ISABELLE DE JOUR

  • ISABELLE DE JOUR

    Sou feia. Tenho 1,60 e peso 82 quilos. Um pouco gorda também. Prefiro me considerar robusta. Meu maior complexo, no entanto, são os pés: calço 40. As pessoas zombam de mim e dizem que não ando de sapatos, mas de skate. A altura, resolvo com saltos altos, e os pés enormes escondo no tênis. Se pudesse tomava banho e dormia com eles. A gordura só com regime, que toda vida tento começar e nunca vou adiante. Canetas emagrecedoras estão muito caras.

    Trabalho no caixa do supermercado Mundial – aquele do menor preço total. Nunca entendi esse preço total, haverá subpreços ou preços parciais? Sou muito questionadora.

    Já disse que sou feia, não? Pois é, tenho também espinhas na rosto. Nascem à vontade, sem que eu coma chocolate ou amendoim, que adoro.

    Meus pais são da Paraíba e eu vim para o Rio de Janeiro ainda menina. Tenho cabelos longos e cacheados que disfarçam minha cabeça grande. O nariz é meio adunco e meus olhos não têm nada de especiais. Ao menos não sou míope nem vesga. Só uso óculos escuros. Detesto claridade.

    Meu sonho era ser atriz de novela. Ninguém vai querer uma atriz feia e gorda, mas sou teimosa. Não sei se por obstinação ou masoquismo, à noite faço um curso de teatro. O professor vive me elogiando, que tenho futuro e coisa e tal. Claro, isso me anima e tento melhorar a aparência. As espinhas na cara posso camuflar com creme e uma boa base e evito roupas justas. Tanto quanto navegar, sonhar é preciso.

    Minha colega de caixa no Mundial era a Isabelle. A desgraçada era bonita que nem a peste. Combinava com seu nome, Isabelle, belle. Bem capaz do Alceu Valença ter escrito Belle de Jour, pensando numa Isabelle dessas.

    Não é que tivesse inveja. Na verdade, eu morria de inveja. Aquele rosto limpo, sorriso de dentifrício, olhos claros, Isabelle era um pitéu. Nem sei como foi que ela virou caixa de supermercado, podia ser o que
    quisesse.

    Franzina como uma tripa seca, a maldita ainda tinha peito grande. A boca nem precisava de batom. Uma afronta. Ao lado dela, eu, que já era feia e gorda, conseguia ficar pior.

    Já havia me pegado desejando matá-la. Confesso. No fundo, Isabelle era gente boa, porreta e não tinha culpa de sua beleza. Era até simpática. Se eu tivesse metade da beleza dela, seria um nojo.

    Nosso supervisor, um estrupício, vivia rondando a Isabelle, fazia tudo que ela queria. Se eu fosse homem também faria. Como já falei, nem sei por que ela trabalhava no Mundial.

    Um dia, ela faltou ao serviço. Não era comum. Passou uma semana e nada. Acabei sabendo que ela estava doente. Podia ser algo sério, pois já havia outra funcionária em seu lugar. Feia igual a mim, mas magra e alta.

    Fui informada pelo supervisor que a doença de Isabelle era grave. Câncer no seio. Cinco meses depois, me falaram que ela tinha falecido.

    A natureza pode ser cruel, mas em alguns casos é justa.

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar