Não deixei de brincar pelo medo de cair, nem de sorrir depois de receber um “carão”.
Não deixei de assistir a desenhos por perceber que estava perdendo tempo em frente à TV.
Não deixei de falar com meus pais sobre como foi meu dia, mesmo que para eles fosse apenas um dia qualquer.
Não deixei de me enturmar, mesmo percebendo que não era bem-vinda.
Criança não tem filtro. Por vezes, ouvimos que as crianças são páginas em branco que precisam ser preenchidas com uma vida idealizada pelos pais. A gente só entende o “ser criança” observando uma.
Na beleza da sua inocência infantil, a gente é quem aprende, em vez de ensinar.
Embarquei na decoreba das tabuadas e na escrita torta no quadro de giz. Mal sabia eu que, aos pedidos de biscoito recheado e à vontade de não mais largar minha amiga da escola, não existia comparação nem competição; a gente apenas queria passar de ano e desejava que o recreio não acabasse.
A palavra futuro era um palavrão que aparecia no livro de português nas conjugações dos verbos.
Tínhamos de distinguir bem o que era o futuro do pretérito, ou futuro do presente. E o que dizer do pretérito mais-que-perfeito? Sempre achei bonita essa composição de palavras, mas, ao pé da letra, existe um passado mais-que-perfeito?
A vida podia ser simples, mas profunda. Não havia artifícios; apenas tudo acontecia naturalmente. O medo vinha, mas bastava fechar os olhos bem forte e se cobrir com o lençol para que tivéssemos um mundo só nosso, na nossa imaginação fértil.
Deus quis que a fase mais feliz fosse a infância, para que entendêssemos sobre a pureza, dependência, restauração, lealdade e amor incondicional.
Hoje não é um dia de tributo ao Peter Pan, mas quem sabe a gente aprendeu mais na idade em que tudo era uma brincadeira, onde nada era tão sério, a não ser o amor desmedido dos pais e a preocupação deles ao perceber que não íamos bem na escola, sabendo que só queríamos brincar e deixar o dever pra lá.
Em 2023, o Crônicas Cariocas tirou um período sabático. No mesmo ano, praticamente no mesmo período, foi a minha vez, o momento de – mergulhado (ou afogado mesmo) em outras páginas da vida – me distanciar um pouco dos periódicos. Como um legítimo casal, demos uma pausa e saímos juntos para o recesso.
Porém, o tempo passa e é necessário calçar a botina outra vez. Em nova situação, retorno à cronicidade que estava de férias e da qual sentia falta. E, tenho certeza, foi com saudades dos seus autores e leitores que o portal voltou, de nova cara e a todo vapor. Saudades que leitores e escritores também nutriam pela revista, que, completando 18 anos, ostenta o título de “maior portal de literatura do Brasil”. Não é para qualquer um.
E, dessa forma, volta o Crônicas, sempre carioca e, mais ainda, brasileiríssimo. Como tal, sinto-me em casa. Afinal, torcedor do Vasco, amante de samba, leitor de João do Rio e cronista, tenho um quê de carioca, é ou não é? Assim como o Crônicas Cariocas tem uma boa dose de paraibano, a começar pelo seu editor, passando pelo mestre Chico Viana. Com estes e com outros tantos, reencontro-me nesta bancada.
Carioca, paraibano, pernambucano, mineiro, paulista, um pouco disso tudo há. E o que se procurar, achará. Pois o que ele mais tem – e toda boa crônica é assim – é de universal. Em cada esquina do texto, topamos com todas as esquinas do mundo e com todo o coração que pesa na terra. Uma vez que a crônica é universal, daquela universalidade da experiência humana, que se encontra e é acrescida em cada linha lida. Aqui, ali ou acolá, que a crônica esteja em nossos peitos e mentes, é aí onde ela deve estar.
Mas deixemos de divagação, rufem os tambores. Cidadãos do mundo, amantes das letras, vivos e viventes, avisem a todos ou a ninguém: estamos de volta.
Está se aproximando o Halloween e, com ele, o momento de brincar com algo que nos assusta. Mesmo que não se leve nada a sério, entrar na brincadeira, se fantasiar, é ter contato com figuras fantasmagóricas, com o objetivo de causar medo. Assumir a identidade dessas criaturas é uma forma lúdica de extravasar a face maligna que, de certa forma, está presente em todos nós. Aquele território obscuro do mal que nos habita.
Me chama a atenção que as representações figurativas do mal venham, na maioria das vezes, associadas à morte. Talvez porque, na cultura ocidental, consideramos morrer algo negativo, a passagem para o indefinido. Seja para os que acreditam que não há nenhum outro plano de existência depois da morte, seja para as pessoas com alto grau de crença na vida eterna, ou mesmo entre os que acreditam na reencarnação, não há certeza do que nos espera do outro lado.
Não por menos, o Dia das Bruxas antecede o Dia dos Mortos, como se a brincadeira de se vestir de alma penada por um dia fosse uma forma de se preparar para encarar a passagem para o outro lado, no dia seguinte.
Nessa sequência comemorativa do final de outubro, o Dia dos Mortos é reverenciado com visitas aos cemitérios, e outros rituais. As pessoas reagem de diferentes formas à perspectiva da morte: algumas a encaram de uma maneira suave e natural; outras se apavoram, não podem nem ouvir falar nessa palavra; e há aquelas que cultuam esse momento, seja de pessoas próximas ou mesmo desconhecidas e, como carpideiras, aproveitam para liberar lágrimas de outras emoções reprimidas.
Sem entrar no mérito de qual seria a melhor maneira de lidar com a passagem para a morada eterna, creio que qualquer pessoa evita pensar em quão próxima ela está. Por isso mesmo, ao ler esse “convite” colocado no portal de um cemitério, dei uma risada, confesso, um pouco nervosa.
No diálogo acima há um jogo de palavras que se apoia na homonímia da palavra “sola”. Ela é verbo e substantivo. Significa, no primeiro caso, o ato de “executar um canto ou solo”. E no segundo, a “sola do sapato”.
O jogo de palavras só foi possível graças ao emprego do verbo “fazer”. Ele significa “produzir, confeccionar” no que diz respeito ao ofício do sapateiro (“sola”, ou “solado”, é mesmo o que o sapateiro faz). No que tange à atividade do músico, “fazer” não tem sentido próprio; substitui o verbo “solar”. Ou seja: é um verbo vicário.
Vicários são os termos que aparecem no lugar de outros. Pronomes, numerais, advérbios (sim e não) e o verbo “ser” também desempenham esse papel. Veja alguns exemplos: “Pedro desistiu de concorrer a uma vaga para medicina. Ele não tinha esperança de passar”, “Veio acompanhado de um irmão e um primo; o primeiro era mais educado do que o segundo”, “Você gosta de cinema? Sim (ou seja: gosto)”, “Se desistiu, foi porque não teve o estímulo da família (quer dizer: “desistiu porque não teve o estímulo da família)”.
O verbo “fazer”, seguido ou não de pronome, pode substituir qualquer verbo de ação da língua portuguesa. Uma pergunta como “O que você faz?” admite como respostas frases do tipo: “Estudo”, “Construo prédios”, “Organizo eventos” etc. “Fazer” toma o lugar de todas essas ações.
A amplitude semântica desse verbo pode levar a abusos no seu emprego. É quando, em vez de empregar uma forma verbal específica, usa-se “fazer” seguido de substantivo. Eis alguns exemplos retirados de redações: “Decidiu-se fazer a votação de duas propostas bem especiais”, “É preciso fazer uma avaliação honesta do que está ocorrendo no País”, “O governo precisa fazer uma sondagem na opinião pública”.
Devem-se evitar essas construções perifrásticas. O texto ganha em economia e expressividade quando elas são substituídas pelos verbos correspondentes. Por que não dizer “votar duas propostas” “avaliar honestamente” ou “sondar a opinião pública”? Além de ter mais energia do que o nome, o verbo designa diretamente a ação.
Há casos em que o conjunto “verbo mais substantivo” é pertinente (como em “fazer um levantamento”), mas na maioria das vezes ele afrouxa a expressão.
Dia 15 de outubro sempre foi uma data importante para as crianças, momento de demonstrar o carinho por seus mestres. Para alguns a escolha é simples, pois com pouca imaginação podem comprar um presente convencional que certamente agradará.
