Crônicas Cariocas

  • Poema #03: PRESSÁGIO

    Vê onde há dor,
    vá onde se avista,
    doa o que não se pede,
    perca o que não se dói.

    Foi o que não se via,
    viu o que não se achava,
    trouxe o que não devia,
    deveu o que não se tinha.

    “Terei onde ser um outro,
    verei o que há de novo”,
    tentou ser tudo que tinha
    viveu feito vivo-morto.

    “Saudade é da liberdade”,
    cantava o finado rouco;
    mas tudo o que era livre
    fizera de caso pouco.

    Saudade é da boa turma,
    teimosa que só a rima:
    largava, sentia, ouvia;
    era a vida do bicho solto.

    Onde fora tal maledicência
    que só o tombo levava o rito?
    O tinha o decurso, o todo
    fez da fome o que tinha dito.

    Repetiu o que se lembrava,
    calejava o suor da testa,

    uma vida já percorrida
    se de si esquecida,
    de que resta?

    A turma já como desfeita
    anunciava o discurso às pressas;
    foi o que não era
    e não se via.

    Eis a sutileza:
    Viver é afetar a vida com a espera.

  • Uma História de Pai, Filho, Avô

    Para Matheus, meu filho.
    Para Francisco, seu avô
    .

    Matheus fez trinta, a vida falou sem gritar,
    o corpo avisa, a alma aprende a escutar.
    A dor não pede licença: entra e ensina,
    quem ama, simplifica, ampara e ilumina.

    O tempo é lavrador: ara a gente por dentro.
    Quem aceita o sulco, colhe entendimento.

    Fala, meu filho, que hoje o verbo é ouvir,
    ouvir é cuidar: verdade a seguir.
    Se o fardo pesa, nós dois vamos dividir,
    a coragem é quieta, mas sabe resistir.
    O vô plantou raiz pra eu não me perder,
    agora, contigo, aprendo a renascer.

    Eu, que era resposta antes da pergunta,
    descobri que o amor é a pausa que junta.
    “Pai, respira. Vai no passo que dá.”
    No teu conselho simples, mora o verbo amar.

    O vô dizia: “Filho, firme o pé no chão,
    tradição é mapa, futuro é direção.”

    Tudo passa, menos o que a gente passa adiante,
    mesa posta, fé breve, silêncio constante.
    Três tempos, uma voz: o que foi, o que é, o que vem,
    sertão por dentro, onde a gente se mantém.

    Ouça, filho, o pai está aqui,
    a escuta é a forma mais pura de dizer “estou”.
    Se a vida insiste, a gente insiste em si,
    com o vô na lembrança, o amor que nos guiou.
    Raiz bem funda abraça qualquer vento:
    pai, filho e avô: três nomes do mesmo tempo.

  • Na ponta do lápis

    Na ponta do lápis, o cronista passeia pelo Rio e vê o mar e o barulho do mar. Na ponta do lápis, o cronista espera o sinal abrir para poder atravessar a avenida que corta o Aterro. Os carros são muitos e ligeiros e, ao que parece, ninguém dá muita atenção ao que está à volta. Mas os olhos do cronista buscam ruas, buscam pessoas e as suas mãos deslizam na folha em branco e procuram as cores e o cheiro da cidade.

    Na ponta do lápis, o cronista sente seus passos sobre a calçada. E vê gente de todas as cores e idades e jeitos e trejeitos. Na ponta do lápis, o cronista imagina um céu bem limpo e um sol bem quente. Na ponta do lápis, há mundos e fundos e há urgência. A urgência de escrever sobre a cidade. O Cristo, lá em cima, observa silenciosamente o movimento das coisas e dos seres: barcas, aviões, pessoas e mais pessoas.

    Na ponta do lápis, o cronista pensa que o Rio de Janeiro deveria ser assim o ano inteiro: um dia calmo, com sorrisos e abraços, com cordialidade, com aplausos e afagos. Na ponta do lápis, o cronista pensa ainda que uma mão sempre deveria ajudar outra mão. Levantar um corpo cansado e abatido pelo tempo é tarefa árdua, mas gratificante.

    Entretanto.

    O lápis escorrega da mão e a ponta acaba por se quebrar. Não há mais nada a fazer. O Rio é o que há: dia nervoso, sinal fechado, obras, correria, calor abafado. Olhos amedrontados, vidros fechados.

    O lápis cai ao chão.

    O Cristo, ainda lá em cima, vê pacientemente o caos, o tumulto, o barulho, a confusão, os gritos, acenos desesperados, a multidão.

    O cronista pensa em mudar de profissão. Talvez ser poeta. Ir na contramão. Talvez ser vagabundo. Encontrar um menino e um cão. Fugir da escuridão. Não pode. Não é José, mas não pode fugir. Não pode. Não pode não!

    Mas.

    O lápis volta à mão.

    E o cronista prossegue o seu trabalho de ver e de dizer o dia a dia. E o que diz é importante. O que vê é delirante. Entretanto há outros olhos e um senão: a recriação. O trabalho de inventar a si mesmo.

    Assim, na ponta do lápis, o Rio de Janeiro se faz uma vez mais prosa, verso e canção.

  • Do Gerúndio ao Pão Quentinho

    Hoje passei quase uma hora tentando cancelar uma linha telefônica. No meio da espera interminável, lembrei de uma crônica genial de Paulo Mendes Campos, escrita em 1959: Coisas Abomináveis. Ele listou 60 situações insuportáveis e, pasme, muitas continuam valendo mais de meio século depois.

    A palavra “abominável” já soa quase arqueológica, não acha? Então, decidi atualizar com um termo que me parece mais divertido: Coisas Intragáveis.

    Da lista do cronista, selecionei dez que permanecem firmes no pódio do incômodo: passar pela alfândega; falta d’água em casa; pessoa que fala muito próximo do nosso rosto; criança de nariz escorrendo; mão suada; a penúltima hora de qualquer viagem; sala de espera; declarar imposto de renda; caixa que diz “volte amanhã”; e ser apresentado quatorze vezes à mesma pessoa.

    E, já que entrei no clima, fiz minha própria lista de intragáveis: desconhecido que insiste em contar a vida inteira; dirigir para o endereço antigo no piloto automático; bater a porta e esquecer a chave dentro; alguém pegar o último pedaço de doce; atendente que me chama de “amorzinho”; URA telefônica; o famigerado gerúndio: “vou estar te ligando”; figurinhas dançantes no whatsapp; topada que arranca a unha; e, para fechar, crise de soluços no meio de uma reunião.

    Depois dessa overdose de azedume, me senti meio intragável também. Então fui buscar um antídoto – e achei. Em 1962, o cronista escreveu Coisas Deleitáveis, e suspirei aliviada. Tudo bem que tive que dar um toque mais atual ao termo – optei por Coisas Degustáveis. Escolhi dez para me inspirar: dormir cansada; aroma de madeira; rasgar papéis inúteis; vento da montanha; pão saindo do forno; café da manhã no hotel; descobrir que uma pessoa feia tem uma voz linda; ver crescer uma árvore que plantei; brincar com argila; lareira em noite fria.

    Se fosse acrescentar as minhas degustáveis, diria: ver um pôr do sol avermelhado, caminhar descalça na praia, tomar vinho com amigos, ganhar flores inesperadas, reencontrar alguém querido, passar a tarde lendo na varanda, mudar o corte de cabelo, andar de mãos dadas, receber um beijo e… escrever essa crônica.

    Porque, no fundo, a vida é isso: engolir algumas coisas intragáveis e saborear outras tantas deliciosas. No saldo, felizmente, ainda dá para degustar.

  • Sonhos Juvenis

    Eu queria amar! Quem manda ficar lendo livros românticos? Não devo culpar os escritores. Não eram heroínas épicas, grandiosas, orgulhosas, princesas.

    Nem moças descendentes de famílias tradicionais, preparadas para encontrar namorado entre os filhos dos frequentadores das altas rodas, da elite, ou filhos de amigos poderosos como os próprios pais, também. Casamentos entre iguais, diriam as interessadas mães.

    Se minhas heroínas fossem essas, eu não teria criado falsas ilusões. Embora eu deva confessar: lia tudo que me caía às mãos!

    Tanto é que sei distinguir as grandes heroínas das moças comuns. As do meu universo, eu via, conhecia, mesmo que fosse só de passagem, e, de certa forma, eu me assemelhava a elas.

    Colegas de escola, filhas de senhoras conhecidas, de donos de lojas, de pessoas a quem se dava bom dia ou boa tarde, e diriam: passou aqui a filha de fulano, ela já é uma mocinha.

    Esse era o mundo ao qual eu pertencia. Fisicamente.

    Porque, em pensamentos, eu vivia grandes amores, conhecia novas cidades, era razão de disputa entre rapazes. E o herói sempre se apaixona pela mocinha. No caso, eu.

    Sonhava com o amor selvagem, sensual, e a imagem de quem seria o homem amado mexia com meus sentidos.

    — Onde você está com a cabeça, Anita?

    — Oi, professor, em nenhum lugar. Estou aqui.

    — Não respondeu à chamada. Podia te dar falta.

