Literatura

  • A bateria

    Semana passada a bateria do meu carro pifou. Como eu estava no subsolo de uma agência bancária, tive que ligar para o seguro a fim de solicitar um mecânico. Uns 30 minutos depois o rapaz veio, examinou o artefato avariado e o condenou.

    — Aqui só outra.

    — E agora? Onde posso mandar buscar uma?

    — O senhor liga para a loja Tal e me passou o telefone. Quando eu lhe pedi uma sugestão de marca, ele me perguntou se eu pretendia vender o carro.

    — Não. Por quê?

    — Se for vender compre esta, que é mais barata (e me indicou o nome). Agora, se for ficar com o carro por mais um tempo, leve esta (citou outro nome). É um pouco cara, porém bem mais econômica e difícil de quebrar. Duvido que deixe o senhor no prego.

    Escolhi a segunda, pois não pretendia tão cedo vender o automóvel. Bateria instalada, voltei para casa pensando na alternativa que o mecânico tinha me apresentado. A escolha fora fácil pois, como disse, o carro ainda iria ficar comigo por um bom tempo. Mas… e se eu fosse me desfazer dele? Qual das marcas teria escolhido?

    Comecei a pensar nisso e senti um arrepio. A pergunta do rapaz tinha implicações profundas; envolvia um dilema moral. Pensei em Kant, que fundamenta sua ética na máxima: “Não faças a outrem o que não queres que te façam.” Se eu escolhesse a bateria mais barata e dispendiosa, que além disso podia quebrar, estaria fazendo a outrem (o eventual comprador do meu carro) o que não queria que me fizessem.

    O curioso foi a maneira objetiva, prática, direta, com que o mecânico me fizera a pergunta. Não havia hesitação nem escrúpulo, como se a proposta fosse muito natural. Ele sempre devia apresentar essa opção aos clientes. Alguns até lhe dariam uma gorjeta pela dica, mesmo que isso reduzisse a vantagem obtida com a escolha do produto ruim. O importante era o pequeno lucro imediato, acrescido do indizível prazer de enganar o outro. Pois esse tipo de escolha não vale só pelo dinheiro; vale também (ou sobretudo) pela sensação de ter sido esperto.

    Já chegando em casa, me dei conta de que a sugestão do rapaz diz muito de nós. No trabalho, no comércio, na política e mesmo nas relações interpessoais, nos comportamos como o sujeito que passa a bateria ruim sem considerar o que isso pode trazer para o outro.

    Tudo fica ótimo até o momento em que somos nós esse outro. E quando nosso carro quebra no meio de uma viagem noturna e ficamos com a família ao relento, protestamos contra o egoísmo do ser humano e lamentamos pertencer a espécie tão mesquinha. Esquecemo-nos de que dela fazemos parte e não raro somos nós a protagonizar a trapaça.

    Talvez seja por isso que este carrão chamado Brasil não anda – ou anda muito desigual. Falta em sua “bateria” a corrente do interesse pelo bem comum. Somos antikantianos por atavismo e convicção, fazendo sempre que possível aos outros o que nunca desejamos para nós.

  • Consciência econômica

    Não tenho mais medo do futuro. Minha mulher sempre me falou para curtir o presente, que “a vida é o agora!”. Mas, filho de um pai escrupuloso, tive a tendência de seguir os seus passos seguros. Criado por ele, devia ter uma “consciência econômica” – esta frase ecoa ainda hoje – quanto aos gastos, inclusive com a alimentação. Não se podia tomar mais de dois copos de café por dia.

    Não se podia comer mais de um pão francês. Tudo era racionado, fracionado, e nos regalávamos de migalhas. Havia momentos, claro, em que ele não estava em casa, e eu comia um pouco mais de açúcar, com o maior prazer do mundo, porque um adolescente em crescimento, hoje eu sei, precisa se alimentar muito bem – e fui privado disso, pela bendita consciência econômica de um pai contador, alucinado por números.

    Meu pobre pai faleceu na pandemia, aos setenta e cinco anos, e mal aproveitou a aposentadoria. Um fato inusitado é que encontrei, um dia depois de sua morte, ao arrumar a casa com a Gerusa, a antiga empregada, embaixo de sua cama, um monte de dinheiro vivo, inclusive dinheiro que nem valia mais, como cruzeiros-novos. Era absurdamente uma cena que só se ouve falar ou se vê em filme.

    Nessa brincadeira, ele deixou uma herança monstruosa de quase meio milhão – havia, ainda, seis contas em bancos, e eu não imagino o porquê; perguntei a alguns gerentes se ele movimentava, e a resposta era quase óbvia: “Não!”. Poderia ter usufruído. Poderia ter viajado, comprado um carro bom, mas tudo para ele era seguir a régua da “simplicidade”.

    Tinha um carro velhinho, bem cuidado, é verdade, mas muito fora de moda, com pelo menos vinte anos de uso. Seguir a trilha do meu pai me fez, por muito tempo, um homem nervoso, preocupado e irritadiço. Lembro-me, por exemplo, de jantar muitas vezes banana na faculdade, com medo de acabar o reles dinheiro que meu pai me dava todos os dias, como se fossem dez reais. Lanna, minha esposa, foi quem me tirou desse perrengue eterno. Ela não suporta avareza. E eu, apaixonado, tive de segui-la – de início foi muito doloroso. Fui abraçando (e sendo abraçado) e me libertando.

    A imagem de meu amado pai passou a ficar escassa, jamais esquecida. Até os vinte e sete anos, data em que conheci a minha mulher, me sentia extremamente reprimido – exatamente quando foi lançada aquela música homônima dos Menudos. Nós ríamos disso; ainda hoje ela canta quando dou sinais de pão-durismo. Hoje, com a pequena bolada do meu pai, ao invés de investir em imóveis, como boa parte das pessoas faz, invisto no meu tempo de qualidade, com meus filhos e minha esposa.

    Amamos Buenos Aires, então viajamos regularmente para passarmos as “vacaciones”. Quem dera pudesse ter levado meu pai a Buenos Aires. Ele amava Carlos Gardel. Queria ter proporcionado a ele uma vida de alforria – embora, é bem verdade, ele pudesse tê-lo feito por si próprio.

  • Somos filhos da rua e da noite

    O Zé Preto se acomodou, ajeitando o cobertor. O Espanhol deu um puxão:

    — Esse cobertor é meu.

    O Zé Preto empurrou o outro com a bunda. Riram.

    — Vai tomar no “cu” — um disse para o outro. E riram.

    Passou um carro numa poça e jogou água nos dois.

    — Vai se foder — o Espanhol gritou, se levantou e ficou esbracejando contra o carro, que já tinha virado a esquina da rua Brás Cubas. O Zé Preto correu pegar uma pedra. O Espanhol avançou contra ele com uma barra de concreto na mão.

    — Esse carro —, explicou o Zé Preto.

    — Ia me dar uma pedrada? — disse o Espanhol.

    Saiu uma leva de gente da boate Estrela do Oriente para ver os dois amigos se estranhando.

    — Nós somos filhos da rua e da noite — disse o Espanhol, que era preto como o Zé Preto. Por isso os dois se voltaram para os homens e as mulheres do cais, e sorriram.

    Mas, quando o Espanhol se virou para deitar, o Zé Preto viu aquele porrete na mão dele e pegou outro para se defender.

    — Calma, cara, nós somos irmãos — disse o Espanhol.

    Nisso, a Cida Vermelha saiu da boate correndo atrás de um cliente, que entrou no carro e acendeu a luz.

    O Zé Preto, cego, brandiu o porrete. Acertou o ombro do Espanhol, que correu de encontro ao Zé Preto, abraçando-o. Os dois caíram no chão abraçados.

    — Apaga a porra dessa luz, gritou o Zé Preto. A Cida Vermelha ainda viu o Espanhol erguer o porrete com as mãos ensanguentadas.

    — Meu sangue — disse o Zé Preto.

    — Meu sangue — disse o Espanhol, e deu uma porretada.

    As barras de cimento se ergueram e abaixaram sete vezes. A Cida vermelha viu a cabeça do Espanhol aberta ao meio. Sangue e pus na calçada. O Zé Preto geme ao lado: ainda não está morto.

    — Meus amores — disse a Cida Vermelha, olhando o Zé Preto agonizando abraçado ao amigo morto.

  • Morrer pela segunda vez

    Orfeu chorou tudo o que pôde quando Eurídice desceu ao mundo dos mortos. Suas lágrimas encheram oceanos até seus olhos ficarem secos. Vendo que o pranto havia desaparecido, e como forma de manter viva a memória da esposa a quem amava sobre todas as coisas vivas, passou a cantar. E viu que cantar era bom e que todos os que o ouviam se deleitavam. Os passantes, antes de tomarem o metrô, jogavam moedas e um sorriso para o músico maltrapilho sentado no chão na entrada da estação. Aplaudiam, pediam bis e ele cantava mais. A tristeza de Orfeu não tinha fim e sua voz não conhecia cansaço. Cantava dia e noite a ausência da mulher adorada.

    Com a força de sua canção, Orfeu decidiu buscar Eurídice no mundo das trevas. Manifestou o seu amor com todas as canções que conhecia, o peito repleto de agonia, tristeza e saudade. Hades, o poderoso deus do Reino dos Mortos, se comoveu:

    — Eu devolvo sua esposa ao mundo dos vivos com uma condição: que ela o siga pelos caminhos de volta à vida e você não olhe, nunca, para trás, até que ela esteja inteiramente sob a luz do sol. E também, sob hipótese alguma, nunca mais cante uma canção. Nenhuma canção. Jamais uma nota musical deverá sair de sua garganta enquanto houver sinal de alma em seu corpo. Caso contrário, você a perderá para sempre.

    Orfeu aceitou a condição. Tomou Eurídice pela mão e deram início à jornada de regresso ao mundo dos vivos, ele olhando para a frente, ela seguindo seus passos.

    (Não olhe para mim, Orfeu. Ouça minha voz, escute os meus passos, sinta as batidas do meu coração. Estou bem aqui, perto de você. Não olhe para trás. Não permita que eu morra pela segunda vez — suplicou Eurídice).

    Enquanto andavam, e já próximos da saída, iluminados por uma réstia do sol que brilhava lá fora, Orfeu se recordou de suas canções e do quanto elas agradavam a quem as ouvia. Lembrou-se dos aplausos e das esmolas que lhe davam. Sentiu saudade desse tempo. Percebeu que seria impossível viver sem cantar e sem plateia. E então, como quem sabe que tristeza não tem fim, com o coração doído e apertado, girou a cabeça para trás e olhou para Eurídice.

  • Mirar no espelho!

    Possuo muitas bibliotecas perdidas em sonho, que descrevem experiências que vivi. 

    Não lembro de alguns detalhes saborosos de minha infância, mas recordo que meus pais me deram muito amor e carinho, e que eu gostaria de rever, trocar novamente aquela risada longa e espontânea, recheada de sorriso e abraço.

