‘Crônica de domingo 26/04/26

  • Fluxo e pulso das horas

    “A gente jamais esquece o primeiro relógio.”¹

    “ […]

    As últimas datas, descobertas, invenções,
    sociedades, autores antigos e novos,
    Meu jantar, roupas, amigos, olhares, cumprimentos, dívidas,
    A indiferença real ou fantasiosa de um homem
    ou mulher que eu amo,
    A doença de alguém de minha gente ou de mim
    mesmo, ou ato doentio, ou perda ou falta de
    dinheiro, depressões ou exaltações,
    Batalhas, os horrores da guerra fratricida, a febre
    de notícias duvidosas, os terríveis eventos;
    Essas imagens vêm a mim dia e noite, e partem
    de mim outra vez,
    Mas não são o meu verdadeiro Ser

    […]”²

    Diz se lembrar da pulseira plástica preta que não saía do punho direito. Custou a acostumar com o braço corriqueiro — o esquerdo, socialmente aceito como adequado. À época, ambidestra, ficara encantada com o presente de Natal que uma tia trouxera dos Estados Unidos. À prova d’água. Mostrador digital. Luz azul que possibilitava ver as horas no escuro. Alguns botões, que aprendeu a manusear rapidamente. O apetrecho não saía por nada do seu braço direito. Não se recorda por quanto tempo o tomou por fiel escudeiro — mas sim do quanto o usara. Quando deu por si, já crescera e atingira a adolescência. Pareceu-lhe, então, infantil e um tanto unissex demais. Sonhava com um relógio um pouco mais feminino. Ganhou de aniversário um cássio: pulseira prata com detalhes dourados; mostrador de vidro com fundo branco, números metálicos de ouro e ponteiros que brilhavam no escuro. A caixa prata, internamente acolchoada por um tecido imaculadamente acetinado lhe vem instantaneamente à memória. Tornou-se mulher, por fim.

    Lembra-se de todos os seus relógios de pulso. Assumira desde muito miúda a importância em usá-los. Descolado. Adulto. Detentora do mundo: da altura do pulso, controlava as horas. Era a senhora do tempo.

    [— fato curioso é que nenhum de seus progenitores tinha o costume de portar tais acessórios. Sua memória primeira é de um único relógio de parede creme que encimava a entrada da cozinha de sua casa].

    Nunca gostou de dormir. O escorrer das horas perdia velocidade durante as madrugadas. O pai não dormia cedo; parecia elegante não deixá-lo acordado sozinho. Punha-se a ler, escrever, inventar moda. Ter um relógio de pulso atrelava seu ritmo cardíaco ao ritmo do mundo, no mesmo compasso que o seu. Continha todo o mundo no testemunhar dos batimentos e do passar dos segundos, sob a forma de ponteiros ou de números metamorfósicos a partir de sete tracinhos deitados e em pé.

    E então vieram os amores.

    Cartinhas em envelopes, flores, chocolates, bilhetinhos; recados através de amigos, atravessando salas, corredores, intervalos.

    Ligações de orelhão — obstáculos no meio das calçadas — com cartões comprados em bancas de jornal — outros trambolhos no mesmo plano das ruas. A duração das chamadas era breve. Estar ao telefone era coisa planejada. Precisava-se do cartão. Ou saber ligar a cobrar. O conjunto se números que identificavam um telefone fixo de alguém especial, sabia-se de cor. Para os demais, agendas telefônicas, em papel, depois eletrônicas, com botões e visores iluminados. Internet?

    Tentou fazer um paralelo entre seus amados e os devidos relógios de pulso.

    Seu primeiro namorado usava um modelo preto, não se lembra qual o tipo de mostrador. O relógio não foi primordial, e sim a ligação pelo orelhão poucos dias depois do primeiro beijo no cinema. Ligação via orelhão, se desculpando sem pressa por não ter ligado antes e o convite para sua festa de aniversário, no dia seguinte.