Não foi o caso de Lucas, não. Naquele ano, queria muito homenagear seu professor preferido, o de biologia. Um homem apaixonado pela profissão e que tinha uma vida bastante solitária depois da morte da esposa. Por esse motivo, o menino queria que o presente fosse algo que pudesse preencher esse vazio.
Depois de muito queimar as pestanas, teve uma ideia inusitada, certo de que ninguém na sala o superaria no quesito surpresa. Sabendo da predileção do mestre pelos répteis, começou a pesquisar como poderia presenteá-lo com um espécime que fosse adaptável ao ambiente doméstico. Inicialmente pensou em um jacaré, pois já tinha ouvido falar de pessoas que criam crocodilianos em tanques na residência. Como não sabia se ele teria espaço para um réptil desse porte, descartou a ideia.
Fez então uma lista de requisitos que o rep-pet deveria atender: não fazer barulho, não atacar, não defecar grandes quantidades, não precisar ser alimentado, não destruir móveis, não comer roupas ou livros e, por último, não necessitar de atenção permanente.
Passou dias pensativo, passando em revista a lista de répteis que tinha no material de aula e suas características. Sapos foram descartados direto por conta do barulho. Cobras nem pensar pela agressividade. Jabutis seriam simpáticos, mas têm que sernalimentados. A escolha estava difícil. Até que, finalmente, numa noite quente, ao olhar para a parede viu algo se movimentando. Com o coração aos pulos, percebeu que tinha encontrado o pet-rep ideal: uma lagartixa! Sim, perfeito!! Ela passou com louvor na prova, atendendo a todos os requisitos da lista.
Teve uma certa dificuldade em captura-la, mas com muito cuidado conseguiu encurralar a bichinha e coloca-la numa caixa com furinhos, para que tivesse condições de sobrevivência até o grande momento do presente. Ao entrar na sala de aula, Lucas teve até um lampejo de dúvida — Como seria a reação do professor a esse presente tão estranho?
Quando chegou sua vez, com uma certa ansiedade ofereceu a caixinha com os seguintes dizeres gravados em cima: Ao mestre, com carinho, um companheiro fiel para suas noites solitárias. Olhos mareados, o professor abraçou Lucas, sem conseguir proferir uma única palavra. Desconcertado, o menino voltou para casa sem saber se tinha atingido ou não seu objetivo.
Dizem que as lagartixas vivem por cinco anos, e pelo visto isso é uma verdade. Um dia, já formado, Lucas encontrou com o professor de biologia que, sorrindo, lhe disse: “Sabe que o Lucartixa continua me visitando todas as noites?”
Pai vamos fazer panqueca? A pergunta-convite me acendeu os olhos de alegria!
Chequei se tinha tudo que ela precisava. Sim, nada faltava. Peguei um avental para cada um e fomos à cozinha. Estava radiante, afinal cozinharia com uma de minhas filhas. Prometi ser seu assistente.
Abri o livro com a receita, ela se inclinou sobre a página, concentrada. Separou os ingredientes, testou os ovos (Não sabe como faz? Põe na água, se boiar joga fora). Se enrolou um pouco com aquela estória de colher de café, de sobremesa e de sopa.
Mas quando começou a operação percebi que estava diante de alguém de padrão muito elevado. A farinha foi medida no copo medidor com uma precisão de deixar qualquer câmera de trânsito, daquelas que flagram os infratores, no chinelo.
E os ovos? Nem na próxima encarnação serei capaz de quebra-los com aquela eficiência. Nem um caquinho da casca caiu no liquidificador.
Depois de misturar a massa – o que é mesmo homogênea, papai? – chegou a vez de aquecer a frigideira. De primeira, ligou o fogão com uma intimidade de chef de cozinha.
E veio o toque especial: com um gesto quase diáfano estendeu uma camada fina de massa na frigideira. Eu ali, em silêncio reverencial, porque as minhas são grossas como sola de sapato. Fez umas seis panquecas, fininhas, deliciosas. A irmã comeu, gostou, elogiou pouco, levantou da mesa e sumiu. Ficamos nós dois. A chef e seu assistente.
Eu comi encantado. Enebriado. Afinal, cozinhar com filha pré-adolescente não tem preço.
Já ela, compenetrada, comia avaliando sua obra recém concluída.
Quando terminou me mirou com olhar blasé e soltou: ficaram boazinhas. Eu prendi o riso.
Escrevo esta crônica pensando na razão de escrevê-la! Por que escrever uma crônica? De que me serve a crônica?
Mas qual seria a razão de todas as crônicas?
Dizem que a crônica é metida a besta porque ora é prosa, ora é poesia, ora é ensaio, ora não é nada…
Dizem os estudiosos que a crônica é o testemunho de um tempo, o registro dos homens e seus conflitos.
Dizem ainda que a crônica é o texto do dia, da linguagem do dia, das questões do dia…
Muitos concordam que a crônica está intimamente ligada ao calendário, aos fatos corriqueiros…
Mas, se for assim, a crônica nasce inevitavelmente velha, fadada ao nada, ao ostracismo. Como um número, um dia um mês, um ano…
No entanto, creio que a crônica é muito mais que o dia! Ela é uma voz, ou melhor, as vozes de todos os cronistas que, atentos ao mundo e aos outros, escrevem sobre o amor e a tristeza, sobre os sucessos e os fracassos, sobre a vida e a morte, o trânsito, a rua cheia e a rua vazia, o beijo dos namorados, os encontros e os desencontros, os sabores e os dissabores, o que é eterno e o que é finito, o que é sagrado e o que é profano, o que se usa e se diz e o que não se usa e não se diz…
O pequenino gesto de uma criança, uma nuvem no céu, o nascer ou o pôr do sol, a lua, as canções do vento e o vento das canções, todas, todas as sensações, o corpo suado de espanto, os olhos marejados de expectativas, ora concretizadas, ora destruídas…
A crônica é o estalo e o espasmo, a grande surpresa de estarmos aqui neste mundo!
A crônica é, em suma, o melhor texto para nos apresentar como somos, seres transitórios e contraditórios, mas cheios de ideias e talentos!
Por isso, quando as pessoas falam da crônica como um texto menor, elas estão enganadas, na verdade, ela, a crônica, é o maior dos textos justamente porque fala, de maneira simples, da nossa essência: a essência que reside nas pequenas coisas.
Então, respondendo ao que foi colocado no início deste texto, escrevo porque a escrita é a minha maneira de entender o mundo e a mim… Escrevo também porque, a despeito de todas as provas ao contrário, acredito no humano e sigo teimosamente nesta crença…
Esta a razão da crônica! Continuar acreditando, apesar de tudo…
O ressentimento nasce dentro da culpa que o indivíduo criou, em detrimento de algo que alguém pretensiosamente provocou para chegar em sua condição atual inaceitável. O mais difícil é entender porque isso não passa. A versão provável desse drama é a de que essa queixa se mantém porque ele terá que assumir que foi ele quem fracassou em algum momento, e não os outros que provocaram o problema.
A pintora Maud Lewis, foi retratada no filme “Maudie”, que narra sua vida de artista em Nova Scotia no Canadá, passada com muito sofrimento até sua morte aos 67 anos. Ela vivia com a tia que a tratava como inválida, não deixava Maud sair, era muito grosseira e a escravizava nos serviços domésticos. Maud então vê a oportunidade de se livrar dessa tia, quando encontra um anúncio em uma loja, para contratação de doméstica, e se candidatou para assumir os serviços a um homem rude, de poucos recursos, que veio a ser seu marido.
A artista se manteve pobre em grande parte de sua existência, e permaneceu em uma pequena casa ao lado do esposo.
Ela foi uma excelente pintora, porém, sua condição de saúde reduziu a mobilidade de suas mãos, que eram o principal instrumento nas pinturas. Sua mãe Agnes foi quem influenciou a menina a se apaixonar pelas artes desde cedo. Na infância, ela incentivava a filha a pintar cartões postais para vender no Natal. Mesmo com todo pacote de problemas, Maudi persistiu sem reclamar da falta de ajuda dos outros, muito menos culpar sua família pela genética complicada, e tampouco recriminou a Deus a dificuldade em subsistir. Ela conquistou um enorme reconhecimento entre os anos 1964 e 1965, quando foi destaque no Telescope da CBC-TV, tornando-se uma artista popular e amada, e muito conhecida por suas obras. Duas das pinturas de Maud foram encomendadas pela Casa Branca na década de 1970, durante a presidência de Richard Nixon, mas a artrite limitava sua capacidade em concluir muitas encomendas.