    — Desculpe, professor. Presente!

    Não respondia por estar viajando… em suas mãos, em seus braços, nos músculos da perna que se adivinhavam debaixo do linho branco de sua calça.

    “Que homem bonito”, pensava.

    Sorte tem a prof. Marta em ser casada com um homem desses.

    De onde saíam esses pensamentos? Ah, com certeza, dos hormônios em rebuliço em meu corpo de adolescente.

    Mas a principal fonte era dos livros de amor que passavam de mão em mão entre os colegas da escola.

    — Trouxe?

    — Calma, vou terminar no recreio e te dou. Não consegui ler ontem. Minha mãe estava na costura, como sempre, mas meu pai ficou em casa.

    — E eu tenho só dois dias para ler. Sábado meu pai chega da fazenda.

    — Tá bom, tá bom.

    Na verdade, a forma como despertamos para o amor, a paixão ou o que chamamos de fraquezas humanas não faz a menor diferença.

    A natureza e o homem, esses têm suas próprias ordens e leis. Quem poderá definir onde começa um ou outro?

    Bom mesmo é lembrar-me da época. Dos devaneios. Da imaginação. Oh, juventude! Como o viver era leve!

  • Veganismo

    O costume de consumir cadáveres de animais grelhados, vulgarmente conhecidos como ‘churrasco’, está encravado em nossa civilização, associado a um congraçamento pagão, envolvendo farra, uma informalidade ligeiramente transgressora e, não raras vezes, embriaguez.

    Os propalados malefícios da carne, especialmente a vermelha, à saúde não parecem sensibilizar as pessoas, com hábitos de cultura alimentar arraigados e pouco propensas a abrir mão do primitivo prazer carnal. É inimaginável um encontro da patota no fim de semana para assistir futebol e tomar cerveja, tendo à mesa um prato de tofu grelhado com broto de feijão ao molho shoyu.

    Um método poderoso de tornar-se vegetariano é fazer uma instrutiva visita a um matadouro ou a uma avícola, a fim de presenciar in loco o espetáculo grotesco de como os pobres e pacíficos animais são assassinados para que lhes seja arrancada a carne. Carnificina! Se o estômago aguentar a experiência, pelo menos, nunca mais vai apreciar uma picanha da mesma maneira. Não pesando na digestão, pesará na consciência. A carne não mais descerá impune.

    Ao contrário do que acontece quando nossos dentes dilaceram um pedaço daquele tecido muscular, portador do terror da morte em suas entranhas, a conexão nutricional com os frutos da terra é um enlace com a vida. Ainda que uma planta possa conceder sua vida para nos fornecer alimentação, não há sofrimento e dor nessa entrega.

    Quando a cadeia alimentar realiza-se entre o animal homem e o vegetal, o ciclo da vida fecha-se de maneira conservativa. É sabido que a pecuária é uma das atividades mais impactantes sobre o meio­-ambiente em termos de devastação de florestas, utilização de insumos e efeitos sobre o aquecimento global. Esta razão já seria suficiente para repensar os hábi­tos alimentares: adotar uma prática ambientalmente correta.

    Ingerir vegetais é trazer o espírito da selva para dentro do corpo. Interagir com a natureza, extrair dela a essência da vida, integrando-se ao espírito de Gaia. É resgatar nossa dí­vida com o planeta, contraída nos descaminhos da civilização que descambou para práticas antropo­cêntricas. É conectar-se com o Universo e com Deus. E seja lá Ele quem for ou onde estiver, estará a léguas dos fast foods, das praças de alimentação e do alvoroço que cerca refeições feitas às pressas nos shoppings da vida.

    A prática básica que leva a essa ruptura é a inserção da salada nas refeições. Tenras folhas de alface, escarola, rúcula, agrião, colorizadas por fios de beterraba e de cenoura, brotos de alfafa e fatias de tomate caqui, regadas com azeite, sal e limão. Uma salada no almoço instala um oásis interno e capacita-nos a voltar com leveza à aridez da vida cotidiana.

    Substituir folhas verdes frescas por ali­mentos industrializados, cheios de aditivos e conservantes, é, com perdão da expressão, um ‘desplante’!

    Para reverter essa situação, uma boa técnica é um banho estomacal verde. Saturar o organismo de clorofi­la. O ideal é já começar o dia com um suco detox. É o sabor da vida descendo pelo gogó até se instalar refrescante no estômago. Ao sair do liquidificador ou do processador, é possível entrever uma aura verde fluir energeticamente do interior daquele líquido espumante, provinda da fusão de elementos vitais que concorrem para a mistura exta­siante. Parecemos estar sob o efeito do pó de pirilimpimpim. O perfuminho da clorofila remete ao mistério das florestas tro­picais virgens. Com algum esforço, é possível ver duendes e fadas bailando em torno do copo. Um exército de micronutrientes transporta­dos pelo caldo da trituração invade o intestino e instala a livre circulação no aparelho digestivo.

    Se você estiver anestesiado pelo sabor edulcorado do açúcar e do ciclamato dos refrigerantes, ener­géticos e outras drogas industrializadas, é preciso um estágio antes de receber o choque verde de Avatar. Procure ir introduzindo elementos naturebas no cardá­pio. É preciso ‘implantar’ em nosso organismo o sabor das florestas tropicais. Aos poucos. Não adianta botar o carro de alfaces na frente dos bois.

    Voltando à vaca fria, uma sugestão seria adotar dieta vegetariana nos presídios. Certamente essa medida aumentaria a taxa de regeneração, além da economia para o contribuinte, já que alface é bem mais barata que coxão mole. A carne insufla a violência. Rituais de brutalidade combinam com álcool e carne. Alguém já viu um estupradorvegetariano? Um criminoso que passe cinco anos comendo legume e arroz integral seguramente terá maior chance de retornar à sociedade em melhores condições de amar a vida e respeitar o próxi­mo.

    Talvez seja só uma utopia. Mas tenho a convicção de que um futuro melhor não depende apenas de mudanças político-sociais. É preciso uma revolução pessoal em que cada indivíduo conceba o mundo de maneira mais solidária aos demais seres vivos. A dieta vegetariana ou vegana faz parte dessa transformação.

  • Oração para os fortes

    Ultimamente tenho pensado na diferença entre maturidade, alienação e libertação existencial. A reflexão surge com base nas situações em que algo nos incomoda, aborrece ou se mostra absurdo, e, por diferentes justificativas, silenciamos ou entubamos em nome do perdão. 

    Como saber se essa atitude tão altruísta tem poder digestório ou infeccioso?

    Uns dizem que amadurecer é escolher as lutas. Outros afirmam que calar para evitar desgastes é uma forma de superioridade. Há quem pense que toda evolução espiritual depende da irrestrita aceitação das falhas humanas. 

    Será que é mesmo assim? 

    E se amadurecer for se permitir não tolerar, resignar ou recomeçar? 

    E se evoluir for romper tratados que ameaçam as fronteiras da paz interior?  

    Uma coisa é certa, evoluir é jamais desistir do que nos habita no íntimo. Mesmo que isso signifique seguir em frente, aparentemente, só. 

    Atentemos para as armadilhas sórdidas da aceitação. Algumas coisas são inegociáveis. Perdoe-se quando não puder perdoar.

  • O COMPLÔ

    Não se sabia se aquilo era um fórum, uma assembleia ou um bate-boca de desocupados. O certo é que lá estavam reunidos uns tipos estranhos — umas figuras! A primeira a falar foi Metáfora, que desde o início, contra a opinião de Metonímia, autointitulara-se chefe do grupo:

    — Amigos, eu aqui sou a cabeça — ou “o cabeça”, como queiram. Precisamos reagir. Basta de espoliação. O Escritor nos usa o tempo todo, e depois é dele a glória, os louros, a academia. Ora, nós é que somos imortais. Queremos os nossos direitos.

    — As figuras, unidas, jamais seremos vencidas… — entoou Silepse. Mal ensaiava o coro, no entanto, foi interrompida por Metonímia, que resmungou:

     — Não aceito o seu cajado, ó Metáfora. Como podemos escolher um líder que o tempo todo muda de sentido? O cabeça aqui devo ser eu.

    — Mas que arrogância! — objetou Metáfora. — Até para dizer isso você me usa. “Cabeça” aí é metáfora. Vê como sou mesmo importante?

    Metonímia não se deu por rendida:

    — O seu destino é ser como aquela ali – e apontou ao longe Catacrese, que desgastada e sem brilho jazia no olho da rua, ou seja, num lugar-comum.

    — Sabe por que aconteceu isto com ela? — insistiu Metáfora. — Porque se deixou usar demais. Agora já não impressiona nem comove. E será esse o meu, o seu, o nosso destino se não nos rebelarmos agora contra o Escritor. Que ele reconheça a nossa força e o nosso brilho ou, então, que fique de uma vez nos braços daquela outra — e olhou desdenhosamente para Gramática, que a tudo assistia, impassível, no outro extremo da sala.