    Quando fui a escola pela primeira vez, senti vontade de ficar mais tempo por lá com os amigos, porque aquela, era a melhor parte da aula, encontrá-los, brincar e viver amizades que nasceram para toda vida.

    Meus aniversários com bolo colorido e gente ao redor, sempre foram uma diversão a parte, haviam presentes, e toda garotada estava lá.

    Você também deve ter muitas bibliotecas na mente, que guardam livrinhos com histórias únicas. 

    Momentos que se foram, mas que continuam a mostrar o quão passageiro é nosso tempo respirando.

    Que minuto você reservou para saber quanto tempo vai aguardar para realizar o seu sonho, ou de alguém que você ama? 

    Diversas vezes paramos para entender que talvez nossa hora de fechar a cortina esteja bem mais próxima do que pensamos. 

    Um fio de esperança quer que façamos nosso melhor e deixemos para outro dia o pesar de nossas falhas. 

    Aquela reflexão mórbida e tênue, que corre em nossos olhos, cor de cinza com arco-íris, confunde o teste com a realidade, suspira longo para pensar mais tempo. 

    O fato mais concreto é que deixamos de rever o que nos fez bem, e a quem possibilitou novas oportunidades em nosso caminhar zeloso. 

    Não somos independentes em quase nada, até para respirar precisamos pegar o que tem no ar e jogar aos alvéolos, sedentos de pressa em se preencher a cada instante vital.

    É uma busca de sentido como a Eudaimonia, termo grego que literalmente significa “o estado de ser habitado por um bom daemon, um bom gênio”, traduzido como felicidade ou bem-estar, é o viver de acordo com a natureza, como foi a máxima do estoicismo. 

    Sendo dessa forma a melhor maneira de valorizar o ser humano, porque hoje o que está na moda é sempre o que é novo, e o velho sábio que pode colaborar com a sapiência da próxima geração é esquecido na prateleira. 

    No passado, os velhos é que tinham poder político e cultural. Se o que nos falta é consideração a essa geração, está passando o tempo da mudança de atitude e desmedida ação em reparar esse erro.

    Não se avalie um perdedor pelo que deixou de viver, não vale a pena sentir-se mal ao mirar no espelho.

  • 12ª Escola a Desfilar: Salgueiro – A Delirante Jornada Carnavalesca da Professora Que Não Tinha Medo de Bruxa, de Bacalhau e Nem do Pirata da Perna-de-Pau

    “Mestra, você me fez amar a festa / E eu virei carnavalesco / Sonhei ser Rosa / Te faço enredo’’. Enfim, chegamos à escola que será responsável por fechar os desfiles de 2026 na Sapucaí. A Acadêmicos do Salgueiro. Ela vem fazendo uma homenagem mais que merecida a uma das maiores personalidades no que diz respeito a fazer desfiles de escolas de samba. Sabem de quem se trata?

    Quem conhece carnaval vai achar essa pergunta totalmente desnecessária, pois Rosa Magalhães dispensa apresentações. Maior campeã da história dos desfiles das escolas de samba, com 7 títulos, ela não se resume aos títulos que conquistou. Artista plástica graduada em pintura, indumentária e cenografia, até mesmo depois de sua partida, continua contribuindo na construção da arte que sempre amou.

    Isso porque, Rosa não só será enredo, mas também é referência para uma série de carnavalescos que marcaram essa nova geração e, ano a ano, vem ajudando a reinventar o carnaval sem esquecer de suas origens. Um desses, declaradamente fã da mestra, brilha em uma escola onde ela fez história, trata-se de Leandro Vieira que, sem sombra de dúvidas, não é o único grande fã de Rosa.

    Para falar dessa grande figura, o Salgueiro vem com um enredo que vai exaltar os carnavais feitos pela carnavalesca nas diversas escolas que passou. Para isso, Rosa se tornara uma heroína que vai viver as histórias dos enredos que levou a avenida. O desfile do Salgueiro promete.

    É dessa forma que terminam os resumos dos enredos das escolas do Rio de Janeiro, com a frase: “nem melhor, nem pior, Salgueiro”. Essa frase resume o espírito do carnaval em que a competição existe, mas que o mais belo é a materialização do maior espetáculo da terra que acontece na avenida. Nesse sentido, independente de quem venha a ser campeã, todos as escolas já o são.

    Viva o Salgueiro e viva Rosa Magalhães!

  • Poema #02: Sem alarde

    Não era o primeiro a chegar
    também não era o último
    ficava no meio.

    Lugar pouco disputado,
    onde ninguém posa
    e quase ninguém repara.

    Enquanto alguns se apressavam em brilhar
    e outros reclamavam da falta de luz
    ele aguardava.

    Não parecia esperar nada específico
    talvez só o tempo exato em que algo se revela
    sem fazer alarde.

    Foi assim que aprendi:
    nem toda claridade quer vencer a noite
    algumas só querem caber dentro dela
    por um instante e depois seguir

    vagalumeando

  • Ser surpreendido

    Não tenho vergonha alguma em ser surpreendido. Já superei faz muitos anos aquela necessidade de ter que mostrar que sabia de tudo antes de todos.

    Desprezo a sensação de poder que a clarividência traz.

    A verdade é que adoro não saber das coisas antes que elas aconteçam.

    Toda vez que eu converso com alguém que me diz “eu já sabia” eu me alegro por nada saber antecipadamente. Sou curioso, como todo mundo, mas não perco meu tempo tentando adivinhar.

    Por dever de oficio de escrita sinto prazer em imaginar situações, futuros alternativos, caminhos diferentes. E se ao invés de entrar naquela pizzaria às moscas eu tivesse ido embora para casa? E se ela tivesse jogado fora meu bilhete ao invés de ler o pedacinho de papel, sorrindo com a ousadia? Pois é, esse exercício é legal porque não antecipa algo na sua linha do tempo mas propõe alternativas para o que já passou.

    Voltando.

    Não quero ser adivinho. Não desejo ser blasé ou falar com tom morno e fazer aquele ar superior que acompanha as três palavrinhas “eu já sabia”. Dispenso o pedantismo expresso nessas palavras.

    Antecipar o trivial, o cotidiano é perder a oportunidade de voltar a se portar como criança. Sim, criança mesmo, rindo do novo porque é novo, é inédito. Com aquele riso frouxo carregado de esperança porque a novidade veio para nos alegrar.

    Por isso repudio a soberba dos que olham altaneiramente a vida, com eterno ar de deja vu.

    Quero ser testemunha da estréia.

    Quero participar dos fatos.

    Quero me emocionar com as novidades.

    Quero sorrir ante a surpresa.

    Quero deixar o coração saltar alegre pelo inesperado.

    Quero porque quero nada saber e tudo descobrir.

  • Alô, alô, seu Chacrinha – aquele abraço!

    Fevereiro começa no domingo, como quem abre as alegorias do descanso — esse mesmo que sonha com samba no pé e os zirigundús dos foliões. Janeiro já anunciava as entradas da folia, com blocos em teste espalhados pelas ruas do Rio de Janeiro

    Tive a oportunidade de presenciar um deles na feira da Glória, quando assumi a tarefa de vender artigos culinários japoneses de primeiríssima linha, na barraca do meu grande amigo Shizuto e de sua família. Vale a pena conferir as comidas de rua do Japão — barraca 71, próxima ao portão da Lapa, na Praça Paris.

    Outra ocasião foi num domingo em que me lancei à capital para celebrar o aniversário da minha afilhada Lulu, quatro aninhos. Unindo encontros familiares a agendas profissionais, estiquei meus dias no meu Rio de Janeiro. No domingo passado, encontrei a Marcela no Flamengo, onde, no Planalto, nos unimos às palmas de um parabéns com glitter, estandarte, sorrisos largos e corpos carnavalescos espalhados pelas calçadas.

    Antes de retornar à minha serra, tomei café da manhã no quiosque Ginga, na praia do Leme — um ponto aberto 24 horas por dia. Algo inacreditavelmente maravilhoso para alguém cosmopolita e do mundo como eu, que se acostumou a não encontrar nada aberto depois das dez da noite, durante a semana. Domingo, então…

    No aguardo de uma carona prevista para as nove, caminhei pelas areias de calça jeans, cruzando os limites com Copacabana. Ah, a princesinha do mar — que hoje verei novamente. E novamente a Glória, os agitos da Praça Paris, os corredores da maratona no Aterro, o bloco da Ivete no centro e a rotina dos moradores que circulam pelas redondezas: o cotidiano de quem sai cedo para montar barracas e vender até o fim da tarde.

    Em meio ao percurso ainda escurecido da partida, me espanta o amanhecer da serra: a troca de azuis, o passar espaçado dos carros, a felicidade solta na voz dos amigos no carro. Nasceres e pores do sol sempre mexeram comigo de forma arrebatadora.

    São sete da manhã. Vejo o Cristo da janela.

    Da janela do carona, sobre a ponte Rio–Niterói, fecho esta primeira crônica brindando ao Rio de Janeiro, a fevereiro e a março. Algo do Rio ainda pulsa em mim — um pulsar que antecede o retorno e já carrega a saudade. Como se o caminho não fosse uma linha, mas um estado.

    Talvez eu viva assim — é bem provável, eu diria: chegando ao que sou agora, partindo sempre de algo que me ensinou a ficar.

    Bom dia, caro leitor!

  • O Encontro

    O encontro durou dias, e mesmo assim teve gosto de quero mais…

    Não teve atrasos, cada um chegou no seu tempo…

    Tinha tema, mas não script. O comando era a vontade e a alegria em participar.

    O sorriso feliz de cada participante ao chegar ao local do encontro e mais ainda ao sair, dá a certeza de que as memórias dos dias felizes vividos vai ser um oásis guardado no fundo da alma e, durará para sempre, pois será contado entre pais, filhos, primos, parceiros e amigos desta e até os das próximas gerações!

    Tivemos:

    Sonhos, quimeras, desejos.

    Preguiças, perguntas, sabores.

    Alegrias, sonecas, caretas, sorrisos.

    Canecas, risadas, maletas, moquecas.

    Vontades, pinheiros, passagens, passeios.

    Saudades, verdades, bananas, pudins.

    Lasanhas, picanhas, pizzas, quindins.

    Estudos, esperanças, futuros, glórias.

    Sorrisos, banhos, vestidos e afins.

    Missas, orações, esteiras e gansos.

    Lambretas, corvetas, ovos e cuscuz

    Piadas, desafios, piscina, cafés.

    Brindes, conversas, sorvetes, mergulhos e sóis…

    Futebol, charadas, séries, piadas, engraçadas, repetidas, criadas…

    Namoros, promessas, chamegos — enfim.

    Ar, mar, brilhos, texturas, areia.

    Sabores, odores, valores.

    Graça, beleza, amor.

    Idosos, peixes, pessoas.

    Areia, azul, queijos, crustáceos.

    Jovens, pets, jogos e luzes.

