Domingo

  • Beijos

    Em Belo Horizonte, foliões reclamam: beija-se muito pouco no carnaval atual. Mulheres solteiras, gays, homens desempregados no “mapa da fome do amor” – todos declaram urgência no coração. Não dá para se iludir: você pode sambar na ponta do pé no Bainas Ozadas, curtir a vibe romântica e antiga do beiço do Wando, se jogar no Bloco da Calixto ou sensualizar na Corte Devassa. Mas passar um carnaval sem beijo algum é como um feriado tão guardado cair num domingo sem graça.

    Há beijos de vários tipos. Algumas mulheres, fazendo charme, premiam o folião corajoso – ou pela cantada ensaiada no espelho – com uma bitoquinha, um selinho, um toque fugaz de lábios. Outro é o beijo de língua ardente, intenso mas efêmero: o rapaz fecha os olhos em paixão, mas logo se desvencilha e volta pro bloco. Os mais ousados trocam Instagram, telefone, combinam um depois – que pode rolar ou virar ghost. Afinal, o que vale mais: o beijo ou o flerte? O beijo tem gosto de sedução, adrenalina misturada a música, alegria e muita fantasia.

    Ah, e tem o beijo transgressor: de padre fantasiado, homem de freira, Homem-Aranha ou  Mulher-Maravilha. Estamos beijando a pessoa ou a imaginação solta na folia?

    Mas os beijos escasseiam entre pierrots e colombinas, virando desespero. Gays exigem corpo perfeito e status; mulheres solteiras dizem “não há homem no mercado”; homens reclamam do “jogo duro”. Culpa da pandemia: o Covid trancou o mundo, e desaprendemos o outro. Celular virou melhor amigo – home office, família no Zoom, sexo por câmera. Na volta da folia, ficamos virtuais demais, sérios, até caretas.

    Agora, os memes do “placar de beijo” capturam isso genial: foliões desfilam com cartazes irônicos como “Beijos: zero de dez” ou “Meta diária: um (falhou)“, zombando da escassez romântica pós-pandemia em BH e SP – placas de “Beijômetro: menos dois” ou desafios virais no Instagram, como a jovem com “valores” pra beijo, virando hit na folia mineira.

    Pra reacender, pensemos em Auguste Rodin, o escultor que eternizou o beijo em mármore: em “O Beijo”, um casal nu se entrega num êxtase fluido, esculpido num bloco único, exposto no Musée Rodin – desejo proibido em pedra. Ou  “A Catedral”, mãos entrelaçadas em tensão erótica, quase se tocando. Contrastando com nosso “placar zero”, Rodin sussurra: o beijo verdadeiro é marmóreo, eterno, não um like esquecido.

    Há um lado bom: se tanta gente reclama, é sinal que clamamos pela volta do beijo na boca – na folia e depois. Juntos, chegamos lá. Um bom beijo na boca ainda é santo remédio pros dissabores da vida.

  • Poema #03: Em branco

  • De quando não havia internet

    Você sabia que já existiu uma vida completamente diferente da que temos hoje sem internet? Sim, conseguíamos viver sem internet!

    O telefone servia simplesmente para que pudéssemos falar com alguém! Falar de fato! Falar diretamente com alguém! Estranho falar com alguém hoje pelo celular! Muitos preferem os intermináveis áudios ou a já consagrada mensagem de texto!

    Tudo hoje é urgente! A resposta precisa ser imediata! Caso contrário, pode acontecer a terceira guerra mundial!

    Antes, a gente esperava e tinha que esperar de qualquer jeito! Exercitávamos a paciência! Escrever uma carta e esperar semanas ou meses pela resposta! Esperar aquela revista incrível chegar nas bancas para ler as novidades! Acompanhar o ritual da compra do jornal do final de semana e ler os vários cadernos sossegadamente! Pacientemente!

    Tudo hoje é urgente! Você marca uma coisa e depois de uns dez minutos, desmarca e torna a marcar e, por fim, o encontro, a reunião e a ida ao cinema acabam não acontecendo.

    Antes, se marcássemos alguma coisa, palavra dada, a presença era certa, a menos que, a terceira guerra mundial tivesse começado literalmente e impedisse alguém de ir ao local combinado! Simples assim!

    Tudo hoje é urgente! Falar com pressa! Amar com pressa! Assistir alguma coisa, com os olhos na tela do celular, com muita pressa!

    Antes, ficávamos sentados com os amigos em uma calçada conversando e rindo horas e horas sobre os mais variados assuntos!

    Tudo hoje é urgente! O tempo é dividido e subdividido para que todos os segundos sejam ocupados com alguma coisa! Na maioria das vezes, esse precioso tempo é gasto com horas e horas rolando a bendita tela do celular!

    Antes, ficávamos horas sem fazer nada! E isso era bom! Na verdade, era ótimo! Sabe a ideia do ócio criativo?

    Voltando ao telefone… Ah! Que saudade do chamado orelhão! Sim, orelhão! Uma cabine pública em que qualquer pessoa com as desejadas fichas poderia falar com outra! Colocava-se uma ficha atrás da outra para conseguir falar! Cada ficha representava um pouquinho de tempo (eu não vou lembrar agora exatamente quanto tempo, o que sei é que se fosse uma conversa mais longa, você deveria comprar muitas, muitas fichas…)

    E o ritual da música? Pegar um álbum (o chamado LP – Long Play) e curtir a capa, o encarte com as letras, as fotos… Ouvir o lado A, geralmente mais comercial, e ouvir o lado B, geralmente mais conceitual… Aguardar o próximo álbum sair em alguns meses ou anos! Esperar!

    E aqui fica mais evidente a crítica a estes tempos, a falta de espera! A impaciência, a correria e a urgência destruíram o importante e necessário processo das coisas e das gentes!

    O humano precisa esperar!

    É o tempo pra maturar os sentimentos, os olhares, os gostos, as conquistas e os fracassos, os compassos e as histórias.

    A nossa história é toda ela feita de esperas!

    Quando não respeitamos o tempo de tudo, somos atropelados!

    Tudo hoje é frenético, performance, lacração, engajamento…

    Antes, era a própria vida nas suas insinuações e contradições!

  • Pé ante [o sisal e a sombra do outro] pé

    Um vulto de cerca um metro e vinte e cinco se esquiva por trás da cadeira de balanço. Gabriel move um pé depois do outro, tentando elevar seu peso acima dos ombros. Primeiro, o indicador do pé esquerdo toca o assoalho de madeira, um marrom rosado escurecido pelos anos. Pisa com cautela para evitar o rangido. Quase não respira. Sua avó, sentada à cadeira, move apenas as mãos. Faz crochê. Há semanas se senta ali para tricotar não se sabe o quê. Faz algo, desmancha. Ao final do dia, quando a luz externa abandona o recinto, ela recolhe as agulhas, estica as pernas, boceja e se levanta devagar. São quatro e treze da tarde. Não vai demorar muito.

    Gabriel continua seus passos lentos e desoxigenados. Um beija-flor entra pela janela e flana um pouco por sobre a Costela-de-Adão, próxima à cortina em linhão branco, recolhida ao vértice da esquadria com a parede vizinha. O pássaro não causa sequer curiosidade à avó, mas o menino quase se faz perceber através de um vocalize. O peito se enche num impulso que retém o pé direito no ar e fica ali, suspenso. Um som redondo começa a subir pela garganta, mas é engolido no momento em que o pássaro faz o percurso contrário, retornando ao pátio. Na sala, apenas o barulho do atrito das agulhas e do pêndulo do cuco antigo, nada apressado.

    Minutos depois, Gabriel está quase em frente a sua avó. Fica ali, alguns metros de distância, a observá-la. Os olhos dela descansam sobre o vai-e-vem das mãos, mas não parecem presentes. São duas jabuticabas dentro de ostras velhas, semiabertas: abrem-se pouco e devagar, deixando entrever o brilho castanho que ainda existe num corpo de mais de oitenta primaveras. Mesmo sem grandes distrações no recinto, tudo além do conteúdo daquela cadeira parece se desfazer. O canto superior dos lábios de Gabriel levanta-se. O neto tem todos os olhares fixos na avó. Suas mãos brincam de mímica, espelhando gerações. A sombra da araucária cresce dentro da sala. De soslaio, ele foca o relógio, dá um último e contido meio suspiro em direção à avó, registrando na memória cada dobra da pele, cada curva dos cabelos grisalhos, cada detalhe do macacão preto de pequenas flores rosas que ela veste. Setenta anos separam uma vida da outra, e são o fio que as liga.

    Quando a sombra alcança o sisal, Gabriel veste seu peso corporal como quem coloca uma mochila e retoma o caminho às avessas, pé ante pé. Sua expressão é outra. “Vovó ainda está aqui”, reverbera em seus pensamentos de criança. Ao quase posicionar-se na porta de seu quarto, o piso de peroba rosa denuncia-o. A cabeça da avó levanta, percebe-se o ondular das madeixas gris. Ela recolhe as agulhas, estica as pernas e boceja. Olha para o negativo dançante de sua árvore favorita, no limiar do grosso do tecido e do liso do piso.

    — Gabriel?

    Sem mover as pernas, a esquerda novamente no ar, o menino leva a mão em concha à boca, como quem finge estar dentro do quarto.

    — Sim, vovó.

    — Que tal uma história?

    O menino instantaneamente corre até a avó, abraçando-a pela cintura ainda encostada à palha do encosto da cadeira. Diz, quando do encontro entre suas castanhas pupilas com as pérolas negras da avó:

    — Me conta de novo como você e o vovô Gomes se conheceram?

  • In-cels ou In-hells?

    Numa conversa de bar, ouvi, na mesa ao lado, alguém chamar um colega de trabalho de “incel”.

    A palavra me chegou torta. Pensei ter escutado “in céu” — algo estrangeiro mal pronunciado, desses modismos que sobem à cabeça depois do segundo chope.

    Nada disso.

    As amigas se entreolharam com um susto breve — desses que duram menos que a espuma no copo.

    — Justo ele? Bonito, cargo alto, vida ajeitada… um pouco inseguro, talvez. Mas isso?

    — Escuta o que ele anda dizendo — respondeu a outra. — No cafezinho começou a atacar uma colega.

    Disse que as mulheres estão “com poder demais”. Que ela recusou sair com um amigo dele porque o rapaz não é um “Chad”.

    A mesa quase tremeu.

    — Chad?

    Risadas curtas.

    — Esses machos-alfa de fórum. Os eleitos. Os que, segundo eles, monopolizam as mulheres.

    A palavra incel voltou a circular como uma moeda gasta.

    Celibatários involuntários. Homens que transformam rejeição em tese. Frustração em teoria.

    Desapontamento em trincheira.

    O bar seguia alto, indiferente. Mas ali, naquela mesa, algo tinha escurecido. Não era apenas a falta de encontros amorosos — era a construção paciente de um ressentimento com gramática própria.

    Disseram que há fóruns, comunidades, códigos. Que o Brasil figura entre os que mais alimentam essas conversas. Que às vezes o discurso não fica só na tela.

    O copo bateu no mármore com um som seco.

    Pensei na minha audição equivocada do início da noite.

    Não era “no céu”.

    Era um outro lugar.

    E agora me pergunto: estamos falando de incels — ou de pequenos infernos cultivados em silêncio, mesa a mesa, tela a tela?

  • Uma crônica fora da lata

    A polêmica no carnaval (entre tantas e recorrentes polêmicas de carnavais e redes sociais) tem a ver com uma lata. Mas não uma lata qualquer, uma lata física e, ao mesmo tempo, metafórica. Coisas de nossos tempos tão absurdos! Não vou explicar o desfile e tampouco descrever a escola de samba, personagem ímpar de um ano que se inicia. Há muita agressividade nas redes e o assunto foi dito e redito centenas de vezes… Não sou eu que vou repetir mais uma vez! O que eu quero aqui é uma boa provocação literária!

    Liberto as palavras de qualquer lata para escrever esta crônica. E, pra começo de conversa, as três primeiras palavras são justamente conservantes, enlatado e conservador…

    CONSERVANTES, de acordo com o dicionário, diz respeito a substâncias adicionadas a produtos alimentícios para prevenir a oxidação.

    ENLATADO, por sua vez, significa “que se enlatou” ou “guardado ou conservado em lata”

    CONSERVADOR significa “que ou o que, em princípio, é contrário a mudanças ou adaptações de caráter moral, social, político, religioso, etc…

    Postas as palavras, vamos para a crônica!

    Tem gente que vive enlatada e não tem ideia e não respira…

    Tem gente que enlata os outros e não abre mão de impor suas latas e não abrir lata nenhuma!