    Naquele tempo, festas de aniversário se davam nas salas das casas: bolo e docinhos granulados, salgadinhos e presentes embrulhados com laçarotes e cartõezinhos.

    Lembra-se de ter contado o tempo antes de bater à porta — não a dele, mas a da vizinha, sua amiga, onde se escondeu por alguns minutos, tremendo da cabeça aos pés. Os ponteiros de seu cássio não refletiam seus batimentos cardíacos: o primeiro descompasso que presenciou nas veias.

    O relacionamento durou o tempo em contagem regressiva iniciada pelo primeiro pedaço de bolo, entregue a ela e a mãe dele. A quase sogra a fuzilou com o fundo do coração. Ela debutou seus quinze anos um mês e meio depois; ele foi seu príncipe por essa noite, apenas. Não usou relógio.

    Depois, o primeiro amor, de fato. Relógio de pulseira metálica no punho esquerdo, como tem que ser. Ligações via celular e telefone fixo, SMS, cartinhas, livros de poesia. Ambos entrelaçavam seus braços automatizados pelos palcos de rua da vida.

    Guarda, em uma caixa, tantas recordações: o spray desodorante dele, que já nem se encontra no mercado — o cheiro que ainda lhe vem às narinas; papéis de bala, chiclete, passagens de ônibus, recibos de pedágio. A aliança de compromisso. O primeiro relógio dele, sem bateria e sem pulseira.

    Ele se foi desse mundo. Seu pulsar, também.

    Ela guarda o esqueleto do que um dia testemunhou o passar de seu tempo em uníssono na Terra.

    Depois dele, passou a usar o cássio no pulso esquerdo.

    Depois dele, um outro — homem de horários móveis. Surgiu de um hiato da infância, primeiro em uma rede social incipiente, depois ao seu lado em um assento de ônibus intermunicipal.

    Passaram a se ver em cronômetros engraçados: falavam-se diariamente; depois semanalmente.

    Mensalmente, após certo tempo. Ele tornou-se caixeiro viajante, numa época em que isso já era demodê.

    Não deixou cartas — um único e-mail, que ela decorou por completo. Ali, agora percebe, decorou o coração com as promessas do e-mail e abriu uma fenda na própria vida: abriu mão das cartas para entrar na era digital; abandonou o cássio de ponteiros e comprou um relógio cujo mostrador apagava-se para poupar bateria.

    Poupou o que, para ela, era importante.

    Dali para frente, foi ladeira abaixo com o tempo e as caligrafias.

    Casou-se com um tipo que portava relógios, mas não pelas horas. Era apenas status. O tempo, ali, não pulsava. Divorciou-se.

    Chegou a reconfigurar seus batimentos com os ponteiros do caixeiro, que deixara de ser viajante e assumira um relógio de pulso, herança de família. O tempo mostrou-se insustentável.

    Hoje, entre redes sociais, agendas repletas de tudo e nada, trabalho que se sobrepõe à vida social real, usa um smartwatch, como deve ser, no punho esquerdo. Pode escolher mostradores com ponteiros, números digitais, fusos horários — e o cacete a quatro.

    Criou um bloqueio com ponteiros. Leva segundos para responder, para si mesma e para quem lhe pergunta as horas, o tempo real daquelas agitadas três espadinhas inquietas. Do mesmo modo que se perde entre direita e esquerda se não move discretamente a mão com que escreve, pois perdeu a habilidade de escrever com ambas.

    Também mandou para as cucuias seus amores.

    Ainda assim, sonha com alguém que faça o tempo desacelerar. Como se ponteiros voltassem a fazer sentido. Como se direita e esquerda deixassem de ser um bicho de sete cabeças, mesmo que com sete pauzinhos dançantes formadores de todas as horas. O relógio — agora inteligente — não se vincula mais aos batimentos , embora literalmente os meça. Ela tira o relógio à prova d’água para entrar no mar.