    Macacos, gatos, guirlandas, enfeites.

    Imagens, saudades, lembranças, afetos.

    Amigos, irmãos, caminhos, jornadas.

    Plenitude.

    Bênçãos.

    Afeto.

    Amor.

  • Para entender aquarela – ou não

    É assim, quando você pinta aquarela você se põe diante de uma situação que beira a ficção. No momento em que você coloca as tintas sobre o papel tem início uma relação estranha, quase surreal, entre artista e cores.

    Veja bem, você sabe o que você quer pintar mas depende da colaboração da tinta.

    Você não comanda as cores, elas são surdas aos seus apelos desesperados quando se espalham à vontade e aleatoriamente pelo papel.

    Se a superfície estiver seca, elas vão reagir de uma forma. Se o papel estiver úmido, a estória é outra e, claro, vai sempre depender do grau de umidade da superfície. E, por falar nela, a umidade, há outra muito importante, a do ar, que interfere decisivamente na consistência das tintas à medida que deixam os tubos onde jaziam no escuro, compactas e imóveis. Pintar aquarela no deserto do Thar não deve ser a mesma coisa que pintar em Belém do Pará, pode estar certo.

    Assim, quando o artista aperta o tubo tem início uma reação que dificilmente ele terá controle completo. Não há diálogo possível com substâncias que se movem ao seu bel prazer. As tintas são manhosas, caprichosas, donas de suas efêmeras vidas. Se espalham da forma que querem e na direção que decidem, independente da vontade da pintora ou do pintor. Ao artista cabe somente tentar corrigir o curso que as cores tomam à sua frente.

    Alguns conseguem, outros não. Na fúria de não ver seu talento expresso pelas tintas, muitos rasgam o papel e o atiram a lixeira, encerrando o que as tintas decidiram fazer, se obra de arte ou esboço colorido. Como saber? Não há, e por vezes é um teste supremo de paciência. Mas uma coisa eu tenho certeza é que as melhores aquarelistas do mundo, como a Gemma Capdevila ou a Anna Mason, com certeza sabem conversar com as cores. Elas, assim como os demais expoentes dessa bela arte, seguramente falam a língua das cores, elas falam tintês.

    E, você, minha amiga, já aprendeu esse idioma misterioso?

    Ainda não, mas me disseram que tem um aplicativo de tradução universal que é uma coisa!

    Tá bom, vou querer mais desse seu chá, por favor.

  • SUB VIDA

    A sobrinha perguntou para o tio no churrasco da família: ‘Quando você percebeu que estava fodido e não tinha mais volta?’

    O tio respondeu: ‘Desde cedo, nos anos 70, no primeiro dia na escola, aos quatro anos. Eu apenas não sabia expressar em palavras o que sentia, mas sabia que a jornada seria terrível desde aquele momento.’

    Sobrinha: ‘Qual era o sentimento?’

    Tio: ‘Era o sentimento de que a vida, da forma como era vivida pelas pessoas que eu conhecia, e pelo que via na televisão, não fazia sentido.’

    Sobrinha: ‘Por quê?’

    Tio: ‘Porque somos escravos e a maioria das pessoas é cega em relação a isso, e por medo e para defender uma falsa segurança, defendem a própria condição de escravos a qualquer custo.’
    Sobrinha: ‘Você já pensou em se suicidar?’

    Tio: ‘Sempre pensei que fosse melhor ir até o fim, só pra ver o que acontecia, porque de qualquer forma todo mundo morre no fim.’

    Sobrinha: ‘Eu penso a mesma coisa, só que na juventude já convivo com pandemia e guerra, e na sua juventude não havia nada disso.’

    Tio: ‘Mas você já nasceu com a internet, ela serve como escapismo. Na minha juventude a bizarrice era tanta que você pode imaginar apenas remotamente. Não havia nem mesmo o sentimento pela falta de algo que não existia, como a internet. Na minha juventude havia o medo da AIDS, o racismo era considerado normal, a guerra era em casa mesmo, pra decidir quem escolhia o canal de televisão a ser assistido. Na escola havia bullying, que nem tinha esse nome e era considerado normal, e as crianças eram deixadas ali para se matarem. Esses atos eram praticados sem que os autores sequer temessem o repúdio. Na minha juventude brasileira houve a ditadura, e depois o que se convencionou chamar de fim da ditadura, o que é uma falácia tão cretina quanto todas as mentiras que ouvimos de políticos até hoje. Mas hoje vocês tem a internet e ficam cada um na sua bolha, o que é terrível, mas antes não havia nem mesmo essa possibilidade. Na minha infância e juventude, os mais velhos ora diziam que a juventude deles era melhor, ora diziam que era pior. Isso variava de acordo com os interessem momentâneos dessas pessoas, que na maioria morreram. Os que sobraram estão aí pra você tirar suas próprias conclusões’.

    Sobrinha: ‘Por que você não tem filhos?’

    Tio: ‘Porque tenho uma mágoa enorme por ter nascido, e não faria o mesmo com outra pessoa. E também porque não tenho condições financeiras para isso. E sobretudo porque tenho essa convicção desde cedo, desde um tempo em que as pessoas mais velhas diziam que com o tempo, eu mudaria de idéia. E também porque seria questionado sobre coisas para as quais não tenho as respostas.’

    Sobrinha: ‘Mas eu gosto das respostas que você me dá!’

    Tio: ‘Mas é porque isso só nos encontramos de vez em quando.’

    Sobrinha: ‘Mas meu pai é obtuso e nem fala desses assuntos comigo!’

    Tio: ‘Não sei o que responder sobre isso. Ele deve achar que é errado falar sobre essas coisas.’
    Sobrinha: ‘Você tem fama de pegador. Por que nunca casou?’

    Tio: ‘As mulheres que mais me intrigavam eram as que me rejeitavam e desprezavam. Mas com a internet pude ver o que elas se tornaram, e se há algo pelo qual sou agradecido na vida, é o fato dessas pessoas terem me desprezado.’

    Sobrinha: ‘A sua namorada nem tinha nascido quando você fazia faculdade. Nunca vai casar com ela?’

    Tio: ‘A única razão pela qual ela me suporta é o fato de que ela pensa como eu em vários aspectos. Cada um na sua casa é melhor para nós.’

    Sobrinha: ‘Ela é rica, bonita e jovem. Por que você reclama tanto?’

    Tio: ‘Antes de conhece-la, eu já tinha décadas de uma bagagem que até hoje não sei ao certo como usar. Quando ela nasceu, eu era bem mais revoltado. Hoje em dia eu continuo odiando certas coisas, mas sei que nunca vou poder mudá-las. Continuarão existindo políticos, as pessoas continuarão saindo de casa em dia de eleição, e não apenas votarão nesses políticos, como farão propaganda não remunerada pra eles. Esse foi o primeiro exemplo que me ocorreu sobre coisas que continuo desprezando, mas que provavelmente não vão mudar enquanto houver humanidade.’

    Sobrinha: ‘Quais são as cinco melhores bandas de rock?’

    Tio: ‘Se você me perguntar a mesma coisa amanhã, ou se tivesse perguntado ontem, a resposta talvez fosse diferente. ‘

    Sobrinha: ‘Essa é a parte legal disso. Responda sem pensar muito!’

    Tio: ‘Kinks, Husker Dü, X Ray Spex, Jesus and Mary Chain e Big Star. Menções honrosas para Teenage Fanclub e Replecements.

    Então olharam ao redor. Um outro tio estava bêbado e escolhia só músicas ruins.

    Eles nem pediam mais para escolher as músicas.

     Só havia vergonha e constrangimento.

  • Um conto de Natal

    Não faltam tipos iguais a ele no mundo: cabelo longo e embranquecido como o de um hippie fora de época, o rosto com uma sombra de tristeza, o olhar atônito. Não tem família. Faltam-lhe dentes. Roupas também não tem muitas, só as que veste e uma blusa de lã para o inverno, que, nos dias quentes, fica amarrada à cintura. Perambula, desocupado. Pede algo para comer a quem passa ao lado dele na rua e na porta dos restaurantes. Às vezes dão, às vezes não dão, então ele só come às vezes. Tivesse Jesus chegado aos sessenta anos, certamente seria parecido com ele. Em dias de sorte, um dos rapazes, um de seus iguais, lhe arranja um copo de vinho só para puxar conversa e ouvi-lo falar em aramaico, língua que aprendeu quando criança com um tio que tinha vindo lá do Oriente.

    Na noite de Natal, costuma se esconder para não ser cumprimentado pelo aniversário nem passar pelo incômodo de posar para fotos, coisa que detesta. Os turistas que nesses dias invadem a cidade são insistentes — Tu é a cara dele, posso tirar uma selfie? — e ele fica cansado de tanto recusar. Prefere se isolar e esquecer a data. Na hora em que todos trocam presentes e soltam rojões, fica bem quieto nalgum canto de um bairro distante do centro, matutando sobre a vida, conversando com seu estômago e vendo o brilho dos fogos no céu. Assim, aparta-se da comemoração ruidosa de seu nascimento — “Mas que droga, mais um ano” —, embora não fique a salvo de uma hora dessas ser crucificado por aí, como acontece todos os dias com outros sujeitos tão miseráveis quanto ele. Respira fundo e solta o ar devagarinho: “Aqueles sortudos”.

  • De bichos exuviáveis

    O verão e as mulheres. Mestre Rubem Braga tratou longa e exaustivamente do assunto, mas quem seria capaz de esgotá-lo? Renova-se o verão e renovam-se as mulheres, sendo preciso que haja cronistas de fôlego novo para dar conta dessas explosões cíclicas. O que o Braga escreveu é definitivo, como definitivo era o que Camões registrava das navegações portuguesas – mas a época dos descobrimentos passou. Vivemos agora outro verão e nos cumpre assinalar, por dever de um ofício docemente autoimposto, o quadro que se nos depara. Com menos talento, certamente, mas não com menor empenho. E com o Braga em surdina.

    O verão e as mulheres. Para senti-los bem, é preciso imergir numa espécie de quarentena cívica e moral. Ficar de férias da vida ou, mais exatamente, de certa feição dela: a que envolve os ritos de sobriedade e rotina. Remeter-se a uma adolescência que se imaginava enterrada na vala dos compromissos roazes, voltando a existir antes de tudo em corpo. Pois o verão, sendo a mais poética das estações, vive primeiro da forma. É todo um aceno ao prazer. Daí, nele, a prevalência da cor e do tato, medidas de uma apreensão de vida basicamente sensual. O espírito se esvai, langue, e se funde com a carne. Reinstaura-se então a unidade. Na praia somos edênicos, sem pecado e sem culpa, agindo sob o império quase absoluto do sol.