    Tem gente que conserva o rancor, o desamor, a mágoa e a tristeza!

    Tem também sonhos enlatados, pensamentos enlatados, sentimentos enlatados…

    Assim como são enlatadas muitas canções…

    E assim, essa gente que não gosta muito da vida, vai conservando ódio e preconceito, violência e desprezo…

    Essa mesma gente que não curte dissonâncias, vai enlatando tudo o que vê pela frente e, quando se vê, não há mais cores e sabores e odores, ao contrário, há apenas uma única verdade, absoluta, imponente, intransigente…

    Sabemos que muitos conservantes mantém os alimentos dentro da validade a custa de nossa saúde!

    Sabemos também que muitos enlatados possuem alto teor de sódio e que latas amassadas, enferrujadas ou estufadas devem ser evitadas!

    Por esta razão, é importante pensar: ser conservador é necessariamente conservar apenas o que é bom?

    Sabemos que não!

    Os que gritam pelo conservadorismo querem conservar preconceitos enraizados, conservar privilégios indecentes e conservar o clima de guerra constante…

    Quero, pela minha parte, conservar o riso e a alegria, não o cinismo. Quero conservar a malemolência da língua portuguesa, não a desigualdade. Quero conservar o abraço e a amizade, não a hipocrisia! Quero conservar a poesia e não a cara carracunda de quem não gosta de arte! Quero conservar a imaginação, o voo do balão, as bolhas de sabão, não a frieza e a falta de compaixão!

    Quero conservar a essência de humanidade e não a barbaridade!

    Quero conservar a crônica solta, livre, fora da lata… para que ela, a incrível crônica, possa, pelo poder das palavras, abrir outras latas!

  • Boiar nas águas, atravessar os morros: menos Catherine, mais Rita – mais minha

    Quantas vidas vivemos em uma vida – você, eu?

    Eu, por exemplo, não sou mais a mesma do casamento.

    Nem poderia ser. Seria falta de educação comigo mesma.

    Tampouco sou a mesma que realizou, ainda nova, seu sono de morar no exterior. Ou a que ambicionava um prêmio de arquitetura, recebido na categoria sustentável antes dos 30.

    Hoje sou a única criatura — ao menos aparentemente — que sai aos prantos da sessão de terça-feira de Carnaval de O Morro dos Ventos Uivantes. Quase uma sessão matinê, e a cidade pulsando lá fora, confetes aderindo aos cabelos alheios e se esbaldando, bêbados e desequilibristas, pelo chão. Batuques. Bebidas vendidas em isopores. E eu chorando por ingleses que insistem em amar como quem cava a própria cova.

    Mudaram o destino do filme. Encurtaram silêncios, ajustaram gerações; embelezaram a dor com fotografias impecáveis, figurinos de tirar o fôlego; cenários e sentimentos antagônicos: pobreza e a opulência – esta convertida em excesso de desejo e intensidade, como se cada cena precisasse gritar para não desaparecer na sucessão incessante de imagens que disputam o mundo de hoje.

    A sala azul… Trechos de paredes brilhantes. O almofadado do quarto de Cathy na cor de sua própria pele, com manchas que traziam suas sardas – mais discretas que as minhas – aos holofotes.

    Diante de tanto impacto visual e emocional, ali estava eu, soluçando discretamente – ou nem tão discretamente assim -, com meu livro da Emily Brontë sobre os joelhos, acariciado cena após cena.

    Percebi, entre uma lágrima e outra, algo que me pareceu escandalosamente maduro: já não tenho idade para viver e morrer de amor.

    Meu primeiro amor morreu. Ou talvez tenha morrido apenas a menina que achava beleza no morrer por alguém.

    É, minha querida, diria meu falecido primeiro amor – poeta de obra, sombra e medida involuntária, para desgraça do meu eu adolescente e dos amores que vieram depois – morrer é sempre um gesto dramático demais para quem ainda precisa pagar boletos.

    Concordo. Hoje. Com a ironia aprendida, equilibrando os deslizes do peito.

    Há versões nossas que saem de moda. Como certas ideias românticas que já não combinam com o rumo e a velocidade do mundo atual.

    Catherine me comoveu, mas não me seduziu. Heathcliff fez meu coração palpitar por sua beleza, seus cuidados e maldades com a amada, seus traumas infantis – mas me alertou. Amor que precisa destruir e magoar para provar que existe… Isso não me interessa mais.

    Lá fora, batuques aleatórios. Pedra portuguesa sob os pés. Piso urbano novo, intertravado. Descobri, ali, que havia pedras portuguesas em Nova Friburgo — eu, arquiteta quase nunca distraída, atravessando a cidade sem notar o desenho do chão.

    É curioso como podemos viver anos sem perceber o que sustenta nossos passos. Há quem nunca tenha notado a cor do piso à frente de casa.

    Prefiro, agora, a atenção e a presença dos amores que nascem e morrem para fazer sentido. Não os que implodem casas e almas. Não os que confundem posse com poesia. Talvez mais os que atravessem do que os que fiquem.

    Chorei lágrimas de equilíbrio outra vez. Chorei por ter amado com ferocidade quando foi preciso. Chorei pelas versões minhas que já caducaram. Chorei porque estou viva – e isso, convenhamos, é um privilégio maior que qualquer paixão homérica ou borboletas no estômago, essas criaturas inconvenientemente instáveis.

    Somos compostos prioritariamente por água e sais: há líquido demais em mim para fingir secura. Sou mais mar e onda do que constância.

    Estou aprendendo a nadar em águas salgadas e mais profundas. A boiar sem afundar. E é até reconfortante tomar uns caldos e tossir entupida de sal, de quando em quando.

    Na mesma manhã do cinema, ainda carnaval, sentei-me ao sol na praça da minha cidade. Blusa semi-transparente e dourada. Top igualmente dourado. Abri uma garrafa de vidro de cerveja às dez da manhã, como quem inaugura um livro com cheiro de novo.

    Zeca bebia seu copinho d’água recém-saído da geladeira da padaria.

    Minha mãe torceu o nariz:

    — Uma menina tão bonita bebendo assim, na rua…

    O pior é que havia outra garrafa para ela, na sacola. Ela, fã da intrépida Rita Lee.

    E então percebi o que a Rita entendera antes de todas nós: a liberdade feminina ainda é um escândalo para quem depende de permissão alheia.

    Minha querida, talvez cochichassem os artistas devidamente enterrados, escândalo é só o nome que dão às mulheres que respiram sem pedir licença.

    Pois então respiro.

    Senti, naquele banco de praça, algo sereno e perigoso: se filhos vierem, bem-vindos. Se não vierem, tudo bem igualmente. Zeca já dá conta de parte da minha vocação maternal. Se o amor ficar, que fique inteiro. Se for embora, que vá sem levar minhas estruturas.

    Não tenho mais idade para morrer de amor.

    Platão me sopra uma frase, como quem salva uma atriz de um branco em pleno palco: todo homem apaixonado é um poeta. Eis que a poesia desce do pedestal e volta ao gesto humano de amar.

    Percebo, então, que tenho idade para atravessá-lo — com humor, com verdade, consciência e uma cerveja — ou um vinho — na mão.

    Se houver (mais) outras vidas dentro desta, que elas me encontrem menos trágica que Catherine e tanto ou mais insolente que Rita.

    E que, quando eu ameaçar dramatizar demais, haja sempre um eco, a sussurrar:

    — Querida, ame. Mas conserve o seu sobrenome.

    Tal qual fez minha mãe, com um casamento exemplar. Tal qual eu já fiz uma vez, diante do padre e do

    cartório, com uma lição bem aprendida:

    nunca tome decisões em pandemias.

    Deixe o tempo no comando.
    Aproveite as ondas.
    Aprenda a não enjoar em alto-mar.
    Respire.

  • A cuíca, a ruivez e o smartwatch – sexta-feira 13 como comissão de frente

    Comprou um relógio para controlar seus batimentos cardíacos. Descobriu que, ao ter o combo de medições de oxigenação, estresse, sono e ciclo menstrual, tornava seu pulso um criador de conteúdo.

    Dados. Gráficos. Percentuais.
    O coração, finalmente, auditável.

    As notificações de redes sociais, e-mails ou o contar do tempo passaram a ser meros gadgets. O que importava era o número que subia e descia como se fosse destino. O corpo, agora, tinha analytics.

    Com o intuito — primeiro e quase exclusivo — de mapear o próprio coração, passou a utilizar a pulseira flexível de cor laranja (também havia a opção preta, mas… quem quer ser discreta em fevereiro?). Dormia com o apetrecho; acordava com um vibrar incessante no punho, notificações piscando como quem dá bom dia e já cobra produtividade emocional.

    Os picos de estresse reinavam entre a hora do levantar — rush de mensagens — e o fim do expediente, que, por ser autônoma, oscilava entre as 18h e as 2h40 da manhã. Raras vezes sua “rotina” não mudava. Aliás, rotina era uma palavra que lhe caía grande demais — como vestido emprestado, sobra um pouco no busto, aperta no quadril. Num confortável marca-passo, aprendeu a desconfortar-se da realidade.

    Tudo passou a ser normal enquanto durasse a bateria do smartwatch.
    O mundo cabia nos 67% restantes.

    O acessório laranja combinava perfeitamente com seus óculos de ciclista urbana. A cidade, que desde as novas lentes, em um tempo outrora, se enferrujara de sol e desejo, agora fazia do verão o agente ruivificante: rubicundou-se em pleno fevereiro; enrusbeceu não de vergonha, mas de coragem.

    Cortou as pontas dos cabelos e converteu-se.
    O laranja passou a ser sua segunda cor favorita — a que a identificava, a que gritava antes dela.

    Nos cinco dias de carnaval, ruiçou aos poucos, como quem aceita arder. Ardeu seu desconforto onde antes calava. Arder é uma forma sofisticada de não adoecer.

    Concentrou-se no encontro fugaz dos corpos fantasiados: as máscaras injetam uma pseudo-coragem pelas veias — um placebo de liberdade. Teatro de verdade, no rés do chão do espaço público. Deixou-se boiar nos braços de um passado transfigurado de pessoa comum, mais magra, olhos mais sinceros, vigilante e contábil de afetos, mesma leveza sustentada por um viés infantil e escorregadio.

    Liberdades hoje em dia confundem-se com libertinagens — diria alguém com sobrancelha arqueada, talvez do século XIX.

    Há um choque entre gerações jamais visto antes. Há um colapso das formas sociais estabelecidas. E isso pode ser bom. Ou pode ser apenas inevitável. Desconforto sentido, interiorizado e meditado.

    E foi então que tudo começou por uma intrépida sexta-feira 13.
    Pleno carnaval.

    Comprou um ticket de cinema para uma sessão vazia. Enquanto a cidade, lá fora, ensaiava gargalhadas com cuícas e paetês, ela escolheu o escuro climatizado. O coração — balde de pipoca à mão — ocupando uma fileira inteira de si mesma. No topo de um Mirante, na Tonelero, horas antes, era horizonte.

    Agora era plateia.
    O smartwatch marcava batimentos estáveis. Mas… e a alma? Entre a piscina do topo e o mar do térreo, como estabilizar uma coisa qualquer?!

    Purpurina everywhere. A cuíca rindo com os dentes cerrados. Um riso friccionado ecoando pelas finas paredes, soníferas de um cansaço acumulado. Um fingimento alegre. Um som que nasce do atrito — como quase tudo que importa.

    Ao tensionar sinapses, ao se permitir solitude e pausa, colapsou com quem acha que a entende e já a julga. Mas não se jogou do parapeito. Desceu de lá com graça.

    Aprendeu que pulsar não é performar.
    Abraçar as mudanças vem de um movimento corporal que envolve mente e coração.

    E talvez — só talvez — desligar as notificações seja o primeiro ato verdadeiramente revolucionário de fevereiro. Mesmo que a pulseira ainda a identifique na multidão.

  • 8ª Escola a Desfilar: Unidos da Tijuca – Carolina Maria de Jesus

    “Meu quarto foi despejo de agonia / a palavra é arma contra a tirania’’. Essa frase do samba da Unidos da Tijuca revela muito bem como sua homenageada utilizou a palavra como uma arma denunciando as desigualdades brasileiras e dando voz a pessoas esquecidas. Trata-se de Carolina Maria de Jesus, como o próprio título do enredo já revela.

    Pela sinopse de seu enredo, a Tijuca fará uma homenagem ao estilo tradicional. Ou seja, ela pretende contar a história de Carolina que começa no cerrado de Minas Gerais, onde a gigantesca mulher, ainda criança, aprendeu com os ensinamentos de seus ancestrais. Dentre eles, está o seu avó Benedito, o tal “preto velho que lhe ensinou os mistérios” como o próprio samba enredo já diz.

