Literatura

  • A tarde e a crase

    Quando Carlos Emilio Faraco disse: “Se você me desse a tarde, eu alegremente a trocaria por uma crase”, não falava apenas de gramática. Ele nos oferecia um jogo perigoso, desses em que uma vírgula é um abismo e um acento decide o destino de uma frase. Um duplo sentido que escancara a língua como ela é: erótica, sedutora, quase obscena.

    Sem a crase, “a tarde” é um corpo inteiro: pedaço de vida, presente concreto, quase palpável. Algo que se pode dar: como se alguém entregasse ao outro um tempo, uma presença, um encontro. Com a crase, “à tarde” muda completamente: já não se trata de um presente ou de uma posse, mas de um tempo em que algo acontece (“marcar um encontro à tarde para se entregar ao sexo”).

    Assim, ao propor a troca, Faraco mostra como a ausência ou a presença da crase altera radicalmente o sentido. Ele brinca com a ideia de que alguém poderia lhe dar a própria tarde (um pedaço da vida, um corpo, um tempo), mas ao mesmo tempo, revela a importância de escrever corretamente para não perder o sentido pretendido. A frase ganha, então, um perfume de sedução, transformando uma lição gramatical em jogo sensual de linguagem.

    É nesse risco invisível que mora a diferença: de um lado, o desejo; do outro, a obrigação. De um lado, carne; do outro, horário. A língua portuguesa tem dessas perversões: uma partícula mínima, expletiva para uns, é capaz de acender ou apagar a chama de um texto inteiro.

    Faraco sabia disso. Jogava com a ambiguidade, mas também nos alertava: escrever errado é perder o sentido; escrever certo é ganhar vertigem. Entre a gramática e o erotismo, mostrou-nos que a língua é também um corpo que respira.

    Porque a vida é feita desses detalhes. Uma oração subordinada mal compreendida pode roubar o sentido de um texto. Um pronome possessivo mal colocado pode alterar a intenção de quem ama. Um verbo bitransitivo mal conduzido pode inverter agente e paciente da ação. E, nesse descuido, a pressa nos engole.

    No fim, Faraco nos lembra que a gramática não é um conjunto de regras mortas, mas um organismo pulsante. É corpo e é espírito. É rotina e é vertigem.

    Eu, se pudesse escolher, ficaria com as duas coisas:
    — A tarde, para viver com ela.
    — A crase, para possuí-la.

  • Os olhos dela

    Ele ia deixá-los abertos, os olhos dela, mas decidiu cerrá-los para parecer que dormia.

    Conheceram-se numa festa de final de ano, na casa de amigos. Ele gostou do jeito e da graça com que ela levantou a taça de vinho durante o brinde para a contagem regressiva. Viu quando ela tomou um grande gole no “zero!” e abriu os braços para cumprimentar quem estava próximo. “Quero ela, quero essa boneca pra mim”, ele pensou, excitado. Já era quase de manhã quando caminharam pela calçada, buscando um café aberto. Lá dentro, com as mãos sobre a mesa, trocaram carícias e toques de dedos e unhas. Conversaram muito e marcaram novo encontro, cansados demais para irem para a cama àquela hora. O dia estava quase amanhecendo.

    Na segunda vez em que se viram, ela confessou, rindo muito, que era uma bruxa poderosa e podia ver o futuro num baralho. Disse também que não revelava tudo o que as cartas lhe diziam, não gostava de provocar pânico nas pessoas. Só contava os acontecimentos mais leves, do tipo “você vai se casar com um colega da igreja” ou “seu destino será viajar pelo mundo”, coisas assim, inofensivas. Ele falou vagamente sobre seu trabalho numa instituição financeira, atividade enfadonha e desimportante. Não revelou seu fascínio por bonecas, aqueles brinquedos infantis quase insuportáveis de tão perfeitos. Também escondeu que tinha uma pequena coleção delas em sua casa. Foram para a cama naquela noite e em muitas outras nas semanas seguintes. Criaram um laço afetivo e de muita tensão sexual e apertavam-no um pouco mais a cada encontro.

    Começaram a namorar.

    Num dos tantos encontros, na casa dele, ela concordou em ler o futuro do namorado nas cartas, desde que se reservasse o direito de não dizer tudo. “Fechado”, concordou ele. “Diga-me só as coisas boas, como a data do nosso casamento, por exemplo”, ele brincou. Sentados em volta da mesa forrada com um cobertor, ela espalhou as cartas viradas para baixo e se concentrou. Virou uma a uma e comentou em voz alta e aos risos o que elas diziam. À medida que avançava na leitura dos naipes, seu rosto aos poucos se crispou e se transformou numa máscara de pavor. Olhou para o namorado, que sorria de maneira que ela nunca tinha visto. Fez menção de sair correndo de lá, mas ele a segurou pelo pescoço e o apertou até o corpo dela amolecer.

    Agora ela está deitada na cama como uma dessas bonecas que têm uma bolsa na barriga para guardar o pijama. Ele ia deixá-los abertos, os olhos dela, mas estavam tão mortos que decidiu cerrá-los para parecer que dormia. Levou o corpo inerte para o porão, onde costuma executar os procedimentos de retirada de órgãos e a dissecação do cadáver. Tarefa para a manhã seguinte.

  • Sobre vida, arte, educação, democracia, anistia, blindagem…

    Além da crônica ou do conto, hoje vou com um texto de opinião que, perdoem o pleonasmo, vem em primeira pessoa. Tenho acompanhado com bastante curiosidade os últimos acontecimentos políticos que tem ganhado destaque neste país lindo, e controverso, chamado Brasil. Como roteirista amador e apaixonado por cinema, acho incrível como a realidade brasileira consegue igualar, ou até mesmo superar, a criatividade dos maiores escritores mundiais desse gênero. É tanto plot twist que eles devem ter inveja. Agora, pensando em todos esses acontecimentos em relação a minha trajetória de vida, não posso deixar de fazer algumas considerações que deixarei soltas neste singelo texto.

