêncio o seu sucesso, foi tirada daquele torpor pelo seu nome dito daquela maneira tão certa.

    O que eu fiz, Dona Zica?

    Eu que te pergunto. O que você fez? Esse samba?

    Todos se entreolharam como se aquilo fosse uma brincadeira. Seu Reynaldo, quase envergonhado, correu para intervir.

    Imagina Dona Zica. Rosa é uma criança, onde ia arrumar imaginação para isso?

    Rosa continuava calada, sem saber onde era o seu lugar naquela situação. Mas José, consciente do talento da prima, disse:

    Foi Rosa que escreveu sim, Dona Zica. Eu só dei uma ajeitada, meus parceiros fizeram a melodia, musicamos… Mas a letra é de Rosa.

    Seu Reynaldo não sabia se abraçava a filha ou a colocava de castigo, Quanta ousadia escrever aquele samba. Mas quanta tristeza também na vida dessa menina, meu Deus!

    Os outros sambistas também não sabiam como lidar com aquela menina que, de repente, se mostrava uma grande compositora. A filha do Reynaldo, quem diria! Mas ainda era uma menina, no fim das contas.

    Parabéns Rosa. Você foi aprovada no mundo do samba! – Disse Dona Zica como para dar um fim àquela confusão de valores – É isso o que você que fazer?

    É sim, Dona Zica.

    Então tem a minha benção e de todos aqui. Concorda Reynaldo?

    Mas é claro que sim. Se é isso o que ela quer!

    Ninguém iria discordar de Dona Zica e nem mesmo José ficou chateado por ter a prima alçada quase ao estrelato do samba em uma noite. Ficou feliz em não precisar mentir mais e prometeu ajudar Rosa nas próximas composições.

    Sempre falta alguma coisa, né?

    Rosa sorriu como estivesse em um sonho. Mal sentia o seu corpo, parecia levitar por entre todos. A música recomeçou e Dona Zica pediu a vez. Queria homenagear Rosa, com o seu segundo intérprete favorito.

    Que Cartola não me ouça, onde ele estiver. Mas eu sempre fui apaixonada pelo Orlando Silva! – Todos riram e ela entoou:

    Tu és divina e graciosa
    Estátua majestosa
    Do amor, por Deus esculturada
    E formada com ardor.


    Da alma da mais linda flor
    De mais ativo olor
    Que na vida é preferida
    Pelo beija-flor.


    Se Deus me fora tão clemente
    Aqui neste ambiente
    De luz, formada numa tela
    Deslumbrante e bela…

  • Quando o nosso nome estiver gravado na pedra

    Até os dez anos me chamei Donato, embora meus pais nunca tivessem gostado desse nome. Por que me batizaram assim é um mistério. “Não está com o rosto definido ainda”, diziam. “Quando for adulto e sua cara indicar que nome deve ter, mudaremos.” E assim foi. Aos doze, com a mudança de voz, decidiram que Donato já não combinava comigo, e que o melhor nome para meu rosto recém-estreado na adolescência seria Adalberto — Beto para os amigos. Esse nome durou até a noite de núpcias, quando, no momento crucial, minha mulher me chamou de César. “Céeeesar!”, gritou ela, antes de largar o corpo na cama, suada e satisfeita. “Ela se casou com o Beto e tirou a virgindade do César”, meus amigos faziam sempre a mesma piada.

    Desde então mudei de nome em outras três ocasiões: no escritório em que fui trabalhar eu me sentia Oswaldo, e assim me apresentava a todos; na faculdade, Péricles; na mesa de jogo, antes de bater o punho e gritar “Truco!”, Evanildo.

    Meus amigos se confundiam. Para facilitar a vida deles, aceitei que colocassem no meu pescoço uma tabuleta com o nome que eu usava no momento e, mesmo assim, ficavam pouco à vontade quando tinham de me chamar. Achavam essa mudança de nome uma bobagem. “A gente nasce, ganha um nome e fica com ele até o fim, até morrer, não é esse o normal?”, perguntavam sempre. Eu respondia que eles tiveram sorte, que o rosto deles se moldou ao nome que ganharam no batismo e não havia necessidade de mudar. Não era o meu caso, meu rosto não era sempre o mesmo e, por isso, o meu nome precisava se adequar. Para tranquilizá-los, eu acrescentava que, um dia, seríamos todos iguais, teríamos o mesmo rosto e o mesmo nome gravado na pedra.

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