    Desse jeito, o enredo vai acontecendo em capítulos. Entre eles, está aquele em que ela vai trabalhar na roça e acaba presa e humilhada por portar um dicionário! Além disso, foi acusada de feiticeira e de ser uma mulher que queria causar prejuízos aos brancos, os donos do local (ou melhor, que achavam ser isso). Pensar em uma Carolina acusada de bruxaria é pensar no destino de várias mulheres que, ao se indignarem com as injustiças que o mundo lhes impunha, foram acusadas do mesmo.

    Infelizmente, vivemos uma realidade em que cada característica física de uma pessoa faz com que ela desça um degrau na escala social. Aí, quem é homem e branco fica lá em cima, já uma mulher, preta, que mora na periferia fica lá embaixo nessa escala que impõe diversas dificuldades para que essas pessoas sejam vistas.

    Carolina não só viveu essa realidade, ela se indignou com ela e resolveu contar. Isso porque, tinha uma arma muito mais barulhenta e potente que qualquer calibre que só se presta para calar vozes. Assim, fez de seu lápis megafone e falou para a sociedade sobre sua realidade, ainda que tenha tentado ser calada.

    Por todos esses motivos, fica claro que a Tijuca acertou muito em seu enredo. É necessário homenagear a coragem de uma mulher que nunca se calou diante de sua situação. Que a força de Carolina Maria de Jesus se espalhe para outras mulheres de fibra como ela, pois serão capazes de mudar esse país.

  • Pierrô e Colombina


    Aquela canção no rádio e os pés e as mãos que batem e se batem. Chão e mesa. Suor e serpentina. Confetes e alegrias. E o moço de pierrô olha para a moça de colombina. E se olham mais até o virar da esquina.

    Bom, o carnaval chegou e o ano, enfim, começa a partir daí. Quantos não vivem dizendo isso a cada novo carnaval, a cada novo fevereiro? Todos ficam em compasso de espera. Tudo parece inerte. A expectativa é enorme, assim como as filas e a falta de paciência. E eis que a festa da pretensa liberdade dá o seu tom. Os carros alegóricos que transitam pela avenida e levam cores e delírios e gritos histéricos, além das notas dos jurados, formam um comboio de fantasia. Uma cara fantasia! A melodia é difícil? A letra é sofrível? A voz do ‘puxador’ falseia? Não importa, é carnaval!


    Aquela canção no rádio e os pés e as mãos que batem e se batem. Chão e mesa. Suor e serpentina. Confetes e alegrias. E o moço de pierrô olha para a moça de colombina. E se olham mais até o virar da esquina.

    Engarrafamentos e arrastão. Praias com águas mornas e sol acima dos 40ºC. “Aquecimento” é isso aí! Há muito gringo para ver o desfile limpo e organizado e delimitado e amordaçado e bonitinho. É a festa da liberdade, diga-se de passagem! Mas cuidado com o cronômetro!

    Há muito dinheiro envolvido na grande festa popular. Muito brilho. Negociações e aplausos e apertos de mão. Não esqueçamos as fotos com os políticos: sorrisos e acenos. Não esqueçamos também dos famosos: uma imagem é tudo! E as notas então? Beleza! Beleza! Silicones e músculos: força em ação! Mas a festa é de libertação! Olha o flanelinha aí! Não tem vaga não!

    Bandeira branca amor não posso mais… Ô abre-alas eu quero passar… Mamãe eu quero mamar… Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é? Será que ele é?

    O ano, de fato, levanta e sacode a poeira (não sei se dá a volta por cima) e tudo segue como sempre. E mais fotos e escândalos, mais flanelinhas, mais arrastões, mais filas e filas… E o calor que derrete o asfalto? E as chuvas que atormentam a cidade? O preço do leite e do pão e da carne e do açúcar?

    O poeta olha para o relógio e escuta as marchinhas do seu tempo. O cronista transcreve. Mas o carnaval passa, não passa? E passa para mais um carnaval passar… A crônica não está atrasada, não é? Palavras ao vento. Palavras como serpentinas. Palavras e o tempo…

    E o velho tempo ri dos homens e das coisas porque a maior fantasia, o maior carnaval é a própria vida. Às vezes, a gente se esquece…

  • Poema #03: Habitar o intervalo

    “A tapeçaria é uma articulação singular entre linhas e vazios, flexibilidade e resistência, o que faz do tear a metáfora por excelência da criação narrativa: porque o ar circula entre os fios como o silêncio entre as palavras.” *

    Os emaranhados da vida
    tapeçaria mal tecida
    De palavras sufocadas por amarras
    por nós
    Arremates enrijecidos do tempo
    entre as costuras

    Vida vivida
    em monobloco

    Esgarçar a tessitura
    do tempo mal vivido

    Esburacar a trama
    de pontos suturados

    Criar um circulador
    de silêncios no espaço

    Arear lembranças
    do que resta calado

    (*) Lara Manesco, em Entre Tecer e Narrar

  • Nas alturas, um café com o Redentor

    Próximo ao céu, onde nenhum obstáculo além de uma escada de marinheiro me separa do Cristo Redentor, a certeza de que nada é estável me invade. A mutabilidade da paisagem, colorida a cada noite por nuances de distintos pigmentos primitivos — esparsas, turvas, momentâneas — fere um órgão qualquer, apertado entre oxigênio, responsabilidades e preocupações.

    (— Não dói porque é frágil, diz uma voz que não vem de mim. Dói porque ainda sente.)

    Vejo, a princípio, uma face altiva e quase saudosa, a guardar uma das sete maravilhas do mundo moderno. Nada mais importa, por toda a eternidade. Eis o grandioso que se inclina, curioso, diante do que é genuíno, ainda quando o rosto é o morro dos Cabritos.

    (— Eternidade também cabe no intervalo de um gole, murmura Ele, sem mover os braços.)

    Telhas sombrias e arbustos naturais, adornados por flores hipotéticas, transbordam sabedoria a respeito da irrealidade do tempo presente. A noite tem cor de um veludo azul, feito em máquina de tinta de catálogo. Parece reproduzível, parece transportável — mas não é; depende da base.

    (— Depende de quem olha, suspira o corpo ao lado, em repouso confiado. Eu entendo.)

    Damos sentido às coisas pelo breve capricho de acharmos que tudo tem de fazer sentido. O mundo não faz sentido: respira, sente, reage, morre e nasce todos os dias. Ainda que luzes vigilantes enrubesçam os céus para que humanos notívagos brinquem de ser pássaros – cruzem altitudes, pulem de um país para outro, de uma cidade para outra, de um parapeito no térreo de uma serra para um na cobertura de uma praia.

    E então, como se quisesse confirmar a metáfora, um pássaro atravessa a noite e pousa quase ao meu lado. Assusta. Meu corpo reage. O coração dispara. Mas o reflexo vem mais leve do que antes. O medo passa rápido. O alívio afrouxado em um riso maduro vem depois.

    (— Ainda há espaço para o inesperado.)

    Grilos cantam em um e em outro lugar. A brisa é mais fresca nas horas adormecidas, embora janelas sem cortinas — ou pessoas calorentas — permitam que suas intimidades sejam mais soltas quando quase todos dormem. Prédios inteiros estão sem luz; alguns se destacam por suas temperaturas de cor muito particulares: branco quente, branco neutro e tantas cores possíveis pela tecnologia em que células programadas para telefonar transfiguraram-se em extensões de nós.

    Ouço música clássica pela saída do áudio do celular, cigarras nas matas dos arredores, motores de máquinas que se dizem silenciosos, conversas ininteligíveis ao longe, motos, carros e um pingar compassado de alguma torneira, não muito distante. Repousa ao meu lado uma xícara de café e uma presença que reconhece meu tempo — não pede explicações, não exige permanência.

    Com ela atravesso sinais fechados sem perder impulso: sigo na garupa da bicicleta enquanto as rodas descrevem círculos breves, atentos, até que o mundo permita a passagem. De madrugada, numa avenida larga e quase vazia, o som alto ocupa o espaço e o volante vira dança. A cidade se abre como se fosse só nossa — não por posse; coincidência rara. Existem encontros que não pedem promessa, só
    reconhecimento.

    O tempo é relativo. As pessoas são relativas. E as pessoas são as mesmas de antes: sorrisos que despertam sentimentos de nós mesmos, tão endurecidos pelo correr dos dias.

    Choro, sentada no parapeito. Me sinto uma coruja com minha cafeína líquida. Um pouco de mim se desfaz a cada segundo e tenho medo de o mundo acabar num instante — como acabou para o meu pai, para o meu avô, e há de acabar para o meu cachorro, e para meus filhos, se um dia existirem.

    Tenho em mim a sede genuína de um viver desembestado, um cavalo selvagem em meio a um descampado. Livre. Leve. Vivo. Sem destino pré-concebido.

    De esguelha, entrescondo a pergunta que Ele já sabe que aflige meu peito:

    Quanto tempo?

    Quanto até que meus olhos se fechem pela última vez, aqui?

    Quanto até o último café, o último beijo, o último êxtase, a última visão, a última palavra?

    Quanto de tempo hão meus cabelos, pele, sangue e respiro de testemunhar, para que minha mente se aquiete com tanto a se fazer e conhecer?

    Sentada nesse parapeito, em conversa honesta e silenciosa com o Redentor, choro.

    Não sei se de tristeza, de felicidade, ou apenas de equilíbrio — nessa minha vida em que as energias poderiam se carregar por um apetrecho qualquer, desenvolvido para me manter desperta. A todo momento.

    Que pode ser o derradeiro.
    E também o único.
    E o primeiro.

  • Alô, alô, seu Chacrinha – aquele abraço!

    Fevereiro começa no domingo, como quem abre as alegorias do descanso — esse mesmo que sonha com samba no pé e os zirigundús dos foliões. Janeiro já anunciava as entradas da folia, com blocos em teste espalhados pelas ruas do Rio de Janeiro

    Tive a oportunidade de presenciar um deles na feira da Glória, quando assumi a tarefa de vender artigos culinários japoneses de primeiríssima linha, na barraca do meu grande amigo Shizuto e de sua família. Vale a pena conferir as comidas de rua do Japão — barraca 71, próxima ao portão da Lapa, na Praça Paris.

    Outra ocasião foi num domingo em que me lancei à capital para celebrar o aniversário da minha afilhada Lulu, quatro aninhos. Unindo encontros familiares a agendas profissionais, estiquei meus dias no meu Rio de Janeiro. No domingo passado, encontrei a Marcela no Flamengo, onde, no Planalto, nos unimos às palmas de um parabéns com glitter, estandarte, sorrisos largos e corpos carnavalescos espalhados pelas calçadas.

    Antes de retornar à minha serra, tomei café da manhã no quiosque Ginga, na praia do Leme — um ponto aberto 24 horas por dia. Algo inacreditavelmente maravilhoso para alguém cosmopolita e do mundo como eu, que se acostumou a não encontrar nada aberto depois das dez da noite, durante a semana. Domingo, então…

    No aguardo de uma carona prevista para as nove, caminhei pelas areias de calça jeans, cruzando os limites com Copacabana. Ah, a princesinha do mar — que hoje verei novamente. E novamente a Glória, os agitos da Praça Paris, os corredores da maratona no Aterro, o bloco da Ivete no centro e a rotina dos moradores que circulam pelas redondezas: o cotidiano de quem sai cedo para montar barracas e vender até o fim da tarde.

    Em meio ao percurso ainda escurecido da partida, me espanta o amanhecer da serra: a troca de azuis, o passar espaçado dos carros, a felicidade solta na voz dos amigos no carro. Nasceres e pores do sol sempre mexeram comigo de forma arrebatadora.

    São sete da manhã. Vejo o Cristo da janela.

    Da janela do carona, sobre a ponte Rio–Niterói, fecho esta primeira crônica brindando ao Rio de Janeiro, a fevereiro e a março. Algo do Rio ainda pulsa em mim — um pulsar que antecede o retorno e já carrega a saudade. Como se o caminho não fosse uma linha, mas um estado.

    Talvez eu viva assim — é bem provável, eu diria: chegando ao que sou agora, partindo sempre de algo que me ensinou a ficar.

    Bom dia, caro leitor!

  • Meu relógio é de borracha

    Às vezes, me canso um pouco de ler as crônicas do cotidiano publicadas nos inúmeros sites e veículos de comunicação (logo eu, que sou uma delas?). E não é por conta da qualidade literária dos textos — que, na maioria dos casos, é inquestionável —, mas por sentir que estou sempre comendo aquele mesmo pudim que retorna à mesa depois de congelado.