    Minha primeira graduação foi em Direito. Desde então, tenho convivido com muitos questionamentos pessoais em relação a essa profissão. Entretanto, apesar desses, eu não tenho como diminuir a importância que essa ciência tem para a sociedade e para a democracia. O direito é um instrumento essencial para a garantia desse termo hoje tão falado, mas cujo real significado poucos realmente conhecem. Será que os jovens não aprendem sobre seu significado nas escolas? Ou será que nosso ensino se tornou tão mercadológico e finalista que seu significado se perde dentre outras milhares de exigências? Essa é uma discussão que poderia gerar teses sobre educação e que não vale o aprofundamento aqui. Polemizando um pouco, talvez falte um pouco mais de Paulo Freire, apesar de muitos dizerem que esse é o grande problema da nossa educação.

    Voltando ao tema democracia, talvez ela não seja um modo perfeito de governo. Aliás, será que a perfeição existe fora do seu significado? Apesar disso, considero que ela seja o melhor modelo, pois permite que a pluralidade humana coexista em espaços comuns. Ou seja, somos seres plurais e, por isso, precisamos respeitar o que cada um pensa. Não importa se uma pessoa é de direita ou esquerda, heterossexual ou homossexual, conservadora ou liberal ou qualquer outra coisa, o que deve sempre prevalecer é o respeito. Além dele, a liberdade de todo o indivíduo se expressar livremente, desde que isso não prejudique os direitos de outro. Seguindo, nesse regime todos são iguais perante a lei, ainda que as vezes seja preciso garantir que, aqueles que são prejudicados pelo sistema, possam usufruir de políticas para minimizar desigualdades, como a política de quotas, por exemplo. Somos iguais nos direitos e nos deveres.

    Todo esse brainstorm de características remete a questões tão obvias que, certamente, o leitor desse texto está se perguntando o porquê estou falando tudo isso. Talvez eu volte a questão dos roteiros do primeiro parágrafo para entrar na seguinte questão, o absurdo. Pensando em um contexto sem nenhum tipo de ideologia de esquerda ou de direita. Será que alguém concordaria que nossa democracia pode ser colocada em risco por qualquer pessoa que tente um golpe de estado? Será que seria razoável permitir que alguém, junto com seus pares e colegas, decida se ele(a) mesmo irá decidir sobre um crime que cometeu? Acho que a resposta para ambas é negativa. Ao menos, espero que seja. Se o é, por qual motivo alguns tem aceitado renunciar a elementos tão caros e importantes a nossa democracia pelo fato de defender certo posicionamento político? Será que isso vale a pena?

    Não se trata aqui de ser de esquerda ou de direita. Hoje, apesar de qualquer posicionamento político, eu me considero um fã da democracia. Talvez essa tenha sido uma das principais lições que aprendi ao cursar direito. Precisamos defender esse modelo para que possamos realmente conservar nossa liberdade de expressão para opinar, seja lá como for, dentro dos limites que exigem a legalidade. Não existe ditadura benéfica aos humanos, sejam elas de direita ou de esquerda. Qualquer tipo de restrição ao ser livre é burro.

    Finalmente, chego aos atos realizados no dia 21 de setembro de 2025 em todo o Brasil. É muito bom ver que, independente de correntes ideológicas, tivemos milhares de pessoas lutando por um objetivo tão nobre, ou seja, defender a nossa democracia. O ato mostra como o Brasil é lindo e gigantesco culturalmente, como temos talentos que fazem ter orgulho real por sermos brasileiros. precisamos cuidar desse país para que toda essa pluralidade floresça cada vez mais. Nisso consiste o real patriotismo.

    *Textos assinados são de responsabilidade de seus autores e não representam, necessariamente, a opinião do Crônicas Cariocas.

  • O retratista fiel

    Folhear álbuns de fotografias antigas — em papel ou digitais — tem me causado um certo estranhamento, uma sensação de que os ambientes, as pessoas, as fisionomias não eram bem assim como estão retratadas.

    Na foto do meu aniversário de 15 anos, o vestido que, à época, me fez sentir uma princesa hoje mais parece um tule de cobrir bolo. Difícil acreditar que fui eu mesma quem escolheu aquela roupa, que em nada me valorizava.

    Na varanda da casa onde morei com meus filhos pequenos — e que, aos meus olhos, parecia abrigar a família inteira —, a foto mostra um espaço em que mal cabiam quatro cadeiras. E nada tinham a ver com os móveis charmosos de jardim que eu havia comprado.

    Meu bolo de aniversário com cobertura de chocolate, que à luz das velas me pareceu brilhante e festivo, aparece seco, simples demais para a importância daquela comemoração.

    No começo, pensei que a culpa fosse das fotos: iluminação ruim, ângulo errado, talvez o dia nublado tivesse apagado as cores. Mas, aos poucos, percebi que não eram elas que me traíam — era minha memória, minha lente afetiva, que guardou lembranças muito além dos flagrantes de uma máquina, seja ela qual for.

    Minha memória registrou o que foi captado pelos sentidos: o olhar de admiração que me fez feliz naquele vestido, o som das risadas gostosas que ampliaram a varanda, o gosto de chocolate do beijo depois do bolo que iluminou minha boca.

    Sabem de uma coisa? Aprendi que é melhor confiar no que ficou registrado em mim: a memória é o mais generoso dos retratistas.

  • Eu vejo flores em você

    Não tem nesse mundo quem nunca escutou falar que as palavras têm poder, seja para tornar realidade o que estava no campo dos sonhos, seja para elevar ou destruir alguém. Eu mesma lembro de algumas palavras que, atiradas contra mim, me fizeram sangrar por um tempo, assim como guardo na memória outras que funcionaram como unguento.

    Além do poder que lhes é peculiar, acredito, que elas também possuem altura, largura e profundidade, mas nem sempre nos damos conta.