    Continua senhora do próprio tempo. Nunca mais escreveu ou recebeu cartas.

    Passou a conter as multidões nos pulsos. Os batimentos que o relógio mede

    Tum tum
    Tum
    | dois
    Tum | três
    […]

    As mensagens que chegam
    [“Você tem novas notificações de mensagens”]

    , os ponteiros e os metamorfósicos números malabaristas de sete traços passaram a segundo plano; as cartinhas passaram a um plano outro, qualquer.

    Ainda assim, jamais esqueceu seus primeiros relógios.

    Na lembrança – ou no objeto, em si – tudo parece mais nosso:

    Mais palpável.
    Mais pulso.
    Mais real…

    Menos ‘digi-`
    Menos nomes descompassados pela metad.
    Menos fulano-de ‘-tal’.


    Notas de rodapé
    ¹ A outra História, romance da escritora franco-britânica Tatiana de Rosnay, publicado originalmente em francês sob o título Boomerang.
    ² Canção de mim mesmo, (Song of Myself), considerado marco da poesia moderna, escrito por Walt Whitman, publicado pela primeira vez em 1855 como parte da coletânea Leaves of Grass.

  • Match fatal

    Nunca tinha entrado em sites de relacionamento, mas naquela noite decidiu experimentar. O universo digital estava ali, ao alcance de um clique — por que não se aventurar?

    Ouviu dizer que era uma forma infalível de conhecer mulheres disponíveis. Bastava preencher alguns parâmetros, fazer a triagem virtual e pronto: nada de encontros no escuro, indicados por amigos bem-intencionados que terminam em desastre. Pior ainda: depois a pessoa já sabe seu nome, seu telefone e é conhecida de conhecidos… difícil se livrar.

    Escolhido o site, passou ao checklist da mulher ideal:

    • Idade: 25 a 35 — jovem, claro.
    • Magra, bonita, cuida do corpo — o visual é essencial.
    • Exercícios pelo menos 3x por semana: musculação, pilates, bike, corrida — alguém que acompanhe seu ritmo.
    • Superior completo, pós desejável — pelo menos um mínimo de cultura.
    • Português perfeito, inglês ou outra língua — viajar sem virar tradutor.
    • Profissão com cargo gerencial ou acima — mulher independente, bem-sucedida.
    • Hobbies: leitura, viagens, culinária, dança, cinema, teatro, música — parceira para todas as horas.
    • Procurando relacionamento sério, mas sem compromisso — casar, nem pensar.

    Confiante, clicou em “salvar”. A sorte estava lançada.

    Likes e mensagens começaram a aparecer rápido, acompanhados de fotos promissoras. Empolgado, abriu a primeira. Choque: preenchia quatro dos sete requisitos, mas escrevia com erros de português, curtia funk e vivia da renda de aposentadoria do pai falecido. Nada contra — mas não era o perfil. Descartada.

    A segunda parecia perfeita no papel, mas pela foto não fazia exercício há anos, estava bem acima do peso e queria apenas uma transa. Fora. A terceira, impecável no checklist. Só que buscava um homem de até 40, malhado, baladeiro. E ainda fumava. Nem pensar.

    Assim seguiu, descartando uma a uma. Até que parou para refletir: será que o problema era o algoritmo ou o próprio perfil que ele montara? Releu os requisitos com atenção.

    Tudo parecia essencial… ou será que não?

    Depois de muito pensar, aceitou flexibilizar um ponto: a idade. Alterou de 25–35 para 40–50 anos. E esperou.

    Logo surgiram várias opções. Uma delas, segundo o site, com 100% de afinidade. Ansioso, clicou para abrir.

    E qual não foi sua surpresa: cara a cara com a ex.

  • COMPULSÃO

    Elisa sempre quis ser advogada. Formou-se bacharel em Direito e exerceu a atividade jurídica durante quatro anos numa firma de advocacia, especializada em Direito Familiar. Após a graduação, passou em concurso público para ocupar o cargo de Juíza Substituta. Começou a atuar ao lado de um Juiz Titular, para adquirir experiência. Depois de cinco anos, foi promovida a Juíza de Direito.