    Por isso mesmo, me deliciei com um texto novo que falava sobre os Tidsoptimistas. O termo é difícil até de pronunciar, mas desperta curiosidade — tanta que fui em frente para descobrir seu significado.

    E qual não foi minha surpresa ao perceber que o texto falava exatamente de mim! Será que a autora me conhecia de alguma reunião em que ficou claro ser eu uma Tidsoptimista clássica? Ou teria captado as vibrações do meu ser de luz, sempre pronto a ajudar outras criaturas afortunadas que têm uma visão otimista do tempo, como eu?

    Senti um estranho calor, como se — imagino — estivesse tomando um chá fumegante de Santo Daime, à medida que me reconhecia nas situações expostas. Estou vingada! (pensava, ticando cada uma delas). Assim que compartilhar esse texto, todos vão entender que minha intenção sempre foi boa; que o problema é apenas uma diferença de visão sobre o tempo — a deles é objetiva, a minha, subjetiva!

    Para que não reste dúvida de que a autora, Becky S. Korich, se inspirou na minha pessoa para psicografar esse texto, seguem aqui algumas situações citadas:

    O encontro é às 20h. Às 19h55, saindo de casa e ajeitando o cabelo no espelho do elevador, manda a clássica: “Chegando.”

    A reunião é às 14h. São 13h40. Calcula: “Trânsito, 25 min; me troco em 5; dou tchau em 2; saio em 10… dá tranquilo.”

    Tem um voo às 10h. Decide sair às 8h10, confiante de que tudo vai colaborar: o Uber vai chegar em 2 minutos, os faróis abrirão em sincronia, não haverá fila no check-in e o portão será logo ali.

    Quem já conviveu comigo certamente poderá engrossar essa lista com muitas outras situações optimistic e… me perdoar!

  • Comunismo na prática

    São Petersburgo é uma das cidades mais espetaculares do mundo. Estive lá em três ocasiões, as duas primeiras quando ainda atendia pelo nome de Leningrado, em pleno regime comunista. Naquela época, se o visitante não tivesse incluído todas as refeições no pacote cuidadosamente preparado pela única agência de turismo que os estrangeiros podiam utilizar, a estatal Intourist, enfrentaria muitos obstáculos para encontrar um restaurante que o atendesse.

    As opções eram escassas e os funcionários não se esforçavam para agradar os clientes, afinal pouco ou nada lucravam com isso. Eu e meu marido nos deparamos com restaurantes quase vazios, com garçons batendo papo, onde fomos impedidos de entrar sob a alegação de que todas as mesas estavam reservadas. Fazer uma reserva seria a solução óbvia, mas, quando solicitávamos ao hotel que a fizesse, diziam que era cedo demais para isso e pediam para voltar mais tarde. Quando voltávamos, respondiam que as reservas estavam esgotadas.

    Os hotéis dispunham de restaurantes que na hora do jantar ficavam abarrotados de estrangeiros tentando conseguir uma refeição decente. Era difícil arranjar mesa, mas uma gorjeta antecipada, principalmente em moeda estrangeira, facilitava as coisas. Mesmo assim, o serviço era ineficiente e os hóspedes tinham que se conformar com o que eles pudessem servir. Boa mesmo, só a vodca.

    Vimos hotéis onde existiam, espalhados pelos pavimentos, pequenos bares para lanches, igualmente lotados, mas onde era mais fácil ser atendido. Dispunham de um menu bastante limitado: pão, manteiga, caviar fresco (esqueça o Beluga, e não se iluda: há uma variedade de peixes cujas ovas se rotulam como caviar), café com leite e doces. Depois de duas ou três refeições dessas, e sem conseguir entrar nos restaurantes, você se perguntava se não seria o caso de pedir socorro à embaixada brasileira.

    Numa segunda viagem a Leningrado descobrimos que, convidando os guias de turismo para almoçar, eles davam um jeitinho de resolver o problema dos restaurantes. O convite era recebido como uma oportunidade de compartilhar um ambiente que lhes era normalmente vetado por questões financeiras. Contudo nem todos ousavam aceitá-lo: dava para sentir no ar o patrulhamento ideológico, e deduzir como era perigoso ter contato demais com o mundo exterior.

    Uma das guias, uma senhora mais idosa, não só recusou enfaticamente o convite, como se afastou de nós tão rápido quanto pôde. Quando nos deixou no hotel no intervalo para o almoço, vimos um pequeno caminhão vendendo bolos (inteiros) na calçada em frente. Já escaldados, achamos prudente comprar um. Havia fila e, quando chegou a nossa vez, as pessoas foram extremamente amáveis: por gestos, ajudaram-nos a escolher o sabor do bolo e a efetuar o pagamento, que, aliás, foi bem pequeno se comparado aos preços que costumavam cobrar dos turistas. Naquele dia, esgotadas todas as tentativas de conseguir lugar em algum restaurante, o almoço foi água e o bolo comprado com a ajuda do povo russo. Não sei se a culpa é da fome, mas esse bolo é uma das poucas coisas boas que me lembro de ter comido por lá.

    Quando estivemos em São Petersburgo pela terceira vez, e esperamos que não tenha sido a última, a Rússia estava em processo de abertura política. No entanto, como costumes não se mudam radicalmente de um dia para o outro, ainda havia problemas com os restaurantes.

    Essa terceira viagem foi realizada em um navio que ficou ancorado na cidade por dois ou três dias. Já não éramos obrigados a utilizar os serviços da Intourist, se é que ela ainda existia, mas, por precaução, achamos mais conveniente comprar duas excursões de dia inteiro organizadas pela companhia do cruzeiro. Nesses casos, era praxe do navio incluir o almoço em um restaurante local. Não na Rússia: eles providenciaram farnéis para os passageiros que iam passar o dia fora. Sinal de que, apesar das mudanças já visíveis, refeições em restaurantes continuavam sendo pontos fracos.

    Agora, já soube por várias fontes, que os russos têm excelentes restaurantes, vinhos e cardápios. Todos os viajantes recentes com quem tive contato falam maravilhas da comida e do atendimento. É por essas e outras que gosto tanto da iniciativa privada. E não pensem que o povo soviético prefere como era antes.

  • Solas

    Me apaixonei, ou pelo menos acho que me apaixonei; fui a uma festa e perdi a cabeça. Comprei um cavalo que não preciso de jeito nenhum. Regras. Não ofereça preço por algo que você não precisa. Ao chegar a um baile, convide alguém para dançar imediatamente e dance uma valsa ou uma polca com essa pessoa. Pense em maneiras de organizar meus assuntos esta noite. Fique em casa.

    25 de Janeiro de 1851

    Mormaço em Copacabana; brunch no Leme e um copo suado me espera pelas entranhas do Flamengo. A luz é perfeita; Jobim canta ao pé do meu ouvido, sua respiração quase roça minha nuca, numa versão acústica em que o som se propaga, encontra os meus poros e traduz-se em arrepio. Meus olhos observam o entorno, meus sentimentos exalam bossa nova e transformam o banal nessa crônica (não sei se haverá fôlego para chegar ao final):

    Os sapatos, importam

    Desde sempre.
    As solas se aprimoraram ao longo dos tempos para que, integralmente, a pele do peito do pé não endureça. Engenharia, borracha, costura, cálculo. Os sapatos importam tanto ou mais que os relacionamentos, que acabam por endurecer os corações. Não protegemos nosso centro vital com a mesma engenharia obsessiva dedicada às solas.

    Me deparei, por acaso — dessas coincidências que fingem surpresa, ou não passam de meros algorítimos— com um diário de Tolstói. A data do registro é a mesma deste domingo. As palavras não envelhecem nem obedecem à finalidade de quem as trouxe ao mundo; apenas se deslocam. Cento e setenta e cinco anos depois, arrebentam como ondas inesperadas no asfalto carioca.

    “Fique em casa”. Reverbera enquanto entro no Uber, ar climatizado e motorista sisudo. À primeira vista.

    Comprar um cavalo.
    Fazer as malas.
    Esperar quem não volta.

    Tolstói faria disso um erro juvenil.
    Eu, com algum acúmulo de maturidade gasto na sola dos sapatos, chamo de insistir no que já deu sinais de fracasso. Meu uber me guia para caminhos com cheiro de casa. Avançava devagar. Chovia daquele jeito que não é chuva — é o teste de humor do carioca. Tudo ficou cinza. A expectativa do por do sol nubla.

    Anteontem choveu muito. Quando chove assim, a gente aumenta a atenção, ele disse. Um carro passou na minha frente, bem aqui perto. Era tudo água. Do nada, uma onda engoliu o carro. Pense no desespero.

    Fiquei em silêncio.
    Era exatamente o tipo de coisa que Vinícius diria, apoiando o cotovelo numa mesa da Glória, antes do segundo chope.

    A vida acontece nesses momentos, eu continuei. Do nada, um carro surge na contramão; um pedestre corre fugindo de um assalto; um motorista cauteloso tem a esposa a parir no banco de trás. A vida não é planejamento. A gente se ilude achando que tem controle sobre uma coisa qualquer. Nem sobre o mundo, nem sobre o que existe dentro da gente. Às vezes, nem sobre a própria pele. Do nada aparece uma gripe.

    Mas sempre podemos fazer uma tatuagem a nossa maneira, sorriu o astuto motorista. Desci.

    Jobim cantaria isso com um piano manso, como quem sabe que não há solução — só caminho. E o caminho, meus caros, só serve aos pés.

    Já escrevi diários prometendo preenchê-los até o fim. Hoje prefiro anotações em folhas avulsas, presas por argolas metálicas: a ilusão honesta de que posso reorganizar tudo depois. A arquitetura me ensinou que o processo de criação não é linear. O Chico parece ter aprendido isso cedo, quando desgarrou de arquiteto para artista. Eu ando experimentando o mesmo tipo de sapatos. A vida acabou me sinalizando que os pensamentos também não são lineares, tampouco unidimensionais. Sequer o tempo é regido por algo que seja levemente parecido.

    Logo pela manhã, ao despertar ao lado de Copacabana, em inércia horizontal, a pele é nua; os pés nem chegam a sentir o peso do lençol. Há preguiça, há coerência, há segurança. Levantar é sempre um risco. O encerado do piso chega antes à cabeça que ao toque dos pés. Por isso calçamos sapatos, sejam eles despojadas havaianas: para atravessar o dia enganando-nos de algum controle.

    Se Tolstói não trajasse sapatos, talvez o registro fosse outro. Protegendo as solas para chegar às festas, perdeu a cabeça — e quem sofreu, coitado, foi o peito. Qual não seria o estrago se os pés sentissem sem amortecer o impacto?

    Há paixões que são lindos girassóis. Há encontros que despertam uma das partes mais bonitas que temos dentro de nós, honestamente livres, que vivem apenas de chinelo nos pés. Não pesam nada, não prometem nada. Destravam a intensidade, a vontade de viver e excesso de medo que trazemos dentro. Tiram nossos sapatos e fazem a conexão instantânea dos pés à cabeça. Não protegem. E cumprem exatamente isso: vida. Há quem chame esses tipos carioca. Não é o gentílico, mas um tipo cultural de se existir. Podemos encontrar cariocas por todo o mundo. A liberdade alheia não é o problema; é a insistência de um turista em levar adiante idealizações alimentadas promessas regadas a pele bronzeada e sorrisos com sabor de água de coco. Amores que vivem melhor no papel do que no chão, porque no chão, a sola protege. Na espera, no entremeio, na possibilidade há segurança.

    Comprar um cavalo.
    Fazer as malas.
    Esperar quem não volta.

    O sentimento é o mesmo de se ver, da janela, o Corcovado e o Redentor. Que lindo.

    Existe esse conselho antigo — e suspeito — de que o poeta só é grande quando sofre. Sofrer e gastar muitas solas de sapato. Antônio acreditava nisso. Um exímio amante dos sapatos. Eu desconfio: a grandeza, quem sabe, não esteja no sofrimento, mas na travessia. Em se saber quando não comprar o
    cavalo. Em desfazer a mala. Em não confundir chuva com destino.

    Nossa casa querida, que não é o Rio de Janeiro, em si, nas as entranhas desprovidas de segurança do nosso corpo, é como amendoeiras à espera de jacarandás. Vida e sonho.

    Achegue-se, meu bem.
    O mundo é mal, mas leva — se levar — outra vez a um caminho que pede solas novas. Me abrace simplesmente, diz a árvore, sábia com seus troncos largos. Não fale. Não lembre.