    Exemplo disso acontece quando, ditas numa conversa, são capazes de inaugurar sentidos (largura), iluminar e fomentar ideias (altura) ou promover conexões, interpretações que abrem estradas para as emoções (profundidade).

    Mesmo cientes do seu poder de cura, não devemos esquecer de que, no bolso, as palavras carregam uma lâmina de corte afiada.

    Quantas vezes usamos a navalha sem intenção? Porém, para quem escuta, a ausência de motivação para a hostilidade não diminui a gravidade do ferimento. Daí a importância de se ter cuidado ao manipular a faca afiada.

    É comum ouvirmos o álibi: “esse é o meu jeito de falar, foi sem querer, não me leve a mal.” Levamos sim! Ninguém merece arcar com o custo da falta de coragem de mudar, seja de quem for. Fala sério!

    A palavra não é o pijama velho que vestimos para dormir.  Não, ela é tecido delicado, fino, requer cuidado e manutenção. Senão, encarde e perde seu encanto e beleza.

    Toda palavra é feita de pétalas e espinhos. Prestemos atenção na forma com que entregamos cada rosa no nosso dia a dia.

  • A verdade e o sonho

    Ele estava seriamente desconfiado de que Papai Noel não existia. Os pais protestavam, não queriam que se despedisse tão cedo da infância (como se não houvesse razões mais fortes que levavam a isso!), mas ele achava que o estavam tapeando. Enganavam-no além do tempo em que deveria ser enganado. De qualquer modo, com os seus onze anos, não tinha certeza.

    Valtinho, o melhor amigo, garantia que Papai Noel era uma invenção dos adultos para fazer as crianças irem para a cama mais cedo. E Valtinho sabia das coisas – foi ele quem lhe disse, por exemplo, que não existia cegonha. Se existisse, como explicar a barriga enorme das mulheres grávidas antes de descansar? Munido desse argumento ele interpelou a mãe, que desarmada lhe confessou a verdade. A cegonha era uma fantasia para enganar as crianças muito pequenas… Ao ouvir isso, ele se sentiu vaidoso. Estava se aproximando do mundo dos adultos, e um dia seria um adulto pleno, ou seja, alguém para o qual a vida não tinha segredos. “Ser adulto, saber tudo” – essa era a grande conquista que faria no futuro.

    No entanto a mãe, que desistira tão fácil da mentira da cegonha, insistia que Papai Noel não era uma fantasia. Vinha nas noites de Natal e deixava os presentes que as crianças pediam (anos depois, já adulto, ele criticaria a “irresponsabilidade social” dessa versão). O pai confirmava tudo, mas atualizava o contexto da história – em vez de trenó puxado por renas, por exemplo, falava num pequeno veículo movido a turbinas que permitia ao velhinho visitar numa noite todas as crianças do mundo. Era uma pequena concessão à inteligência do garoto, que ainda assim desconfiava da conversa.

    Por isso resolveu fazer um teste. Se Papai Noel vinha mesmo de noite, ou de madrugada, queria estar acordado para vê-lo entrar no quarto. Faria um esforço para não dormir e desvendar o enigma. Nos anos anteriores adormecia logo para abreviar o tempo e chegar a manhã do dia seguinte – mas essa era uma atitude de criança. Agora que estava se tornando adulto, e queria saber tudo, a melhor estratégia era fugir do sono… e do engano. Foi com essa disposição que se deitou na hora que os pais estabeleceram (não convinha resistir, para não despertar suspeitas) e ficou ali, de olhos arregalados, acompanhando o movimento da casa.

    Risos, fragmentos de conversas, barulho de talheres… De início tudo isso chegava ao seu quarto com uma intensidade que o incomodava; depois foi-se tornando distante, virando surdina, parecendo por fim uma cantiga de ninar. Ele aguentou o quanto pôde, mas terminou adormecendo. E teve um sonho. Sonhou que a porta se abria, aos poucos, e alguém entrava no aposento com o presente que ele pedira. Silenciosamente, para não o acordar, deixava o videogame ao lado da cama e se retirava depois de o beijar de manso na testa. Pelo vulto, e sobretudo pelo beijo, ele percebeu que era sua mãe.

    No dia seguinte, mal abriu os olhos, deu-se conta do seu fracasso. O propósito era manter-se acordado, mas não tivera forças para isso. Adormeceu como uma criança e teve aquele sonho… No sonho revelava-se o embuste, mas sonho é diferente de realidade. Sonhou com o que queria que acontecesse, pois desejava muito ser grande. Certamente não vira a mãe real, vira a mãe com que tinha sonhado. E como ficava a questão de Papai Noel? Existia ou não?

    No próximo ano ficaria “mesmo” acordado e descobriria a verdade. Com esse pensamento animador, ele começou a desfazer o embrulho do videogame novo.

  • Ruptura

    Toda vez que olhava pela janela era em busca de distração. A vista não era de frente para o mar mas também não era para alguma parede. Do alto de sua janela avistava a cidade com sua arquitetura confusa e mista. Prédios clássicos que evocavam o passado de glória do bairro resistiam em meio a edifícios decadentes e lançamentos imobiliários de residências claustrofóbicas.

    Durava pouco a tentativa de desviar a atenção. Invariavelmente algo a puxava pelo pé e seus olhos voltavam para as obrigações. Agora, chamadas de obrigações mas que um dia foram recebidas com entusiasmo porque faziam parte de sua escolha.

    A opção por essa vida tinha sido sua há 20 anos. Era mais jovem do que hoje, naturalmente, mas ainda estava em boa forma. Toda manhã se olhava no espelho e sorria constatando: ainda sou um mulherão.
    Mesmo com sua rotina pesada e complexa, não abria mão dos cuidados essenciais. Unhas toda semana, para citar somente um aspecto, em nome do que ela chamava ser seu pacote básico feminino.

    Por dentro, mantinha alguns hábitos de higiene intelectual, como cinema e encontros com as amigas. Ver um filme, como ela sempre falava, era a forma de enxaguar seu cérebro. E encontrar as amigas era para deixar a gargalhada em forma. Mulherão por dentro e por fora, era assim que se definia.