    A essas palavras, um frisson percorreu a assembleia. Cochichos, uivos, gritos marcaram a adesão ao ponto de vista de Metáfora. Era preciso fazer ver ao mundo, com todas as letras, como elas sempre foram exploradas pelo Escritor. Só se atribuíam a ele o mérito e o talento pelos textos que escrevia, mas de onde vinham na verdade a graça, o vigor, a beleza de suas produções? Vinham delas, figuras, que não mereciam do ingrato nem um registro de rodapé.

    Cada uma quis externar o seu ressentimento. Hipérbole era a mais exaltada: “Vamos prendê-lo e crucificá-lo!”. Felizmente essa conclamação não sensibilizou a todos, esbarrando no bom senso dos mais ponderados. Lítotes preferiu comentar que o Escritor, de fato, não era lá muito honesto — opinião compartilhada por seu pai, Eufemismo. Elipse nada disse, mas fez questão de dar a entender o que pensava. Perífrase começou, fleumática: “Colegas, antes de manifestar o meu juízo sobre o assunto desta pendência, o qual pretendo seja o mais isento possível, levando em conta não apenas os argumentos aqui apresentados por Metáfora, como também…” — mas o auditório, aos gritos de “Vamos aos finalmentes!”, não deixou que ela terminasse.

    Anacoluto foi sucinto: “O Escritor, vamos dar cabo dele!” — e esse apelo, conquanto ferisse os ouvidos de Eufonia (que se retirou, aborrecida, alegando questão de ordem), concorreu para que o auditório tomasse uma decisão: trazer o Escritor a plenário e pedir-lhe que, dali por diante, reconhecesse e informasse a todos de quem dependiam os méritos de seus textos. Ou isso, ou o abraço frio de Gramática. “Quero ouvi-lo dizer com as próprias palavras que os reais criadores somos nós” — enfatizou Pleonasmo sob o aplauso geral, ao mesmo tempo que Sinestesia dizia para si, amedrontada: “Ih, que eu sinto cheiro de barulho…”.

    Pouco depois o Escritor entrava na sala e ouvia as reclamações do grupo. Enquanto Metáfora lhe anunciava a sublevação e as opções que lhe restavam, ele podia ver do outro lado Gramática sorrindo e lhe mostrando as algemas — umas algemas simbólicas, é certo, disfarçadas num monte de regras e hábitos que pareciam ao Escritor a morte do sonho, da invenção, da ousadia.

    — Seja o que for que vocês queiram, eu cedo — acabou por dizer. — De agora em diante, a glória do que eu escrever será de vocês. Mas tem o seguinte — seguiu-se uma pausa tensa, em que cada figura arregalou os ouvidos e os olhos: — De vocês quero também o sangue, os nervos, os sonhos e o medo de morrer. Sem essa vibração e sem esse temor, que são o combustível de tudo que escrevo, nenhuma de vocês me serve. Nenhuma de vocês funciona — assim como um corpo não funciona sem desejo e sem alma.

    Ouvindo tais palavras, Metáfora desabou. Literalmente. 

  • Adotei um border collie com genes recessivos. E agora?

    Havia cinco filhotes naquela ninhada. Quatro pareciam feitos da mesma matéria: pretos, compactos, quietos, como se o tempo, para eles, fosse mais lento. Mas um, o quinto, era diferente: albino, um olho de cada cor e esperto por natureza. Maior, mais firme nas patas, olhos acesos como se lesse pensamentos, o primeiro a alcançar as tetas da mãe, o único a reclamar quando um irmão tentou dividir espaço. Um pai que chegava para escolher o cão ideal para a sua família, viu aquele filhote branquinho e disse, com a falsa intuição de quem se julga conhecedor:

    — Filha, vamos levar esse!

    A garotinha, sem dizer muito, pulou no colo do pai e disparou uma centena de beijos em suas bochechas.

    Levaram-no para casa no banco de trás, entre a filha entusiasmada e a mulher preocupada com o cheiro de urina. Deram-lhe o nome de Pompom, porque era macio, redondinho, quase irreal. Tinha o pelo branco como neve recém-caída, olhos de botão e patas desajeitadas que escorregavam no banco de couro. Talvez, no fundo, acreditassem que o nome pudesse conter o ímpeto daquele filhote que, aos olhos da menina, mais parecia um brinquedo de pelúcia prestes a ganhar vida

    Nos primeiros dias, Pompom dormia como qualquer cão recém-chegado. Mostrava-se assustado, medroso com os ruídos, e choramingava com a ausência da mãe. Mas logo a rotina ganhou outros contornos. Descobriu como explorar a casa, fazer xixi e cocô por tudo quanto é lugar — menos na fralda. Quando arrastou o tapete até o quintal e roeu o que pôde dos móveis da casa, deixou de ser engraçado.

    Não demorou para começar a rosnar ao redor da comida. A mãe estranhou e o chamou de ciumento. Quando passou a latir para carros e motos, ou a correr atrás das pessoas mordiscando calcanhares e cercando o grupo como se fosse gado, o pai ficou desesperado… Ele ainda não sabia, mas adotara um cão de linha de trabalho, descendente de campeões e com um drive altíssimo.

    O pai até cogitou a devolução, mas sentia-se responsável por aquela vida. Ligou para o dono do canil em busca de uma solução imediata, e ouviu, do outro lado da linha, a resposta fria de quem já não podia, ou não queria, se envolver:

    — Esse cão não foi feito pra sofá. Ele precisa de função.

    Foi a primeira vez que a palavra função apareceu. A partir daí, as coisas pareceram desandar entre o cão e o resto do mundo. Um cão que só faz o que quer é incontrolável. Disse a si mesmo:

    — Um cão que só faz o que quer é incontrolável.

    Pompom era, de fato, um legítimo border collie, embora o pai mal soubesse o que isso significava. Não era apenas uma raça, mas uma potência. Um corpo moldado por gerações para pensar em movimento, responder a comandos invisíveis, pastorear o caos. E, mais do que tudo, um cérebro preparado para trabalhar horas a fio com um único propósito: controlar rebanhos vivos. Na ausência de ovelhas, bastava-lhe algo que se movesse.

    Mas ali não havia rebanhos. Só almofadas, tapetes e uma menina que sonhava com um amiguinho. E, quando não se dá uma missão a um cão com a inteligência de um border, ele inventa uma. Pompom pastoreava a casa inteira: cercava portas, montava guarda, rosnava quando o aspirador mudava de direção. Seguia sombras, latia para ventiladores, mordia o próprio rabo. Rodeava, sem parar, a mesa de jantar e até bebia a água da piscina. Tudo parecia brincadeira ou jogo. Para um leigo, era difícil saber.

    O primeiro adestrador tentou o método positivo. Disse que não havia caminho melhor. O segundo, estúpido e apressado, propôs colocar uma coleira de choque no filhote. O terceiro, adepto de florais, também não teve progresso. Restava estudar. Mergulhar nos livros, entender o comportamento canino. E foi assim que, com a ajuda de um novo treinador, começou a compreender as raízes de tantos transtornos.

    Enfim, surgiu uma nova teoria: genes recessivos comportamentais. Traços invisíveis à primeira vista, mas capazes de emergir quando duas linhagens equivocadas se cruzam. Características que não apareciam nem no pai, nem na mãe, mas que, uma vez ativadas, exigiam contenção. E não qualquer contenção: rotina, clareza, estímulo, constância.

    A palavra recessivo ficou martelando na cabeça do pai. Começou a ler. Descobriu que a genética não é destino. É mapa. E que esses genes não vêm sozinhos: carregam comportamentos instintivos que, quando ignorados, explodem. Ansiedade por movimento, obsessão por tarefa, reatividade emocional. Era isso que pulsava dentro de Pompom. Ele não era um cão-problema. Era um cão incompreendido.

    E então, finalmente, o pai fez o que jamais havia feito: olhou para dentro e traçou novas metas.

    Começou a levar Pompom ao futebol. Passou a acordar mais cedo para correr com o cão. Leu livros de comportamento canino com a mesma atenção que antes dava ao noticiário esportivo. Aprendeu sobre epigenética , o modo como o ambiente pode acender ou apagar comportamentos nos cães. Entendeu que amor, sozinho, não basta para dar direção. Que amor sem conhecimento vira pena. E pena, quase sempre, vem seguida de raiva. Frustrações pelas “provocações” que Pompom fazia.

    Como diria Edmund Burke, “a sociedade é um contrato entre os vivos, os mortos e os que ainda hão de nascer”. O pai compreendeu que, entre homem e cão, também existia um pacto silencioso — selado pela ancestralidade, pela vocação impressa na carne. e que esse pacto precisava ser honrado, não ignorado.

    A rotina da casa mudou. Pompom passou a ter tarefas, jogos de olfato, percursos no mato, comandos de espera e recompensa. O treinador ensinou novos comandos, sempre desafiando sua capacidade mental. A ansiedade deu lugar à escuta. O corpo deixou de implodir. O olhar, antes elétrico, tornou-se profundo.

    A menina voltou a brincar com ele. A mãe, a sorrir das travessuras de Pompom. Ele já não mordia, nem destruía os móveis. Deixou de ter posse do sofá ou da comida, mas ganhou um cantinho na cama, toda vez que entrava no quarto devagarinho.