Quantas limitações você carrega que lhe mantém sem ação e com mau-humor frequente por não ter sido acolhido(a) de braços abertos pelo mundo?
Qual é o tamanho de seu ressentimento ao conhecer suas reais limitações que foram decididas e desenhadas ao longo de seu caminhar.
Assim como a literatura, alimente-se com a capacidade de observar o mundo a sua volta, do contrário, pode matar de fome sua alma.
É alarmante o número de conflitos que surgem em condomínios envolvendo cães. Situações de estresse são cada vez mais frequentes, principalmente devido à permissão de cães nas áreas comuns. As reclamações mais recorrentes envolvem barulho, cheiro, limpeza e a circulação dos animais nos espaços externos e nos elevadores. Por outro lado, também é inegável o direito à propriedade e à liberdade individual dos condôminos nas suas áreas privativas. Os cães são os que mais sofrem com essa falta de entendimento. É possível sanar a maioria dos problemas de maneira simples: o treinamento e a conscientização são as formas mais eficazes de amenizar conflitos e equilibrar as relações entre as espécies. Cão treinado não causa problema!
O que diz a lei sobre animais em condomínios
Em dezembro de 2019, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu que os condomínios não podem proibir os moradores de terem animais de estimação. No entanto, há situações em que a convivência com determinado animal pode se tornar inviável, e nesses casos, cada situação deve ser avaliada judicialmente.
Vale ressaltar que nenhum regulamento impede que os condôminos busquem suporte jurídico para contestar decisões. O Código Civil oferece respaldo para que essas situações sejam resolvidas de maneira justa e, sobretudo, de forma a garantir a segurança e o bem-estar de todos os envolvidos. A posse de um animal doméstico, sendo um direito individual, só pode ser contestada quando houver riscos comprovados à segurança ou à saúde da comunidade condominial.
Para resumir…
O que a lei diz sobre a presença de animais em condomínios? De acordo com o STJ, os condomínios não podem proibir a posse de animais de estimação. Entretanto, quando a convivência com um animal se torna inviável, o caso deve ser analisado individualmente ou na justiça. O bom senso e o diálogo devem ser praticados. Conversar sobre o comportamento dos cães com os donos pode ser o primeiro passo.
Algumas regras estabelecidas na convenção sobre cães em condomínios? Ter a obrigação de carregar os cães no colo, sem levar em consideração o porte do animal, e não permitir a entrada dos cães nos elevadores são regras questionáveis, mesmo que estejam em conformidade com a legislação vigente. No entanto, transitar nas áreas comuns sem coleira, deixar que os cães façam suas necessidades nas áreas comuns sem a preocupação de limpar ou não se atentar ao controle do barulho produzido pelos latidos e pela agitação dos cães são pontos fundamentais para a convivência em sociedade.
Relacionando com “O Treinamento Invisível”
No livro “O Treinamento Invisível”, Francci Lunguinho e Vladimir Lobato destacam que o treinamento de cães envolve não só a mudança de comportamento dos animais, mas também a transformação das pessoas ao seu redor. Assim como em condomínios, onde a convivência entre condôminos e animais depende de respeito mútuo e de regras claras, o processo de educar um cão requer disciplina, empatia e paciência. Em ambos os casos, é necessário criar um ambiente equilibrado, onde todos possam conviver de forma harmônica e respeitosa, cumprindo direitos e deveres.
Situationships, termo que entrou na moda por volta de 2017, vem ganhando cada vez mais espaço nos últimos anos. Ele se refere a relações que se baseiam em uma conexão emocional sem compromissos ou planos, sem rótulos.
O termo se tornou popular a partir do crescimento dos aplicativos de relacionamento, que introduziram o conceito de match. No entanto, esse tipo de conexão vai além de uma simples “ficada” ou encontro casual, pois existe uma ligação emocional e íntima entre os que dela participam, mesmo que de forma fluída e não permanente.
A possibilidade de relações intensamente mutáveis, como no situationship, remete ao conceito sociológico de modernidade líquida, desenvolvido pelo acadêmico Zygmunt Bauman. Sem me aprofundar no tema por ele desenvolvido, a ideia central do autor é de que a contemporaneidade vem transformando as relações sociais e interpessoais, em relações frágeis, fugazes e maleáveis.
No âmbito amoroso, elas se tornam susceptíveis a transformações rápidas e imprevisíveis, dando origem ao conceito de amor líquido, que é caracterizado pela fragilidade, pela falta de compromisso duradouro e pela busca constante por novas experiências e conexões.
Pensando em uma linha do tempo da vida amorosa, as relações fluidas parecem ser um caminho trilhado atualmente pelas duas pontas: as pessoas muito jovens e os que eu chamaria de muito adultos. Sim, pois a liberdade de não seguir padrões preestabelecidos torna esse modelo muito atrativo para as novas gerações, mas também vem ganhando espaço entre aqueles que já viveram relacionamentos mais sólidos e permanentes durante a vida e procuram, agora, alguma coisa mais “liquida”.
Na prática, por significar um envolvimento flexível e volátil, viver uma experiência de amor líquido não é para qualquer um. Se por um lado ele gera uma maior autonomia na relação, para quem não está preparado o amor líquido pode provocar uma sensação de insegurança e ansiedade, uma certa inquietação emocional e, a busca constante pelo par ideal.
Para não cair nessa armadilha, quem pretende se aventurar pelas trilhas do Situationship, como já cantou Gilberto Gil, tem que ter a alma e o corpo são. A condição pode ser resumida na sabedoria desse pequeno parágrafo de Fernando Pessoa (e quase sempre volto a ele):
“Enquanto não atravessarmos a dor da nossa própria solidão, continuaremos a nos buscar em outras metades. Para viver a dois, antes, é necessário ser um”.
Li agora a pouco, cinco minutos dentro do dia 1º de outubro, que ninguém pode ser preso no Brasil. Calma, não foi instituído nenhum perdão antecipado para crimes e criminosos e muito menos entramos no estado do “vale-tudo”. É só efeito da legislação eleitoral, cujos detalhes não sei nem conferi e se você que me lê estiver muito curioso vai lá e pesquisa, combinado?
Porque o assunto aqui é outro.
Bom seria se pudéssemos nos livrar dos grilhões antecipadamente.
As amarras da vergonha e do medo.
Não sentir culpa por nada.
Não evitar o ato pela mania besta de antecipar que pode dar errado.
Correr riscos, sim, porque o desconhecido nem sempre é ruim.
Andar de cabeça erguida sem temer o dedo acusador, a censura.
Expressar quem você é e o que deseja ser.
Não se envergonhar porque abriu a porta errada e ter coragem de dar um passinho para trás.
Suspirar profundamente ao invés de responder o que não merece resposta.
Afirmar que beber café em pé é melhor porque a bebida desce mais fácil.
Defender por menos de um minuto uma tese sem sentido, como essa aí de antes do café.
Mas não abrir mão da cerveja sem pressa, essa sim, sentada e em boa companhia.
Lembrar que nem sempre a solenidade combina com o vinho.
E que para quem gosta de cerimônia até copo da água deve ser tomado com mesura.
Que as coisas simples são boas porque são simples, mas um tantinho de sofisticação faz um bem danado também.
Por fim, tem sempre o ponto. Simples, de exclamação, interrogação ou de ônibus. Que marca um fim, como na ortografia, ou um novo começo, como no transporte.
Sou Cassionei Niches Petry, 45 anos (com corpinho de 44 e meio), trabalho como professor, pois nenhuma outra profissão me aceitou. Cabelos: ainda tenho, começando a rarear e clarear. Altura: alguma coisa entre 1,60m e 1,69m. Peso: entre 1kg e 105kg. Uso óculos de lentes grossas (que aumentam consideravelmente os números da balança), tenho miopia e um pouco de astigmatismo, os graus eu não lembro e não encontro a receita do oftalmologista, que ainda por cima escreveu com letra pequena, sacaneando o paciente. Quando nasci, a família morava num porão de um CTG, portanto vim ao mundo com o peso da tradição gaúcha sobre mim, mas bah!, logo me livrei, tchê!, e hoje sou um cidadão do mundo que nunca saiu da sua cidade, Santa Cruz do Sul, cidade inapropriada para um ateu viver. Tenho uma união estável com a mulher que me incentivou a continuar estudando e por isso me livrou de ser um rapper sem sucesso e ainda, o melhor, me deu uma filha, por sorte mais bonita e inteligente do que o pai.