    Por conta do seu cotidiano hiper atarefado era chamada de guerreira. Houve uma época em que sorria envaidecida quando escutava isso. Nos últimos anos, no entanto, esse suposto elogio a tirava do sério. Não era mal criada, longe disso, mas não deixava passar em branco.

    Toda vez que escutava que era “guerreira” respondia: guerreira não, sou sobrecarregada. Intimamente sempre soube que um dia teria que dar um fim a isso tudo. Aquela vida que um dia fora boa hoje se tornara um tormento. O problema estava em pegar a faca e cortar as cordas. Romper é um processo doloroso e necessário. Para ela, se desvincular e seguir adiante se tornaram situações que um dia ela teria que vivenciar.

    Só não imaginava que romperiam por ela. Doeu fundo quando escutou as palavras duras. Por fora manteve a postura corajosa, afinal é uma mulher adulta e independente. Mas por dentro escorreram lágrimas por sua alma que por pouco não transbordaram.

    Dedicara mais de 20 anos de sua vida para ser dispensada sem mais nem menos. Mas honestamente, ela esperava o que? Um número musical? Mãozinhas dadas e palavras doces?

    Sem chance. A vida era dura e isso fazia parte dela.

    Ergueu-se, ajeitou o vestido e olhou em volta para ver se faltava algo a ser levado. Parecia que estava tudo encaixotado, mas talvez ainda precisasse dar mais uma olhada. No coração, as mágoas que sentia pela ruptura ainda pulsavam. Arqueou as sobrancelhas e disse para si mesma: pode doer agora mas nada disso vai me abalar.

    Nesse instante lembrou-se das sábias palavras de uma amiga do tempo de escola. Sorriu para si e concluiu que naquele instante aquele conselho se tornara um imperativo em sua vida.

    A amiga disse certa vez: Para estar sempre preparada tenha à mão um bom advogado…trabalhista!

    Suspirou fundo e pensou: sem emprego mas isso não vai me abalar porque ainda sou um mulherão. E foi em busca de mais uma caixa de papelão.

  • Cruel

    — Estou aqui, Maria Helena.

    Quando recebeu o recado, ele não deu pelo motivo. Disseram que ela queria vê-lo, insistia em vê-lo. Estavam divorciados havia mais de dez anos, e nesse período só tinham se visto duas ou três vezes para discutir a separação dos bens. Nessas ocasiões, tratavam-se como estranhos. Ela era francamente hostil, como se o culpasse pela vida amargurada que levava após o fim do casamento. Para ele, as coisas também não tinham sido fáceis: a saída do apartamento, a perda dos amigos comuns, a mudança de emprego. E a solidão. Agora, depois de tantos anos de afastamento, ela queria vê-lo. Ele foi.

    Chegou ao hospital no começo da noite. O quarto estava na penumbra e ela, sozinha. O corpo, cheio de fios ligados a aparelhos, denunciava o seu estado terminal.

    — Mandou me chamar, Maria Helena?

    Ela virou o rosto lentamente em sua direção. Ele pôde perceber, mesmo na penumbra, os olhos embaçados, que nem de longe lembravam o belo olhar que a ex-esposa tinha outrora. Sua cabeça, quase sem cabelos, era agora uma bola acinzentada. O corpo magro e sem carnes parecia ser incapaz de suportar o peso de uma folha de papel. Era um quadro grotesco, difícil de encarar.

    — Queria me ver, Maria Helena?

    Ela emitiu um som débil e fixou seus olhos nos dele. Esticou o braço lentamente para alcançar o interruptor e acendeu a luz. Com o quarto todo iluminado, ele pôde ver o indescritível. Mal teve tempo de sair correndo dali, sufocando um grito, quando ela escancarou a boca sem dentes e expôs as gengivas negras numa gargalhada perversa, sem som e repleta de rancor.

    Na rua, apoiando-se numa parede para suportar a sensação de cair num abismo, ele subitamente compreendeu tudo: ela o chamara para que ele testemunhasse a sua decadência física e guardasse na memória, enquanto vivesse, aquela imagem medonha feita de pus, secreção e toda a crueldade do mundo.

  • Brazilzão

    Não falo de Clarisse, pelo contrário, ela se mostra ser uma pessoa de bem, engajada, fervorosa com os princípios das “quatro linhas da Constituição”. Falo de Sérgio, que se debandou para lá, pro lado comunista. É um tremendo de um traidor e vacilão. O casamento deles está um pandemônio. Imagine conviver com um comunista, que está pronto para matar um adversário a qualquer hora; que está repleto de ideais do mal; que quer ver a desgraça de toda uma sociedade de bem. Clarisse não tolera a virada de casaca de Sérgio, que hoje condena Bolsonaro – que ironia terrível. Até pouco tempo atrás, Sérgio dormia em acampamento em frente ao quartel, manifestava – até com certo excesso, que nós tínhamos de contê-lo –, idolatrava mesmo o nosso chefe maior, como um ser divino, enviado dos céus. Tudo que ele falava era lei. Hoje está do lado de Xandão. Disse que foi iluminado por um sonho tresloucado, só pode. Viu Jesus caminhando com os pobres, os vagabundos, os bêbados, os viados e os nordestinos. Onde já se viu?! A Bíblia não diz nada disso. Ao contrário, a Bíblia é santa, é o nosso guia e de Bolsonaro, declarando as palavras certas e duras, para o nosso bem e santidade. Não prega, jamais, a balbúrdia, que esse povo baixo prolifera. Você já viu o comportamento desses infiéis? Vi uma vez aquele Pablo Vittar e me escandalizei, e determinei que minha neta nunca mais assistisse a qualquer coisa dele. É um demônio disfarçado de gente. Foi preparado para destruir a cabeça dos jovens, para se virarem contra as leis de Deus. Veja só a inscrição do nome de Bolsonaro: Jair Messias Bolsonaro. Messias, viu aí?! Ele foi chamado por Deus para livrar o Brazil do comunismo. Voltando ao Sérgio, ele está absolutamente errado, se vendeu por nada. Fico perplexa com a desfaçatez do sujeito, que até outro dia se dizia ser nosso amigo. Chegou a frequentar a minha casa, justamente na comemoração daquele fatídico ano de 2018, quando o chefão se tornou presidente, para a honra e glória do nosso País. Observe como as coisas são bem articuladas: tudo que Bolsonaro está passando é somente uma prova para, com a ajuda dos alienígenas, refundar a nova ordem XWO. O que é Xandão na frente de criaturas superiores?! Deus e Elon Musk mandarão logo, logo, antes de uma inventada prisão de Bolsonaro, seres celestiais, de outras galáxias, para limpar o Brasil, e deixar nessa terra dourada somente os brazileiros de estirpe. Vão fazer uma limpa como jamais se viu! Os primeiros a serem exterminados serão Lula, Alckmin, Xandão e todo o STF. E Trump está intermediando esse plano, que começará no Brasil e passará por Venezuela, Cuba e afins – já viram os indícios de ataque a Maduro? São sinais dos novos tempos. Claro que agora vai dar certo. Só tenho pena de Sérgio, antes tão aguerrido; será dizimado junto com os comunistas.