    — Quando ele faz essa carinha, a gente pode deixar entrar!

    O pai compreendeu, por fim, que não havia adotado um ursinho de pelúcia, mas um ser com passado. Que os cães que parecem mais brilhantes, mais ágeis, mais espertos são, muitas vezes, os mais difíceis de manter. Que herança genética não se reverte com agrado, mas se conduz com consciência. E vigiar, para ele, é função. Porque cães como ele não descansam.

    Se o seu cão tem genes recessivos, não procure culpados. Não tente corrigi-lo com vídeos da internet. Não espere que ele se adapte ao seu sofá, ao seu tédio, à sua pressa. Porque, cedo ou tarde, o que ele carrega vai emergir. E, quando isso acontecer, você vai ter que escolher entre fugir ou tornar-se melhor.

    Pompom, por sorte, teve pessoas que decidiram mudar hábitos para construir uma relação melhor. Mas a sorte, você sabe, não é o que determina o fim da história. É a escolha. E a coragem de sustentá-la.

  • O menino e o mundo

    Nos idos de 1990, eu era um menino, com tantos sonhos. Nessa época já intuía o modus operandi da vida. Percebia as incumbências de meu pai, sempre muito atrasado para o trabalho, onde sequer às vezes podia tomar um café e era chamado de “cabra”, por seu chefe, por chegar atrasado; o calor do abraço de minha mãe, tão doce, terno, ao mesmo tempo tão frágil, débil. Mas eles brigavam, muito, e isso resvalava em mim, porque era o primogênito, o mais tranquilo e contentor dos acessos de raiva de meu pai. Minha mãe contava comigo para poder freá-lo em seus impulsos transloucados de bebidas e de mundanidades. Eu era, bem dizer, o salvador, que acordava de madrugada para conter as saídas de meu pai, ou mesmo quando queria ir embora de casa. Meu pai era um homem do mundo, esse é o erro, porque minha mãe se casou sabendo disso, e queria mudá-lo, por meio de orações obsessivas. Lembro-me da época em que, enfim, ela conseguiu levar o meu pai a um grupo de orações chamado Shalom. A vida ficou rigidamente religiosa, hipotética para brincadeiras de quaisquer tipos, tudo era coisa do demônio. Não havia espaço, éramos contidos para as coisas do alto, e todos os dias tínhamos de rezar o terço antes de dormir. Veja bem, uma criança ser obrigada a rezar o terço todos os dias! Era assim, ipsis litteris. Meu irmão toda vida dormia antes de acabar a obrigação. Hoje vejo a sandice em que nos metemos. Ainda houve uma época, até por conta dessas grandes convivências e experiências, em que eu queria ser padre – amava, como amo, Jesus, esse não é o mote, e nunca houve questionamento sobre a pessoa de Jesus, um homem justo, fraterno e amoroso. Participava das missas como coroinha e sabia as rezas de cor. Preparava missas fictícias para os garotos da rua virem participar. Eu era uma espécie de menino prodígio, que até as beatas veneravam. Minha mãe dizia que era pecado, mas achava bonitinho e, decerto, apurava o ardor de ter um filho padre. Para ela, parece que era um sonho. Ela era muito beata, portanto, ter um filho padre seria uma bênção. No entanto, minha vocação, como confessei à minha avó, também beata, era de ser “pai”, e não padre. Foi, me lembro, um desgosto para a família. Hoje sou realizado como pai. Tenho um filho de cinco anos, muito esperto e saudável. Então, sobre mim, a memória que tenho é de uma criança quieta e introspectiva, tateando o seu lugar no mundo dos homens. Tinha medo, mas, mais importante, tinha paixões. E hoje movo o meu corpo sedento por mudanças, por encontros, do meu jeitinho, por isso me considero um artista. Sempre apto a amar. Isso não é lugar-comum, palavra ao vento, você pode pensar erroneamente. Amo e busco amar a vida, o próximo, porque preciso ser amado (e o lance é recíproco, pode crer).

  • Vontade de boneca

    Ponto de ônibus lotado. Pedestres, buzinas, barulhos. Um agudo. A criança chora. Largada. Calçada. Penso na fome. Ela dói. O pai embala.

    O choro não passa. O ônibus também não. O choro aumenta. A menina se agita. Estrebucha no ar. O choro aumenta e dói em mim. Olho sem querer olhar. É fome, só pode.

    Tá na hora do ônibus passar.

    O choro insiste em me incomodar e me invade. Alma e ouvidos. Espero que o ônibus não passe. Procuro por alimento. O choro precisa parar.

    Compro achocolatados e biscoitos. Comida de infância, lembrança doce. A menina não dá bola. Chora de perder o fôlego. Seu olhar me encontra. Respiro e ofereço:

    — Ela quer é uma boneca, mas não tenho como comprar. Desabafa o pai.

    Nem todo mundo chora de fome. Ela só quer brincar.

    Lembro quando era criança. E adolescente. E eu. Sem ter como comprar.

    Confiro o preço e a formosura. É uma Barbie. O choro passa. O ônibus também.

  • Poema #33: Sea Of Monsters

    inspirado em versos de Lennon/McCartney

    Estamos num barco
    no meio do oceano.
    Toda compreensão de mundo
    que temos não ultrapassa
    o nosso raio de visão.

    E como nossa visão é curta
    (e não nos conformamos com isso),
    às vezes utilizamos algum instrumento
    que nos dê a sensação de transcendência.

    Mas por mais largos que sejam ou
    possam ser nossos horizontes visuais,
    o que vemos é apenas um limitado tapete
    de água que escoa e se perde no vazio.

    Assim nossa visão de mundo
    (ainda que não queiramos admitir),
    acaba se restringindo ao espaço
    interno do barco em que estamos.

    Do lado de fora do barco
    (e a água bate forte no casco
    tentando afundá-lo) se situa o imponderável
    com suas “nuvens negras, negros pássaros;
    asas partidas, lagartos, destruição”
    .

    Inventário de Sombras

  • Poema #02: Trinta e sete tonais de tinta

    Foram precisos tantos
    e tais quais tonais
    de tons entonados
    de tamanho eterno
    e com ternura tal..

    Teria tido eu
    um tempo ao qual
    tenro, turvo, talho,
    traços de tinta em rabiscos

    e tirando tudo de trás…
    teria eu tentado?

    Se tentei foi por tentar.
    Tirava tudo o que me trazia,
    talvez até mais…
    onde coubesse tanto.

    Traste! – terminei traçando,
    “É o que se diz”, entoei
    “quando muito se tem,
    pouco se tenta”
    .

    Pois quero tentar ter nada.
    Ou mesmo tais tonais quais
    que não tires de mim tanto
    que sou tinta entornada,

    tecido traçado no túnel
    de um tempo tirano;

    em torno de tudo,
    envolto de tanto,
    esboço de lata

  • Bolinhas e fofocas em forma de sombra: perceba-as, antes de abrir os olhos

    Inspira…

    Expira…

    (por 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1 segundo….) Inspira…

    Meu cachorro me vê sentada, coluna alinhada, joelhos e pernas e pés num emaranhado yogui, posição de lótus. Antes que eu expire, Zeca já está colocando a sua bolinha preferida, a branca, sobre uma das minhas mãos. E a bola escorrega. Tenta novamente; outra vez a bolinha rola no chão. Eu seguro a risada e o risco de perder a concentração em um sorriso de canto de boca, olhos fechados. Ele late para mim. Eu inspiro.

    Som da respiração, um tanto quanto entrecortada por um resfriado que foi covid, que teima em não ir embora, frente às variações medianas diárias de 15°C do inverno na serra fluminense.

    (expiro….)

    A voz que sai da caixinha JBL harmoniza o balançar das minhas plantas na varanda com as árvores da rua. Venta. O céu é de um azul sereno e brilhante – os mais bonitos dias são as manhãs ensolaradas de inverno. Antes de a voz

    pedir que eu fechasse os olhos, a minha posição no cômodo permitia vislumbrar a comunicação vegetal, a agitação das fofocas domingueiras no movimentar de suas sombras, que, de tão interessantes, passavam do piso frio da varanda para o laminado confortável do quarto, alcançando o tecido do pijama que protege minha pele do frio.

    Inspiro…

    Imagino a luz dourada preencher todo o meu organismo, serenidade e cura. Como é prazeroso parar sem culpa, manhã de domingo, e apenas estar aqui, no presente. Sem querer, momentaneamente, nada além. Apenas existir, no balançar das sombras que se fundem a minha própria. Um todo que inspira e expira.

    Inspiro…

    (…) preparo-me para movimentar as articulações e, quando me sentir pronta, abrir os olhos. Um barulho de ondas do mar e gaivotas, tão estranhos à paisagem da Serra, invade meu coração e não me sinto pronta para enxergar o fora de mim. As manhãs de domingo, silêncio e preguiça, funcionam como um equilíbrio das minhas atividades tão intensas. Antes de expirar por última vez de olhos fechados nessa meditação-oração, sinto os pelo do Zeca, que sentou encostado às minhas costas. Sinto o odor do incenso de alecrim. Sinto meu corpo quieto, minha agitação comedida. Sinto a brisa suave do vento gélido, e também raios de sol que aquecem meu tornozelo esquerdo.