    Porque eu sei — e você sabe — que a distância não existe.
    O que existe é o chão.

    E todo grande amor só parece grande quando é triste porque, no fundo, nos obriga a caminhar descalços por territórios para os quais não nos preparamos. O poeta sofre, dizem, porque anda demais. Talvez sofra porque insiste em proteger os pés quando o corpo inteiro pede impacto.

    Se é para doer, que doa sem amortecedor.
    Se é para seguir, que seja com as solas nas mãos.

    Há caminhos que não pedem sapatos, pedem presença.
    E o coração vai sentir — de um jeito ou de outro.

    Que ao menos sinta inteiro.

  • Chegar partindo

    Sempre é tarde quando se pede perdão. Tarde demais para apagar o que não devia ter sido feito, falado, sentido, e até pensado, mas que explodiu algumas vezes em uma súbita golfada, outras em uma enxurro daquilo que fermentava há tempos.

    E aí, a dor é sufocante, a vergonha chega a ser desoladora. Saber que o único caminho é pedir perdão consome as entranhas e cutuca insistente, como um alfinete esquecido na roupa.

    Na tentativa de minorar a culpa, a busca de alguma justificativa que abrande o remorso, acalme o coração.

    Mas eu não sabia que você sabia.
    Que a vida é tão boa.

    Não sabia, não queria, não, não…a negação brota e floresce com a proposta de um bálsamo para a dor do erro. Escusa que se repete como um mantra e ressoa, na esperança da complacência divina, humana, ou da própria consciência. Há perdão para quem não percebe a grandeza da vida?

    Se é tarde, me perdoa.
    Eu cheguei mentindo.
    Eu cheguei partindo.
    Eu cheguei à-toa.

    Ninguém chega à toa nessa vida. A chegada é uma porta que se abre para qualquer direção.

    Chegar partindo é chegar mentindo para si mesmo, como se nada houvesse entre o nascente e o poente. É como quebrar a bússola que orienta o caminho da existência, para que ela nãoMmostre os desencantos do amor ao Sul, os banhos de lágrimas ao Leste, mas também o quentura do amor ao sol do Leste. Somente o ponto Oeste da redentora despedida.

    Em cima da mesa, um bilhete dobrado. Maria sentou-se para ler, ainda atordoada pela partida de João. Chegou como quem chega do nada, nunca esteve totalmente presente na relação, e do nada se afastou. A que veio então? O bilhete assim dizia:

    Se é tarde, me perdoa.
    Trago desencantos.
    De amores tantos pela madrugada.
    Se é tarde me perdoa.
    Vinha só cansado.

    Tema de inspiração: Carlos Lyra / Ronaldo Bôscoli: Se é tarde, me perdoa

  • Quando deixamos de ser heróis

    É… Não sei em que ponto e não sei e talvez nunca saiba o momento exato em que deixamos de ser heróis para nos transformarmos em vilões!

    Não deveria ser assim, mas é…

    Quando crianças, olhamos nossos pais como nossos heróis, prontos para nos defender! Entretanto, com o passar do tempo e o embaçar ou desembaçar das horas, passamos a olhar de forma diferente. E olhamos, ou melhor, questionamos essa imagem!

    Mas… e quando nós somos olhados dessa forma?

    Deixamos o uniforme de herói para virarmos vilões. E revelamos, conscientemente ou não, nossas fragilidades e nossos erros…

    E, sim, ficam à mostra homens e mulheres com suas fraquezas, suas rabugices e suas limitações!

    E, sim, ficam à mostra homens e mulheres com seus genuínos defeitos, marcas, cicatrizes atemporais…

    E a vida segue!

    Afinal, o baile não para e não pode parar!

    Entre palavras não ditas e seus silêncios perturbadores, entre palavras que não deveriam ser ditas, mas foram à exaustão, entre reticências e pausas provocadas ou não, vamos nos construindo e nos desconstruindo, tudo ao mesmo tempo…

    E ser um herói durante muito tempo não impede que você se torne um vilão! É assim, num deslize, em uma contramão… Mas como disse, nunca sabemos esse momento exato…

    E desse jeito, viramos o vilão da história ou das histórias! E não, não é vitimização, mas a mais objetiva e sincera constatação!

    No meio disso tudo, vamos sobrevivendo e aprendendo, reaprendendo e ensinando, entre lágrimas e sorrisos, olhares e soluços… Seguimos!

    E talvez seja essa a grande essência da nossa caminhada, um aprender continuamente!

    Não somos perfeitos e nunca seremos.

    E justamente na nossa imperfeição, vamos escrevendo as nossas várias histórias.

    Histórias de conquistas, histórias de fracassos, histórias de amor, histórias de horror, simplesmente, histórias humanas…

  • Rio abaixo…

    Reconectar, rever, retomar a amizade – foi o mantra de Clô ao receber o convite para a festa dos 40 anos de formatura. Quarenta! Ela leu a lista de colegas com um sorriso nostálgico no rosto e um pensamento ligeiramente suspeito:

    “Que tempos maravilhosos… mais ríamos do que estudávamos, e ainda assim conseguimos o diploma! Milagre puro. Laís, Marina e eu éramos uma trinca imbatível!” Sabiam tudo da vida uma da outra – inclusive os detalhes mais cabeludos.

    Só que a vida, essa bagunceira, foi jogando cada uma para um lado. “Como estarão agora? Bonitinhas, como éramos? Ou detonadas pelo tempo, como todo mundo?”

    Aí veio o pânico, aquele clássico pânico feminino com data marcada.

    Dois meses até o evento. Tempo suficiente para virar uma versão 2025 de si mesma – sem filtro, sem Photoshop, ao vivo e em HD.

    Missão Clotilde em modo turbo:
    - Reforçou a academia (alô, personal trainer);
    - Clareamento nos dentes (tchau, café e vinho);
    - Mechas loiras (tom “iluminada e despreocupada”);
    - Botox e uma esticadinha nas pálpebras (cirurgia rápida, que ninguém precisa saber);
    x Harmonização facial? Quase. Mas faltou coragem. Ainda bem.

    Chegou ao evento com a autoestima no volume máximo. O espaço era charmoso, mesas e sofás espalhados, vibe “sunset de senhora elegante”.

    E lá estavam elas: Marina e Laís. Reconhecíveis, porém… um pouco vencidas pelo prazo de validade.

    “Gastei horrores pra nada. Estão caidinhas. Ufa!”

    Mas Clô era educada. E disfarçava bem.

    Abraços, beijinhos, aquela conversa-padrão de reencontro:
    “Casou?”
    “Tem filhos?”
    “Trabalha ainda?”
    “Mora onde?”
    “E seus pais, vivos?”

    Checklist da vida em andamento.

    Logo vieram umas lembranças – aquelas piadas internas que antes causavam ataques de riso e agora só rendiam sorrisos educados.

    A festa seguia animada: bebida boa, DJ animado, comida de primeira… tudo propício ao tal reencontro inesquecível.

    Menos… na mesa de Clô.

    Ali, o silêncio começou a pesar como prataria herdada.

    Ela olhou para as “meninas” e viu… duas estranhas. Nada da antiga conexão, nenhuma faísca do trio explosivo que um dia foram.

    Sem rodeios, soltou: — Gente… que tal dar uma voltinha por aí?

    Levantou-se, ajeitou o vestido, ergueu o queixo renovado pelo botox e, ao dar o primeiro passo, lembrou de uma frase que leu num cartão postal ou num biscoito da sorte, sei lá: “O rio nunca passa duas vezes no mesmo lugar.”

    E, naquele momento, ela achou a metáfora perfeita.

    Para as amigas, para a noite, para a vida.

  • vida [e mundo] como um sopro

    Intranscritível o sussurro aerado dos tempos à beira de uma lagoa. Folhas balançam, cabelos se descabelam, passarinhos tentam passarinhar, todo um compasso descompassado e, por isso mesmo, incrivelmente belo. Há algo de poético em se perceber só existindo, às 16h16 de uma tarde com sol entre nuvens, pessoas – poucas -, zunidos de um linguajar que não se compreende, que preenche tudo o que parece ser vazio. De repente, uma cor vibriônica desponta veloz e… pára.

    Algo de si resiste, altaneiro, em meio à imensidão de água, à primeira vista repleta de ondulações, suaves carneirinhos pululando sobre a superfície aquosa. Duas pessoas são perceptíveis entre linhas — 4 linhas, 5 linhas, linha de segurança. De um lado, a água é flat, do outro, tudo é um grande mexido de uma coisa com outra coisa qualquer: movimento. Ao nível do chão, só corpos muito frágeis são abalados pela antiestática. A grama dorme, plena. Sacolas de plástico vacilam e se perdem. O vento molda comportamentos.

    Contra a direção das monções, asas importam? As dos albatrozes, sim. Plumas driblam a leveza primeira e transbordam solidez em meio ao desequilíbrio. Plainam. Se arrefecem, mergulham de bico na água, fazem acrobacias aéreas.

    É bonito, é bonito de se ver. Cada piscada dos olhos, uma nova, tenra e terna fotografia nas retinas de um que passa, sem pressa.

    Aves diminutas, quase domésticas, encaram a instabilidade dos ares como um parque infantil: forçam seus corpinhos até o limite possível, descem para perto do chão e voam em zigue-zague zague; debochadas, tentam de novo. E retornam. Uma atrás da outra, como quem jura nada disputar, mas disputa, sim, discretamente, a melhor fatia do vento ou o direito de tocar, de forma pioneira, esse céu infinito, carne invisível, o nascimento de um desejo profundo; competição talvez — dessas que ninguém
    confessa, mas todos praticam, com a seriedade das coisas leves e a urgência de um pulsar de vida contemporâneo.

    Em Atenas, com doze metros de altura e oito de diâmetro, planta octogonal, toda em mármore, existe a restauração do Horológio de Andrônico. Na ancestral Torre dos Ventos, um barbudo inclina seu caldeirão e lança o início invernil de todas as Eras. Ele mantém seu posto, sob vigília, entre Boréas e Zéfiro, os deuses dos ventos norte e oeste.

    O primeiro nomeia os ventos boreais; o segundo sopra eternamente, graças às pinceladas de Botticelli, a vida à deusa wɛnʊs, representante suprema dos mares, cujas águas banham o mundo de amor, beleza, desejo, sexo, fertilidade, prosperidade e vitória.

    É possível encontrar essa cena na Galeria degli Uffizi, na italiana Florença, ou impressa em ecobolsas, camisas e até cangas, por todo e meio mundo.

    Imaginem-se passando uma temporada curta de suas rotinas atravessando praias ao sabor do vento, sem rumo ou direção que não a do destino, portando apenas garrafas de água, roupas de banho, smartwatches e uma canga com esse quadro em estampa.

    O vento sopra pela orla e você olha para a canga. O vento muda de direção, você decide levantar acampamento. Sacode a areia da cara da Vênus; Zéfiro e uma das Horas engasgam-se na tentativa de soprar e engolir os grãozinhos indesejados do tecido.

    E, entre os carneirinhos sobre o mar, quase dá para ver o Pequeno Príncipe, lançando ondas como quem tenta compreender o que não é seu. Ou é. Procurando respostas em um mundo que nunca lhe pertenceu por inteiro, sempre a dois passos do paraíso, inquieto, atento, preocupado com a sua rosa, em outro planeta.

    Os carneirinhos permanecem enquanto há vento, balizando a possibilidade de velejar com seu próprio corpo e o desejo de ir e estar além. Ele segue, pequeno, insistente, aprendendo que existir talvez seja aceitar o sopro, confiar nas asas e continuar caminhando, águas na altura dos joelhos, mesmo que não saiba exatamente para onde.

  • Looping quotidiano

    O calor voltara, sem dó, piedade ou qualquer advertência de brisas amistosas. Já desgastada do clima instável, como da própria prudência em largar o vício do sedentarismo, Cíntia tinha na ponta da língua todas as séries numéricas que a identificavam:

    — Data de nascimento?
    — CPF…?
    — CEP..?
    — Telefone, com DDD:
    — Sabe seu peso?

    Inacreditável como um arsenal de números insiste em sintetizar quem somos. Sorriu, mentindo sobre o real valor de sua altura. Registro facial bem-sucedido, criptografado no sistema sob a forma de incontáveis outros dígitos. Catraca liberada. Mais um número: 853, surgiu no visor digital ao atravessar os braços esterilizados e refrigerados.

    Vamos lá.
    Um passo.
    Outro.
    Mais um (já são 3!)

