Zimi parecia debochar de tudo o que desprezava sem dizer uma palavra.
Era algo em sua presença.
Algo que se manifestava especialmente na inconveniência das filas.
De mercado, de banco, qualquer uma.
Ele estava com o título de eleitor cancelado por falta de uso, e dessa vez, a fila para regularizar o documento.
A fila era monstruosa e havia gente ansiosa pelo título, especialmente jovens que votariam pela primeira vez.
Eram divididos em duas bolhas tóxicas que chamavam de ideologia.
Zími soube na véspera através de um noticiário televisivo que aquele seria o último dia para regularizar a situação.
Enquanto ele esteve ali, ninguém da imprensa apareceu.
Alguns daqueles jovens talvez soubessem que se votar mudasse alguma coisa, teriam essa possibilidade cortada imediatamente.
Talvez soubessem que poder votar não faz de lugar nenhum uma democracia.
Conheceu uma universitária que tentou fazê-lo gostar de MPB.
Só conseguia pensar sobre como alguém daquela idade podia suportar músicas que ele abominava desde os anos setenta.
Zími usava uma camiseta da banda Mission of Burma, e ela gostava de Gonzaguinha.
Contou a ela que a última vez em que votou foi quando a urna eletrônica foi implantada.
Ele gostava das cédulas de papel, para escrever palavrões.
Nunca mais compareceu às urnas.
Disse a ela: “Políticos dividem as pessoas em dois grupos: instrumentos e inimigos.”
Lembrou do tempo em que na escola passava de ano no terceiro bimestre, só para passar o resto do tempo cabulando aula no Ibirapuera.
Um recurso ingênuo que na época parecia fazê-lo reduzir o dano do tempo de vida perdido no colégio de freiras.
Antes da internet e sem a bolha do celular.
“Pensava que passaria sua vida vagando a esmo, com a pecha de perdedor, mas não me preocupava. Eu não era articulado o suficiente para explicar com clareza o que eu pensava, E se fosse articulado, tomaria porrada da repressão da época.”
Foi expulso da escola de freiras na sexta série.
Na época, voltando à escola depois de três dias suspenso por insubordinação, foi pressionado pela freira na frente dos colegas.
Foi perguntado sobre qual era o motivo de sua revolta.
Zími respondeu: “A primeira revolta é contra a suprema tirania da teologia do fantasma deus. Enquanto as pessoas tiverem um mestre no céu, serão escravos na Terra. E sou contra o uso da religião para justificar hierarquias, obediência e dominação.”
Apanhou em casa e foi então transferido para uma instituição não religiosa, onde se deu melhor e não teve problemas para concluir o segundo grau.
Depois cursou jornalismo, concluindo o curso antes que tivesse internet em casa, na segunda metade dos anos noventa.
Perguntou-se novamente se haveria sentido ter passado por aquilo depois da internet.
O horário de funcionamento daquele cartório eleitoral chegou ao fim, e as pessoas ali eram avisadas que somente em novembro poderiam novamente ter suas situações regularizadas, caso não resolvessem suas pendências naquele dia.
Zími foi embora sem regularizar nada.
Estava ali porque tinha a tarde livre, e o barulho de uma reforma no apartamento de cima não lhe dava sossego.