    Antes de abrir os olhos, conferir se estão de fato fechados é um gesto simples. E necessário. Imperativo, diria. Na mesma intensidade, perceber nossos olhos fechados é a essência da criação do domingo.

  • Rio abaixo…

    Reconectar, rever, retomar a amizade – foi o mantra de Clô ao receber o convite para a festa dos 40 anos de formatura. Quarenta! Ela leu a lista de colegas com um sorriso nostálgico no rosto e um pensamento ligeiramente suspeito:

    “Que tempos maravilhosos… mais ríamos do que estudávamos, e ainda assim conseguimos o diploma! Milagre puro. Laís, Marina e eu éramos uma trinca imbatível!” Sabiam tudo da vida uma da outra – inclusive os detalhes mais cabeludos.

    Só que a vida, essa bagunceira, foi jogando cada uma para um lado.

    “Como estarão agora? Bonitinhas, como éramos? Ou detonadas pelo tempo,como todo mundo?” Aí veio o pânico, aquele clássico pânico feminino com data marcada. Dois meses até o evento. Tempo suficiente para virar uma versão 2025 de si mesma – sem filtro, sem Photoshop, ao vivo e em HD.

    • Missão Clotilde em modo turbo:
    • Reforçou a academia (alô, personal trainer);
    • Clareamento nos dentes (tchau, café e vinho);
    • Mechas loiras (tom “iluminada e despreocupada”);
    • Botox e uma esticadinha nas pálpebras (cirurgia rápida, que ninguém precisa saber);
    • Harmonização facial? Quase. Mas faltou coragem. Ainda bem.

    Chegou ao evento com a autoestima no volume máximo. O espaço era charmoso, mesas e sofás espalhados, vibe “sunset de senhora elegante”.

    E lá estavam elas: Marina e Laís. Reconhecíveis, porém… um pouco vencidas pelo prazo de validade.

    “Gastei horrores pra nada. Estão caidinhas. Ufa!”

    Mas Clô era educada. E disfarçava bem.

    Abraços, beijinhos, aquela conversa-padrão de reencontro:

    “Casou?”

    “Tem filhos?”

    “Trabalha ainda?”

    “Mora onde?”

    “E seus pais, vivos?”

    Checklist da vida em andamento.

    Logo vieram umas lembranças – aquelas piadas internas que antes causavam ataques de riso e agora só rendiam sorrisos educados.

    A festa seguia animada: bebida boa, DJ animado, comida de primeira… tudo propício ao tal reencontro inesquecível.

    Menos… na mesa de Clô.

    Ali, o silêncio começou a pesar como prataria herdada.

    Ela olhou para as “meninas” e viu… duas estranhas. Nada da antiga conexão, nenhuma faísca do trio explosivo que um dia foram.

    Sem rodeios, soltou:

    — Gente… que tal dar uma voltinha por aí?

    Levantou-se, ajeitou o vestido, ergueu o queixo renovado pelo botox e, ao dar o primeiro passo, lembrou de uma frase que leu num cartão postal ou num biscoito da sorte, sei lá.

    “O rio nunca passa duas vezes no mesmo lugar.”

    E, naquele momento, ela achou a metáfora perfeita.

    Para as amigas, para a noite, para a vida.

  • Existir ou Exibir?

    Em tempos de redes sociais, todos sabem de tudo.

    Há os que entendem mais de determinados assuntos e se tornam mentores ou especialistas disso e daquilo; os que vendem cursos, os que criam clubes de assinaturas para seguidores fiéis, os novos ricos ensinando como ser um “farialimers”, os ricos tradicionais mostrando a arte de se exibir com classe… e por aí vai.

    Essa é apenas uma das muitas faces do mundo virtual.

    No outro extremo, existe a antítese: perfis que promovem festivais de conteúdos inacreditáveis.

    Partem do ridículo ao nonsense, passando pelo bizarro, causando vexame e a famosa “vergonha alheia”

    De maneira informal utiliza-se o termo “brain rot” para designar aqueles que são contumazes e até viciados nos conteúdos dessa categoria. É como um “apodrecimento cerebral”, pois não acrescenta nada ao intelecto e este se habitua ao conteúdo repetitivo e sem esforço mental, uma vez que a intenção de quem o produz é chocar, provocar, chamar atenção com o inacreditável, com o esculacho.

    E nesse jogo de aparências, quem realmente vive? Quem apenas se exibe?”

    Nos dois exemplos, a mola propulsora é a mesma: exibir, ver, ser visto.

    Alimentar-se de views, de seguidores, de patrocínios, de fama.

    Ensinar, aprender, fazer dancinha, engolir larvas… qualquer ideia maluca serve, desde que gere cliques.

    O mundo virtual é impalpável. Inodoro. Descartável.

    Com um clique, algo ganha o mundo, acumula milhares de seguidores, fama, patrocínio, dinheiro. E, da mesma forma, some da cena. Pode ser cancelado, esquecido, substituído. Deixa de existir.

    Isso dá uma sensação de impunidade. Ou de liberdade absoluta. Ou de qualquer outra coisa que você possa imaginar.

    Porque no mundo virtual, não há limites.

    Ou há?

  • O famoso ninguém

    Andar pelas ruas de Paraty, nesses dias de FLIP, tem me feito pensar na realidade farta que o anonimato esconde ou sufoca.

    Quantas histórias caminham na gangorra dessas pedras? Quantas dúvidas, decepções e sonhos se escondem nas frestas desse chão?

    Da ponte, vejo o movimento de toda gente. Um ir e vir de esperanças, desistências e vaidades se misturam ao cheiro de pipoca, espetinhos e algodão-doce. Poetas, artistas e músicos oferecem sua arte, clamam por atenção, enquanto o povo passa pronto para reverenciar os que já estão abençoados com o sucesso, que uns saboreiam e outros já não suportam mais.

    Quantas histórias, letras e poemas são sepultados antes de ver a luz do mundo? Quem tem o poder de decidir entre os que serão salvos, batizados e conduzidos ao trono do reconhecimento e os que serão sacrificados?

    Sigo para o auditório central sem saber direito se trago comigo dois natimortos ou se meus bebês ainda estão na incubadora, esperando por quem possa salvá-los com o olhar.

  • A idade do bobo

    A idade do lobo é a expressão com que se costuma designar a andropausa. Não sei por que foram escolher o lobo como referência para esse delicado período, que se traduziria melhor por meio de um bicho menos feroz. Geralmente nessa época o indivíduo tem pouca coisa de lupino; está mais para cágado, coruja, caramujo ou qualquer desses animais estáticos e meditabundos.

    Talvez a analogia com lobo venha da tristeza uivante com que ele vê o desejo indo embora. Não propriamente o desejo, que esse não se extingue nunca, mas a plena possibilidade de satisfazê-lo. Os uivos seriam uma demonstração de desespero impotente, um ganir melancólico de quem sente a aproximação da morte.

    Há quem diga que a designação de “lobo” deve-se a que o crepúsculo da libido se reveste de uma aparência oposta. Por uma espécie de compensação, o indivíduo se tornaria agressivo e conquistador. Perseguiria com insaciável ousadia as mulheres mais novas, lembrando nisso um lobo faminto à cata de ovelhas.  E quanto mais tenras, mais apetecíveis.

    Acredito que tanto a melancolia quanto a afetada hipersexualidade justificam a denominação. E que por esse último aspecto a Idade do Lobo comumente se transforma em idade do bobo. Nada haveria de grave se o indivíduo sofresse o seu banzo de forma recolhida, aceitando com superioridade e compostura o arrefecer do desejo e (o que mais dói!) a indiferença das mulheres.

    Mas o comum é ele descambar de lobo para bobo, o que só tende a piorar o quadro. É típico do processo, por exemplo, interpretar como sinal de correspondência ao seu olhar faminto um simples sorriso ou um gesto despretensioso de carinho. Isso o faz deveras sofrer, pois é próprio das mulheres novas sorrir muito e ser naturalmente carinhosas (as maduras são mais sérias).

    Cada sorriso, cada aceno de voz gentil deflagra nele uma paixão. Só muito depois, diante do espelho, ele compreende que aquela meiguice tinha alguma coisa de filial. Fora tratado, por deferência à idade, como uma espécie de pai. Ou pior: de tio. Quando se dá conta disso, seus uivos se tornam mais tristes.

    O limite da idade do bobo pode ser o extremo ridículo ou um recuo tático rumo às atividades do intelecto e do espírito. Uns fazem poemas, outros se voltam para a filosofia (filosofar, como alguém já disse, é aprender a morrer) ou se tornam adeptos de alguma religião. Se nada mais esperam do corpo, que pelo menos se salve a alma.

    Mas há os que se recusam a cair na real. E podem, nesse cultivo de paixões impossíveis, até chegar à tragédia. São bobos tristes, terminais, que tingem os cabelos – e a careca – para disfarçar os efeitos do tempo. Em vão.