    As mulheres no verão. Ei-las que saem de casa, sós ou aos bandos, como se atendessem a um chamado misterioso. O que as faz procurar a praia? Talvez a simples vaidade de esplender ao sol, afirmar com exuberância os atributos do sexo. Talvez o gosto íntimo, animal, de ativar humores, compensando a estase a que ficam submetidas no inverno e em nossa incipiente, parca primavera. Talvez a necessidade de se ensolarar e mudar de pele, como certos pássaros que precisam renovar periodicamente a plumagem.

    O verão é sensual mas não é pecaminoso; não se confunda viço com vício. Na praia as mulheres se desnudam com adequação. Pois tudo ali é explícito, não havendo o que o sol não ilumine, o mar não lave e o vento não leve. A nudez não tem a explicitude alardeada pelos filmes pornográficos, que embutem na mensagem uma intenção cafajeste. A musa da praia é a antiatriz dos filmes pornôs. Ali a nudez se amplia noutras nudezes, e a ênfase se desloca do indivíduo para o grupo. Fala-se em mulheres, no plural, e não numa certa mulher. Em desejo, abstratamente, não num objeto específico do desejo.

    O verão e as mulheres. Bichos exuviáveis, elas cambiam de pele num processo que percorre todas as gradações do dourado. Uma delas conheço que está na terceira muda e, falando francamente, penso que não deve prosseguir. Deve se recolher, moderar a febricitação interior. Sob pena de arruinar a tez, dando-lhe o aspecto fosco e dessecado que se encontra nas que perderam a medida do sol. Pois esse é o perigo no verão. O ideal seria colocá-la numa redoma térmica ou retirá-la da praia impreterivelmente às dez e quarenta e cinco da manhã – enquanto há tempo.

  • O peregrino

    Levanta-te e anda!, disse aquele visionário de barba crespa e suja e olhos que anunciavam divindade. Lázaro, farto de mentiras sobre a vida e a morte, levantou-se e começou a caminhar. No meio da tarde estava já longe de tudo, do povoado coalhado de casebres, das hortas envelhecidas, de suas duas irmãs confusas e atônitas. Estava longe de si mesmo, e isso lhe deu algum alívio.

    No meio do caminho, parou e olhou para trás. De boa vontade teria dado graças e até beijado os pés daquele visionário maltrapilho, mas não tinha retrovisor em sua memória poeirenta. Além disso, o barbudo, àquela altura, estava ocupado em suster nos ombros um pesadíssimo pedaço de madeira e não poderia lhe dar atenção.

    Bebeu um gole d’água do cantil amarrado à cintura e contemplou o horizonte estendido como um tapete diante de seus pés. Chegou a novas terras, conheceu novas gentes. Ninguém o conhecia, porém. O tempo de quando estava morto e usava sudário já havia passado e não havia naquelas paragens ser vivente que tivesse ouvido falar dele. Para os outros, ele era só um viajante que tinha aparecido por lá. Percebeu que nunca se sentira tão leve como agora. Atravessou a nova terra e continuou a andar, seguindo seu destino e a ordem do visionário barbudo: Levanta-te e anda!

  • Palavras insólitas, insólitas palavras

    Viajava de ônibus outra vez pelo interior do estado. Na época, isso me era tão rotineiro quanto a atual preocupação com os seguidos e rechonchudos boletos, que parecem ter um prazer mórbido em aparecer sem avisar no meu e-mail, ou, de quando em vez, aqueles mais austeros e resolutos, na minha caixa de correio. Saímos de Porto Alegre com vinte minutos de atraso por conta de algum problema no trânsito próximo à rodoviária. Chovia torrencialmente desde a madrugada.

    O ônibus lotado bufava um ar quente que nos tragava a cada curva. O incômodo era grande também pelas estradas sofríveis e esburacadas que pegamos assim que saímos da região metropolitana. O asfalto picotado do interior havia se tornado uma marca registrada. Como atestado de bravura ou conquista pessoal, os viajantes se vangloriavam por atravessar o estado naquelas condições, tal qual tivessem escalado o Everest ou corrido uma maratona. Nem todos caíam nesse papinho, entretanto. A chuva, por exemplo, não quis nos acompanhar.

    Na noite anterior eu tinha ido a um show do Vera Loca e, quando tirei da mochila um dos livros que havia comprado na feira, minha cabeça ainda rebobinava o refrão de Meu toca-discos se matou. O autor era português, Jorge Reis Sá, o livro: O Dom. Comprei-o na esperança de uma agradável surpresa, afinal, sempre estimei os portugueses. O valor compensava: dez reais.

    Não fosse o seguido flerte com o horizonte, terminaria a leitura ainda no ônibus. O pampa é um convite ao deslumbramento estético/paisagístico, mesmo com o sistemático e antagônico solavanco das estradas. No bagageiro, a minha mala dançava espremida dentre tantas outras com uma dezena de livros e uma muda de roupa suja. Em verdade, não sei por que escolhi O Dom para a viagem.

    Após alguns sacolejantes capítulos, fechei-o um tanto enfastiado. Ao meu lado estava um homem que não parecia interessado em nada além dos próprios devaneios. Me olhou com certa curiosidade e, com um aceno de cabeça, indagou o motivo da minha reação. Disse-lhe que não estava gostando. O Dom parecia uma cópia fajuta e sem escrúpulos do Ensaio sobre a cegueira, do Saramago. Só não reprovava mais aquele livro porque o autor tinha muita coragem em propor aquilo e, de certa forma, a editora também demonstrava coragem ao publicá-lo. O mercado editorial, por sua vez, é uma eterna incógnita. Livros de colorir para adultos são mais vendidos do que o Érico Veríssimo, a Nélida Piñon, o João Ubaldo Ribeiro, vai entender.

    Meu colega sequer respondeu, apenas fechou o cenho. Eu continuei a leitura na certeza de que incrementaria o meu veredito. Em certo momento pedi licença para ir ao banheiro. Tradicionalmente, escolho o banco da janela por conta da claridade, mesmo que em alguns casos dependa da complacência do viajante ao lado. Demorei um pouco para retornar porque um ônibus cambaleante é sempre um desafio para as bexigas inflamadas.

    Quando voltei, o horizonte fisgou minha atenção até entrarmos numa pequena cidade. Pensei ter deixado uma impressão ruim ao me queixar tão acintosamente. Aquele homem não conhecia o Saramago, nem o Érico, a Nélida e o João Ubaldo. O mercado editorial talvez tenha lhe soado grego. E eu não passava de um reclamão excêntrico com o qual estava disposto a não gastar uma frase. Cogitei puxar um assunto qualquer a fim de melhorar minha reputação, mas enquanto elegia alguma banalidade, o ônibus parou na rodoviária e, novamente com um aceno de cabeça, me cumprimentou e saiu. Ainda o assisti andar de maneira solene e ereta até o táxi ali próximo. Sem uma única palavra, sujeito estranho, pensei.

    No bar da rodoviária tocava a música do momento: Borracho y loco, do Vera Loca. Justo quando os zunidos veralouquianos pareciam ter abandonado minhas têmporas. Outro passageiro acompanhava a música aos sussurros. Se havia mais um remanescente do show por ali ou se era apenas um ouvinte aleatório, jamais saberei. Coincidência ou não, agora não importa. O ônibus saía da cidadezinha quando abri novamente o livro e encontrei na primeira página uma dedicatória breve, num português gentil, agradecendo a crítica sincera. Havia também uma assinatura em rabiscos.

    Não consegui terminar a leitura na viagem. Demorei, na verdade, uns três ou quatro dias para digerir aquela cena e ler os capítulos finais. Até hoje acho um tanto ilógico encontrar um escritor português num ônibus pinga-pinga, vagando por horas e horas e entrando em qualquer biboca no interior do Rio Grande do Sul. O seu nome não estava na programação oficial da Feira do Livro de Porto Alegre e na internet também não havia nenhuma evidência de que tivesse viajado ao Brasil naquele período.

    Não me impressiono tão facilmente, às vezes sofro com a alcunha de ranzinza e mal-humorado, mas isso não condiz com a verdade. O fato é o seguinte: mudei de ideia quando terminei a leitura. Sendo franco, o livro é muito bom. E o pior é que depois também gostei de mais uns dois ou três livros dele. Desconfio um pouco dessa minha opinião porque ela talvez se ancore mais nesse encontro insólito do que nas próprias narrativas e, analisando bem, isso demonstraria um lapso de personalidade para o qual jamais me dobraria. Então, hoje só lido com certezas. Isso tudo foi uma brincadeira esdrúxula de um sujeito com senso de humor questionável. E ponto.

  • O mundo nunca será só virtual

    Quando inventaram o DVD, mataram o VHS.

    Pelo menos era essa a intenção — empurrar todo mundo para o novo aparelho brilhando no rack da sala.

    Depois o vinil virou CD. O CD virou arquivo. O arquivo virou link perdido no YouTube, no Spotify e em mais uma dúzia de plataformas que juram guardar toda a música do mundo, mas nunca têm aquela faixa que você procura.

    O cinema, coitado, saiu da tela grande para cair no streaming. Cada filme numa prateleira diferente. Uma assinatura pra cá, outra pra lá. E a gente gastando mais pra assistir em casa do que gastava no multiplex.

    Mas sabe de uma coisa?

    O mundo não topa ser só virtual.

    O dono da mercearia aqui do bairro — esse mesmo que pesa o tomate olhando para o céu — tem um clube do vinil. A turma combina tudo pelo WhatsApp e aparece uma vez por mês, com LPs debaixo do braço. A cena é tão resistente quanto o café passado no coador de pano.

    Moro em Belo Horizonte. Em Minas, sabe como é: o passado gosta de passear devagar. Nos sebos do Maleta, meninos e meninas folheiam discos como quem acaricia um gato. Um por um. Com aquele coraçãozinho retrô batendo no peito.

    Na Galeria do Othon ainda vendem vitrolas antigas. Aparelhos de DVD. Toca-fitas.

    Raridades? Sim.

    Extintas? Nunca.

    Quando a internet chegou, decretaram a morte do livro físico. Kindle seria o caixão elegante do papel. Pois bem: entro numa livraria e ela continua lá, firme, vendendo páginas de verdade. O que mudou foi o alcance — se não acho o livro na esquina, compro em qualquer canto do planeta.

    Se o PDF virasse moda definitiva, aí sim os sebos fechariam as portas. Mas basta uma visita rápida pra ver que o papel resiste mais que muito casamento.

    E, no meio disso tudo, descobri uma BH dentro da outra. Um Brasil dentro do outro. Camadas de vida: umas analógicas, outras digitais. Nenhuma se exclui.

    Eu mesmo. Prefiro a passagem comprada pelo celular a enfrentar fila de guichê. Prefiro receber meu pagamento por pix a encarar uma segunda-feira no banco.

    Mas ainda prefiro chope com amigo a conversa por WhatsApp. Livro no parque a tablet refletindo o sol. Filme clássico achado por acaso a caça desesperada no streaming.

    Ninguém existe sozinho.

    Ninguém existe só no on-line.

    Nem só no off-line.

    Há vários jeitos de viver dentro do mundo — uns do passado, outros do presente.