    No seu fazer cotidiano, lidava com divórcios amargos, disputa por guarda de filhos e acusações de violência doméstica. Era obrigada a conviver com decisões sobre pensões alimentícias, investigações de paternidade e partilha de bens. Aos poucos foi se sentindo exaurida e descrente no ser humano.

    Nunca se soube se por estresse natural do ofício, por concentração excessiva no trabalho ou mesmo por sua natureza, desenvolveu um transtorno mental crônico: o desejo irresistível e irracional de furtar coisas. Em geral, objetos desnecessários e de preferência com baixo valor comercial. Estava cada vez mais complicado controlar seus impulsos. Eram estojos de anzóis, sem que ela tivesse a mínima intenção de sair para pescar; bolas de tênis sem nunca ter segurado uma raquete; mamadeiras e brinquedos de criança, sem que pudesse engravidar ou pensasse em adoção. Enfim, uma obsessão descabida. Ainda mais para uma Juíza de Direito de uma Vara de Família. E isso a estava deixando, com razão, preocupada.

    Durante as audiências, via os rostos dos réus e dos advogados com seus olhares acusadores, como se soubessem de sua mania de furtos ocasionais. Vieram a seguir os constantes pesadelos, sendo flagrada, julgada e sentenciada como uma ladra contumaz. Sua foto nos jornais e na tevê. Escândalo.

    Aquilo precisava ter um fim. Sabia que seu problema tinha cura com medicamentos e psicoterapia, mas a vergonha era maior. Como imaginar uma Senhora Juíza de Direito reles gatuna. Teria de se livrar daquele infortúnio sozinha e do seu jeito. Na marra.

    Os esforços foram inúteis. Numa loja de souvenirs pegou um daqueles modelos da estátua do Cristo Redentor para turistas e colocou na bolsa. Surpreendida pela funcionária da loja, disse que havia se esquecido de ir ao caixa pagar.

    Na semana seguinte, saía de um restaurante sem pagar a conta. O garçom a conhecia e não ousou ir atrás. Na certa, a Juíza tinha se esquecido e voltaria. Elisa não retornou.

    Os atos compulsivos cada vez mais frequentes. Era forçada a admitir que a cada pequeno roubo sentia um grande alívio emocional.

    A Excelentíssima Juíza sofria e não enxergava uma saída.

    Durante uma sessão, deu a guarda de uma menina de oito anos a um pai suspeito de ser abusivo, somente por que a mãe usava a menina para efetuar pequenos roubos. Como uma autopunição. Os colegas começaram a notar que Elisa aparentava oscilações de humor e parecia distante. Eram evidentes seu cansaço e falta de motivação.

    Elisa decidiu procurar um clínico geral e ouviu dele que talvez estivesse padecendo de síndrome do esgotamento profissional. Burn out. De resto, a saúde ia bem. Receitou-lhe comprimidos para reduzir a compulsão e que tirasse uma licença para descansar.

    Elisa resolveu viajar. Sair do país, esquecer seu trabalho, as responsabilidades, dar uma escapada desse mundo. Não iria mais se policiar. Chega de cobranças, basta de comportamentos repressores. Soltar a franga.

    Decidida, Elisa entrou num shopping para comprar uma mala nova para a viagem. Depois de procurar, pegou uma Sansonite vermelha, último lançamento, uma belezura. Com toda a classe de Juíza, saiu sem pagar com calma e elegância, como se aquela mala de rodinha naturalmente já lhe pertencesse. Segundo o Artigo 331 do Código Penal Brasileiro, daria ordem de prisão a quem a acusasse de qualquer delito típico caso de desacato à autoridade. A Excelentíssima Juíza Elisa tinha pensado bem e decidido: perderia de vez o juízo.

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