  • Juno

    — Não tenha vergonha de olhar para mim.

    Ele falava com uma senhora muito elegante, cujo cão tinha parado para fazer suas necessidades perto de onde ele estava sentado, sobre um papelão sujo, com as costas apoiadas na parede de uma padaria no centro de São Paulo. A senhora, que esperava o bicho se aliviar, olhava de soslaio para ele: o corpo magro, a barba branca que lhe cobria quase o rosto todo, os cabelos compridos e também brancos, os andrajos imundos, os pés pretos de sujeira enfiados em velhas havaianas, uma mochila surrada ao lado. Perto, um copo de plástico com duas ou três moedas, uma garrafa de água, um guarda-chuva, uma sacola de supermercado com algumas frutas.

    — Não tenha vergonha de me olhar, já estou acostumado. Posso suportar. — Ele repetiu, esboçando um sorriso.

    A senhora se agachou com um saco plástico na mão para recolher o cocô do cachorro e, ao se levantar, manteve os olhos baixos.

    — O senhor pode suportar, mas eu não. — A mulher deu um nó no saco plástico com as fezes do animal e olhou em volta, procurando a lata de lixo mais próxima.

    — Senhor não, não precisa. Pode me chamar de você. Meu nome é José Núncio. A turma me chama de Juno.

    — Maria do Carmo. Desculpe, o meu cachorro fez sujeira bem perto de você.

    — Não tem problema. Vejo que você carrega um livro.

    — Sou professora. De História.

    Juno pegou a mochila e tirou de dentro um exemplar de História do Mundo Contemporâneo: um velho livro de bolso com as folhas encardidas pelo manuseio.

    — Já li outros livros, mas este foi o único que me sobrou. Ler é instrutivo e eu gosto muito.

    — Ler é uma das coisas mais importantes da vida. — Maria do Carmo concordou, ainda procurando onde jogar o saco com o cocô do seu cachorro.

    — Uma vez ouvi dizer que só existem duas maneiras de se ganhar conhecimento: viajar e ler. Como não posso viajar, eu leio.

    — Se você quiser, amanhã trago outro livro para você.

    — Como não vou querer? Se puder, me traga um sobre o mundo antigo, para comparar com esse de história contemporânea que tenho aqui. Ficarei agradecido.

    Maria do Carmo fez um aceno com a cabeça e se despediu. Andou oito ou nove passos e voltou para deixar algumas moedas no copo de plástico.

    — Não precisava ter se incomodado.

    — Não foi nenhum incômodo.

    — Deixe comigo também o saco de cocô do seu cachorro. Tenho que me desfazer do meu cocô também.

  • Síndrome do bebê fantasma!

    Na pracinha do bairro, clara caminha com seu carrinho de bebê. O sol da tarde ilumina o rosto rosado da “criança” que ela exibe com orgulho. Os vizinhos sorriem, mas, ao se aproximarem, congelam. Nos braços dela, há um boneco reborn: olhos de vidro, veias desenhadas à mão, corpo de silicone morno. A cena é perturbadora, não pelo realismo do objeto, mas pelo desvio de atenção que ele provoca. Clara troca as fraldas da “criança, canta ninarias, conversa com o inanimado. “Ele acordou com cólica hoje”, diz, balançando o manequim.

    A psicologia nomeia isso como “Síndrome do bebê fantasma” — uma resposta à perda, à solidão, à carência.

    Mulheres que sofreram abortos, idosas abandonadas, mulheres cujos úteros ou afetos nunca foram preenchidos.

    O reborn é uma prótese emocional, um atalho para driblar a ausência.

    Até quando um objeto substitui o calor de um ser? Há quem critique: “É patológico”, murmuraram na fila do mercado, enquanto Clara pagava por mamadeiras vazias. Tem o caso da “Mãe” que publicou um vídeo em seu perfil no TikTok levando Bento, seu bebê reborn, ao hospital após “notar que ele não se sentia bem”. O conteúdo viralizou e obteve mais de 8 milhões de visualizações até o momento. Ela decidiu levar Bento ao hospital às pressas ao perceber que ele estava mal. Chegando ao local, ela relata que a médica o examinou, medindo sua temperatura e aplicando remédios. Em determinado momento, ela relata que “tirou o leite” em casa para dar a ele no hospital.

    A verdade é que todos carregamos bonecos reborn invisíveis. Projetamos nossas vidas em relacionamentos mortos, em empregos que nos sugam, em likes que validam nossa existência. Clara apenas materializou sua neurose em algo tangível.

    Seu erro, talvez seja não escondê-la. Enquanto a sociedade tolera vícios em álcool, workaholismo e compulsões silenciosas, seu crime é expor demais a ferida.

    O problema não está no silicone, mas na linha tênue entre o que cura e o que aprisiona. Quando a fantasia vira cela, o abraço ao boneco é uma confissão: preferimos a mentira que acalma à verdade que machuca. 

    Assim, seguimos colecionando substitutos — para a maternidade, para o amor, para o sentido.

    Porém, cuidado com os reborns da alma: um dia, eles podem nos responder. E aí, seremos obrigados a encarar o silêncio que sempre esteve lá.

  • Tudo muda

    Um estalo e tudo muda. Bruna saiu de casa muito cedo, para ir ao treino na academia. Não tomou o café da manhã direito. Precisava ir rápido para poder, depois, trabalhar. Muita pressa para uma vida tão curta. E ela que tanto defendia o cuidado com o tempo… Na volta, bateu a moto num carro parado. Distração. Apagamento. Não se sabe. O braço esquerdo firme no guidão aparou o impacto. Saltou da moto de ponta-cabeça. Uma queda abrupta, violenta, que distorceu os sentidos. Ficou estirada no chão. Chorou e gritou de dor. Logo os passantes se juntaram para ajudá-la. Aliás, uns curiosos espiavam, outros perguntavam sobre o ocorrido; e ninguém sabia respostas. Seu marido chegou e tentou acalmá-la, com carinhos no rosto, apavorado com as pernas raladas e o punho da mão esquerda inchado. Ela perguntou, copiosamente chorando, por que ele demorou tanto. “Meu amor, eu não sabia onde você estava. Fiquei tentando localizar, ligando para o escritório em que você trabalha”. A ambulância demorou mais de uma hora. O guarda de trânsito, que tentava aparar o tumulto, disse que era assim mesmo, porque aparentemente não era nada grave. Sol quente, a pino. Um guarda-chuva foi colocado sobre ela, emprestado pelo funcionário da clínica ao lado, para amenizar o sofrimento. O próprio funcionário que ajudou era o dono do carro avariado pela batida. Muito gentil, ficou segurando o guarda-chuva, até a ambulância chegar. Os paramédicos, muito concentrados no seu serviço e atenciosos, constataram uma fratura no punho, preliminarmente. As pernas arranhadas sangravam. Parecia, para quem visse pela primeira vez, que teria fraturado mais partes do corpo. O marido mesmo, quando chegou, teve um susto tremendo, achando que a esposa estava gravemente lesionada – demorou tempo para entender. No hospital, mais muitos minutos, e o atendimento médico ocorreu. Os paramédicos esperaram até o atendimento, era obrigação de ofício. O médico pediu raio-x e ultrassom, pra averiguar em detalhes. Antes de tudo, deveria tomar a medicação para dor. Doía muito, Bruna mal podia mexer o braço, achando até que teria afetado a clavícula. Mais uma hora e conseguiu fazer o bendito raio-x. Constatada a fratura em dois ossos da mão esquerda. A previsão, segundo o médico, era de que teria de fazer cirurgia, que só seria marcada em dois dias. Deveria ficar de repouso extremo no período que antecedesse a cirurgia. Na hora de colocar a tala, o médico teve de puxar a mão para ajustá-la na junta. Gritos e choros estridentes. Quem estava perto se compadeceu. Somente às 17h30min chegou em casa, recebida calorosamente com um beijo e um abraço do filho – que também chorou, com pena da mãe. Tomou banho e depois jantou devagar, para logo dormir e sonhar com sinceras explicações. “Meu Deus, muito obrigada!”, ela falou, antes do sono bom.

  • Preta foi para o céu

    Preta Gil foi para o céu. O Brasil ficou órfão de sua alegria escandalosa. Preta perdeu sua última batalha contra o câncer.

    Perdemos a cantora, a empresária, a apresentadora, o exemplo de mãe, a mulher inspiradora que ela foi.

    Preta foi embora no último domingo, dia 20, nos Estados Unidos.

    Preta descobriu cedo sua força porque, na escola, apesar de ser filha de pai famoso, soube que isso não a blindava do racismo do colégio onde estudava: a mãe de uma colega se recusava a dar carona para “gente de cor” na Kombi dela. Porém, se não era impedida de passar por isso, viu a lição que a mãe dela, Sandra Gadelha — a Drão — deu na mulher desaforada.

    Preta Gil não se encostou no pai cantor. Foi produtora, empresária, apresentadora, cantora. Casou, descasou, casou de novo, teve filhos e passou perrengues como qualquer pessoa comum.