    Pessoas em quantidades consideráveis. Nenhum conhecido. Alguns olhares. A maioria perdida entre movimentos ensaiados e ritmos particulares que cada um compartilha consigo mesmo, sem fios, nos minimalistas fones de ouvido.

    Detestava, mais do que qualquer outra coisa, o ambiente colorido, suarento e repleto de reflexos, equipamentos e câmeras das academias.

    Essa é diferente, você vai ver!

    Até agora, nada novo: a manifesta vontade de sair correndo por onde a haviam taxado 853, naquela manhã de janeiro de 2026. R$ 99,90 por 3 meses… Compreendia que não duraria tempo suficiente para descobrir o valor legítimo da mensalidade.

    Aproximou-se de uma parede repleta de portinhas. Escolheu a 23. Escrutinou o ambiente na surdina ao deixar seus pertences ali. Não tinha cadeado — anotou mentalmente a necessidade de trazer um na segunda aparição, que faria, se fizesse. Alguns passos para a esquerda. Bebedouro à direita. Um QR code com a programação das aulas.

    Retorna ao armário. Zíper da bolsa laranja. Tateia até sentir o celular. Alguém a esbarra.

    O que as pessoas veem em ambientes assim?

    Encosta a portinhola. Volta ao QR code. Analisa as possibilidades que a deixariam
    distantes da esteira com vista para a TV de 60‘.

    8h06, informa o canto superior direito do seu smartphone.
    8h10, aula de alongamento.
    É isso.

    Procura a sala. Porta 5. Lá dentro, lâmpadas tubulares coloridas no forro pintado de preto.

    8 mulheres. 2 homens.
    Sorri cabisbaixa querendo sumir. Escolhe um colchonete no fundo da sala.
    A professora sobe num pequeno palanque.
    Sucessão de gestos copiados, respirações contadas no “1,2,3”
    Suspensão de oxigênio.
    “6,5,4,3,2…”.
    E de novo.

    Estalo de ossos. Músculos doloridos, pouco a pouco descontraem-se.
    45 minutos depois, fim. Está de novo à deriva.

    Recorre ao QR code. Próxima aula… zumba… não.
    9h30, bike.

    Gastar 25 minutos conhecendo a academia?
    Fingir fazer algo importante no celular?
    Beber água.
    Fila no bebedouro. Trazer garrafinha.

    O próximo a hidratar-se, curvando o pescoço e exercitando o abdômen involuntariamente, é um ex-professor da faculdade. Sente-se desconfortável. Abre uma rede social qualquer e finge curtir tudo o que aparece — finge ou curte mesmo, culpa da aflição.

    Ele passa.
    Ela suspira.
    Um barulho ao longe. Ganha força. Volume.
    Balança a cabeça.
    Novamente o bip bip insistente.
    Rotaciona o pescoço. Direita. Esquerda.

    Fecha os olhos, tentando descobrir de onde vem tal balbúrdia incômoda. Inspira.
    “1,2,3”
    Abre os olhos.
    O teto mostra números luminosos.

    7:01.
    Levanta o dorso. Pisca. Não entende.
    Não passara de um sonho.
    Desliga o alarme com a mão esquerda e volta a dormir.
    Pelo menos não era real, essa história de academia…

    De novo o alarme.
    7:06.

    Levanta-se atordoada. Banheiro. Lava o rosto. Escova os dentes. Os cabelos são um amontoado de nada com nada.

    Cozinha: limão, água, pão e manteiga. Cafeteira: café.
    Banheiro, novamente. Topper. Camisa de manga curta. Calças legging. Meias. Protetor solar facial. Ensaia um sorriso. Penteia os cabelos. Rabo de cavalo. Bolsa laranja. Tênis. Fecha a porta.

    Elevador.andar. Pátio descoberto.
    O calor voltara, sem dó, piedade ou qualquer advertência de brisas amistosas. Já desgastada do clima instável, como da própria prudência em largar o vício do sedentarismo, dirige-se, por 1ª vez a uma porta envidraçada de bordas pretas. Entra. Recepção. Cíntia tinha na ponta da língua todas as séries numéricas que a identificavam.

    — Data de nascimento?
    — CPF…?


    Olha com uma sensação de estranha familiaridade para o seu reflexo, quadruplicado.
    Um espelho está de frente para um outro. Atrás de si, um visor acende. Barulho
    inquietante.
    Um número pisca.

    7:01

    O alarme — em algum tempo, no mesmo lugar — se prepara para tocar outra vez.

  • TOC-TOC: crônica das loucuras cotidianas

    Desconfio que, em vidas passadas, andei frequentando a Casa Verde do Simão Bacamarte. Não que eu me dedique profissionalmente ao estudo da loucura, mas traçar o perfil das manias alheias é um talento que cultivo com facilidade — e um tantinho de desfaçatez.

    Outro dia quase me levantei da mesa e despedi com uma desculpa qualquer quando um amigo passou álcool num copo de vinho antes de se servir. Mas o leitor há de convir que essa neura de contaminação acaba com qualquer romantismo de um encontro, não?

    E o que dizer daquelas pessoas que, em qualquer situação, soltam um sonoro “Louva Deus”? Um cacoete religioso? Ou uma saudação digna dos fanáticos de Handmaid’s Tale“Bendito seja o fruto”? Só mesmo rebatendo com um bem-humorado “Que o Senhor abra”.

    Repassando as loucuras que identifico nos outros, cheguei ao fascínio por simetria. Convidada para um almoço, a pessoa entra na minha casa e pede permissão para arrumar o quadro que está um pouco fora do alinhamento. Em seguida, comenta que a mesa de almoço não está centralizada com o lustre, e termina perguntando se eu não me importo dela alinhar os talheres. Dou aquele sorriso bem-educado, e digo “fique à vontade”, com vontade de trocar o “i” pelo “u”.

    Cheia de razão (assim eu achava), rotulei esses comportamentos como TOC — Transtorno Obsessivo-Compulsivo. Pobres criaturas, devem sofrer com isso… por que não buscam uma ajuda psicológica?

    Até que, outro dia, ao organizar as pastas no computador, percebi que estava renomeando aquelas que fugiam do padrão. Se começo usando maiúsculas no nome da pasta, todas precisam estar em maiúsculas. Inadmissível misturar!

    Epa… será que eu também tenho o meu TOC?

    Mas vejam bem: nem de longe isso me preocupa. Afinal, como já dizia Bacamarte, de médico e de louco todo mundo tem um pouco. Agora, com licença que vou ali renomear umas pastas fora do padrão.

  • Nada de novo no front II

    Começamos mais um ano e notícias de guerra voam pelos ares, atravessam fronteiras e chegam às nossas casas, em todas as casas.

    A despeito da poesia e da vida, velhos amargurados jogam meninos no campo de batalha e exigem vitória.

    A despeito do pulso e do pulsar das coisas, estes mesmos velhos, donos do mundo, brincam com fronteiras e bandeiras, ignoram sonhos e seguem arrotando e resmungando superioridades.

    Começamos mais um ano. As bombas ainda caem na Ucrânia. A novidade, agora, é de bombas na Venezuela.

    Exércitos são preparados e mais jovens seguem para os moedores de gente.

    A despeito do amor e das cartas e promessas, os enferrujados velhos ou velhacos, na sua sordidez natural, alimentam o ódio e fazem os jovens desaprenderem a olhar com calma as coisas.

    Começamos mais um ano e mais um ditador (sempre haverá ditadores) segura o mundo nas mãos e gira e gira no movimento dos seus caprichos e das suas ganâncias…

    A despeito do mar e do azul das águas. A despeito do vento fresco no rosto e de todos os bons livros a serem lidos. A despeito das flores e das folhas e do baile dos pássaros… A despeito de tudo o que faz sentido para os que apreciam a vida de verdade (nos seus sabores e dissabores) …

    Começamos mais um ano e seguimos resistindo ao fascismo, ao egoísmo, ao fanatismo e todos os ismos contrários ao humano.

    Começamos mais um ano e a poesia é a melhor e maior resistência que há em cada um de nós.

    Se não houvesse poesia nos olhos da menina… Se não houvesse poesia na rua, na esquina… Se não houvesse poesia no comer o pão em cada dia… Não valeria a pena seguir.

    E seguimos, a despeito dos ditadores!

    Estes cínicos senhores não sabem rir e não querem que ninguém ria.

    Estes cínicos senhores não gostam de poesia e, por isso, enevoam o céu com bombas. Com tanta fumaça, não dá mesmo pra apreciar a vida!

    Começamos mais um ano e insistimos na poesia e você sabe o porquê?

    Porque só a poesia pode abrandar as durezas certas da vida…

    Porque só a poesia, dentro desta crônica primeira, dá um abraço na alma…

    A despeito das bombas e dos ditadores…

  • Palavras nem tão bonitinhas assim

    Toca, por primeira vez em meus ouvidos, uma canção intrigante: I’m All I Got, de um grupo chamado Dead Brothers. O nome não passa incólume. Há algo ali que cheira a flores murchas, deixadas tempo demais num vaso a mercê de sabe-se-lá-o-quê. Palavras que já foram belas, mas agora exalam um odor agridoce, quase fétido. O conjunto de palavras ressoa, reprisa, ritmada insiste — e me tira por completo da leitura. A melodia dançante também, em contraste quase cruel. Passei a ter o hábito de usar fones de ouvido para ler quando o entorno me entristece — ou quando quero me sintonizar com o presente, totalmente. Sinto-me dentro de uma redoma, protegida. Se ‘todo homem é uma ilha’ – ed è vero –, cada um de nós cria seus próprios mecanismos para embarcar nessa solitude que somos nós mesmos, mesmo quando ela se parte, se afunda, some e sangra.

    Entre páginas de milhares de livros que me circundam, móveis com mais biografia que meus avós, objetos que simbolizam tantas memórias, minhas pernas se cruzam, esticadas, sobre a superfície gentil da escrivaninha. Respiro fundo. Concentro-me, tortuosa, entre letras recém-nascidas de músicas estrangeiras, páginas que exalam palavras traduzidas para meu idioma materno; minhas mãos carregam camadas de esmaltes que se complementam — resquícios de réveillon — escolhidos pelo tom de amarelo e por trazerem “artista” em seu nome de cor. Pequenas combinações concentradas em 8ml, garantia sem devolução de autoestima.

    Só escolho meus esmaltes pelos nomes. Assim como escolho minhas vestimentas pelo que meu coração me nomeia, diariamente. Orgulho-me por não ter um estilo único. Talvez porque estilos fixos também acabem cheirando a flores mortas quando insistimos demais neles. E lá se vão dias úteis neste ano com cheiro de caderno novo. E, ainda assim, tempestades e raios me lembram da promessa que me fiz de não cometer mais os mesmos poemas, nos mesmos versos e estrofes — como quem tenta não repetir feridas já infeccionadas. Pele cicatrizada é cura, não fecho-éclair. É tudo novo, me repito. É página em branco.

    Eis o ponto em que a pele deixa de ser sombra da morte, perde o espanto e se torna rotina.

    “Suportar” e “sobreviver”: dois verbos que carregam duras penas, tão necessárias a nossa existência. Duros e honestos verbos… Como ter uma vida longa sem tais ações? Impossível. O provável é acostumarmo-nos a elas. Torná-las menos pesadas aos sentidos. Abusar, para isso, do lado racional do qual fomos providos. Quem sabe aceitar que algumas palavras nem sempre se perfumam para nos encontrar; vêm fétidas e com mal hálito, para que percebamos o quanto ainda estamos vivos.

    Ao zanzar neste sábado, pela casa que é parte minha e, ao mesmo tempo, reflexo parcial de tantas existências, li um poema que decreta: a garganta fica entre a mente e o coração. Dei-me, assim, de encontrão com as minhas infecções de garganta, quando pequena. Lembrei-me de como sangravam. E de como aquela dor era infinitamente menor do que os sangramentos atuais da mente e do coração.

    “Adultez”, chamar-se-ia isso, fosse um potinho de esmalte. Padecem desse mal todos os abençoados com vidas longas — ou relativamente alargadas. Sentimos. Experimentamos. Falhamos. Nos envaidecemos. Choramos, seja por alegrias ou arrasamentos da alma. Estamos vivos. Existimos. E seguimos colecionando momentos e memórias neste labirinto que traz placas em línguas diversas (traduzirei para vocês):

    SUPORTAR
    ENTRANCE
    INGRESSO
    = ENTRADA

    _
    ———– | <<< >>> [ ] (x) ( )

    _

    SOBREVIVER
    EXIT
    USCITA

    = SAÍDA

  • Ema, ema, ema cada um com seus problemas

    Emília entra no elevador enorme da repartição pública, desses feitos para transportar pelo menos vinte pessoas, mas que, naquele horário, estava quase vazio. Quase. No fundo, uma pessoinha encolhida chorava baixinho.