  • O menino que pintava cidades

    Sempre identifiquei as cidades pelas cores. Mesmo antes de visitá-las, ainda garoto – empinando pipas nos arredores de casa ou jogando bola dente-de-leite pelas ruas – eu já sabia que o Rio de Janeiro era azul, igual ao céu em dia claro, e São Paulo, de um cinza faiscante.

    Pensava nisso e começava a desenhar em um papel pequenos quadrados, dentro dos quais escrevia os nomes das cidades. A partir dali, cada uma passava a ser classificada por uma cor: Curitiba-Cor-de-Gelo, Salvador-Alaranjado, João Pessoa-Azul-Anil e Espírito Santo-Cor-de-Mel. Abaixo de cada nome, colocava um número. Dependendo do tempo que eu tivesse, aquele quadrado ganhava contorno, ornamento ou traço estilizado. Ao lado, em uma coluna paralela, repetia os números, indicando a posição das cidades no “meu mapa”. Assim, podia provar a autenticidade da criação quando mostrava para minha família ou a algum amigo das brincadeiras.

    Para muitos, claro, parecia uma ideia estapafúrdia.

    — Tá maluco? Onde já se viu dizer que cidade tem cor, menino? O que tem é ladrão e gente doida, isso sim — retrucava minha mãe, toda vez que eu insistia no assunto.

    Às vezes, ouvia dos mais velhos que São Paulo era a “cidade da garoa”. Isso me deixava intrigado: tentava imaginar a cor turva de um dia chuvoso, em um lugar que, para mim, só podia ser cinza faiscante.

    Tinha meu amigo Zeca, o único que acreditava nessas descobertas. Mas ele não espalhava nada, porque acreditava em tudo o que eu falasse.

    — Qual é mesmo a cor de Brasília? — perguntava em tom provocativo.

    — Brasília-Branco-Neve, Zeca — respondia, exibindo o número correspondente nas folhas dobradas que carregava no bolso.

    Um dia, ele me lançou uma pergunta que mudaria para sempre o rumo do meu raciocínio:

    — E a nossa cidade, que cor ela tem?

    Fiquei paralisado, tentando imaginar. Mas simplesmente não havia resposta. Durante semanas, busquei a cor certa para a nossa cidade. Fechava os olhos e nada me vinha. Comecei a evitar o Zeca, temendo que descobrisse meu vazio. “Como não saber a cor da nossa cidade, se você sabe até a cor de Nova Iorque?”, provavelmente ele diria.

    Cansado de esperar, Zeca tentou por conta própria. Disse-me, certa vez, que sua cabeça chegou a doer de tanto esforço em traduzir uma cidade inteira em uma única cor.

    — Na nossa tem casa de tudo que é cor, primo — disse.

    O tempo passou. Muitas coisas mudaram, e eu ainda pensava nas cidades coloridas, mas já sem o mesmo entusiasmo infantil. Perdi o contato com minhas raízes; Zeca virou lembrança. Conheci algumas das cidades rabiscadas no meu caderno, e elas se apresentaram exatamente como eu havia imaginado: o Rio de Janeiro é mesmo o azul intenso do mar em dia ensolarado.

    Esta manhã, acordei pensando no Zeca. Queria contar-lhe o quanto fiquei preso àquela questão: a cor da nossa cidade. Mas ele já não está entre nós. Passados quase quatro décadas daquele episódio, ainda sonho com a resposta. E hoje, enfim, posso dizê-la: nossa cidade tem cor, sim. É verde-limão.

  • Poema #37: Um Vazio Suficientemente Cheio

    Subtraímos da vida
    a sua menor parcela
    para o preenchimento
    de nossas carências.

    Mas ao assumirmos o
    controle desta mínima
    propriedade, sentimos

    que ela não nos basta
    posto que a enxergamos
    apartada de sua totalidade.

    Acrescentamos então à vida
    a parte restante que falta
    para completar a visão que
    nós temos do seu conjunto.

    Mas ao nos atribuirmos a
    capacidade de dispor dos
    elementos de acordo com nossa
    momentânea vontade, a vida

    perde a complacência concedida
    e resgata a sua fração que já
    tínhamos e que era a única que
    podíamos aspirar em nosso desconforto.

    Inventário de Sombras

  • ………….|….|…|…|.|.|…|.

