No meio da rua um veio d’água, a luz amarela da madrugada, um homem capengando junto ao muro longo, o som da camisa fina raspando no chapisco de quando em quando. Incertos dias, estes. Em que não somos nem sombra do que pensávamos ser. O sorriso lacônico e de entrega, como se sorri diante da derrota concreta. Um ônibus para o sul, o último da noite. Depois dele, os espaços de silêncio se alongam, ouve-se coisas mínimas, ouve-se dentro, agora que o homem se vê parte do todo, todo o tempo ali, abafado por horas a fio pela insanidade do dia. E dói saber. Ver-se liso de disfarces, o espanto da nudez, os penduricalhos desta vida dita dinâmica arrastados para o sul e para o silêncio pelo último da noite. Ouve-se o coração bater. O som do vento, bravo e tortuoso por entre os labirintos de uma seringueira densa e antiga.
No meio da rua, um risco brilhante de luz esticando para o sul. A boca entreaberta da não compreensão, ou da verdade que chegou de repente, ela que rondava por ali dentro há tempos, caindo agora, na hora do grande momento. Um garoto, descansando sobre a moto encostada, acendeu o cigarro e puxou um trago longo que se ouviu do outro lado da rua. E olhou a fumaça fundindo-se com a noite. O outro homem agachou-se e suas costas rasparam pelo chapisco até o chão. O garoto atravessou a rua e lhe entregou o resto do cigarro aceso. Nenhum julgamento, nem perguntas. Um instante, dos muitos por aí, depois que o último da noite some para o sul.