    Quando li “Os primeiros 50”, livro que ela lançou em 2024, pela editora Globo Livros, pensei em como seria bom se ela tivesse se lançado também na ficção. Ou, pelo menos, uma crônica semanal no jornal, se muito. Como escrevia gostoso.

    Perdemos uma mulher que ensinou pra gente o que é a força da mulher, o empoderamento e o gostar de viver.

    Ela namorou homens, mulheres, famosos e anônimos, e mostrou que o amor é sagrado — que cada um de nós pode amar quem quiser, do jeito que quiser.

    Sei que um dia todos vamos deixar este mundo, sei que todo mundo terá sua hora, mas dói saber que ela era tão nova. Dói saber que seu rosto era tão vigoroso, tão bonito.

    Preta Gil foi abandonada pelo marido durante a luta contra o câncer, mas colecionou amigos, fãs e uma família amorosa.

    Perdemos uma mulher com riso fácil e um senso de humor delicioso.

    Ela desnudou seu corpo e sua alma no disco “Prêt-à-Porter” (2003). Chocou alguns e foi aplaudida por muitos.

    Vá em paz. Você será sempre uma inspiração para novas gerações.

    *Excepcionalmente nesta quarta-feira.

  • Fazendo a roda girar

    Saía de casa faceira após chamar o Uber. A vizinha vê, para. Me elogia. Pavaneio. Vou dar entrevista. Oferece carona. Recuso. Uber já chegou. Penso na taxa de cancelamento. Pago não. Não sei mesmo fazer conta. Vou de Uber. Vizinha se vai.

    Começa a tradicional conversa sobre o tempo, o frio, o perigo do banho quente e sair na friagem. O motorista parece cansado, fala da mulher que teima em sair do banho e colocar a toalha para secar do lado de fora. Pode adoecer. Tava doente. Teve câncer. Têm três filhas, idades diversas, todas difíceis. Trabalha sem parar. Filhas gastam, mulher gasta, doença mais ainda.

    A roda do carro deu defeito. A vida tem dado defeito. Ele se exaspera. Conta as agruras. A falta de grana, a ajuda dos amigos. A roda pode quebrar a qualquer momento, avisa um deles. Temo por nós. Falta peça, falta grana, falta temor. Ele consegue que o amigo coloque a peça. Mas não consegue a peça. Não pode rodar, mas precisa. A roda da vida não para.

    A peça custa 180. Conseguiu 80. Falta 100. A roda não para de girar. Não cancelei a corrida, ouvi a história da roda, ouvi a história do câncer. A roda não para de girar. Faço um pix de 100 reais. Ele chora. A roda pode parar. Não sei o seu nome, das suas filhas, da sua mulher. Do câncer. Mas faço a roda girar.

  • Poema #01: A Viagem

    A gente corre e esquece
    O tempo aquece, escorre
    Se a vida dança, eu rio
    Se a vida flui, eu sambo

    De lá eu vejo, sinto
    De longe eu peço, e fico
    Da rua, a terra, o transe
    A moita, espreita, um tanto

    Eu tive sede e sonho
    Vivi a luz, a sombra
    Timbrei um brado, um tinto
    Um feixe aceso, o sangue
    Da lua negra, um grito
    Afresco a palo seco
    Memória, o vulto, o vício
    Esqueço, vejo;
    Me desencontro

    Tolice a velha sina
    O ter não quer ser tido
    O lado oposto, o tempo

    Se rompe o véu, um rastro

    Um astro, um sal, um vento
    A pena diz assim levanto
    A vida que se espreita
    Espreme, exprime, espanto

    Domingo eu ligo o rádio
    Disfarço um beijo, encaro
    A rima, um desperdício
    A vida, um ter sem rumo
    O ter, um tempo em branco

    Eu finjo um fato, um feito
    Um tapa, o tom do sério
    Eis a vergonha boba
    Viver é só mistério.

  • Órfã

    Somos inseparáveis. Sabe aquela dupla que passa a maior parte do tempo colada? Pois é, somos assim – tipo queijo com goiabada –, um não pode viver sem o outro. Fazemos tudo juntinhos, uma mão lavando a outra, parceria que já vem de longa data.

    Seja de dia, seja de noite, você é meu companheiro, está ali firme sem reclamar, topando qualquer parada.

    Às vezes penso que sou dependente demais de você. Mas, depois, penso um pouco e vejo que você também não tem vida independente, está sempre esperando a hora de entrar em cena comigo. Até pensei em substituir você por outro, mas não seria a mesma coisa.

    A procura não é de sua iniciativa, e até entendo o porquê, sendo você quem é: generoso, sempre ali sem reivindicar nada para si, a não ser a minha companhia. Cá entre nós, tenho que confessar que me conforta saber que está sempre pronto, disponível, aguardando a hora em que vou te buscar.

    Enfrentamos os maiores desafios juntos; somos ágeis e rápidos nas tarefas para depois, exaustos, podermos sentir aquela água quentinha e o banho de espuma reconfortante. O perfume desse momento é inesquecível e me faz querer ficar ali relaxando por horas.

    Por isso mesmo, não consigo aceitar sua ausência nesses dias em que vim para a praia. A falta que está me fazendo é insuportável! Estou de mau-humor, reclamando de tudo, preguiçosa, e às vezes me recuso até a levantar do sofá, alegando uma dor de cabeça, para não ter que encarar o trampo sozinha.

    E o pessoal não perdoa, está fazendo a maior bagunça. A festa rolando a noite toda, o bar repondo os copos de bebida sem trégua, aperitivos, jantar e até café da manhã amontoando. Alegria total e eu aqui, sozinha, cabisbaixa, só pensando no que viria depois, se você estivesse comigo.

    Tremo ao pensar no resultado: aquele monte de copos para lavar, roupa para colocar na máquina, banheiro cheio de areia para limpar… Como posso encarar tudo isso sozinha?

    Me sinto órfã quando você não está comigo! Como pude esquecer você, meu parceiro fiel, meu par de luvas de borracha?!

  • Vira-lata procura homem de raça

    Vira-lata de estirpe procura ser humano de raça. Pode ser branco, negro, amarelo, vermelho, azul, não importa. A “raça” que realmente conta para um autêntico vira-lata como eu é a fibra, o caráter e o afeto que me garantem perfeita harmonia para os próximos 15 anos. 

    Aviso que sei muito pouco de meus ancestrais. Posso ter sido gerado de um cruzamento de pastor alemão com rottweiler, de labrador com boxer ou de beagle com yorkshire. Ou, mais provavelmente, de um cachorro de raça indefinida com uma cadela de raça ignorada. Isso importa? Sim, se você se preocupar mais com a árvore genealógica do que com a índole.

    Esclareço que sou um vira-lata “raçudo”. Fiel, obediente, amoroso, posso dar minha vida para proteger meu ‘dono’, ou melhor, meu companheiro. Qualidades que você dificilmente vai achar num humano, seja de que raça for.

    Mas isso não me torna especial ou de elite. Sou apenas um cão de rua, marginalizado pela sociedade assim como os mendigos, os poetas e os que lutam por um mundo melhor para pessoas, plantas e animais. Há milhares como eu, largados à própria sorte, expostos em feiras de adoção, cedidos gratuitamente a alguma alma caridosa que possa lhe oferecer um lar. Tão iguais na condição aflitiva, mas com cores, tamanhos e aspectos bem distintos para agradar (ou desagradar) todos os gostos.

    Ignorados pelos bacanas que não vacilam em desembolsar 20 mil reais para ter um cachorro de raça pura ou “pedigree”, seja lá o que isso signifique.  Querem um bichinho de estimação para ostentar suas virtudes congênitas a vizinhos e parentes. Exibi-lo orgulhosos como um item valioso de seu patrimônio assim como seu carro importado ou sua bolsa de grife. Escolhem suas companhias como um vinho num cardápio. Criam cachorros como crianças mimadas, entulhando-os com roupas de frio, brinquedinhos caros, ração importada, spas e outras frescuras. Oferendas que o tornam um cão obeso, acomodado, egocêntrico, vaidoso. Quase como um humano padrão. Gente que não se furta a prover toda espécie de paparicos a seu pet, mas não tem “raça” suficiente para abrir mão de uma migalha de suas posses para auxiliar um semelhante necessitado, abandonado como um cão sem dono, matando cachorro a grito.

    Imaginam poder combater a monotonia de sua vida enfadonha cercando-se de cachorros customizados. Ao sentirem-se em depressão e vítimas de outras patologias da “raça humana” clamam a companhia terapêutica de um cão. Desde que “de raça”.

    Não entendo o comportamento desses humanos desumanos que se dizem com “consciência social”, revoltam-se com o flagelo dos refugiados e de crianças famintas. Ficam com olhos marejados e o coração apertado ao assistirem injúrias cometidas por seres humanos contra seres humanos ou contra animais maltratados. Indignam-se com o racismo e a discriminação. Mas na hora de escolherem um companheiro, exigem certificação de procedência genética…

    Gente assim eu dispenso, muito obrigado. Prefiro continuar livre e solto, um vagabundo sem dama, perambulando pelas vielas da periferia e das pequenas cidades, fugindo da carrocinha e da hipocrisia, junto com outros da minha “raça”.