    Uma pena
    Rubra, rubor – ruído ruivo
    Feito item desejado
    Jaz – ainda que repleta de vida
    No papelão bonito de onde veio

    Nunca
    Sequer
    Dali
    Saiu

    Enquanto observa o líquido

    – mesma cor
    rubra, rubor – ruído ruivo
    Dançar serelepe em cristal humano
    Apaixona-se e queixa-se da sina que lhe
    Cabe
    Abre
    Fecha
    Resta

    O rubor vem do entalhe
    Afinação do cálamo
    Calado a observar
    Rêmige de primeira linha
    Ave-falante-de-peito-roxo
    Ares exóticos
    Mas
    É
    Brasileira

    – brasileiríssima, embora
    rubra, rubor – ruído ruivo
    Do sul

    A bebida reluz

    As barbas eriçam

    Deve ser sonho

    Ar condicionado

    Condição de um seu delírio
    Quer ser algo
    Escrita
    Grita

    Pensa nas curvas delineadas
    Êxtase encontro seu com a bebida
    Mergulho
    Líquido que de si
    Então tinta
    A ponta
    Uma linha
    “O” ponto
    .

    Rubro

    Rubor

    ………….|….|…|…|.|.|…|.
    Ruído ruivo

  • A busca de ser lembrado

    Gosto do termo “brumas” para figurar o esquecimento. O que vivemos se perde numa massa brumosa que dissipa as impressões do que passou. Não se revive nada, toda lembrança é o registro de uma perda. Ainda assim insistimos em lembrar, pois disso depende em grande parte a nossa identidade. 

    Outro vocábulo que também representa o que na memória se perdeu é “oblívio” – mas desse ninguém se lembra. É um vocábulo erudito e um tanto assustador. Por também significar repouso, tem alguma ligação com a morte. 

    “Amnésia”, sim, é patológico. Sugere uma perda temporária das lembranças devido a lesão cerebral ou à ingestão de determinadas substâncias. Seu radical evoca Mnemosine, a deusa que para os gregos determinava a lembrança e o esquecimento. Segundo a mitologia, os mortos que bebiam da água do seu poço relembravam suas vidas. 

    O esquecimento é o que mais tememos na morte, por isso o tema da memória provoca de forma tão intensa o nosso interesse. Quando se pensa em não morrer, ficar “para sempre”, pensa-se na verdade em permanecer na memória das pessoas. 

    A morte se consuma, não quando perdemos a vida, mas quando o que fomos desaparece por completo da lembrança dos vivos. Daí o empenho em que fique registrado o nosso nome nas obras de arte ou no acervo de instituições como academias, confrarias religiosas, associações de notáveis – que às vezes nem são tão notáveis assim, mas fazem questão do registro; o importante é que o nome esteja lá. 

    Nesse esforço de ser lembrado há quem desconheça a fronteira entre o bem e mal. Pouco importa se o recordam como um monstro ou um psicopata, desde que seus atos imprimam uma marca indelével na memória dos outros. Nesse grupo se enquadram os assassinos de celebridades ou os que, no exercício de funções delicadas como a de pilotos de aviação, produzem tragédias que levam à destruição de inocentes.  

    Muitos fazem tudo pela glória póstuma esquecidos de que o essencial mesmo é “permanecer”        enquanto estiverem vivos. Isso significa atuar, comprometer-se, ser determinante na vida dos que deles dependem ou com os quais mantêm vínculos de afeto.   

    Quem falha nessa tarefa, muitas vezes em prol de uma duvidosa notoriedade aos olhos dos pósteros, está condenado ao esquecimento em vida (um esquecimento que por vezes se confunde com desprezo). E deve amargar para sempre os efeitos da escolha errada.

  • O doce Augusto

    Nasceu palhaço, um grande palhaço, mas não se deu conta disso, e ninguém lhe disse. E então passou os anos fingindo uma seriedade que não tinha. Jamais prosperou: nunca foi capaz de cuspir nem dar pontapé no traseiro dos outros ou fingir que gostava de criança, pois gostava de verdade. Era mesmo um palhaço, só que não sabia que era. E por isso foi infeliz.

    Um dia, numa reunião familiar sem importância, disse com voz de falsete: “Definitivamente, não sou ninguém-guém-guém.” E todos estavam de acordo, não merecia consideração um homem frouxo como ele, que não levantava a voz ou batia o punho na mesa para defender suas ideias. Quando por acaso alguém lhe dava ouvidos, não conseguia evitar um sorriso. “Você poderia ser um grande humorista, um palhaço”, costumavam lhe dizer, “sempre teve grande talento para o humor, deveria investir nisso, ganhar dinheiro, ficar rico fazendo graça.” Ele não acreditava e mudava de assunto. Sentia solidão com frequência, mas nunca perdeu o sorriso. E era um sorriso triste.

    Numa dessas festas de casamento, teve oportunidade de exercitar sua verve humorística. Deram-lhe um microfone e ele subiu num pequeno tablado.

    — Sabem qual é o menor circo do mundo? Uma bombacha, porque nela só cabe um palhaço.

    Ninguém riu.

    — E por que um bebê de proveta não pode ser palhaço, alguém sabe? Porque não nasceu gozado.

    Novamente nenhum riso. Ele não conseguiu continuar, ninguém lhe dava a menor atenção.

    A última vez que o vi foi num encontro casual. Ele usava um chapéu-coco de feltro preto. Nos abraçamos com carinho, ele sempre atrapalhado com os braços. Dei risada e quis saber como ia a sua vida, o que fazia para viver.

    — Minha vida vai bem, muito bem, bem, bem. Sou zelador daquele prédio ali na frente.

    — E o humor?

    Ele ficou sério por um segundo. Depois sorriu: “Ora, isso acabou. Ninguém queria saber das minhas piadas. Achei melhor desistir. Aliás, você sabe o que um prédio falou para o outro?”

    Fiz que não com a cabeça. E ele: “Você tem um andar lindo!”

    Deu tchau com os dedos e foi embora, perdido nos pensamentos e tropeçando nos enormes sapatos coloridos.

  • Destino

    Ela buscava a perfeição nas pequenas coisas. Não por vaidade – que tolice seria pensar assim – , mas porque temia que, se um detalhe lhe escapasse, o resto se desfaria junto. Como se a vida fosse tecida de minúcias frágeis, e bastasse um único fio solto para que tudo se desfiasse.