    E, sinceramente, não tem por que não ser tudo junto.

  • A fome

    Uma mão vasculha alguma coisa que se possa comer no meio do papel, do plástico…

    Outra mão manuseia as teclas de um computador em um lugar distante e escreve este texto…

    Alguns olhos procuram nas calçadas e nas caçambas de lixo um alimento qualquer…

    Em uma esquina de uma grande cidade, outros olhos observam o espetáculo de luzes e imagens nos telões expostos na avenida.

    Como podemos viver, ao mesmo tempo, tantos avanços tecnológicos e ainda presenciarmos a fome?

    Carros elétricos, robôs, cirurgias a distância, redes sociais, mas há gente passando fome.

    O ser humano já foi à lua (mesmo que haja gente que não acredite), mas não resolvemos a fome do outro.

    O ser humano faz foguetes, pontes, edifícios gigantescos… Perfura o fundo dos oceanos em busca de petróleo, cria satélites e uma estação espacial, mas a fome, a fome de doer a barriga e tirar a dignidade, nunca é resolvida!

    É sintomático perceber que a ganância e a perversidade vão construindo o painel do paradoxo: luxo e lixo, vida e morte, paz e guerra… Indissociáveis? Maquiavelicamente indissociáveis…

    A fome desfigura as pessoas, tornando-as objetos das cidades. Estes seres, carregados de esquecimento, tristeza e fuligem, transitam pelas ruas atônitos, perdidos dentro da própria fome…

    E sente fome a criança que equilibra bolas em um sinal.

    E sente fome a mãe que não tem trabalho, mas precisa alimentar desesperadamente o seu filho.

    E sentem fome centenas de milhares de homens sem nome, uma legião de espantalhos vivos espalhados pelo mundo…

    Fazemos planos mirabolantes, erguemos cidades inteiras no meio do deserto, desenvolvemos mais e mais ferramentas para facilitar as demandas do dia a dia, mas a fome, bruta, pesada, palpável… a fome, continua…

    Ao redor do globo, toneladas e toneladas de comida são jogadas fora.

    A fome, implacável, escancara um mundo difuso e contraditório.

    E esta crônica se encerra com o silêncio…

  • Vê se me enrola pouco, pediu a musa

    Vamos esclarecer esse negócio de musa inspiradora. Para início de conversa na tradição clássica ocidental eram nove as musas, todas filhas de Mnemósine, divindade grega da Memória, com o todo poderoso Zeus. Elas eram Calíope, Clio, Érato, Euterpe, Melpômene, Polímnia, Terpsícore, Talia e Urânia.

    Cada uma inspirava a arte nos homens e nas mulheres, sempre de alguma maneira direta ou indireta como é próprio nas relações do divino com nós mortais. Por conta de suas qualidades é impossível dizer que quem escreve se inspira em uma musa só.

    Calíope era a musa da eloquência e de certa forma está presente em tudo que se escreve ou fala. As vezes se confunde com verborragia mas para essa não há divindade determinada. Ao menos não para os gregos. Calíope é uma das musas inspiradoras mais presentes na minha vida, admito, porque já escutei e li que sei usar bem as palavras, com desenvoltura e quando há motivo mais ainda. Isso dito inclusive por você.

    Culpada, meu escriba! Mas siga.

    Vamos lá, quando alguém ou alguma coisa é citada, pode se atribuir a inspiração a Clio. Ela era a musa da História, a que conferia fama às pessoas. A fama aqui está subentendida como algo bacana, a despeito de atualmente se relativizar a idéia lembrando que existe boa e má fama. Mas no tempo da Grécia clássica fama era coisa boa. Daí ter sua musa.

    Para aqueles momentos mais leves e mais amorosos ninguém escapa da influência das musas Érato, inspiradora da poesia lírica; e Polímnia, da poesia amorosa. São elas, as vezes em separado as vezes juntas quem fazem os escribas escolherem aquelas palavras mais adocicadas e que eventualmente tem poder de envolver e encantar quem as lê.

    A da música é Euterpe e ela é para poucos haja visto a quantidade de gente desafinada que agride as mais belas canções já compostas. Fora os que acham que são inspirados por ela e insistem em escrever e musicar uns pseudo-versinhos para lá de sem vergonhas. Daqueles que só a claque aplaude, sabe?

    Na sequência vem Terpsícore, musa da dança. Mesmo no ofício de juntar letras para formar palavras ela traz inspiração pois nada mais gracioso que um texto que se move aos nossos olhos.

    Há a dupla de musas que parecem se opor: Melpômene, a tragédia; e Talia, a comédia. Essas duas usualmente não estão presentes ao mesmo tempo para inspirar. Mas há exceções. As vezes elas se conjugam com outras, como Érato ou Polímnia, o que traz bastante sabor ao que se escreve e explica o amor trágico ou a comédia romântica. Tudo obra da conjunção delas.

    Por fim a última e para mim ainda inexplicável musa é Urânia.

    Por que inexplicável?

    Porque ela é musa da astronomia e da astrologia.

    Sério?

    Sim enquanto astronomia é ciência astrologia está mais para…

    Não fala, sei sua opinião a respeito da astrologia.

    Tá bom.

    Devo entender depois de sua vasta explanação que é por isso que não sou sua única musa?

    Mais ou menos.

    Mais ou menos?

    Sim, porque isso de ser musa não é assim algo tão exato.

    Então me explica mas por favor vê se me enrola pouco.

    Olha, eventualmente você é a única musa. Por outras vezes a inspiração é diversa, vem de várias musas ao mesmo tempo que se apresentam a me inspirar e o que escrevo é resultado dessas múltiplas influências. Mas há também aquelas situações em que uma única musa se mostra para mim com diversas formas. Isso é mais comum do que parece dado o caráter multifacetado dessas musas.

    Pode ser mais claro com esse negócio de “caráter multifacetado dessas musas”?

    Claro. Eu quero dizer que por vezes a mesma pessoa pode me apresentar a inspiração de mais de uma musa. Como se combinasse …

    Calíope e Polímnia?

    Sim, como se combinasse a inspiração essas duas musas. Daí ser a musa multifacetada.

    Uma dessas pessoas seria euzinha aqui?

    Sim, você.

    Mas tem outras na sua vida.

    Ao redor de mim você quer dizer. Sim é natural porque a convivência permite beber em fontes variadas.

    Você bebe muito?

    Com moderação, você sabe.

    Hum, sei. E como é viver sob a influência de tantas musas?

    Tem dias que vai bem, em especial quando estão calmas. Mas tem outros em que elas estão encapetadas.

    Ah é, tem isso de musa endiabrada?

    Tem sim, aí é um Deus nos acuda delas querendo inspirar a todo custo, eventualmente até impondo sua inspiração sobre as demais. É uma luta.

    E como você resolve?

    Respiro fundo e deixo fluir. Naturalmente a que estiver mais presente, mais conectada com o que penso e sinto no momento leva a melhor sobre as demais.

    E quem costuma levar a melhor mais vezes? As musas de face única ou as multifacetadas?

    É fácil, basta ver o que eu escrevo.

    Nem sempre, porque as vezes suas palavras simples escondem emoções herméticas.

    Mas para senti-las e entende-las não é difícil.

    Ah não? O que é preciso, meu querido escriba?

    A receita vem de longe, de um escriba anos-luz maior do que eu.

    Sinta quem lê.
    De quem?
    Do Pessoa.
    O que ele diz?

  • Logística Mambembe

    Zími entregou a Mila Cox uma sacola para discos com um LP dentro.

    Ele não a havia presenteado em seu aniversário, dois dias antes.

    Conhecem-se desde o nascimento de Mila Cox, e trocavam presentes eventualmente, mas sempre com alguma zoeira sutil envolvida.

    Era uma edição nacional e comum de uma coletânea da Siouxsie and the Banshees, em bom estado de conservação.

    A contracapa, no entanto, trazia uma dedicatória escrita com esferográfica, que deixava claro que alguém ganhou o disco de presente e passou adiante sem remorsos.

    A dedicatória tomava quase a metade da contracapa, e Zími havia comprado por dois reais, por conta de depreciação.

    Zími havia esquecido a sacola na Kombi de Silvano no dia anterior, e a encontrou naquele momento, num compartimento oculto que há no banco traseiro.

    Zími falou: Não é um disco raro, mas essa edição vem com um texto na contracapa.”

    Mila Cox: “Nossa! Dedicatória de 1985! Amei! Valeu!”

    Eram onze horas da noite do sábado, fazia frio e o camarim e ponto comercial dos Crop Circles era a kombi do camarada Silvano, uruguaio que morava no mesmo prédio que Mila Cox e Zími.

    Mila Cox e Zími eram os Crop Circles.  Um duo, com baixo, sintetizador e bateria.

    Silvano definia o som deles como uma mistura de Violeta de Outono com X-Ray Spex.

    Ele era músico também e atuava como uma monobanda.

    Tocava sentado, usando violão microfonado ou guitarra, e fazia a bateria com os pés, uma gambiarra com caixa, bumbo, chimbal e muita silver tape.

    Zími também usava um kit minimalista de bateria e tocava de pé. Era apenas caixa, prato e chimbal.

    Silvano falava português sem sotaque porque vivia em São Paulo desde os quatro anos de idade.

    Para pagarem suas contas, Mila Cox era copywriter, assim como Zími.

    Silvano fazia carretos e entregas com sua kombi.

    Ambas as atrações se apresentaram numa festa junina nessa noite de sábado.

    Silvano tocou antes. Os Crop Circles haviam encerrado seu show às dez horas. Ambos os shows agradaram o público.

    Esses shows aconteceram na casa de Miro, um agitador cultural do bairro da Casa Verde, que já teve uma banda de Hard Core chamada ‘Colaterais’, e queria fazer uma festa junina com rock alternativo.

    Era uma casa grande, a última de uma rua curta e sem saída. Os demais moradores da rua endossaram a ideia e tudo correu dentro do previsto.

    Conheceram-se num show dos Crop Circles ocorrido meses antes, em Santo André.

    Tinham outro show marcado para o fim da tarde do domingo, em São Caetano.

    Era como se estivessem no intervalo entre o primeiro e o segundo tempo de um jogo de futebol.

    Mila Cox tinha vinte anos sabia que a vitória só se consolidaria ao término do show do dia seguinte, caso tudo fosse mantido sob controle.

    Zími e Silvano tinham quase cinquenta.

    Os dois sabiam que muitos artistas com a idade deles, nos dias de hoje, começam a se preocupar com excessos, especialmente naquele momento em que uma agenda estivesse apenas parcialmente cumprida.

    Quando bebiam, sempre repetiam um ao outro, em meio a gargalhadas, que só não eram completamente inúteis para o sistema, porque ainda faziam mercado e pagavam por gasolina.  

    Com medo de que os dois ficassem muito loucos e dessem milho no show de domingo, Mila Cox buzinava na kombi parada a cada vez que um deles cochilava de bêbado, enquanto ficavam vendendo camisetas dos Crop Circles por mais um tempo depois do show.

    Quando ela buzinava, o som era tão estrondoso dentro e próximo ao veículo, que os dois pulavam de susto e ela ria.

    Zími e Silvano estavam felizes porque estavam com gasolina paga e alguma bonança financeira com o show de sábado. Tomavam Domecq, cada um com sua garrafa, bebendo no gargalo.

    Era o dia de aniversário de Gene Vicent, e naquele dia Silvano tocou clássicos desse mestre e de alguns de seus contemporâneos, em versões mais aceleradas, para complementar seu repertório de músicas próprias.

    Silvano falou para Mila Cox: “Você deveria ter paciência conosco, e entender que sair pra tocar num sábado sem ter prejuízo financeiro como muitos artistas que pagam pra tocar, e ainda lucrar com camisetas e discos, e além de tudo ter um show no dia seguinte, num ambiente completamente diferente, com o tanque da kombi cheio! Amanhã não tem cachê. Terá o pagamento do valor de um tanque de kombi cheio de gasolina, mesma coisa que foi hoje. Amanhã quando voltar pra São Paulo e estacionar na garagem do prédio, teremos lucrado com essa logística bem elementar. Eu e o Zími somos coroas, mas você sabe que mesmo que um de nós morrer hoje, vai levantar e fazer o show assim mesmo, zumbi. Então fique sossegada. A gente já vai voltar pra casa, quando miar o movimento aqui.”

    Zími falou: “Eu adoro a ideia de ter show amanhã. Eu descanso na segunda. Estou vivendo um momento sublime. Na segunda dormirei, enquanto algum escravo assalariado contemplará o próprio retrato na parede de alguma firma por ter sido eleito o funcionário do mês, enquanto seus verdadeiros superiores hierárquicos estarão em orgias, em plena manhã de segunda. E em seguida um gerente patético o chamará de mocorongo e o fará voltar ao trabalho. E nós poderemos lamentar essa condição social mórbida criando mais uma música.”

    Mila Cox: “Eu tenho paciência suficiente. Sei que a Carole King não gravou o ‘Tapestry’ do nada. Foi preciso passar por muita coisa antes de entrar definitivamente pra história. Está tudo bem, agora nós temos uma kombi. Antes de mudarmos pro apartamento e conhecermos o Silvano, foram dois anos com um Chevette 79, e naquele tempo o Zími tinha pavor de fazer shows em dias seguidos. Vocês já estão cozidos por essa bebida e nem sentem o frio que está fazendo. Mas eu não reclamo. Fazer merda virar adubo tem que ser um lema quando ainda se está construindo uma reputação.”

    Zími: “Alcançamos alguma prosperidade sem sucumbir a ideias megalomaníacas de estrelato. Seguirei com essa postura em tudo que eu fizer. Lembre-se sempre que se nós tivéssemos nos transformado naquilo que nossos pais sonharam pra gente, teríamos um destino tão diferente que nem é bom tentar imaginar. Então estar aqui é uma glória. Expectativas exageradas sobre o futuro diminuem a importância do nosso presente vitorioso. Além do mais, São Caetano é perto.”

    Mila Cox: “Você pelo menos fez faculdade. Pelo menos um de nós. Eu ainda sofro com esse tipo de pressão. A vida acadêmica me tomaria um tempo precioso.”

    Zími: Fiz a faculdade de jornalismo apenas pra me livrar dessa pressão. Não reclamo daquele tempo. Hoje eu vejo no que meus colegas se transformaram e agradeço ainda mais pela minha sorte. Com diploma, ainda que inútil pra minha vida prática, sem filhos, com uma banda, e tentando prolongar a juventude sem fazer um papel ridículo.”

    Ao redor da kombi, estacionada na frente da casa de Miro, adultos conversavam e bebiam, crianças brincavam, cachorros passavam farejando alimentos que caíam no chão, e uma trilha sonora mais tradicional em festas juninas era o que se ouvia naquele momento.

    Pessoas que sabiam que a segunda feira chegaria rápida e impiedosamente, dançavam bêbadas com o sossego de estarem próximas de suas casas.

    Eram cerca de duzentas pessoas.

    Silvano pensava secretamente se realmente valeria a pena voltarem para casa, ou se seria vantajoso dormir na kombi com os equipamentos, e na tarde seguinte seguir para São Caetano e fazer o show.

    Dessa vez, mais duas bandas tocariam: Silvícolas e Secreção.

    Zími falou: “Amanhã será outro dia de glória. Vamos tocar antes das duas bandas. É um jogo ganho. Há um sabor especial em fazer a nossa parte e ter mais dois shows pra assistir. Gosto de tocar domingo. A atmosfera não é carregada daquela urgência em se divertir a qualquer custo. Os Silvícolas são ‘posers’, certamente vai ser engraçado de assistir. Ouvi umas músicas na internet e não consegui entender se eles fazem sátira com o ‘hair metal’ ou se realmente se levam a sério. Espero que seja sátira. O Secreção tem umas músicas boas, mas vamos ver se ao vivo chamam a atenção. Mas gosto da forma como eles desprezam o sistema e todo tipo de estrelismo no comportamento de quem se torna afetado por ter uma banda e consegue agendar um show. Musicalmente são de uma linhagem derivada do Minor Threat. Eu não sei se a pessoa que chamou essas bandas tão diferentes fez de propósito ou se faltou critério. O antagonismo entre eles é brutal. Mas é bom misturar. Não é possível que vá rolar alguma treta. Mas se rolar, o Silvano vai filmar pra colocarmos num documentário futuro.”

    Silvano: “Ainda existe treta desse tipo? São moleques criados pela avó, não vai ter nada disso. Além do mais, será outra festa junina!”

    Mila Cox: “Existe gente cretina o suficiente pra tudo que se imaginar, mas eu conversei com eles pela internet, vai ser sossegado. O público que eles vão levar será as namoradas e meia dúzia de amigos também criados pela avó.”

    Zími: “Sim, são moleques da sua idade. Vão ficar com vergonha de fazer qualquer merda juvenil depois que o Silvano e nós tocarmos. Provavelmente eles têm grandes expectativas sobre o futuro, e como quase ninguém os conhece, não vão querer queimar o filme.”

    Por volta da meia noite, as pessoas começaram a se despedir e ir embora.

    Mila Cox falou: “Vamos embora, temos que atravessar o rio Tietê pra chegar no centro. É um rolê. Antes que fiquem ainda mais bêbados.”

    Ao ver abortada sua ideia secreta de estacionar perto de alguma loja de conveniência e dormir na kombi, Silvano se ajeitou ao volante resmungando sutilmente.

    Foram embora dormir em casa.

  • Poema #43: Carnaval, Bandeira e Eu

    Quero banhar-me nas águas sujas
    Quero banhar-me nas águas sórdidas
    Sou a mais solitária das criaturas
    Me sinto só.

    Confiei às mulheres os meus amores
    Caí de quatro pelas sarjetas
    Cobri minha alma de decepções
    Valei-me Manuel Bandeira.

    Vozes da morte contai a história
    Da pessoa boa que sempre fui
    E eu dormia ouvindo o ruído calmo
    Do bambuzal

    A Sentinela em Fuga e Outras Ausências

  • CROQUIS

    1

    O maior favor que o escritor pode fazer ao leitor é ser sincero. Geralmente os que fogem à sinceridade o fazem por medo do ridículo, como se as íntimas verdades que expõem não fossem também as de quem o lê. O terreno comum aos homens é o das fraquezas disfarçadas, vilanias escondidas, aspirações muitas vezes inconfessáveis; o leitor agradece a quem o leva a se deparar com tudo isso, que também compõe o seu cenário interior.

    2

    Há quem diga que não vale a pena se casar, pois o amor acaba. Para mim é justamente o contrário: a efemeridade do amor é a maior justificativa para o casamento, que de alguma forma pode realimentá-lo.

    3

    De onde vem a culpa, esse império escuro que nos rouba a alma? Não devemos corresponder senão a nós mesmos, no entanto não conseguimos ter isso como uma verdade. Será sempre um problema de cada um conquistar a liberdade interior.

    A culpa, como todos os freios, precisa ser graduada. O excesso de freio impede que o carro se locomova; a falta dele o faz desembestar, com as terríveis possibilidades que isso implica.

    4

    O que é o tempo! As garotas bonitas que me ignoravam nas paqueras da Lagoa, ou na calçadinha da praia, hoje são senhoras simpáticas que me cumprimentam e até sorriem para mim. Agora não vale! Eu queria isso antes!!

    5

    A linguagem é o nosso confessionário. Falar é confortar-se; liberta e consola. Tudo que se subtrai ao desejo se compensa na linguagem. Por isso as pessoas falam, rezam, escrevem tanto. 

    6

    A razão é um demônio que vez por outra precisa dar uma sacudida no anjo da fantasia. Esse anjo, com suas róseas maquinações, pode entorpecer ou cegar. Nessas horas é necessário clarividência para não derrapar no fosso das ilusões.

    7

    A depressão caracteriza-se por uma defecção (abandono) do ser.  Depois que o indivíduo sai da crise, imagina não ser mais o que era. Sente a identidade como um fio tênue, que a custo lhe assegura a autopercepção. Ressente-se de plenitude. Um dos apelos patéticos que o depressivo faz a si mesmo ou a quem tenta ajudá-lo é: quero ser eu de novo.

    8

    A velhice é por natureza amiga da virtude. O homem só renuncia a certos pecados quando já não está em idade de cometê-los. Por outro lado, um dos maiores pecados da velhice é o ressentimento.

    9

    Costuma-se dizer que quem não ama a si é incapaz de amar os outros. Penso que é o contrário; quem não ama os outros é incapaz de amar a si. O amor, que é um sentimento basicamente altruísta, não pode ter como referência o ego de cada um. A percepção da incapacidade de amar o outro é que leva ao desamor por si mesmo.

    10

    Para o artista, a eternidade está no próprio ato de criar. É por esse ato que ele vive a transcendência da sua arte. Caso ela “fique”, ficará para os outros. O artista, enquanto homem, não sentirá o benefício da glória. Já o momento de fazer é tão-somente dele.

  • Velórios Virtuais

    Elas escolheram sempre a mesma mesa, no canto da cafeteria — aquela perto da janela, com vista para a rua movimentada. Um ritual silencioso: dois cappuccinos, celulares na mesa e o feed de notícias aberto. Foi entre um gole e outro que o suspiro da mais falante das duas anunciou o assunto do dia:

    — Você conseguiu descobrir do que faleceu Diane Keaton?

    A outra levantou os olhos da tela, com a seriedade de quem comenta a morte de alguém da própria família.

    — Eu não, amiga. Já li todos os posts sobre a morte dela, até a declaração dos filhos… mas ninguém revela nada. Justo pra nós, que somos quase íntimas dela. Intimidade de fã, daquelas que atravessa décadas de filmes, romances, premiações e fofocas de revista.