Prato predileto: prato fundo, de preferência com bastante carne de churrasco. Gosto de ler livros, ouvir música lendo livros, assistir à TV lendo livros, comer lendo livros e navegar na internet em busca de livros. Escrevo algumas coisas que chamei de contos e romances e algumas pessoas acreditam que são mesmo, chegando a dizer que sou escritor e, como sou do contra, digo modestamente, “não, não, que é isso, sou só um escrevinhador”.
Queria era escrever crônicas de humor, como as de Luis Fernando Verissimo, Millôr Fernandes, Stanislaw Ponte Preta e Leon Eliachar, mas como não tenho esse talento, pratico o plágio descarado desses autores, sem a mesma qualidade, é claro (é agora que o leitor comenta, “não, que é isso, você tem muito talento”). Na política, sou um “em cima do muro” assumido, vendo os dois lados discutindo e jogando pedras uns nos outros, mas quem é atingido sou eu, por não ter lado (aliás, como sou barrigudo feito uma bola, tenho dois lados, o dentro e o de fora). Sou uma metamorfose ambulante que muda de opinião a todo o instante, mas não deixo de opinar democraticamente sobre as coisas relevantes do país, como por exemplo, se se deve pôr o feijão por baixo ou por cima do arroz e afirmo: é lógico que é por baixo, quem pensa diferente deve ser fuzilado ou enforcado.
No futebol, sou colorado não praticante, já assisti masoquistamente a todos os jogos do Internacional, mas hoje é mais emocionante assistir na TV de madrugada aos pastores da Universal exorcizando demônios. Já disse que sou ateu, mas tenho santos de devoção: São Kafka, São Cortázar e São Machado de Assis (este último é a prova de que santo de casa não faz milagre e que nascer no Brasil é uma merda). Tenho uma visão trágica e pessimista da vida, acredito que o ser humano não tem solução (inclusive eu, claro, pois sou um ser humano, até alguém me cortar e ver os fios e os mecanismos internos que me mantêm aqui), que não existe esperança (pelo menos não para nós, como escreveu Kafka, ops, São Kafka, amém) e não acredito e nem quero que exista vida além da morte (imagina ter que me aguentar a mim mesmo durante toda a eternidade). Por último, e não menos importante, quero ser cremando quando morrer e que minhas cinzas sejam jogadas no vaso sanitário ou no lixo mesmo, mas se eu fosse enterrado gostaria que estivesse escrito na minha lápide:
Se olham, se pressentem, se desejam, se acariciam, se beijam, se desnudam, se respiram, deitam juntos, se cheiram, se penetram, se chupam, se demudam, adormecem, despertam, se iluminam, se apalpam, se mastigam, se babam, se confundem, se encaixam, se machucam, se apertam, se beliscam, estremecem, se tateiam, se grudam, desfalecem, se repelem, se chutam, se provocam, se irritam, se cospem, se esbofeteiam, se enlaçam, se apartam, se procuram, se lambem, se mordem, se ferem, se apressam, se perfuram, se injetam, desmaiam, revivem, resplandecem, gritam, se querem, se perseguem, se inflamam, enlouquecem, se abrem, se derretem, se soldam, se incendeiam, se maldizem, se xingam, mentem, sentem cãibra, torcicolo, tendinite, estrebucham, arregaçam, empinam, praguejam, se odeiam, se matam, ressuscitam, se buscam, se esfregam, choram, se acalmam, respiram e se amam.
Qual é o tamanho de seu universo, onde se encontram os que você se relaciona e mantém a memória de seus antepassados.
Ele cabe em sua gaiola mental que demonstra a frágil tentação em imaginar uma possibilidade de liberdade. Por vezes, nos faz ter medo em avançar para novos rumos, mas que durante o caminho em verdade voz digo, a única coisa que devemos temer é o próprio medo. Assim surgem expressões no rosto como símbolo de uma trajetória, e como o tempo é o tecido de nossas vidas, o desenho em sua face demostra a diferença entre a experiência e a vivência.
A experiência é aquele momento em que você compartilha através de uma história bem contada e que deseja que outros saibam os detalhes que lhe marcaram.
A vivência é nossa existência que acontece todos os dias no mesmo instante que respiramos para nos manter ainda por aqui.
A psicanalista Maria Rita Kehl em seu livro “O Cão e o Tempo”, escreve para nós leigos no pensar, que aquilo que abate o depressivo é a falta da falta, podendo ser entendida pela inexistência do que fazer, ou uma vida vazia, que não foi preenchida com alguma atividade útil e prazerosa.
A poeta Anne Sexton confirmou isso quando escreveu que suas sessões de psicanálise estavam servindo para ocupar seu vazio de mulher “selvagemente só”. Ela é uma das mais expressivas escritoras dos EUA, e sua estreia no Brasil se dá num momento em que proliferam obras de qualidade sobre a relação dos escritores com a saúde mental.
Rosa Montero escritora espanhola publicou “O Perigo de estar lúcida” onde descreve a ligação entre a criatividade e aquilo que chama de loucura, e que também se inclui nessa mesma cesta de neuroses, descritas nesse pensar sobre o funcionamento da mente dos artistas.
Outros autores se dedicam a falar sobre suas demências, como o francês Emmanuel Carrére em seus livro “Ioga” escrito na temporada que o autor se retirou em uma instituição psiquiátrica.
Assim como os segredos que se espalham em segredo, o livro “O que eu gostaria que as pessoas soubessem sobre demência” não é uma tese com estatística para comprovação, é a pura experiência de vida da escritora americana Esmé Wang.
Como tantos outros escritores especiais, lembrei de um muito espirituoso que nos deixou um recado importante:
“Embora ninguém possa voltar e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora, e fazer um novo fim”.(Francisco Cândido Xavier)
Silas e Douglas eram escritores iniciantes. Assistindo a uma conferência num evento literário, ouviram do palestrante que dois importantes autores portugueses haviam decidido escrever um livro juntos: o primeiro redigia um trecho, o outro continuava a história. Silas e Douglas resolveram reproduzir essa ideia. O resultado da experiência pode ser conferido a seguir:
“Ulisses jamais foi visto na companhia de outras pessoas. Nunca cumprimentava os vizinhos, não tinha amigos, parentes nem animais de estimação. Também não tinha emprego. As pessoas comentavam que vivia de herança. Morava na última casa da vila fazia pelo menos quarenta anos. Dona Mirtes, atualmente com 90 anos de idade, era a única moradora do lugar mais antiga do que ele. Quando uma loja de roupas femininas foi inaugurada nas redondezas, Ulisses passou a postar-se diante das vitrines por horas, queria examinar cada detalhe das roupas expostas. Se alguma vendedora vinha ao seu encontro oferecendo ajuda, ele a repelia com um gesto rude”.
O pessoal da loja até chegou a chamar a polícia. Só que Ulisses não estava cometendo crime algum, e nada pôde ser feito contra ele. Esse doido espanta os fregueses, alegou a gerente. Em vão. Um dia, Ulisses passou a fotografar os modelos. Um mês depois, na véspera do dia de finados, rendeu as vendedoras com uma faca e exigiu que elas o deixassem entrar na vitrine. Lá dentro, começou a estrangular um manequim de cabelos ruivos vestido com um longo vermelho. Jogou o manequim no chão e pisou em cima dele com decisão ao mesmo tempo que gritava: ‘Não aceito pessoas falsas! Pessoas falsas não merecem viver! Abaixo os simulacros!’ Nesse dia, Ulisses finalmente acabou preso.”
Lau Siqueira é um velho conhecido da poesia paraibana, da brasileira e deste portal. Gaúcho de nascimento, é, desde 1985, também um tanto paraibano. Nascido em Jaguarão, integra, como legítimo representante, o cenário da poesia paraibana. Entre outros livros, é autor de: O inventário do pêssego (2020), A memória é uma espécie de cravo ferrando a estranheza das coisas (2017), Livro arbítrio (2015) e Poesia sem pele (2011). No dia 27 de novembro, em João Pessoa, Lau Siqueira lançou Horizonte mirado na lupa: cem poemas contemporâneos da Paraíba (Casa Verde, 2022), livro organizado por ele. Com 50 autores, a obra – que ainda conta com ilustrações de Flávio Tavares – apresenta uma amostra do que de melhor vem sendo produzido na Paraíba em matéria de poesia.