    Naquela tarde, após o encontro inesperado com alguns colegas do antigo curso de Arquitetura, decidiu retardar a volta para casa. Um happy hour. Um instante de distração. E nesse gesto havia quase um crime: quebrar a rotina perfeita que sustentara por vinte anos de casamento. Estranho como a alegria, quando não estava prevista, parecia culpa.

    A noite avançava. Os amigos insistiam para que ficasse. Ela sabia que não devia prolongar aquele instante. O corpo dizia: fique. A consciência sussurrava: vá. Riam, insistiam, queriam retê-la. Ela ponderou: a música era boa, fazia tanto tempo que não tinha momentos só dela. Mas não conseguiu se entregar. Sentia-se dividida: entre o prazer de estar ali e a voz severa dentro de si, que lembrava sempre o “certo”. Presa ao medo de parecer chata, quase cedeu. Sempre houvera em sua vida um juiz oculto, vigilante, capaz de tolher qualquer leveza. É curioso como, às vezes, o que nos prende não é a obrigação, mas o receio da opinião alheia.

    Entre eles, Augusto. Não era apenas um amigo antigo. Era a lembrança de um caminho perdido. Ao vê-lo, sua alma estremeceu, frágil, como uma casa durante um terremoto. Pensou: se não tivesse obedecido à ordem das mulheres de sua família. Casar, ter filhos, cuidar da casa, como sua mãe fizera e a mãe de sua mãe antes dela, talvez tivesse permitido uma aproximação, quem sabe uma aventura. Recordou os corredores da PUC, os bancos da praça de alimentação, as conversas que nunca chegaram a ser promessa. E agora ele estava ali, diante dela, intacto. Como se o tempo não tivesse passado. Como se tivesse ficado, de propósito, à sua espera.

    E, de repente, bastou uma frase. Palavras comuns, triviais até, mas que carregavam o peso de uma chave guardada por décadas:

    – Nos trilhos somos livres. De uma estação a outra, seguimos nosso destino.

    Ela respondeu sem pensar, como se a voz não fosse dela, mas de algo mais antigo:

    – Para onde quer que você vá, levará consigo você mesma.

    Riram, mas não das palavras em si. Riram de si mesmos, do espanto de se ouvirem repetir o que soava tão gasto, tão decorado. O clichê, afinal, não estava nas frases escritas anos antes, por Augusto e por ela, no banco da praça: estava no tempo que haviam perdido. E foi por isso que aquelas palavras banais soaram como um segredo enfim revelado.

    O silêncio seguinte foi decisivo. E, de repente, já não importava mais a música, os protestos dos amigos, nem a madrugada que avançava. No olhar entre eles havia já um pacto. Sem despedidas, sem desculpas, de mãos dadas, abandonaram o bar.

    Daquele dia em diante, ela nunca mais foi a mesma. Começou a perceber fissuras no mundo perfeito que construíra: os filhos já não pareciam os mais belos, o chulé do marido lhe dava enjoo, a toalha molhada esquecida no banheiro tornara-se insuportável. Não era novidade nenhuma, mas agora ela via. E ver é diferente de saber.

    Numa manhã de sol quente, desceu as escadas para atender à campainha. Era Augusto, com dois envelopes timbrados de uma companhia aérea. Não houve palavra entre eles. Apenas o gesto. Um convite mudo. E ela aceitou.

    Enquanto partia, teve a impressão de que não deixava nada para trás. Ou talvez deixasse tudo: os filhos, o chulé, a toalha molhada, a casa perfeita. Ainda assim, não se despedia de nada. Era como se permanecesse ali, presa ao corpo que caminhava, à casa que ficava, aos seus demônios interiores. Ele, ainda embriagado pelo acaso. Ela, estranhamente vivendo a sensação de ter encontrado a si mesma, ao mesmo tempo, de estar se perdendo para sempre.

    E se perguntou: quem é que parte, afinal?

  • A Velha e o Mosquitão

    Dona Maria costumava se gabar por ser a maior espectadora de televisão do planeta. Havia alguém responsável por lhe conceder esse nobre título? Sim, no caso, ela mesma. Moradora de uma vila de pescadores, tinha uma vida bastante simples. Acordava de manhã, sentava-se em sua poltrona e ligava sua televisão. De lá só saia quando alguém batia em seu portão querendo comprar os sacolés que vendia para as pessoas daquela região.

    Toda essa calmaria ficou abalada quando um dia, enquanto assistia ao seu programa favorito, o plantão telejornalístico interrompeu sua programação com a seguinte notícia.

    — Informamos aos moradores desta cidade que amanhã receberemos a maior invenção deste século, o barco nuclear. Projetado com o tamanho de uma simples embarcação de pesca, ele será capaz de fornecer energia para todas as fábricas da nossa cidade. A crise energética enfim acabou. O equipamento ficará atracado na vila dos pescadores.

    — Por que diabos essa geringonça vai ser colocada aqui para iluminar as fabricas do outro lado da cidade? – indagou a senhora.

    No dia da inauguração, jamais tinham sido vistas tantas pessoas esquisitas naquela localidade. Era uma gente vestida de terno que andava com a cabeça tão levantada que quase alcançava o céu. Foi até estranho para os moradores daquela região verem o prefeito e vários vereadores comparecerem ao vilarejo fora do período eleitoral. Após todos os discursos e pompas, estava inaugurado o gerador de energia.

    Logo depois, começou um zunido infernal naquela localidade. Nenhuma pessoa conseguia mais fazer nada sem ser atormentado por um barulho ensurdecedor em seus ouvidos. Dona Maria já não conseguia mais ver ser programas de televisão. Como uma senhora obstinada, ela não poderia deixar aquela situação permanecer daquele jeito. Pensou logo em bolar um plano.

