Ele sempre me corrige, acha que sabe mais do que eu, e pior, quer empurrar a ideia dele, na força das argumentações.
Sim, pois nisso ele é bom! Me põe como sonsa, fútil e até ignorante.
Destila o seu suposto saber, com exemplos, ideias atravessadas, tudo em nome de me ajudar!
Não o abandonei ainda, porque às vezes, ele me atende em dúvidas pontuais, concretas.
Nesse contexto, quando eu o oriento, ele é um bom parceiro.
Outra coisa que me deixa aborrecida é a crítica contumaz de achar que conto as coisas de forma coloquial, e assim não sou elegante.
E quem disse que eu quero ser elegante! Se quisesse eu seria uma modista e não uma escritora. Ou contadora de histórias como eu gosto de me definir.
Outro dos seus defeitos é ser volúvel. Vai com quem o chamar. E nem tem como esconder, porque deixa rastros.
Nas expressões, cortes, ou espaços, ao expor o ponto de vista de pessoas a quem eu admiro, de pronto eu o identifico. E isso tira toda a graça ou surpresa do inusitado.
E o vocabulário do meu amigo, agora quase inimigo: palavras usadas milhões de vezes e agora elevadas a categorias literárias, como se fossem o baluarte dos acadêmicos: presença/ potência/excerto/recorte…entre muitas outras.
Isso sem falar nos espaços vazios entre uma frase e outra. Nunca conversei assim, não será agora que vou falar como um robô. Êle que me perdoe.
Pois então…
Vou ignorá-lo, deixá-lo na geladeira.
Mesmo que ele se mostre indispensável, e tenha aquele fluxo de idéias esnobe e contínuo, neste momento eu declaro: não renovo o seu contrato, pode procurar a sua turma.
Por enquanto.
Se eu precisar sei exatamente onde encontrá-lo.