A partir de 12 perguntas, batemos um papo com ele acerca dessa antologia e da poesia paraibana.
1 – Primeiramente, gostaria de saber como surgiu a ideia de organizar uma antologia da poesia paraibana e quando se iniciou o trabalho de pesquisa que resultou nesse livro.
Há uns dois anos estou pesquisando para um projeto que eu chamo de Beraderos. Poetas que nasceram na Paraíba e que por diversos motivos foram morar e fizeram suas carreiras literárias fora. É o caso de José Chagas, que nasceu em Piancó e foi morar no Maranhão. Outro nome é o de Zila Mamede que nasceu em Nova Palmeira-PB e desenvolveu sua carreira em Natal, onde é muito reconhecida. Alex Polari, Milfa Valério, Leonardo de Almeida Filho, Carlos Moreira, Franklin Capistrano e muitos outros. Todavia fui atropelado por um convite irresistível. Visando o Mulherio das Letras que aconteceria em João Pessoa, a editora Casa Verde (da Laís Chaffe), me convidou para organizar uma antologia de poetas do RS e da PB. Isso foi lá para junho ou julho, não lembro bem. Mas o tempo era curto e só seria possível organizar um livro com poetas da Paraíba e foi o que fizemos. Desde então trabalhei duramente. Li e reli os livros que tenho. O trabalho foi facilitado pelo fato de possuir livros de todos e todas que haviam publicado e ainda acompanhar publicações diárias de algumas pessoas nas redes sociais. Foi uma pauleira, mas conseguimos um resultado que considero bom, mas sabendo que precisa ser ampliado. Nenhum olhar sobre a poesia pode ser definitivo, sob pena de cometermos erros imperdoáveis.
2 – Diante de um número grande e variado de autores e poemas disponíveis, quais foram os critérios utilizados para a seleção?
O principal critério diz respeito ao cenário atual da poesia paraibana. Tentei uma leitura que extrapolasse os limites geográficos. Fomos um pouco mais além. Buscamos o que eu chamo de “ambiente poético” do estado, onde encontramos poetas que nasceram aqui e vivem fora, nasceram fora e vivem aqui e até poetas que em algum momento moraram aqui e contribuíram para a cena poética local, como é o caso de Inês Monguilhot e mais ainda de Eliane Potiguara que não nasceu nem morou aqui, mas sua ancestralidade está no nosso Litoral Norte. Eliane não é paraibana porque sua família foi expulsa da terra antes do seu nascimento. Achei que estava na hora de devolver sua cidadania roubada. É uma homenagem para uma mulher indígena que lutou e venceu o permanente genocídio contra seu povo. O olhar para a diversidade foi o critério central e a partir daí buscamos o que nos parece representativo na cena atual, sabendo que se tratava de um universo bastante amplo e que essa seleção não se esgotaria num único livro. Na verdade, achei que seria necessário começar um mapeamento editorial da produção paraibana. Enfim, uma “obra aberta” que se permite e se propõe inconclusa. Um dos critérios foi ter livro publicado em mãos. Eu frequento lançamentos, compro livros. Pesquiso permanentemente. Não busquei a rigidez, mas o rigor que nos traz a diversidade da produção real. Aquela que não pode nem deve ser silenciada.
3 – Pelo exposto na apresentação e pelo que encontramos ao longo da obra, vemos que houve grande preocupação com a questão da representatividade. Este é um quesito que vem sendo bastante debatido no meio literário dos últimos anos, com posições diversas em torno dele, como você vê essa questão?
Exato. Esse debate ainda provoca algumas turbulências em alguns momentos. A meu ver são turbulências totalmente inexplicáveis porque a seara da literatura é um campo aberto para o debate. O olhar crítico é sempre necessário. Se há, por exemplo, uma literatura negra na Paraíba e não é de hoje, precisamos entender que segmentar é reduzir. Afinal, a poesia paraibana e brasileira é negra, indígena, cigana, feminina, masculina, trans, etc. A literatura contemporânea da Paraíba é de quem está produzindo. A realidade mudou, o mundo mudou. Se você observar duas das antologias mais representativas, a da Geração 59 e da Geração Sanhauá, verá que são marcos importantes, mas são antologias de poetas, homens brancos majoritariamente. Dessas duas, apenas a de 59 tem a presença de uma mulher, Liana de Barros Mesquita. Hoje isso não é mais possível. São muitas as poetas e “poetos” ainda jovens que já começam a publicar seus livros, a exemplo da Moama Marques, da Jennifer Trajano e da Aline Cardoso, por exemplo. São vozes poéticas das mais diferentes vertentes que desaguam no cotidiano da produção paraibana todos os dias.
4 – Essa antologia não é apenas de poetas paraibanos, mas de poetas paraibanos contemporâneos. Qual a importância de ler os contemporâneos?
Existem alguns mitos em relação à poesia. Dizem que ninguém lê poesia. Todavia em 2007 a pesquisa Retratos da leitura no Brasil aponta a região do Pajeú uma região onde a poesia é mais popular que livro religioso. Quando a pessoa viaja pelos sertões, percebe que isso não se limita ao Pajeú. A Paraíba é um estado de poesia. O Nordeste todo é poético. A poesia contemporânea neste primeiro centenário da Semana de Arte Moderna, nos parece que está sendo redescoberta. São muitos autores e autoras publicando no estado inteiro. No mais a poesia é sempre uma descoberta. Ninguém é obrigado a ler poesia e principalmente poesia contemporânea. Todavia, o prazer da descoberta de versos que nos causem algum impacto só a poesia contemporânea tem. Os clássicos são os clássicos. Ninguém pode ler ou deve ler apenas os contemporâneos. É necessário frequentar as tradições porque, na verdade, estamos sempre aprendendo a ler poesia. Às vezes de um mesmo poema extraímos diversas leituras.
5 – Entre autores nascidos na Paraíba, que moram no estado ou apenas viveram por um período nele, há algo em comum, o cenário poético paraibano. Esse universo da poesia paraibana é apenas uma amostra local da poesia brasileira ou apresenta algo próprio?
Eu vou mais longe. Acho que existem coisas em comum na Poesia de Língua Portuguesa de um modo geral. Até porque a poesia brasileira influenciou a poesia africana, por exemplo, e hoje bebe nas fontes africanas. Talvez mais que da poesia portuguesa. A riqueza da linguagem do povo nordestino é enorme, mas a maioria dos nossos poetas tem influências diversas e fazem parte em maior ou menor grau, do cenário atual da poesia brasileira. O que temos nesta antologia, por exemplo, vai do neobarroco ao cordel, passando pelo soneto e pelo verso branco que eu chamo de polimétrico – ouvi ou li de alguém e gostei do termo. Acho que o cenário poético da Paraíba não tem fronteiras, pois universalizou-se desde Augusto dos Anjos. É um estado de boa tradição poética. Terra de um poeta da dimensão de um Sérgio de Castro Pinto. Todavia acho que Zila Mamede, mesmo tendo vivido a cena potiguar, nasceu em Nova Palmeira e não devemos desistir de reconhecê-la como poeta paraibana porque ela é uma das mais importantes poetas brasileiras. A visão do poeta municipal, estadual e nacional é uma visão bastante ultrapassada. Toda boa poesia é universal e nascer em algum lugar significa nascer no mundo e viajar nas suas imensidões.
6 – A prosa paraibana também alcançou destaque nos últimos anos. Qual o lugar da poesia paraibana no conjunto da literatura produzida no estado?
Não digo que a prosa como um todo, mas o romance principalmente vem galgando espaços importantes no mercado. Isso com todas as limitações que este mercado oferece. Expoentes como Maria Valéria Rezende, Marília Arnaud, Bruno Ribeiro, mais recentemente, vem conquistando um bom espaço. Alguns poetas surpreendem, como Antônio Mariano que escreveu o excelente romance Entrevamento. Todavia a poesia corre numa outra direção. Não existe como comparar apenas porque o resultado comercial do romance é maior. A poesia não aceita nada senão o seu “deslugar” e a sua impermanência.
7 – Já foi muito comum escritores se referirem à Paraíba como provinciana na sua vida literária. Essa classificação é aplicável à realidade atual?