    Animais não têm preconceitos nem cometem crueldades. Cães ‘de raiz’ como eu só querem viver e deixar viver, ser felizes e levar felicidade àqueles que os acolhem.

    Não tenho grandes exigências, sou de fácil convivência, inteligente, aprendo regras com facilidade e ajudo a proteger a casa de inimigos e de tristeza. Estou à procura de algum humano com bastante raça e com qualidades nobres como as de um vira-lata para iniciarmos uma amizade duradoura e gratificante para nós dois. Mas não estou à venda. Basta me levar para casa.

  • Calendário

    E lá vamos nós para mais um dos dias “disso” ou “daquilo”, que não conhecíamos, mas que brotam do calendário com a maior certeza.

    É dia do beijo, dia do abraço, dia do irmão, dia nacional do homem (15 de julho).

    Há dias que eu aplaudo.  Sem trocadilhos. Entendo que são mesmos necessários, que devem estar marcados nos calendários, como uma forma de lembrar a importância do que se comemora. 

    Dou como exemplo o dia 13 de novembro. Adivinhem de que é? Dia Mundial da Gentileza!

    Sim, e gentileza precisa ser comemorada, lembrada e, sobretudo, praticada.

    O bordão “gentileza gera gentileza” precisa ser real, devia mesmo circular entre as pessoas. Podia “pegar”, como se pega resfriado, bastava passar perto, estar no mesmo ambiente.

    Exagerei? Pode ser…

    Retrocedo. Serei gentil, com minhas ideias…

    De todo modo, penso que a gente devia contabilizar, anotar, conferir as demonstrações gentis. E copiar sim, imitar, fazer igual, introjetar, tornar um hábito. 

    O mundo ficaria bem mais ameno, a hostilidade seria a exceção, e quem sabe o “dane-se” entraria em extinção.

    Então, senhores, vamos proclamar mais o que é ameno ao espírito, o que nos dignifica como seres humanos e nos coloca na dimensão de pessoas afáveis e cordiais.

    Eu tenho certeza de que essa prática tem o poder de desarmar muitos gatilhos…

    Ahhh, em tempo: hoje, 26 de julho, é o Dia dos Avós.

    Sendo assim, caro leitor… receba o meu cordial bom dia!

  • Solecismo amoroso

    – Eu lhe gosto.

    – Eu gosto de você. 

    – Hem?!

    – Eu também gosto de você, ora.

    – Está me corrigindo?

    – Corrigindo como?

    – Você usou o verbo diferente. Era para ter dito “Eu também lhe gosto”, ou coisa parecida. Mas me corrigiu: “Eu gosto de você!”. Disse tudo certinho.

    – Nem pensei nisso.

    – Lhe incomoda eu falar errado? Você é capaz de amar uma mulher que não sabe português?

    – Que é que isso tem a ver?

    – Tudo. Eu fui sincera, disse o que naturalmente sentia. Não pensei na forma. Quem é que pensa na forma numa hora dessas? Falei que gostava de você, ou melhor, que lhe gostava. E você nem reparou no que eu disse. Reparou no meu verbo errado.

    – Pelo amor de Deus, não dramatize. Eu repeti o que você tinha me dito, só que de um jeito um pouco diferente.

    – Mais correto. Sem erro – como é que se diz? – de regência. Ou de concordância, sei lá.

    – Regência.

    – Está vendo? Me corrigiu de novo. 

    – Você não perguntou? Respondi à sua pergunta. Sei que é de regência por acaso. Foi uma das poucas coisas que aprendi no colégio. Tinha regência em Português e em História. Em Português a regência era do verbo e de certos nomes, em História era de Feijó. Você não lembra? Diogo Feijó.

    – Pare, por favor. Você parece que não percebe a gravidade do que aconteceu. A partir de hoje, a partir desta conversa, alguma coisa se partiu entre nós. Definitivamente. Perdi a espontaneidade, jamais serei a mesma. Vou ter que vigiar minhas palavras, senão elas não chegam até você.   

    – Fale como achar melhor, ora. O importante é o que se diz, e não…

    – Mentira… E ainda por cima mentiroso! Como pude gostar de alguém que está mais interessado na qualidade do meu português do que na sinceridade do meu afeto? Pra você não importa o que eu sinto, e sim a forma como devo expressar minhas emoções.  

    – Você está exagerando, está sendo ridícula.

    – Ridícula? Ah! Primeiro ignorante, agora ridícula. O que mais? Posso ser tudo isso, mas não sou insensível. E sabe de uma coisa? Nosso namoro não daria mesmo certo.

    – Mas íamos tão bem…

    – Até você me corrigir em hora tão imprópria. Que marido você ia dar! Agora corrige minha linguagem, depois certamente vai querer interferir nas minhas roupas, nos meus hábitos, nos meus amigos. O casamento com você seria uma eterna sabatina, um interminável exame de seleção. Eu ia ter que me policiar dia após dia para não ser reprovada. 

    – Mas que loucura!

    – Ignorante, ridícula, e agora louca… Basta! Não quero ouvir mais. Adeus.

  • ESCOLHAS

    Pode-se não dizer nada (e isso talvez não seja tão difícil). Pode-se guardar as palavras, esquecer os substantivos, calar os adjetivos, ignorar os verbos. Pode-se não pensar no toque de peles mornas nem em anoiteceres compartilhados, muito menos em entardeceres com cheiro de comida. Pode-se não intuir nem imaginar. Pode-se tirar tudo da frente dos olhos: os relógios, os mapas, as geografias, as histórias, as memórias, o passado e o futuro. Pode-se não ler livro algum. Pode-se ler todos os livros. Pode-se queimar todos os livros do mundo. Pode-se cancelar os nomes e as coisas, confundir as línguas, negar as emoções, camuflar as lágrimas, dissimular os sorrisos, refrear os abraços, interromper os diálogos, prantear ou não os mortos. Pode-se fingir que a lâmina não fere rente.

    Pode-se fazer tudo isso e segurar as consequências nos dentes. Ou então se sentar na frente de uma montanha, passar a vida contemplando-a e morrer lentamente de morte natural.

    Está posta a escolha.

  • Aprendizado à beira-mar

    A primeira vez que vi o mar foi um acontecimento. Foram horas — acho que oito, talvez dez — de Belo Horizonte até Marataízes, com aquelas paradas que hoje soariam enfadonhas, mas que na infância tinham gosto de festa: milho cozido na beira da estrada, mingau de milho fumegante, almoço simples com farofa crocante. Eu achava tudo aquilo uma delícia.

    Mas o verdadeiro banquete foi quando o mar apareceu. Imenso, azul, impossível. E justo no instante em que meus olhos de menino se perderam naquele horizonte de sal, tocou no rádio: “Não adianta fugir, nem mentir pra si mesmo agora… há tanta vida lá fora… e aqui dentro, sempre… como uma onda no mar.” Lulu Santos e Nelson Motta. Não foi no primeiro dia, foi no segundo. Mas foi como se fosse a primeira vez que eu visse qualquer coisa no mundo.

    Eu caminhava na areia, jogava peteca com uns meninos do outro hotel, deixava as ondas molharem meus pés num vai e vem que era quase música. Tudo parecia fácil: rir, correr, perder a peteca, achar de novo. Não havia sombra de desafio — era só o sol, o sal, e aquele sentimento de que o mundo estava pronto para mim.

    O mar era novidade, força, descoberta. Especialmente naquele momento em que, num descuido meu, ele levou um pé de chinelo embora.

    Eu desconhecia a força das ondas. Só conhecia as águas paradas da piscina e da lagoa — nenhuma delas tinha surrupiado meu chinelo daquele jeito, com tanta facilidade e sem aviso.

    Eu era um garoto que brincava sem camisa na rua, fazia do chinelo Havaiana a trave do gol. Ali, na areia, de pé e de sunga, eu ia para lá e para cá — era toda novidade para mim.

    Mas havia outra novidade ali — as meninas. Elas andavam por todo lado, de biquíni, com corpos molhados e cabelos escorrendo do mar. E como eram lindas.

    Comecei a andar livremente até a padaria da esquina, comprar picolé e voltar sozinho para o hotel.

    Foi quando, olhando com atenção, reparei em dois meninos cercados por várias meninas sentadas numa escadaria. Eles estavam num hotel vizinho, bem ao lado do nosso.

    Falavam com intimidade, riam, brincavam — naquela época, as meninas só falavam comigo na minha imaginação, em cenas e diálogos que eu mesmo inventava.

    Até que um dos meninos me viu voltando da padaria e veio andando até o meu lado:

    — Cara, as meninas pediram para te chamar. Tá só a gente lá, tem menina sobrando.

    — Depois eu vou.

    Não fui. Depois, passei por lá, vi aqueles meninos namorando as garotas e lembrei do convite. Não entendi por que, na vida, a gente tem tanto medo de coisas boas.

    Ao escrever esta crônica, já homem feito, aquele menino que fui me sussurra algo: deixar que os outros gostem da gente é tão difícil quanto encontrar alguém.

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