garota de programa

  • Altruísmo

    Magda era o seu nome. Juliette, o de guerra.

    Sempre chamara a atenção, desde pequena, com seu corpo bem feito e precoce. Na adolescência dera problemas. Tinha as pernas da Virgínia Lane, a avó comentava. A mãe não sabia quem era Virgínia Lane. Magda gostava de ser comparada a uma vedete. Ainda mais uma vedete que arrebatara o coração de um presidente.

    Molestada por um tio, agarrada no elevador por um vizinho taradão, sem freios e ingênua, não demorou para perder a virgindade com um colega do colégio. Sem dor, sem sangue, sem prazer. Com a inexperiência e o mau jeito do tal colega, tinha sido ela quem, quase todo o tempo, conduzira a relação. Puro instinto. Magda parecia talhada para o sexo.

    Filha única e com o pai ausente, não tivera nenhum irmão a tomar-lhe conta e nem um pai para lhe encher o saco. A mãe dava-lhe toda a liberdade, mais preocupada com ela própria. A avó, a essa altura, já dava sinais de demência.

    Agora, o corpo de Magda se destacava ainda mais. Quase um acinte. Sua beleza saltava aos olhos. E ela nem era assim tão vaidosa. Quase sem maquiagem, cabelos escorridos após o banho, blusa com decote e uma calça jeans, e ela angariava cada vez mais fãs e olhares de cobiça.

    A mãe a acusava de vulgar e de fazer de propósito para virar a cabeça dos homens; a avó não via nada demais; e Magda não ligava para o que as duas pensavam.

    Não concluiu o segundo grau. Magda não gostava de estudar. Colecionava namorados e admiradores. Não fazia questão de resistir às cantadas e, com um ou dois drinques, topava logo ir para cama.

    Com um deles, engravidou. Optou pelo aborto clandestino e as consequências de uma infecção uterina custaram-lhe a impossibilidade de ter filhos. Além das sequelas físicas, um trauma: nunca pensara em se casar, mas sonhava um dia ser mãe. No mínimo, dois filhos.

    Com a morte da avó e o descaso da mãe, Magda começou a busca por emprego. Não foi difícil. A cada entrevista, uma saia mais curta e alguns sorrisos bastavam. O currículo ficava para depois. Inúmeras promessas, sexo interesseiro e nada de emprego na prática.

    Foi quando uma amiga sugeriu que ela fizesse alguns programas com gringos. Pagavam em dólar. Dinheiro fácil. Já estava dando mesmo, por que não cobrar? Daí para se organizar e passar a ganhar a vida vendendo o corpo foi um pulo.

    Como Juliette, cobrava alto e não ficava sem clientes. A vida melhorou rapidamente e ela chegou a dar entrada num carro novo.

    Até a mãe, que havia cortado relações com ela, voltou a se aproximar. Tudo parecia estar indo bem.

    Um detalhe, no entanto, intrigava Juliette: por mais que tentasse evitar, quando estava trabalhando gozava quase multiplamente. Um contrassenso clássico.

    Os clientes desconfiavam que ela estivesse atuando. E exagerando na dose. Alguns chegavam até a reclamar que aquela farsa incomodava e que ela não ia conseguir enganar ninguém. Desfaçatez tinha limite.

    Mas Juliette não conseguia se controlar. E o pior, os orgasmos mais intensos vinham com aqueles mais improváveis.

    Eram senhores caquéticos, com barrigas enormes, carecas (alguns com peruca), e lá ia Juliette com seus orgasmos escandalosos. Quanto mais desprovidos fisicamente e com aparência desagradável, mais Juliette se sentia atraída.

    Ela, então, decidiu que aquilo tinha de parar. Precisava ser profissional. De agora em diante, se gozasse não ia demonstrar. Ninguém iria saber de suas sensações, preferências ou manias.

    No íntimo Juliette amava o que fazia. Podia ser sua vontade de ajudar o próximo, incontrolável atração pelo oposto, teratologia ou alguma consciência social. Não sabia explicar. O certo era que Magda havia nascido para ser puta.

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