CRÔNICA DE FERNANDO NEVES

  • Tristeza enrolada em lamento

    A conversa, afinal, foi breve. Ela chegou, falou, escutou, falou de novo, despediu-se e foi embora. Ficou ele ali, diante daquela inútil e maravilhosa paisagem, a belíssima curva da praia de Copacabana. O mar batendo mansamente na areia da praia e nas pedras abaixo dele e mais nada. Em silêncio, ali na mesa, agora sozinho, rememorou a conversa.

    Não havia mesmo mais alternativa para eles. “Nós” acabou. Eles quis ser presença no lugar de lembrança. Mas ela não deixou. Preferiu diferente. Ele escutou calado que sempre estaria em sua memória com muito afeto.

    Doeu. Mas ele manteve-se calmo apesar de tudo. Não se briga com quem pensa em nós com afeto mesmo que isso não nos baste. Procurar motivos para justificar uma ação irada carrega em si o perigo de resvalar em coisas mesquinhas. Maldade com a memória a dois.

    O certo é que ninguém é obrigado a nada além do que possa dar. Nessas horas o querer e o conseguir se submetem ao poder. Não posso mais do que consigo ou quero, foi o que ele entendeu do que ela disse.

    Então era mesmo o fim. Daí em diante, quem sabe? A terra é redonda e as vezes os caminhos se cruzam acidentalmente. Ou não. Quem sabe o que virá?

    Não iria reprimir um sorriso quando a visse. Quem sabe de onde viria esse gesto? Qual impulso fará ele brotar? Qual emoção parada em uma curva da memória? Uma saudade, um momento feliz a dois? Aquela canção sussurrada?

    Mas será só um sorriso, que será difícil de reprimir, e nada além. Sem sonhar, sem imaginar, sem pensar, sem cogitar. Sem nada adiante. Nada mais de expectativas. Nada de “e se…dessa vez…”

    Não. Chega. Basta.

    Mas também sem querer mal. Isso não se faz porque ofende o amor em si. “Sem me vingar que a vingança não tem valor”, ensinam Pixinguinha e Paulo Cesar Pinheiro em “Ingênuo”. No depois, por mais que se faça uma faxina sentimental sempre permanecerá alguma lembrança da pessoa que se foi. Talvez doa, talvez chame um sorriso solitário, até uma lágrima. Quem sabe?

    Não há tempo certo de duração no durante. Para uns se foi no tempo certo, porque nada mais havia a ser dito ou trocado. Para outros caiu cedo demais, porque muito ainda havia a ser vivido a dois, compartilhado e sentido. Para ele quanto tempo terá durado? Não importa porque não há mais, agora é passado.

    Enfim. Se a vontade de um se vai, a determinação do outro fica sem sentido. Perde força. No fim, sempre restará algo. Entre palavras ditas, expressões feitas e memórias vivenciadas, sempre haverá lá no fundo um pouco de tristeza enrolada em lamento.

  • Ah! Se eu pudesse

    Sou um cara que desconhece muito de música. Em particular os novos nomes que têm surgido, seja aqui seja no exterior. Por que? Ah não sei, acho que me dá um pouco de preguiça acompanhar tendências, sabe?

    Por isso para mim foi uma surpresa enorme descobrir que uma cantora, que eu só conhecia de nome, gravou uma bela canção do Roberto Menescal, que eu sei quem é. Ela é a Luisa Sonza.

    O nosso encontro se deu assim. Um dia explorando os meandros da televisão a cabo desci o cursor até “música”. A maior parte do acervo não me interessava mas achei uma aba – acho que o termo serve também – com sucessos do Menescal. Legal da parte da operadora destacar um cara bacana como ele.

    Entrei, cliquei, deixei o som rolar e me virei para tocar uns trabalhos ligados ao doutorado, que não vou contar quais são porque é provável que minha orientadora leia esse texto. Dito isso, lá estava eu lendo e escrevendo, com musica de qualidade ao fundo.

    De repente, não mais que de repente, entra pelos meus ouvidos a agradável canção “Diz que fui por aí”. Estava preparado para escutar Nara Leão quando a voz que veio não era a dela. Fiquei parado um instante tentando reconhecer quem cantava mas sem sucesso. Dei uma espiada e li “Luisa Sonza”.

    Não acreditei. Mas essa moça canta, canta, canta o que mesmo? Bom, canta algumas coisas que eu nunca escutei. Mas hoje, e agora, ela cantava bossa nova.

    E canta bem. Faz aquela vozinha meio rouca, meio baixa, que combina com as letras. Aquela voz de travesseiro, que é novidade para uns mas para outros, como eu, faz abrir sorrisos. Parei o que estava fazendo – por bem pouco tempo, juro!!! – para ver qual seria a canção seguinte. E veio “Ah! Se eu pudesse”.

    Que delícia. Música que agrada aos ouvidos não é só pela qualidade estética dela, que sou incapaz de avaliar porque me faltam conhecimentos. Mas, para mim, pela capacidade de acionar alguma lembrança.

    Lembranças suaves, lembranças boas. Com pessoas do passado, que fiz sorrir e que me fizeram sonhar.

    Dois minutos e trinta e seis segundos de puro enlevo. Ai, acabou. Eu desliguei o som, voltei ao estudo e fiquei com os ecos da voz dela nos meus ouvidos me sugerindo ver o mar “dizendo aquilo tudo quase sem falar”.

    Suspiro e recomendo.

  • Ser surpreendido

    Não tenho vergonha alguma em ser surpreendido. Já superei faz muitos anos aquela necessidade de ter que mostrar que sabia de tudo antes de todos.

    Desprezo a sensação de poder que a clarividência traz.

    A verdade é que adoro não saber das coisas antes que elas aconteçam.

    Toda vez que eu converso com alguém que me diz “eu já sabia” eu me alegro por nada saber antecipadamente. Sou curioso, como todo mundo, mas não perco meu tempo tentando adivinhar.

    Por dever de oficio de escrita sinto prazer em imaginar situações, futuros alternativos, caminhos diferentes. E se ao invés de entrar naquela pizzaria às moscas eu tivesse ido embora para casa? E se ela tivesse jogado fora meu bilhete ao invés de ler o pedacinho de papel, sorrindo com a ousadia? Pois é, esse exercício é legal porque não antecipa algo na sua linha do tempo mas propõe alternativas para o que já passou.

    Voltando.

    Não quero ser adivinho. Não desejo ser blasé ou falar com tom morno e fazer aquele ar superior que acompanha as três palavrinhas “eu já sabia”. Dispenso o pedantismo expresso nessas palavras.

    Antecipar o trivial, o cotidiano é perder a oportunidade de voltar a se portar como criança. Sim, criança mesmo, rindo do novo porque é novo, é inédito. Com aquele riso frouxo carregado de esperança porque a novidade veio para nos alegrar.

    Por isso repudio a soberba dos que olham altaneiramente a vida, com eterno ar de deja vu.

    Quero ser testemunha da estréia.

    Quero participar dos fatos.

    Quero me emocionar com as novidades.

    Quero sorrir ante a surpresa.

    Quero deixar o coração saltar alegre pelo inesperado.

    Quero porque quero nada saber e tudo descobrir.

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