Moro na Paraíba desde 1985. Às vezes notei uma autoestima baixa por aqui, talvez até um certo provincianismo, mas um provincianismo cosmopolita. Diferente do provincianismo bairrista do Rio e São Paulo. A Paraíba pariu um dos maiores poetas de Língua Portuguesa, o Augusto dos Anjos. Temos atrasos imensos na política, nos costumes da classe média, mas nas artes sempre fomos vanguarda. Terra de Pedro Osmar e Unhandeijara Lisboa e Chico Cesar. Zé Ramalho e a psicodelia. Essa terra jamais será uma província até porque o eixo Rio/São Paulo quebrou na emenda faz tempo. Todo centro tem suas periferias e toda periferia tem seu centro. Em relação ao provincianismo o que eu acho é que existem pessoas provincianas, mas elas estão em todos os lugares.
8 – Além da diversidade étnica, de localidade e de gênero, encontra-se também grande variedade geracional. Vemos desde Sérgio de Castro Pinto, membro da Grupo Sanhauá, até autores que surgiram recentemente. De lá para cá, o que tanto mudou na poesia paraibana?
Sérgio é um mestre. Certamente influenciou e influencia todos os demais. Todavia, temos entre nós poetas da dimensão de um Chico Cesar que, logicamente, tem a sua música muito mais reconhecida que sua poesia, mas para além dos seus livros, suas letras também são pura poesia. Temos Braulio Tavares, Saulo Mendonça e um Amador Ribeiro Neto que certamente, enquanto professor do Curso de Letras da UFPB, ajudou na formação de alguns poetas que estão nesta antologia. O que mudou foi exatamente o alargamento das possibilidades e o aparecimento de poetas das mais variadas vertentes. O que mudou foi o mundo e a poesia veio junto. Por isso em 59 tínhamos apenas uma mulher na antologia e nesta temos a maioria, 26 ao todo. O que mudou é que a juventude indígena a partir da primeira década do ano 2000 foi fazer faculdade e agora está por aí recuperando a história oral das suas ancestralidades. O que mudou foi que a poesia negra aquilombou-se e hoje somos uma coisa só, densa, uma poesia que cresce aos olhos do Brasil.
9 – Hildeberto Barbosa Filho, certamente nosso maior crítico literário, estudando o itinerário da poesia paraibana, localizou quatro períodos referentes a ela. O último, iniciado nos meados da década de 1970, seria caracterizado, por um lado, pela preocupação formal e, por outro lado, pelo relaxamento e liberdade artística. A nova onda de autores e obras ainda se encontra nessa quarta fase ou estamos diante de uma quinta?
Hildeberto é um crítico literário militante. Estuda a poesia paraibana há anos. Não está nesta antologia apenas porque é analógico. Mandei o convite, mas ele deixou a resposta na caixa de rascunhos do seu e-mail. Outro dia numa entrevista para o Itaú Cultural respondi uma pergunta semelhante. Eu dizia que a poesia contemporânea é aquele silêncio antes da explosão. Marcelino Freire tem uma boa explicação para isso. Segundo ele, a literatura brasileira contemporânea é um liquidificador ligado. Ainda não é possível saber a vitamina que vai ser servida. Eu acho que a nova onda ainda não está se mostrando suficientemente incomodada para representar uma ruptura ainda que suave. Não acho que isso esteja posto. Ainda somos reféns das vanguardas sendo torturados pelo pau-de-arara do parnasianismo com o corpo cheio de vaidades inexplicáveis.
10 – Apesar de a literatura paraibana estar recebendo grande destaque, muitos autores seguem apontando dificuldades, principalmente editoriais e comerciais. Quais os principais desafios que a produção literária da Paraíba enfrenta hoje?
Os principais desafios têm a ver com os baixos índices de leitura e a ausência da literatura contemporânea nas escolas, não como imposição de um programa, mas como opção, como um cardápio para a juventude. Professores não leem, logo alunos também não leem, apesar de todo o benefício que a literatura oferece para a formação intelectual e profissional dos nossos jovens. Somente a literatura nos aproxima de um conhecimento fundamental que é o conhecimento da nossa Língua. As bibliotecas escolares, de um modo geral, são uma tragédia. Não se oferecem, quando existem, enquanto um lugar de fruição, de prazer. Geralmente é imposta como um lugar de castigo e isso afugenta o jovem da literatura e da leitura de um modo geral. O que me incomoda é aquela velha necessidade de ser reconhecido. Ser reconhecido por quem? Vida de poeta é dureza. Se estiver achando ruim, melhor fazer outras coisas. Poeta nunca terá vida fácil.
11 – Após ler, pesquisar e antologizar a poesia paraibana; o que você, ao mirar na lupa, vê no horizonte?
Eu vejo mais um ou dois volumes para poder dizer que temos finalmente um mapeamento da poesia paraibana contemporânea. Vou citar apenas alguns nomes que poderiam estar nesta antologia, mas que certamente estarão em outras. Daniel Rodas, Solha, Hildeberto Barbosa Filho, Luciana Queiroz, Dione Barreto, Violeta Formiga, Lúcio Lins, Marcos Tavares, Geraldo Vandré, Lucas Arroxelas (conhece?) e muita gente boa que está por aí. Aliás, já estou mergulhado em duas novas pesquisas. Uma delas para uma antologia do cordel contemporâneo da Paraíba e, talvez, um segundo volume para continuar mapeando a produção paraibana em toda a sua diversidade. A poesia contemporânea está em movimento. Estamos descobrindo bons poetas o tempo todo não há como colocar um ponto final nisso. Aliás, Amador Ribeiro Neto deve lançar em breve uma antologia da nova poesia paraibana.
12 – Você já ensejou a ideia de organizar outro volume com poetas paraibanos contemporâneos. O que podemos esperar desse projeto?
Eu sei que não vou conseguir organizar outra antologia sem mergulhar ainda mais na pesquisa. Espero conseguir fôlego para ir em frente. Não é fácil. Mesmo neste trabalho para o qual eu tinha um prazo determinado e curto, muitos nomes que eu gostaria de contar ficaram de fora. Eu só não lamentei porque não dei este trabalho por encerrado. Vamos continuar pesquisando, lendo a produção paraibana. Vamos ver como repercute esse trabalho e tentar uma nova publicação no próximo ano.
*Entrevista feita originalmente em Dezembro de 2022.
Joguei meus cadernos no lixo três semanas antes de saber que o concurso ia sair. Foram dois anos estudando, minguando as horas de sono e deixando o lazer para depois. Fumava uma carteira de cigarros por dia e isso era toda a minha diversão. O restante do tempo, ou trabalhava na loja ou estudava. Alguns amigos com quem saía me abandonaram, parece que desertei da vida ou virei um alienígena. Se pensar bem, no nosso país, quase todo mundo que estuda a sério é meio alienígena.
Sempre fui vidrado nos livros do Erich Von Däniken e confabular sobre os deuses astronautas é um dos meus assuntos preferidos. Eu gosto dessa coisa de alienígenas. Talvez pensar que exista algo mais inteligente que o homem (o que não é muito difícil) em algum lugar por aí, me faça ter um tantinho de esperanças de que a vida não seja só isso, sabe? Só esse negócio da realidade construí por boa parte da vida, que se resume a trabalhar, trabalhar, trabalhar, esperar ansiosamente o fim de semana, beber igual uma jamanta no cio para esquecer a semana ou para tentar transar, passar o domingo regado a chás e remédios, e recomeçar. Trabalhar, trabalhar, trabalhar, esperar ansiosamente o fim de semana, beber igual um jamanta no cio para esquecer a semana ou para tentar transar, passar um domingo regado a chás e remédios, e recomeçar.
Sim, estou generalizando e aumentando. Nem todo mundo bebia igual uma jamanta e quase ninguém transava, mas sempre estava no cio. Eu curtia essa vida, mas acabava arrependido no domingo, principalmente depois dos quarenta. Essa história de que os cinquenta são os novos quarenta, de que os quarenta são os novos trinta e assim por diante, vai fazendo a gente achar que é jovem para sempre e isso é absolutamente irritante. Gente jovem é chata e tem energia para fazer a sua chatice ser estrondosamente incômoda. Percebi isso quando estava lendo o Viagem a Kiribati, do Däniken, e o meu vizinho lavava a sua saveiro rebaixada com o som absurdamente alto, tocando uma música tão pornográfica que fiquei de pau duro. Aquilo era patético, principalmente porque eu tinha brochado umas duas vezes no mês anterior.
