Os garotos atravessaram a ponte de concreto em direção ao campinho. Era o trajeto de todos os dias, a única passagem que ligava os dois estados. Finalzinho de tarde, separação dos times, alarido, escolha de quem ia na linha, quem ia no gol, os melhores já saíam logo da fila, e ficavam num canto debochando dos desajeitados e ansiosos ruins de bola, pernas-de-pau, o gordinho, o magrinho, o esquisito, o que não fala, o manco, o preto, o ferrugem, o sem pai, o filho da puta, puta mesmo, de um pardieiro antigo do outro lado do rio. Deu a saída, gol na primeira jogada, o garoto na lateral levou no meio das pernas, os parceiros de time abaixaram a cabeça inconformados, ele era um desastre, ruim para um caralho, diziam no particular quando ele não estava por perto, mas ali, era tudo meio disfarçado, ninguém tinha peito pra reclamar alto, ninguém tocava nele, era o dono da bola, do terreno onde ficava o campinho, dos barcos ancorados ao longo do rio, das áreas de concessão na beira da estrada dos dois lados, alugados para construção de postos de gasolina e outros serviços, era dono da metade da cidade, era dono de parte do estado junto com outros sócios, era quem pagava o lanche depois do jogo, comprava a simpatia dos amigos, ninguém bolia com o menino.
A reunião fora nos fundos do galpão, todo mundo sem camisa, celulares do lado de fora dentro da tampa de um tambor, sem secretárias, sem auxiliares, só os donos do negócio, o prefeito, o vice, o secretário de obras do município e o do estado representando o governador, o dono da empreiteira vencedora da licitação, edital arranjado, único qualificado capaz de cumprir as regras impossíveis, um cala-a-boca pro resto, todo mundo teria sua vez nas próximas, pacto de silencio, fundão do Brasil, inalcançável, leis próprias, gente de Brasília no bolso, desembargador do estado no bolso, oposição no bolso, suados, caldinho escorrendo pelas dobras do pescoço, mãos feito garras, unhas sujas de sangue, olhos vermelhos, saliva, baba, dente na garganta, a gente dona da engrenagem, da massa do cimento, das ferragens, tudo de segunda e que ergueria a nova ponte para ligar os dois
estados.
Numa clareira entre arvores altas, mato cerrado, três urdiam um plano. Ele morre amanhã, é o único jeito. Mas já vamos pedir o dinheiro hoje, a gente mata ele depois, vamos ter que sumir, não podemos mais voltar pra este lugar, e quem quer isto aqui? Vamos pra São Paulo, lá a gente desaparece, vira um traço, a gente é traço aqui, não é por isto que estamos matando? Eles riem, fazemos justiça social, e riem de novo mais e mais. Teu neto tá com a gente, dizia o bilhete. O prefeito urrou, ergueu-se e ergueu com ele a mesa, tombou-a com os braços gordos e fortes, chama o Jeremias, descobre quem escreveu isto, vai atrás do garoto, que não posso agora, tenho reunião, vai na casa dele, o celular da maldita não responde, deve tá metendo, é só o que aqueles dois fazem o dia inteiro, vê se tá no campinho, essa hora eles tão lá, é todo dia de tarde lá, descobre isso aí, mata todo mundo e joga no rio, mas quero os nomes, varre a cidade, ameaça todo mundo, quero esses caras no chão, mas me chama antes, quero ver a cara desses filho da puta, deve ser gente querendo mudar as coisas, algum desgarrado, algum comunista querendo fazer arruaça, vai e me chama, vai, vai.
Três motos seguiam os garotos. Voltavam do jogo, algazarra, risos, deboche uns dos outros, o neto do prefeito na frente, sempre ele na frente, a bola embaixo do braço, os outros já ansiosos, já sentiam o gostinho do sanduíche, do copão de coca, era no McDonalds, o único da cidade, presente do prefeito para o filho do presidente da Câmara, amigo velho, amigo do peito, irmão. Três carretas, quatro carros, cinco motocicletas e os garotos atravessavam a ponte, um tremor, dos dois lados do rio abriram-se duas rachaduras, que se alargaram e balançaram a ponte, e tudo se desgarrou, um segundo e era o vazio, o estrondo na água, o reboliço das ondas levantando os barcos nas margens, o espanto, os gritos, a correria, o estupor, o topo dos caminhões sumindo nas águas, o resto já era nas profundezas, nem sinal dos meninos. No ar, um oco, Jeremias chegou na ponte, gritou para o outro lado, era de lá que vinham os garotos? Alguém respondeu. Foram todos, o menino também? Todos, o menino também. Jeremias abaixou a cabeça, sorriu levemente sem que ninguém percebesse, a vida é um sopro, pensou.