Abro os olhos e vejo que o sol vespertino de um certo domingo ainda teima em transmitir um pouco de vida a um fétido e pestilento cômodo. Pelas frestas da janela, a luz do sol ilumina meu quarto, aparentemente vandalizado por poderosos demônios desconhecidos. Aos poucos, recobro minhas forças e sinto o peso de mais uma interminável e irresponsável bebedeira. Em meio a uma breve crise de consciência, escuto uma batida na porta.
— Carlos Alberto! Você está bem? — pergunta Miriam, minha vizinha de porta.
— Vou deixar aqui um remedinho pra você. Toma! Vai melhorar! — insiste aquela que talvez tenha sido meu mais fiel anjo da guarda.
Com a boca seca e a cabeça latejante, tento refazer, mentalmente, o percurso da noite passada. Mas é tudo tão confuso! Memória e imaginação misturam-se como duas amantes que compartilham entre si os mesmos lençóis. Um turbilhão de imagens e de sons passa pela minha cabeça, sem que eu possa compreender o que significa tudo aquilo.
Vejo em minha frente uma rua iluminada, algumas mesas sobre a calçada, muitas pessoas animadas. O vaivém de copos e de garrafas enfeitiça este passeante já desobrigado de eventuais compromissos. O sorriso naquele rosto dá continuidade a uma sequência de ações e reações não planejada para aquela noite. Já não estou mais sozinho, pois escuto sua voz alternar momentos de doçura com outros de altivez. Com facilidade, a conversa flui e explora diversos assuntos: música, literatura, política e até futebol. A atração provocada pelo seu olhar só poderia ser mantida por seu humor inteligente e sarcástico. O gosto de seus lábios e a maciez de sua pele impelem-me a querer mais de sua companhia.
— Já está tarde, preciso ir embora — diz aquela com quem combino um próximo encontro.
Não estou mais em sua companhia. Dou um passo à frente, respiro fundo e vejo outras pessoas igualmente alvoroçadas. O ambiente é outro, mas a música alta e a excitação generalizada sugerem que a noite ainda chegará ao seu ápice. Três mesas de sinuca dispostas ao fundo do salão oferecem mais uma opção de diversão a uma pequena súcia de boêmios. Parece que a saudável confraternização do fim de semana começa a dar lugar para os excessos de uma noite imprevisível. Mas eu continuo lá… Necessito permanecer onde estou! Não sei como exatamente, mas aquilo tudo me dá força para respirar com mais vigor. As amarguras de uma vida mal concebida são anestesiadas a cada gole daquela bebida enganadoramente milagrosa.
De repente, o barulho da jogatina é interrompido por gritos e alguns copos quebrados. A algazarra toma conta do bar, alguns tentam se proteger, outros são enxotados de lá. Minha mente e meu corpo já não interagem da mesma forma. Minhas percepções de tempo e de espaço alteraram-se, completamente. Enfim, as muitas lacunas que se apresentam em minha memória começam a distorcer a narrativa que eu tentava, em vão, construir.
Vozes altissonantes e rostos desfigurados surgem aqui e acolá. Como se estivesse em um baile de máscaras, não consigo mais identificar aqueles que me cercam. Não são amigos, pois querem sugar o pouco de energia que ainda me resta. O cenário, mais uma vez, mudou! Não há mais mesas, não há mais alegria. São poucos os remanescentes. O fogo daquele isqueiro é ofuscado pelo farol dos poucos carros que cruzam a avenida em alta velocidade. Não tenho ideia de que horas são, mas os pássaros já começaram a cantoria. Não sei onde estou, mas começo a caminhar. De alguma maneira, sei que ainda tenho um endereço para onde me dirigir. Passa uma viatura de polícia, um rapaz faz a sua corrida matinal, a senhora faz suas compras na feira do bairro. Um novo dia começou! E eu aqui… Desgraçado e só!
Não adianta negar e tentar se enganar, inconsequentemente. Se continuar na mesma toada, essa vida de excessos ainda vai me matar! Chegou o momento de tomar uma resolução e de acabar com tudo isso. Vou atender o telefone, organizar essa bagunça e dar início a uma vida nova!
— Alô! Carlos Alberto, você vai demorar? Esqueceu que hoje é aniversário do Marcelo?! Tá todo mundo aqui! Não se esqueça de trazer algumas bebidas! – ordena uma voz conhecida, porém não identificada.
Na verdade, as palavras que acabei de ouvir soaram mais como um cândido pedido do que como uma maliciosa ordem. E que bom saber que sentiram minha falta! Posso dar uma rápida passada por lá, dar um abraço no aniversariante e voltar cedo para casa. Quer saber?! Que se foda tudo! Não fiz mal a ninguém, e tudo o que fiz foi com o meu dinheiro. Vou tomar um banho, comer alguma coisa e ir, sim, àquela festa! Somente amanhã será uma nova segunda-feira, dia de valorosas resoluções e de intrépidos recomeços.