Na crise dos quarenta, comecei a pensar na vida e decidi que pararia de viver como um adolescente. Sim! Eu era o tio da balada que muito raramente comia alguém, mas que estava sempre lá, louco para gastar o dinheiro que os jovens não têm e pronto para qualquer parada, achando que essa fase nunca terminaria. A gente só enxerga o quão estúpida é essa situação quando a poeira baixa. Nessa época decidi que faria um concurso. Escolhi, comprei cursos, organizei meus horários, deixei as baladinhas, reduzi quase completamente as saídas para beber, me isolei, meti a cara nos livros, e o concurso não abria.
Estudava dia e noite, não tinha tempo para mais nada. Comecei a ficar mais triste, ou mais culto. No fundo, sem admitir, acho que sentia uma ponta de saudades do tempo em que saía toda semana e não me importava com nada. Por outro lado, não queria voltar para aquele estado. Vivia um estranho paradoxo, mas continuei estudando.
O concurso simplesmente não abria e, vez ou outra, batia a sede de uma cervejinha gelada e inflacionada numa balada sem graça com músicas horríveis, do lado de meninas desconhecidas e com idade para serem minhas filhas. Acho que isso vicia um pouco. Deveríamos talvez criar um grupo parecido com os AA para nos apoiarmos, poderia ser algo como o Tio Da Balada Anônimos ou coisa do gênero. No entanto, era melhor manter o foco no concurso de data indefinida. Ouvi várias vezes os professores dizendo para esperar mais um pouco e mais um pouco. Comecei a achar que só queriam o meu dinheiro. Talvez estivesse paranoico.
Uma noite calorosa de sábado, cansado de estudar, fui até um bar perto de casa, jurando que tomaria uma única gelada e voltaria. Feliz ou infelizmente encontrei alguns conhecidos que não via há muito tempo. Bebemos até amanhecer, rimos muito relembrando histórias, falamos de futebol, mulheres e outras bobagens de gente bêbada. Que saudades. Nem percebi o tempo passar e aquilo foi realmente relaxante. Meus pensamentos rondavam a desistência e acabei diminuindo as horas de estudo. Parei de frequentar as aulas e de quando em vez dava uma conferida nas matérias em casa. Na verdade, só pensava no concurso quando limpava a casa e via os livros e cadernos um tanto quanto empoeirados em cima da escrivaninha. Fui aceitando a derrota.
Fiquei sabendo, tempos depois, que o edital do meu concurso havia sido lançado, quando as únicas informações que rondavam a minha cabeça eram os deuses astronautas e a festa do sábado seguinte. Não adiantava mais, eu não lembrava do conteúdo e tinha me desfeito dos materiais. Aqueles dois anos, no fim das contas, seriam uma mancha na minha biografia.
Passados alguns meses, acabei aceitando um bico em um domingo à tarde para ter alguma coisa a fazer e ganhar um dinheirinho. Por ironia do destino, fui um dos aplicadores da prova do concurso para o qual estudei durante tanto tempo. Dolorosa ironia. Tive pena daqueles muitos concorrentes. Sabe-se lá o que estavam deixando de lado para tentar aquela vaga. Inocentes, talvez. Pelo menos tinha conseguido uma transa na noite anterior. Gente fina, a menina, mas acho que roubou uma garrafa de vinho que estava guardando para uma ocasião especial. Do concurso tirei apenas os cento e cinquenta reais que ganhei para aplicar a prova. Daria outra garrafa de vinho. Ou nem isso.
*Publicado originalmente em 16 de out. de 2022, 21:30
A expressão “vida de cachorro” precisa ser atualizada. Antigamente, era sinônimo de desprezo e abandono. Viver como um cão era dormir ao relento, comer sobras de refeições, levar vez por outra uns pontapés. Hoje, traduz um cuidado e uma abastança que muitos humanos não têm. O excesso de zelo com esses bichos tem chegado a preocupações sutis, como a de levá-los a terapeutas comportamentais.
O que explicaria essa mudança de status dos cachorros? A resposta não constitui surpresa para ninguém. A mudança se deve à solidão em que hoje vivem as pessoas, sobretudo nas grandes cidades. A cada dia fica mais difícil para os humanos dialogar, compreender, amar e fazer-se amar pelos semelhantes.
Então muitos optam pela estratégia do filósofo alemão Artur Schopenhauer. Recolhido à solidão e à misantropia, ele viveu grande parte da vida acompanhado de um cãozinho trêfego e terno, que o ajudava a meditar sobre o mundo e suas dores.
Por mais boa vontade que tenhamos com os humanos, devemos reconhecer que o filósofo não estava de todo errado. Entre gente e cão, a vantagem fica de longe com o segundo. Gente é inconstante, caprichosa, insaciável. Jamais se contenta com o amor possível que lhe podemos dar. Quer sempre mais.
Cachorro, não. Basta um afago e um osso (às vezes um osso artificial) para o tornar contente e fazê-lo retribuir em proporção maior. Outra vantagem do cachorro é que ele não nos cobra nem policia, aceitando-nos como somos.
O cão de um mendigo não tem menos amor pelo seu dono que o de um milionário. Que o diga Quincas Borba, o desamparado cãozinho de Rubião, que adere sem um mísero rosnado de protesto à miséria e à loucura do seu dono.
O cachorro recebe nossos silêncios sem confundi-los com desprezo, gosta de ficar em casa e aceita nossas oscilações de ânimo sem achar que está na hora de “discutir a relação”. Não cultiva o ressentimento. É sempre possível, a um estalar de dedos, despertar-lhe a euforia de um sentimento vivo e novo.
Morador da Zona Norte do Rio e boa-praça assumido, Thogun ganhou projeção nacional com o documentário Fala Tu (2003), de Guilherme Coelho e Nathaniel Leclery, que acompanhava o cotidiano de rappers cariocas em busca do sonho de viver da música. Ex-vendedor ambulante, dono de voz marcante e apaixonado por jornalismo, ele reconhece que o filme mudou sua trajetória: “Se não fosse o mano Thales, produtor do filme e companheiro de militância há mais de 20 anos no hip-hop carioca, eu não teria conseguido”, afirma.
A relação com o cinema não parou aí. No mesmo período, participou também de Notícias de uma Guerra Particular, de João Moreira Salles, documentário que retrata a violência urbana e o papel do tráfico nas favelas. “Se a influência do Fala Tu tem esse formato, deve-se ao Coutinho e ao João”, diz, citando os documentaristas Eduardo Coutinho e João Moreira Salles como referências.
Nesta entrevista exclusiva, concedida por e-mail, Thogun conta um pouco de sua trajetória.
Crônicas Cariocas:Você foi um dos quatro cariocas participantes do documentário Fala Tu (de Guilherme Coelho e Nathaniel Leclery), que mostra o dia a dia dos rappers e seus sonhos de ganhar a vida cantando. Como você avalia a sua vida após o filme?
Thogun: Ganhar a vida cantando, ainda não enxerguei essa possibilidade. Mas reconheço que, se não fosse o mano Thales — produtor do filme e companheiro de militância, há mais de 20 anos no movimento hip-hop carioca — eu não teria conseguido.
Crônicas:Foi na mesma época em que você filmou com João Moreira Salles, o longa Notícias de uma Guerra Particular. O que esses dois filmes têm em comum?
Thogun: Cara, eu assisti ao filme em 94 e daí soube como pensava o João. Se a influência do Fala Tu tem esse formato, deve-se ao Coutinho e ao João.
Crônicas:Em Fala Tu, os personagens são carregados de peculiaridades. O Macarrão, por exemplo — outro rapper que participou do filme — perdeu a mulher, vítima de eclâmpsia, durante as filmagens. Você ficou sabendo desse episódio? Isso o afetou de alguma forma?
Thogun: É forte, e isso acontece com as mães de baixa renda em todo o território nacional. Uma vergonha. Fico muito puto só de pensar nisso, uma covardia muito cruel com mulheres guerreiras como a Mônica, esposa do Macarrão.
Crônicas: Você continua vivendo no subúrbio?
Thogun: Sim, mas quero implantar projetos em Cavalcante e sair pelo mundo sem esquecer minhas raízes e minha base. Sou da Zona Norte até morrer (risos). Esse cheiro não tem que sair da minha alma.
Crônicas:Você filmou para Fala Tu no hospital onde seu pai estava internado por causa de um câncer, e ele faleceu antes do lançamento do filme. Vocês chegaram a conviver um tempo juntos? Deu para recuperar os anos que ficaram longe um do outro?
Thogun: Deu para alcançar o perdão. O meu de filho e o dele de pai.