    — Quase íntimas mesmo! — completou a primeira, já animada. — Assistimos a maioria dos filmes, acompanhamos aquele romance com Woody Allen…

    E você reparou na cara do Al Pacino no enterro?

    A amiga assentiu com um ar grave, como se tivesse estado lá.

    — Sim! Agora não adianta se arrepender de não ter se casado com ela. No fim, ela acabou não casando com ninguém. Mas convenhamos, uma mulher como ela não nasceu pra se amarrar.

    Riram discretamente, como quem partilha segredos de bastidores.

    — Pena não estarmos lá… — ela disse, olhando para o nada. — Queria muito ter dado um último adeus.

    Havia uma ternura estranha naquilo: choravam a morte de alguém que nunca tinham encontrado.

    — Pena mesmo. E o Robert Redford então? — a outra retomou, aquecida pelo drama. — Ontem revi Out of Africa e chorei só de lembrar. Não é à toa que a Meryl Streep se apaixonou por ele ali mesmo.

    — E viu a homenagem do Andrea Bocelli? Fiquei arrepiada com o gesto dele de ficar com o cachorro de estimação dele… como era mesmo o nome do cachorro?

    A pergunta ficou suspensa no ar. A resposta veio, seca:

    — Menina… fiquei chocada quando soube que essa história é fake. Tudo inventado por IA.

    O silêncio que se seguiu foi mais eloquente que qualquer indignação.

    — Jura? — sussurrou a primeira, como quem perde o chão. — Mas então tudo aquilo que saiu no Facebook era falso?

    As duas se encararam por um instante, os celulares quietos sobre a mesa. O cappuccino já esfriava.

    — Bom… — disse por fim a outra, tentando reorganizar o mundo. — Pelo menos a história da mãe da Preta Gil é verdadeira. Achei lindo ela ser amparada pela Flora Gil.

    — Lindo mesmo — concordou a amiga, retomando o fôlego. — Pena não morarmos no Rio, senão teríamos ido ao enterro, né? Riram de leve, cientes da contradição, mas sem coragem de desmontá-la.

    — Lógico! — disse ela, com convicção. — Somos quase íntimas dela. Quer dizer… nem conhecemos pessoalmente, mas eu me sentia da família.

    Do lado de fora, carros passavam, pessoas seguiam seus trajetos, alheias àquele luto emprestado. A última frase veio quase como um suspiro:

    — É aquela coisa de alma, né? — ela completou, com doçura.

    A amiga levantou os olhos da tela e sorriu, agora com ironia calma:

    — Ou de algoritmo.

  • A visita

    É domingo e ele vai à casa de um tio. Não gosta de visitas familiares, mas nem sempre é possível evitar. Para aumentar o desconforto, o fato de desprezar tais encontros já é motivo de culposos sentimentos – e o menino sofre duas vezes. Primeiro consigo mesmo, devido a essa intolerância aparentemente inexplicável e injusta – sobretudo injusta; depois pela ocasião mesma do encontro, confusão de afagos e venenosas ironias. E sempre o mau jeito, ou o pejo, de revelar ao menos por indícios o amor.

    Talvez a prévia decepção é que se converta em hostilidade, de que ele no fundo queria desarmar-se para se abrir à necessária ternura. Necessária, possível. Por que era sempre mais fácil com os estranhos?

    É domingo e o menino vai. Entufado, mais menino do que nunca, engolfado em mágoas que não consegue explicar (nem direito sentir!), vai ao dever social como para um sacrifício. Vai compor as aparências mas, por que negar?, vai também pela curiosidade de se ver pelos olhos e gestos e tiques dos que lhe são carne e sangue. Acaso ele era melhor? Vai como quem tenta, mais uma vez, descobrir o caminho que leva à aceitação, para umidificar o deserto interior em que há muito vinha se crestando.

    E vai até como quem se arrepende de ter criado o drama – ele, o imaginoso e difícil –, os fios e nós cegos que acabaram enredando-o numa teia de incompreensão e espanto. Queria desatar-se, respirar.

    No caminho se conversa risonhamente sobre tudo, a euforia dominical tornando os parentes camaradas. Faz sol, venta um pouco, e todos (o menino também) parecem transfigurados pela força dessa manhã. Agora não é ocasião de mágoa ou medo; agora é para esquecer o ranço dos anos, a indelével inscrição na carne, na alma. Agora é como um entreato que faz parte da encenação mas desobriga as pessoas do papel – isso que foi se convencionando devagar, e com força, ao longo do tempo. Agora parece um instante gratuito, autônomo, do qual emerge um estranho desejo de absolvição.

    Quando chegam à casa do tio, ainda estão inebriados. Vem o parente que se tornou distante e manda todos entrarem. Nem precisava. Respondendo e perguntando, era mui cordato o dono da casa; ficava-se bem à vontade. Ele estava entre os humildes da família e vivia essa condição com uma alegria que poupava aos outros o remorso. Sua casa devia ser lugar de concórdia. O menino se penitencia por não ter lembrado isso, confundindo um manso, uma ovelha boa, com alguns os parentes maus.

    Sentam-se todos e se põem a conversar. Lembranças vêm à tona, e o domingo retrocede a outros cenários; a família curte uma espécie de saudade jovial. Tudo leve, sem sombras. Mas não por muito tempo. De repente salta o comentário suspicaz e malévolo de alguém vigilante:

    — A mulher dele, cadê? (A mulher desse tio, realmente, ainda não dera as caras.) Será que não quer ver a gente?

    A insinuação fica no ar como um pássaro tentador que logo os parentes, vorazes, se apressam em segurar.

  • Receita para se aburguesar

    Como perspicaz observador do seu tempo, Gregório de Matos soube compreender bem o papel da aparência naquela sociedade, o que o levou a compor um soneto intitulado “Remédios para enfidalgar”. Os tempos são outros, a sociedade é outra e os estratos sociais são outros. É verdade. Porém, embora com lugar diferente e mais distante do “ser”, o “aparecer” continua presente. Tem, inclusive, efeito curioso em determinados sujeitos inconscientes de sua classe.

    Assim, gostaria, agora, de propor uma receita para se aburguesar (na aparência).

    Ostente algum sobrenome. Se soar minimamente gringo, melhor. Caso tenha nascido no período de decadência da família e aquele penduricalho em seu nome nada mais possa significar, não há problema, continue a se gabar dele.

    Há parentesco com certa personalidade conhecida? É forçoso falar: “sou parente de fulano de tal”, mesmo que o tal fulano nem saiba quem é você. Os familiares defuntos são mais úteis para isso, pois já não podem dizer “Meu parente? Conheço não”. Lembremos, aqui, do nosso boca do inferno: “saiba a todo o cavalo a parentela, o criador, o dono e o defeito.”

    É necessário se endividar, não sendo a dívida a da necessidade. Quando não tem, mas precisa mostrar, o caminho é um só, o encalacramento. Apesar de seu salário não comportar os costumes frívolos dos sujeitos de pompas nobres, é inescusável não procurar os reproduzir. Acima de tudo, nunca aperte os cintos, você tem uma imagem a zelar. O bom remediado que se acredita burguês sempre tem um débito a saldar e a esconder.

    Nos tipos que observei, é muito comum o tal “ser chique”. Admito ao leitor, não consegui compreender bem o que seria isso. Todavia, alcançar esse ideal não parece difícil, tirar foto com uma taça de vinho é o suficiente.

    Despreze tudo que seja nacional, principalmente se for popular, e glorifique o que é de fora. Dizer que vai à roda de samba não pega bem. “Madame não gosta que ninguém sambe”, como o objetivo é se assemelhar a madame, adote a mesma opinião.

    Além de tudo, finja intimidade com outros países. Sem esquecer de os enaltecer, fale da Itália ou dos Estados Unidos no almoço como se lá ocorresse o seu passeio dos finais de semana. Comparações são sempre bem-vindas, até quando não possuem qualquer sentido de existir e a valorização do estrangeiro menos ainda.

    Esses são só alguns exemplos, vejamos o fundamento: a mimese. Pelo menos, a sua tentativa. É imprescindível a pose, saber fingir ser. “Faça mesuras de A. com pé direito.” Claro, faltará o essencial, o que faz o burguês ser burguês. Tudo bem, macaqueie; no fundo, é disso que se trata.

    Não se importe com os verdadeiros lordaços, que lhe olham com o ar de desdém que lançam a todos os trabalhadores (como você), mas com o acréscimo do ridículo imputado às suas práticas. Não ligue para isso. Afinal, tu crês que é um deles, então, seja firme, siga seu devaneio.

    Acreditando corresponder ao que não é, repugne os seus, como o burguês autêntico lhe repugna. Procure se aproximar desses e se distanciar daqueles; quando, na verdade, está colado com os que trata como outros e apartado dos que você vê como seus irmãos. Nisso, pode até tentar criar (na sua mente) uma nova classe, uma suposta média.

    Não dê atenção ao que os outros irão pensar; ademais, haverá sempre “quatro asnotes de bom ouvir e crer”, que irão se juntar a você, a fim de completar a manada. Porém, se sonha com os ricos, vive entre os pobres e compartilha com eles os mesmos pesadelos.

  • Atriz dentro da parede

    Era setembro. Estava ela diante do espelho a mirar-se. Já estava bem habituada a ouvir elogios mencionando a sua beleza, mas não era certo em suas formulações o que isso significava exatamente. De pé, frente ao espelho. Olhos grandes e bem abertos a olhar no vidro vivo e desafiador um rosto dotado de beleza semi-exótica – porém inquestionável – quase que como procurando pelo alheio. Estava séria e não caberiam sorrisos naquele momento. Na verdade, ninguém em seu estado normal ri diante do espelho. E ela era quase-normal. Quase.

    Ela dançava, lecionava, contava histórias e atuava. Mas sentia-se mais como atriz do que como qualquer outra coisa – ah, a legião de artistas que se alimentam dos seus míseros salários de funcionários públicos que parecem ter saído do poema “Não há vagas” de Ferreira Gular. E como atriz era uma excelente filósofa. Dessas que buscam o tempo todo o “algo além” perdido nas entrelinhas da vida. Seu corpo grande e intranqüilo buscava na dança acalmar-se. Sua voz macia buscava expressar-se – a si e a voz em si – para dar sua contribuição ao mundo em forma de som verdadeiro. Ela pretendia que tudo o que viesse a dizer fosse verdadeiro, mesmo que as palavras não fossem suas ou não pertencessem ao grupo das verdades absolutas. Ela autorizava palavras de outros, mas era criteriosa para essa autorização. As histórias que contava eram histórias para um mundo melhor. E atuar.

    Atuar completava sua paleta de busca por auto-conhecimento. Sua última peça, contudo, não havia tomado a direção do verdadeiro prático, ficando sua atuação presa no nível de intenção. E como quando sentimos que a nossa verdade não atingiu muitos metros além do nosso corpo – não porque não tenhamos sido verdadeiros, mas pelo fato triste de que interlocuções podem ser mais cabos de guerra ou muros, mais isso do que estradas retas.