    Emília desvia o olhar. Final de um dia estressante — só me faltava agora ter que consolar alguém que nem conheço. Vira-se de frente para a porta, torce a boca e entoa seu meme preferido: ema, ema, ema, cada um com seus problemas.

    Milena se joga no sofá para conferir as mensagens de WhatsApp que ainda estavam na caixa. Começa pelas mais urgentes: o grupo da faculdade marcando um happy hour, a faxineira avisando que não vai poder trabalhar amanhã. Em seguida, aparece uma que começa com: Família, quem pode me ajudar? — acompanhada de emojis com mãozinhas postas em prece.

    Milena titubeia. Se abrir a mensagem, vai ter que responder, se envolver. Melhor nem abrir. Afinal, também tem seus próprios problemas. Portanto… ema, ema, ema, cada um com seus problemas. E passa para a próxima.

    Amélia segue paciente na fila de carros para pegar a filha na escola. Já está quase na sua vez quando, de repente, um carro emparelha e a janela se abre. Uma moça, descabelada, suplica:

    — Será que eu poderia passar na sua frente? Minha filha está tendo uma crise de angústia. Ela está no espectro do autismo, preciso pegá-la o mais rápido possível. É uma urgência.

    Amélia hesita por um segundo. Pensa que ainda precisa levar a filha ao dentista, que já está atrasada. Então acelera o carro. Afinal, ema, ema, ema, cada um com seus problemas.

    Emília, Milena, Amélia. Trocam-se as letras, muda-se o cenário — o refrão é o mesmo.

    Talvez sejamos todos um pouco essas emas. Não por crueldade, mas por exaustão. Cansaço, medo, excesso de solicitações. Nossos problemas individuais sempre se sobrepondo aos dos outros, como se não houvesse espaço para mais nada.

    Nunca tivemos tantos “problemas próprios” e tão pouco espaço para os problemas alheios. Talvez não seja falta de empatia, mas excesso — de tarefas, de ruído, de cansaço. Cada um cheio demais de si para caber no outro. E assim seguimos: um coro afinado na pressa, cantando juntos a mesma cantiga. Ema, ema, ema, cada um com seus problemas.

  • Onde mora o seu olhar

    Nunca havia pensado na morada dos olhos, e sua relação com a inspiração necessária para um bom escritor, até que me caiu no colo o texto magnífico de Rubem Alves – A arte de ver.

    Me encantou esse termo, morada dos olhos, pois ele dá uma outra dimensão à diferença entre o ver e o olhar, que está relacionada à morada onde guardamos aquilo que nossos olhos captam.

    Se captamos as imagens somente com a visão, elas são armazenadas em uma caixa de retratos.

    Colecionamos imagens que nos são úteis para referenciar, objetivamente, o mundo que nos cerca. Pensando na arte da escrita, essa caixa nos fornece material para descrever a forma, a cor, o tamanho dos objetos que vemos – um bolo de chocolate com cobertura, por exemplo. Se bem descrito, podemos até sentir na boca sua cremosidade.

    Mas, se captamos o que nos cerca com o olhar, se abrimos nossos escaninhos, conseguimos romper com a racionalidade objetiva e nos conectarmos com significados e emoções que vão muito além do objeto. E, aí, a morada desse olhar é uma porta aberta dentro de nós; o olhar nos habita, mas é livre, cigano, vagando por aqui e ali. É o olhar do escritor poeta, que ao pousar em um bolo de chocolate, é capaz de sentir e nos fazer sentir, em seu texto, a cremosidade de um beijo apaixonado.

    Como poeticamente colocou Alberto Caeiro (citado no texto de Rubem Alves), para isso é preciso “partejar olhos vagabundos”

  • A última crônica do ano – amanhã há de ser outro dia

    E terminamos mais um ano. Mais um ano que corre e corremos juntos para não perder a viagem! Empacotamos novos e velhos sonhos para o ano que virá…

    O mês de dezembro é assim: o último mês do ano é tão apressado, mas tão apressado que parece querer o novo calendário!

    E correm as pessoas com as festas de Natal e as festas da virada. Roupas, nomes, mensagens, sorrisos, promessas, presentes, viagens…

    E terminamos mais um ano.

    As velhas e repetidas canções de natal, de todos os natais, embalam as ruas e as casas, embalam a fraterna pressa tão típica de fim de ano, todos os anos…

    Mas…

    Mesmo que façamos as mesmas coisas (ou pelo menos, boa parte delas), guardamos dentro de nós mesmos uma certa urgência e uma necessidade verdadeira de acreditar que as coisas vão mudar, vão se acertar… E colocamos confiança, fé, esperança em um novo momento, como se fosse um presente, um bálsamo, um afago que nos dá força para continuarmos a grande aventura da vida…

    Assim, enfeitamos a casa, arrumamos a mesa, chamamos os amigos, colocamos luzes nas janelas, nas varandas, nos quintais…

    Assim, preparamos a melhor roupa, damos um trato no cabelo, organizamos a melhor ceia e colocamos no rosto o melhor sorriso.

    Seguir em frente é preciso… É preciso!

    Termino esta última crônica parafraseando o velho mestre Chico Buarque…

    Apesar das bombas, da cara feia, dos políticos e suas politicagens, dos malandros e das suas malandragens, amanhã há de ser outro dia!

    Apesar das intempéries da vida e dos sobressaltos diários, amanhã há de ser outro dia!

    E daqui a alguns dias, há de ser natal!

    E daqui mais alguns dias, há de ser um novo ano!

    Com toda certeza, será um outro dia!

  • Entre

    A arte salva momentos.
    A frase foi construída por Matilde Campilho, num vídeo brevíssimo — desses que carregam a tônica do fulgaz que uma gravação de Instagram faz reverberar por nossas pupilas. Prendeu-me num eco posterior ao instante do encontro com a postagem, enquanto eu dedilhava a tela com a ansiedade tão comum — e tão normalizada — no comportamento contemporâneo.

    A arte salva.
    E, às vezes, sem que sequer nos demos conta de que precisávamos ser salvos. Tomemos o exemplo da poetisa portuguesa Matilde,

    • que: contou a história de um dia em que, ainda criança, resolveu dar um passeio sozinha, desbravadora assim, acompanhada apenas por sua mochila — artista desde sempre;
    • entrou num museu e se estarreceu diante da enormidade de uma pintura imensa, instalada numa sala igualmente imensa;
    • não, não era apenas a diferença de escala entre a menina pequena e a obra monumental que fez seus joelhos fraquejarem;
    • ali ela se deixou ficar. “Trinta minutos, um quarto de hora”;
    • quando voltou para a família e contou, com os olhos brilhando, que havia visto algo incrível, não soube responder aos adultos o que exatamente era.

    A arte não precisa significar, propriamente.
    Ela é um todo que se percebe pelos sentidos, não pela razão. Racionalizar o mundo tende a retirar-lhe a beleza. Explicar demais, mostrar demais, produzir conteúdo a torto e a direito — numa onda que, inevitavelmente, vai quebrar mais adiante — também. A arte tem como propriedade o encantamento. E o encantamento se retém apenas por percepções: tato, olfato, visão, audição, paladar. E, sobretudo, na dimensão do tempo.

    O tempo.
    Ele vem regendo meu modo de encarar o mundo desde que meu pai se foi. Parece que se chocaram em mim — ou por mim — as três vertentes conhecidas: a do ontem, a do agora e a do amanhã de manhã, esse futuro imediato. O presente, então, pulsa em outra frequência. Acaricia meu rosto com mãos delicadas e, ao mesmo tempo, quando me olho com profundidade, faz com que eu me apaixone perdidamente pela vida, sem saber ao certo que rumo tomar.

    Estou viva.
    É final de 2025 — ano torto, ano obscuro, ano adoentado e, ainda assim, tão necessário no intramundo de cada um. A mente, como os livros, as pinturas, as instalações artísticas, os filmes, é uma máquina do tempo literal e literária.

    E alguém aqui já leu… H. G. Wells?

  • Nota de abertura

    (nota de abertura – curta, decisiva)

    Esta crônica acontece no intervalo.
    Quinze minutos entre um ato e outro.

    DIIIM.

    As cortinas estão abertas, mas ninguém está olhando para o palco.

    DIIIIIIM.

    Ando por esse tempo suspenso como quem flana: não chego, não parto — observo.

    DIIIIIIIIIIIIM.

    (Silêncio)

    Sura Berditchevsky parou por diversas vezes um ensaio do musical mais emblemático da minha carreira de atriz, sobre os anos 60 (60, O MUSICAL, texto da amada Bibiana Beurmann — Bibi, você ainda me deve meu papel de vilã!). Veio no dia a convite do diretor e também ator do elenco — que contracenava comigo em nosso dueto romântico de “Summer Nights” e, além disso, também é meu primo, Bernardo Dugin (<3).

    Aquela figura incrível e famosa, que nós — então quase todos jovens adultos e aspirantes à fama que prometem as artes cênicas — idolatrávamos por ser ela quem era, nos atravessou de vez. Reverenciamos quando tirou os sapatos para pisar na plateia em pleno ensaio, fez alguns de nós chorar e titubear sobre “ser ou não ser” possível apresentar o que já vínhamos fazendo no palco, em sessões anteriores.

    Fomos o primeiro grupo de atores friburguenses a pisar no então Teatro Municipal Ariano Suassuna. Ariano veio à inauguração do edifício teatral – infelizmente não nos viu ali, em cena; chegamos dias após -, foi homenageado, discursou, posou para fotos. Só mais tarde alguém lembrou – com a seriedade que costuma chegar extemporaneamente – que havia uma lei impedindo homenagens não póstumas. Que gafe, Friburgo. O teatro mudou de nome e passou a se chamar Teatro Municipal Laércio Rangel Ventura. Nós seguimos em cena. Sura marcou nossas vidas.

    Eu receava a vez em que ela faria algum comentário sobre mim. Quando pausou e disse:

    Sura: Garota…

    Eu tremi.
    Mas ela apenas comentou, séria:

    Sura: Você… você tem isso aqui…. — Sura faz marcações com os dedos sobre as próprias pálpebras — igual ao da Giovanna Antonelli…

    Eu me senti.
    Como diria minha mãe, em algum momento da vida:

    Minha mãe, Lucia Monnerat: “Está sissi..!”

    (Não confundam com vaidade: é apenas alegria bem ensaiada).

    Como me disse recentemente Claudecyr Duarte, meu parceiro de desafios inusitados nos campos da movelaria arquitetônica — que eu crio —, das estruturas de artes visuais luminosas — que também assino — e do que parece impossível, por orçamentos improváveis ou prazos irreais, constante no mundo da arquitetura:

    Claudecyr Duarte: Você não pode brincar de pique-esconde.
    Eu: Por quê?
    Claudecyr Duarte: Porque você se acha…

    (Pausa, de natureza “drama-cômica”)
    Ainda bem que, perrengues à parte — como diria o Clau:

    Claudecyr Duarte: …e o amor só aumentando…

    Humor e ironia são constantes entre as pessoas que me cercam. Tiramos sarro uns dos outros para exaltar boas características, de quando em quando, sem que o verbo achar, nesse contexto, traia a minha humildade. Eu acho, verdadeiramente, e curto tudo o que faço. E, sim, me senti quando fui comparada à Giovanna (quem não…).

    Miguel Toscano (procurem-no no Spotify – ou cliquem aqui), então o prodígio musical da nossa trupe, com seus 14 anos e um gogó incompatível com tão diminutas idade e estatura, surpreendia e fazia — ainda faz — qualquer um congelar ao evocar Frank Sinatra cantando “My Way”, me apelidou nessa época de “Gijou”

    Miguel Toscano: And now… the end is near…
    (corte abrupto. Ouvem-se passos)

    Miguel Toscano: Hey, Gijou!

    Eu sempre associei o apelido à Giovanna — o que não era bem por isso; ele me lembrou recentemente. A lembrança veio quando deixei nas coxias uma encomenda do Bernardo: um microfone cenográfico retrô, desses que parecem ter vivido mais do que a gente, realizado em parceria com Felipe Saippa e que ficou, modestamente – ou não – lindo.

    Era para O Homem da Montanha, musical escrito pelo querido David Massena, dirigido pelo meu primo e estrelado pelo Miguelito, sobre o nosso ilustre conterrâneo Benito de Paula. O apelido voltou inteiro, com voz e tudo.