Crônicas:Como surgiu o convite para participar da série da HBO Filhos do Carnaval (que agora está sendo reprisada aos domingos)?
Thogun: Cara, a roteirista Helena Soares obrigou os diretores a assistirem ao Fala Tu. Os diretores Cal Hambúrguer e César Rodrigues viram, com certeza, que eu preenchia o perfil do personagem. Fiz dois testes e passei.
Crônicas:Nela você é Nilo, filho bastardo e segurança do bicheiro Gebarão (Jece Valadão), mas também é o personagem que narra toda a trama. Por que você acha que foi escolhido para viver esse papel de destaque?
Thogun: Força de expressão: finalmente eu vi como é bom ser rapper, pois até Filhos do Carnaval eu não era ator.
Crônicas:Como foi trabalhar ao lado de feras como Felipe Camargo, Henrique Diaz e o próprio Jece Valadão?
Thogun: Senti-me premiado, e esses caras não mediram esforços para me ajudar. Foi maneiro, em especial, o Sr. Jorge Coutinho, que viveu o Joel, meu pai postiço. Ele é foda! Muito bom ator.
Crônicas:Como é sua vida hoje? Você continua fazendo músicas?
Thogun: Sim, montei minha empresa e coordeno uma ONG chamada Qmovimenta do Brasil, que atua no Morro do Pinto.
Crônicas:Como é o convívio com outros rappers do Rio?
Thogun: O melhor, pois o rap é extremamente democrático. Vale a postura de cada um.
Crônicas:Já tem novos convites para participar de outros projetos como ator?
Thogun: Sim, mas quando forem confirmados, te falo.
Crônicas: Já conseguiu realizar o sonho de se tornar jornalista?
Thogun:As faculdades que me prometeram bolsas “cagaram o pau”, mas semestre que vem ninguém me segura!
Crônicas:Você acompanha a política brasileira?
Thogun: Faço política desde que acordo. Não adianta fechar os olhos para as realidades do nosso país.
Crônicas:O que espera que mude no Brasil a partir das eleições?
Thogun: Que o povo pare de acreditar em novela, participe realmente, com verdade, desse processo de mudança, e aprenda a lutar por seus interesses.
Crônicas:O que você diria para a molecada das favelas que pretende viver da arte e o que fazer para não cair na rede do tráfico?
Thogun: A arte é um trampolim, e nem todos vão estar à frente das câmeras e dos holofotes, mas podem fortalecer os bastidores e ser protagonistas das suas realidades; vencer e potencializar para que outros vençam. Assim, a molecada vai ficar longe do tráfico quando souber, verdadeiramente, se valorizar, deixando de se ver como massa de manobra de governantes, capitalistas e traficantes. Porque realmente existe a opção de estar vivo, e vale a pena lutar pela vida. Valeu! Paz! Saudações quilombolas!
Particularmente, eu gosto da Praça Mauá. Passo por ela quase todos os dias, indo ou voltando do trabalho. O trânsito é estressante, as pessoas se esquivam sem se olhar, e ainda assim me agrada. De manhã, o corre-corre assusta: passos apressados, buzinas impacientes, motoristas malcriados. Afinal, ali começa a Avenida Rio Branco, a mais movimentada do centro do Rio de Janeiro. Mas eu gosto. Gosto de saber que, no meio do caos, ainda sobrevive um restinho de boemia, um fiapo de solidariedade.
À noite, tudo se transforma. É como se a praça trocasse de pele. A agitação continua, mas de outro jeito, paradoxalmente mais lento.
Às vezes, sem motivo nenhum, sento num banco e fico ali, quieto, por horas. Observo o vaivém frenético dos carros, o tropeço dos transeuntes. E, no fim, o que me prende sempre é o ser humano.
Foi assim que conheci a família de Zirão. Ele dizia ter vinte e seis anos, mas aparentava mais de trinta. Ainda assim, liderava sua pequena tropa com calma. A mulher, bem mais velha — quarenta, talvez quarenta e cinco — observava seus gestos com um ar de aprovação. O filho mais velho, um garoto de uns treze anos, a caçula de seis e dois cães vira-latas completavam o retrato.
Zirão não se curvava à vida, mesmo vivendo na rua. Era ele quem dobrava os panos usados na noite anterior e os guardava na sacola. Era ele quem ralhava com o filho por “passear” pela Cinelândia e Praça 15, enquanto afagava a cabeça da menorzinha, choramingando inconsolável por não encontrar a boneca seminua e rabiscada, o único brinquedo que possuía. Pedia paciência à mãe, que resmungava sobre o café aguado, sem ser exatamente ríspida. E, no entanto, havia ali uma felicidade que não sei explicar. Realmente, talvez, felicidade não seja algo que se explique.
Fiquei imaginando se aquela felicidade deles poderia, por encanto, se tornar a minha também. Sem perceber, já não apenas observava: me metia, opinava, aconselhava. Foi assim que ouvi fragmentos das histórias deles. Zirão, tão novo, já no terceiro “casamento” — como ele mesmo dizia, com aspas invisíveis para casamento — afirmava que, finalmente, encontrara a paz. Sonhava ver a filha veterinária, já que ela adorava cuidar dos bichinhos. Obedecia às Leis Divinas e dizia esperar nunca mais sair das ruas: queria a casa sonhada, mais uns vinte anos de vida para ver os filhos felizes. Ele mesmo fazia as contas: vinte e seis que tinha, mais vinte que desejava, cinquenta e seis. “Já dá pra ver os sonhos acontecendo”, repetia, embora reconhecesse que quem vive nas ruas, vive menos.
Volta e meia, passo pela Praça Mauá à procura da família de Zirão. Às vezes, levo uma comida ou um brinquedo para a menina. Outras vezes, só vou para vê-los e não esquecer que a felicidade, quando verdadeira, custa muito pouco.
Foi esse o chavão que aprendi a escutar nos sinais de trânsito e nos pontos de ônibus cariocas desde que cheguei ao Rio, lá nos anos de 1990. Mas a verdade é que o Globo já caminhava pelas ruas muito antes de mim. Mais de quarenta anos de história, embalagens imutáveis, sabor cristalizado no tempo — como se fosse um pacto silencioso com a cidade.
As rosquinhas de polvilho, crocantes e viciantes, custavam quase nada: um ou dois reais. Mas quem come uma nunca fica só nela. A segunda vem fácil, a terceira inevitável. Até o saco esvaziar e os farelos denunciarem a gula na camisa ou no banco do carro. O próprio slogan não mente: “o biscoito que você não pára de comer”.
Na Avenida Brasil, Via Dutra ou na Linha Vermelha, madrugada ainda fresca e motores presos no engarrafamento, lá estão eles: camelôs surgindo como miragens. Carregam nos braços os saquinhos brancos com aquele bonequinho-mapa-múndi sorridente. Verde para o salgado, vermelho para o doce. E eu, invariavelmente, caio na tentação. Sempre digo a mim mesmo que vou resistir. Nunca resisto. Abro o pacote, começo a comer, e só percebo que acabou quando o vazio do saco pesa mais do que o próprio biscoito. A vontade do quero-mais é um vício que se disfarça de hábito.
Semana passada, algo mudou. No lugar do velho Globo, um novo concorrente se impôs: o Biscoito Extra. Saquinho branco também, mas com outra estampa. Uma garotinha segurando a rosquinha no alto, o Pão de Açúcar desenhado abaixo, e atravessando tudo a palavra “extra”, azul turquesa sobre fundo amarelo. Por um instante, parece o mesmo. Mas não é.
Gabriel, um dos donos, jura que a matéria-prima é a mesma. E talvez seja mesmo. Mas não é disso que se trata. Ao mastigar o Extra, sinto como se cometesse uma pequena traição. Globo é memória, é fidelidade, é aquilo que a gente carrega sem precisar explicar. Como quem bebe Coca-Cola e insiste que Pepsi não é igual. Pode até enganar, mas não convence.
Não sei se o carioca vai trocar um pelo outro. Eu, pelo menos, não consigo. Talvez no fim das contas nem importe. Porque os ambulantes continuarão a impor seus produtos, e a cidade seguirá engolindo-os, distraída, como sempre foi.
E lá se repete a pergunta, reformulada:
— Doce ou salgado? Biscoito de polvilho Extra, quem vai?
*Escrito originalmente em: Rio de Janeiro, 25 de fevereiro de 2006
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