    Dar um tempo com teatro seria necessário. Chegando em casa depois da última apresentação, olhou desconfiada para o velho companheiro de vidro reflexivo e tomou a decisão: “Preciso mudar um pouco”.

    Novo corte de cabelo. Nova cor. Feito. Olhos nos olhos no espelho mais uma vez – e isso era sempre meio constrangedor, pois não se confia em espelho. Os olhos do espelho pareciam-lhe mortos, como olhos de tubarão. Quase pediu conselho ao espelho, até lembrar que não se pode confiar neles – em nenhum deles. Abaixou a cabeça e virou-se, andando noutra direção, para poder assim melhor pensar. Pensou em viajar. Sair da cidade por uns dois dias. Talvez três. Talvez um primeiro passo para uma temporada bem maior que o imaginável. Fazer mala. Embrulhar-se para viagem. Mala feita. Ser físico devidamente embrulhado. Mulher devidamente embrulhada e estômago também. A essa altura já hesitava em dar uma última olhada no companheiro de vidro vivo. Medo dele. Saiu sem se conferir a beleza. Pés no corredor do prédio, trancou a porta. Elevador ou escada? Escada.

    Desceu. A descida foi longa, mais do que seria uma subida. Pensou dezenas de pensamentos por degrau, como uma metralhadora giratória cega. Chegando lá fora – no ante-começo de lá fora – perturbou-se com a monstruosa luz cinza da tempestade que se anunciava com suas músicas de vento. Parou. Pensou: “Esqueci algo. Não posso sair assim”. Voltava. Subiu com a mente menos cheia e menos giratória. Desta vez de elevador.

    Fechadura. Tapete. Portal a ser atravessado rumo ao espelho. Espelho triste pela ausência de sua dona. É isso. Ela era, sem que percebesse ou lembrasse, dona do espelho. Passou um batom vermelho. “Espelho. Meu espelho” – o chamou finalmente de seu. O vermelho do batom lhe trouxe uma súbita alegria. Quase sorria para o rosto que ficava mergulhado na parede, como mágica.

    Antropologicamente, entendeu porque os índios do século XVI foram vencidos pelos espelhos. Espelhos de mão nos aprisionam dentro do nada.

    Espelhos de parede aprisionam nossos dobros dentro da parede. Só bebês e animais sabem que quem vemos dentro da parede através do espelho não somos nós. Terminou então de passar seu batom vermelho e fez seu movimento louco: sorriu finalmente para o espelho, com os olhos felizes direcionados aos da outra na parede – a mulher bonita que mora dentro da parede.

    Alívio. Enxergou a beleza da mulher-gênio dentro da parede, e das belezas dentro de si como mulher pensante de carne, osso e desejo. Fome. Geladeira. Televisão. “Amanhã viajo”, pensou, desta vez alegre e em paz. Na última caverna da alma o doce som dos aplausos. O que houvera antes esquecido era a mulher que morava dentro da parede. Era setembro.

  • Terapias

    Ele andava triste, sem ânimo, às vezes com vontade de morrer. Os amigos notaram o seu estado e o aconselharam a procurar um médico. Recusou com veemência, pois não acreditava em medicina para a alma. 

    Mas uma noite teve um sonho esquisito. Sonhou que era um macaco pequeno, o único macaco entre seus irmãos. A mãe o olhava com indisfarçável repugnância e hesitava entre alimentá-lo ou deixá-lo morrer de fome. Ele então chorava, gritando e agitando uma campainha. Isso provocava a raiva do pai, que abraçava a mulher e o ameaçava com um facão. Enciumado, ele procurava um canivete para matar o pai mas era impedido pelos irmãos, que resolviam levá-lo para um zoológico. Lá o enfiaram numa cela, onde ficou se debatendo até que um funcionário chegou junto dele e perguntou: “O que é que está havendo? Fale! Fale!”. Não conseguia dizer nada.  

    Ficou tão intrigado com o sonho, que decidiu vencer o preconceito e consultar um psicólogo. Mas quem? E, sobretudo, de que linha? Resolveu divulgar o sonho na internet e aguardar sugestões. Eis alguns e-mails que recebeu:

    1) Seu sonho reflete um complexo de Édipo mal resolvido. Você e o seu pai disputam o amor da sua mãe, daí o ódio que sente por ele e o desejo de matá-lo. A oposição entre o facão e o canivete é uma representação metafórica da inveja do pênis associada ao temor da castração. Sua terapia deve ser psicanalítica, e de base freudiana.

    2) Impressionou-me, no seu sonho, a repugnância da mãe ao constatar o aspecto simiesco do filho. A dúvida entre alimentá-lo ou não é uma clara metonímia do conflito entre o seio bom e o seio mau. Você ainda hoje não sabe se ela o ama ou o odeia, e precisa resolver esse conflito. Do contrário, a sensação de desmamado o acompanhará pelo resto da vida. Sugiro-lhe uma psicoterapia kleiniana.

    3) Seu sonho é carregado de significantes — a referência ao som da campainha, por exemplo. Uma das onomatopeias para esse objeto é “ding”, que remete à Coisa (Das Ding), ou seja, ao Objeto Perdido. Sintomaticamente, você não fala. Se não fala, não tem o falo, o que não é nenhuma falácia (talvez uma faloácia). A ausência da fala/falo o deixa fulo e mostra que você se encontra numa posição infantil diante do Nome do Pai. É preciso trabalhar isso. Procure já um terapeuta lacaniano.

    4) O sonho é claríssimo, ora. O macaco representa a porção animal que você se recusa a inibir diante do pai opressor. É preciso dar vazão a essa torrente de instinto por meio de uma terapia regressiva, que o reconduza à liberdade da horda primeva. É preciso soltar o grito primal.

    5) Esqueça qualquer tipo de simbolismo para esse sonho. O motivo do seu sofrimento são pensamentos errados. Posso acompanhá-lo a um zoológico, em cinco sessões, para mostrar que você não é macaco coisa nenhuma. Compararemos seu comportamento com o dos símios, e você se convencerá de que gosta de mais coisas além de banana e não consegue andar com tanta destreza sobre o tronco das árvores. Recomendo-lhe (e me apresento) um terapeuta cognitivo-comportamental.

  • Poema #01: Chiclete com Banana

    Eu só boto bip-bop

    no meu samba quando o tio Sam pegar o tamborim

    Somos povo
    Somos pluralidade
    Somos originais
    Somos natureza
    Somos beleza
    Somos muito
    Colônia, de novo?
    Nunca!
    Sobre tudo
    Somos… tudo
    Somos … CUL-TU-RA!
    Por isso
    Eu só boto o bip-bop
    No meu samba
    Quando o tio Sam
    Pegar no tamborim!

  • Febre de sentir!

    Algumas pessoas têm habilidade em se doar, sentir que em sua condição humana há mais espaço para atender aos interesses dos outros ao invés de suas próprias dores cotidianas.

    São indivíduos que emocionam em manter uma relação mais frequente com o outro trocando ideias, pensamentos, conversas, sem pedras nos bolsos, que são raras e caras para muitos.

    Já, as pessoas pesadas, pessimistas e invejosas, tornam as relações diárias um prato azedo e temperado com sintomas doentios, sem regras saudáveis e com grande efeito dolorido após um encontro, que mais parece um embate competitivo.

    Os invejosos, que são os que tem satisfação com o fracasso alheio, guardam em si o prazer secreto em oferecer um alívio para sua responsabilidade em buscar o melhor de si. 

    Mas que, na verdade, seus medos, os mantém distantes de qualquer crescimento que perceba facilmente ao seu redor.

    Para quem sofre esse ataque emocional, por vezes não permite ter o ato de exteriorizar o que machuca ou incomoda, de transformar experiências difíceis – físicas, mentais ou emocionais – em palavras, ou linguagem escrita, sem receios ou filtros, o que poderia trazer alívio, clareza e serenidade.

    Uma oportunidade singular de colocar pensamentos, medos, angústias e anseios em perspectiva, é transformar experiências em palavras escritas, dando um passo adiante no reconhecimento de problemas e na busca pelo melhor modo de lidar com eles.

    Segundo a psicanalista Daisy Dalmáz, a escrita por si só é um sinal de evolução. “Sabemos que o mundo das ideias pode tudo, mas quando colocamos todo nesse universo interno na escrita, ocorre um salto de qualidade, pois, ele precisa ser organizado, precisa adquirir sentido, expressando um encadeamento de ideias e sentimentos”.

    O processo precisa ser direcionado para um conteúdo que expresse SENTIMENTOS, e não SITUAÇÕES (por exemplo: “senti raiva” ao invés de “gritei muito” ou “senti tristeza” ao invés de “chorei”).

    Aos poucos, as pessoas que seguem com a prática vão se familiarizando com a elaboração dos textos, além de aguçar a criatividade e a percepção de suas emoções mais profundas, num belo processo de autoconhecimento e fortalecimento interno.

    Como escreveu Fernando Pessoa “Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir”.

  • ARREBATADO

    Quase morto de sede, o homem implorou ao céu por chuva, mas não caiu uma gota. Olhou pra cima e não viu uma só nuvem, só luz e azul. Rogou uma praga. Perambulou pela estrada poeirenta, o sol na cabeça. Viu algo no meio do caminho: uma escultura de madeira que alguém jogou fora. Era um rosto, uma cabeça. Uma cabeça completa. O homem a pegou nas mãos e a acariciou. Limpou a poeira e viu surgirem uns olhos, um nariz, uma boca. Um rosto. O rosto de um santo? Ele não sabia. Beijou aqueles lábios, quis saber que gosto havia ali. Colocou a escultura de pé, encostada numa pedra, e tomou distância para avaliá-la por inteiro. Aproximou-se novamente. “Escute aqui, meu chapa”, começou a conversar, como se estivesse na frente de uma pessoa de carne e osso (é assim que um solitário faz com aqueles que não o ouvem, para que o ouçam: “Escute aqui, meu chapa”).

    Pediu que mandasse chover. Não choveu. Pediu que saciasse sua sede. Não saciou. Por último, implorou que o livrasse da miséria. Continuou tão miserável quanto antes. Desolado, contemplou a imagem, os traços rudes, grosseiros, talhados a canivete. Ia atirar a escultura longe, por inútil, quando percebeu um brilho rápido naquele olhar: o rosto também pedia por alguma coisa. Nos limites de sua madeira estropiada e do seu silêncio, implorava que alguém o encontrasse jogado por ali e o limpasse e lhe dirigisse orações. Suplicava que o adorassem como se adora um deus ante seu altar. Então o homem compreendeu tudo. Perdeu a sede, esqueceu-se de si e da chuva e dançou diante daquela carranca de madeira velha e carcomida. Dançou, dançou como arrebatado.

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