    Esse tanto de nomes aparece nesta crônica não por vaidade, mas por método: são eles que abrem as cortinas de um marco da minha trajetória artística. Ontem, 13 de dezembro, estreei como diretora teatral na Usina Cultural Energisa de Nova Friburgo — o point cultural da cidade, minha segunda casa, lugar onde já aprendi a entrar e a sair sem pedir licença.

    Espaço que, neste mesmo ano, também acolheu duas obras minhas de artes visuais e luminosas na exposição Lux: luzes da memória, a convite do Resistência Artística — grupo de curadores-artistas formado pela dupla de Mários, Moreira e Massena, e por Tiago Vianna — encabeçados pelo produtor Wilton Neves e assistidos por Cherman, Luquinhas e Felipe, numa engrenagem que funciona, porque é feita de gente.

    Sem esquecer da incrível Mariana Pietrobon, que conduz com maestria as atividades culturais da Energisa em Nova Friburgo e também integra o World Creativity Day na cidade, como eu e um número crescente de criativos — evento que, em 2025, foi chefiado pelo incansável e onipresente Marcelo Verly, com o bastão devidamente passado ao emblemático e multifuncional Beto Grillo, que ontem, por coincidência ou dramaturgia do acaso, também assinou a luz da peça Sem verba, com drama!.

    Pois a peça… divaguei. Muitos nomes pedem passagem. Gabriel Cardoso (“O Paraíso dos Quase Lá”, Luva editora), à frente das aulas de Escrita Criativa e do Núcleo de Expressões Artísticas no Sesc Nova Friburgo, lendo crônicas incríveis para nós, sua turma da tarde comentou recentemente:

    Gabriel Cardoso: Esses figurões do meio artístico eram todos amigos, cara… Imaginem, passar os réveillons com Vinícius, o Braga, o Chico… era meio que essa parada, sacou? Isso já não acontece mais…

    Estou eu me achando de novo, com esse meu ato tão cronista de flanar por cenários
    culturais.


    (Voltando à peça)

    Antes, porém, falta citar meu saudoso povo d’ “os 60”– tão adepto dos pós-ensaios e dos encontros corriqueiros banhados a vinho; nosso “60, O vinho” tem promessa de reencontro para (ainda) este fim de ano.

    Anike Couto (bacharel em Artes Cênicas) e Lucas Braune (matemático com mestrado em Cambridge), um dos meus casais favoritos, são pais da linda e simpaticíssima Cecília e hoje vivem como cidadãos alemães; o outro Lucas, Veiga, que foi minha dupla nas canções da Disney, tornou-se psicólogo e, como acontece, a vida nos levou por caminhos distintos. Carmen Lúcia era uma amiga constante, apaixonada pelo universo das fofocas — trabalhou, inclusive, um tempo na Purepeople — e, em igual medida, por Fátima Bernardes e William Bonner; hoje é uma jornalista empoderadíssima. Gaori — então Tamires Braga, seu nome oficial — tinha voz doce e um poder quase hipnótico; hoje mora em um barco, navegando pelos oceanos da vida e atracando de quando em quando. Sua mãe, Ivana Valle Machado, maravilhosa, foi nossa estrela da Varig. O Miguel, eu já citei, e o Bernardo também. Éramos nove, um corpo cênico diminuto diante de um corpo de dança robusto, formado por bailarinos das escolas Cia. Marqui de Dança, Studio3 e da Academia Bibiana de Sá; pelo caminho, somamos participações especiais, como Yago Demier, meu par romântico em Time of My Life. As vozes de Paulo Carvalho (hoje in memoriam) e Cil Corrêa embalavam nossa rádio-guia. Atuei e também assinei a cenografia do espetáculo que cruzou palcos interestaduais por cinco anos: os cubos versáteis do Bê e o microfone cênico criado com meu parceiro de longa data, Hélcio Carlos Gomes – e não posso deixar a Carla Azevedo de fora, cuja indumentária venceu o Troféu Arlequim no Festival do Rio, em 2010. A direção vocal era de Lanúzia Pimentel.

    (Finalmente…. Sem verba, com drama)

    Texto de Matheus Emerich, encenado por ele, Lyvia Hottz e Dhara Freitas — três atores que me chegaram pelas aulas e montagens dirigidas pelo Bernardo. O Matheus me escreveu um dia desses pedindo opinião sobre um sofá cenográfico; de repente, me convidou para dirigi-los. O convite nasceu de um ensaio de cena em que contracenávamos, em 2023, na peça Vida (nada) privada. Eu os “dirigi” ali, mais por escuta do que por técnica, diante do nervosismo da pouca experiência dos dois.

    Aceitei dizendo:

    Eu: mas não sou diretora…

    Uma herpes-zóster – combo da tríade estresse, baixa imunidade e, pasmem, sol -, ápice do meu inferno astral e pessoal, além de presente grego inesperado dos meus 37 anos – limitou minha participação aos quarenta e cinco do segundo tempo. Ainda assim, foi simples. Eles são incríveis. E o espetáculo foi demais.

    Eu, que havia rascunhado escrever sobre um apanhado de considerações pescadas no algoritmo do Instagram — incluindo uma fala do Niemeyer em que nosso arquiteto mais conhecido se diz otimista ao mesmo tempo em que anuncia que tudo vai acabar e que a humanidade não tem jeito —, mudei de rota. As ideias pipocaram quando meu amigo arquiteto Diogo da Vinha postou o tal do vídeo do Oscar…

    Eu: valeu, Dioguex!
    (já adivinho a resposta)
    Diogo da Vinha: “de nada, Nublex!”

    massegui por outro caminho: o do estrelato compartilhado. Ainda caberiam muitos nomes aqui. Agradeço a presença na plateia de ontem dos escritores Gabriel (que permaneceu em Friburgo após o encerramento do NEA, e também para não perder o jogo do Mengão), minha mãe, Lucia Monnerat (a mais nova cronista do pedaço! <3) e a Rita Aguiar, representando nossa turma criativa, e Sabrina Coelho, futura arquiteta, minha estagiária mais recente e suplente, comigo, junto ao Conselho Municipal de Políticas Culturais.

    Já que falamos de teatro a maior parte do tempo, não posso deixar de citar Tânia Noguchi e Adriana Xavier, maravilhosas, responsáveis pelos preparos vocal e corporal das turmas do Bernardo; Antonio Guedes, diretor do grupo Pequenos Gestos, que me trouxe Guto Urbieta e papéis lindos que, infelizmente, não cheguei a encenar de fato; Fabio Samu, à frente do Jurisdrama da UFRJ – onde cheguei já como assistente, graças ao meu então registro de atriz – o DRT.

    Cito também Mirna Rubim e Menelick de Carvalho, diretores maravilhosos que tive o orgulho de encontrar na primeira turma do curso Mergulho no Musical, na Casa de Artes de Laranjeiras — turma inteira incrível e atuante, cuja lista completa exigiria outra crônica. Da CAL, não posso deixar de lembrar Lidhiane Lima (quase dividimos a TV Globo em Malhação ficamos só na memória dos testes), Rany Carneiro, Lorena Lima e Manu Rangel.

    Houve ainda Celso Garcia e Evelyn Junqueira, casal maravilhoso que transformou eu e o Be Dugin em Sara e Renan no que seria a trilogia Gravidez Precoce, mas acabou sendo só uma única história – e a do meio; Manuela Lacerda, presente do Parque Lage, que me levou pela mão a alguns de seus curtas; e, ainda na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rogério Emerson Magalhães e a iluminação como linguagem para a arte — que teve, em nossa turma, figuras assíduas, boêmias e inesquecíveis, não é não, Rogerinho? Domingos Netto, Renata Levy, Raquel Carvalho, Marinah Raposo, Emmanuele Rodrigues, Rodrigo Daniel, Ilana Majerowich, Thiago Ortman, Bruno Trindade e Rafael Coutinho. Os bares do centro e da zona sul nos aguardavam ansiosamente.

    Lembro também Rômulo Barros, que levou o “60” para a TV Aparecida na programação de Ano Novo; e José Henrique, coordenador da SUAT UFRJ, minha casa no fim da faculdade, onde tive bolsa de iniciação artística.

    E, não menos importante, José Dias — imortal e maior cenógrafo do nosso país — orientador do projeto que me consagrou arquiteta e urbanista pela UFRJ: uma proposta para um novo Canecão, há cerca de dez anos. José Dias ainda me fez sua assistente de cenografia em Anos Radicais e em projetos de arquitetura teatral, como a reforma do Teatro do Colégio da Divina Providência e estudos de readequação de espaços cênicos. Por conta dele e de Lincoln Vargas — friburguense, então conselheiro e presidente das Políticas Culturais —, no ano passado acabei levando algumas peças para compor o cenário de Dedé Show, do grande André Mattos, e me tornei parte do elenco, ao lado de sua filha Maria Repetto, de seu irmão Paulo Mattos, do próprio André e do Lincoln. Cantei e declamei, assim de supetão, o poema Primo Basílio, de Eça de Queirós. Valeu por toda a parte de som de sempre, Alexandre Concencio!

    Ano passado, também por intermédio do Bernardo, participei de duas leituras inesquecíveis do clássico de 1750 O Santo Inquérito,ao lado de Nilson Nunnes, Margarida Ferreira da Silva, Marisa Calheiros Alvarenga, Regene Britto e Leo Pontes. Leituras dramatizadas, com direito à indumentária, objetos cênicos e fogueira. Dar vida a Branca Dias — e ser queimada em praça pública — foi uma experiência das mais emocionantes.

    Em retrocesso, cabe um abraço apertado a Mariângela de Andrade Erthal, a Poesia, que dirigiu com maestria o Teatro da minha já extinta escola tão amada, o Teatro do Externato Santa Ignez. Também não pode faltar a inesquecível Daniela Santi, cujo palco da Usina Cultural leva o seu nome, com quem fiz aulas na infância e, por feliz jogada do destino, postumamente, agora, tenho a honra de reformar uma parte de sua antiga casa.

    Ouço o sinal.
    Três toques curtos.

    DIM. DIIM. DIIIM.

    Alguém ajeita o casaco.
    Outro larga o copo pela metade.
    Ainda estou falando — ou alguém ainda está falando comigo — quando o fluxo começa a andar.

    As luzes piscam.

    O segundo ato vai começar.

  • Só a bailarina que não tem

    Um dia desses, lendo uma crônica do Vinicius de Moraes — O estranho ofício de escrever — senti um alívio maior do que aquele que experimentava, na infância em colégio de freiras, ao sair do confessionário. Minha consciência, até então abalada pelos pecados veniais e mortais que vinha cometendo na escrita, se encheu de uma morna complacência. Afinal, se até Vinicius escorregava, por que não eu?

    Escrever, para mim, envolve uma dor de parto aguda e profunda. O texto vai vindo a cada contração e, por vezes, precisa da ajuda de fórceps para ganhar o mundo. Sempre acreditei que, como escritora, não era uma boa parideira.

    Lia os grandes cronistas e me encantava com a fluidez com que as palavras bailavam nas páginas: ora em plié, compondo sentidos flexíveis; ora em rond de jambe, mudando o rumo da narrativa; muitas vezes arrematadas com um inesperado grand jeté. Eu me consolava pensando que jamais havia treinado em sapatilha de ponta — requisito básico para integrar um corpo de baile como o daqueles escritores notáveis.

    Na tentativa de entender como se dava o processo criativo deles, resolvi bisbilhotar suas rotinas. Descobri um certo consenso: corpo em movimento, mente disciplinada, metas diárias e um caderno sempre à mão para capturar ideias fugidias. Adotei as caminhadas matinais e o inseparável caderninho — e continuei insegura. Meu relógio criativo insiste em funcionar à noite, e me permiti respeitá-lo, até porque método algum jamais garantiu inspiração. As crises criativas permaneceram, fiéis como velhas conhecidas.

    Foi então que me deparei com a confissão de Vinicius. Ele, Rubem Braga e Paulo Mendes Campos escreviam para diferentes jornais e, num aperto, Rubem pediu a Vinicius uma crônica emprestada. Veio A Sopa. Rubem fez pequenos ajustes e publicou. Tempos depois, foi Vinicius quem, sem texto novo para o dia seguinte, recorreu a Rubem — e recebeu de volta justamente A Sopa. Protestou, claro. Mas não era pobre soberbo. Remendou aqui e ali e publicou.

    Foi minha absolvição definitiva. Se até os grandes reciclavam crônicas em dias de penúria criativa, por que não eu?

    Lembrei então da Ciranda da Bailarina, de Chico Buarque e Edu Lobo:

    “Confessando bem, todo mundo faz pecado…
    Só a bailarina que não tem.”

    E só o escritor perfeito também não.

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