    Durante dois dias, ficou observando o ir e vir do pessoal que tomava conta daquele mosquitão. Percebeu que, uma vez ao dia, durante a troca de turno, o local ficava sem ninguém de vigia. Essa era a hora perfeita. Então, a Super Senhorinha saiu de sua casa, adotou passos cuidadosos e chegou em frente ao seu objetivo. Agora, precisava saber de onde vinha aquele barulho. Ela não titubeou, com sua perícia de cientista do lar, observou tudo durante algum tempo e percebeu que o som deveria vir de um cabo dentro daquele equipamento. Foi lá e desconectou tudo. Na mesma hora, o barulho parou. Saiu de lá vencedora.

    No dia seguinte, a paz voltava a reinar naquela casa, como era incrível a sensação de poder assistir televisão sem nenhum barulhinho para atrapalhar. Estava nas nuvens. De repente, sua programação voltou a ser interrompida pelo plantão.

    — Informamos que, por motivos ainda desconhecidos, o funcionamento do barco nuclear foi interrompido. A concessionária responsável está tentando adotar todas as medidas para restabelecê-lo o mais rápido possível, mas ainda conseguiu detectar o problema. Sendo assim, é necessário informar que estamos correndo um grande perigo, pois essa interrupção no equipamento por mais de 36 horas poderá causar uma explosão que destruirá nossa cidade. Os desenvolvedores do barco nuclear criaram esse mecanismo para nos proteger contra possíveis ladrões de tecnologia.

    Dona Maria ficou espantada com a notícia, mas sabia que não tinha tempo a perder. Esperou a hora que já conhecia muito bem e lá foi mais uma vez em direção ao mosquitão que tanto desprezava. Como já sabia exatamente o que fazer, não demorou nem 5 minutos. De repente, começou o zunido de novo, todos os funcionários correram para ver o que havia acontecido. Quando olharam para trás, somente viram uma senhora andando vagarosamente. Ela olhou para todos e disse:

    — Tentei voltar a ter paz para assistir meus programas de televisão, esse barulho estava complicando minha vida. Agora, se para ficar viva eu preciso aguentar o barulho desse mosquitão, que ele continue — disse Dona Maria contrariada após restabelecer o zunido muito a contragosto.

  • A volta do boêmio

    O velho boêmio voltou. Sentiu que as coisas mudaram quando foi informado de que deveria procurar o setor de readmissões. Dirigiu-se ao responsável:

    — Aqui me tens de regresso, e suplicando eu te peço a minha nova inscrição.

    — Preencha essa ficha em três vias. É preciso também pagar uma taxa.

    — Uma taxa?

    — O pessoal aqui era muito instável, vinha e voltava quando queria. A gente tinha que se garantir, por isso criou um fundo de reserva.

    — Mas pra que essa formalidade? Voltei pra rever os amigos que um dia eu deixei a chorar de alegria… 

    — Acho você não vai mais encontrar quase nenhum. A maioria hoje dorme cedo e come comida natural. Muitos frequentam nossa academia.

    — Está brincando!? Sabendo que andei distante, vai agora ironizar? Certamente quer me punir por ter deixado a noite. Eu, que fazia serenatas…

    — Serenata? Nos dias de hoje? Você ia cantar para o prédio todo, e terminaria tendo que se explicar à polícia. Se quer paquerar alguém, deixe seu nome aqui no nosso cadastro. Coloque também endereço, profissão, além de preferências gastronômicas, artísticas e culturais. A gente compara com as fichas de outras pessoas e, se for o caso, faz a aproximação via rede social. Basta acrescentar à mensalidade uma pequena taxa.

    — Não preciso disso. Já tenho alguém que floriu meu caminho. Por sinal, estou aqui por causa dela, que aceitou me dividir com vocês. Vendo a tristeza em que eu me encontrava, ela chegou pra mim e disse: “– Meu amor você pode partir, não esqueça o seu violão.

    — Uma “Amélia”!

    — Amélia não, Otília.

    — Digo que sua mulher é uma “Amélia”, uma tola. Deixar você se divertir com os amigos enquanto fica sozinha em casa. 

    — Mas ela sabe que eu sempre voltarei. Até reconheceu, antes de me deixar partir: “– Pois me resta o consolo e alegria de saber que depois da boemia é de mim que você gosta mais”.

    — Depois da boemia?! Mulher nenhuma hoje aceita ficar em segundo plano. Por isso desenvolvemos um setor para receber também as esposas, ou assemelhadas. Trabalhamos nisso de olho na otimização dos serviços. Com o acréscimo de 30% na mensalidade, você pode inscrever Otília. Ela vai conhecer seus amigos e as mulheres deles. Depois que fizemos isso, os casais passaram a brigar menos.

    — Sabe de uma coisa? Vou embora. Pode rasgar a ficha que acabei de lhe entregar. Eu queria tudo como era antes.

    — Mas isso não é problema! Nas sextas à noite, temos uma sessão nostalgia. Os homens vêm sós e podem percorrer antigos becos de ruas estreitas, onde há casas com janelas para fazerem serenatas. Tudo em ambiente virtual, claro, por isso o preço… amarga um pouco. Mas lhe garanto que é compensado pela doçura de voltar aos velhos tempos.

  • Laranjas azedas com sal

    É pegar uma laranja azeda, cortar exatamente ao meio, e ir colocando sal, aos poucos, em micro-pitadas, à medida em que se vai chupando. Umas três pequenas adições de sal dão conta. O que se sente? Bem. Um pouco do azedume da laranja, um pouco do salgado, obviamente, e, surpreendentemente, um leve sabor adocicado que não deveria estar ali — pois a laranja não é do tipo doce — mas está. Ele transava, desde sempre, experimentações gastronômicas. Contudo, a laranja azeda com sal aprendera com a mãe e com as tias quando ainda menino. Hoje ele é um homem velho a relembrar o seu passado com as cores fortes de um presente que fosse. Cores e sabores, como o da única laranja que neste dia estava em cima da mesa. Para sua alegria, era uma laranja azeda. E ele a chupou com sal. O gosto era de passado.

    No sol da sua longínqua juventude ele se aquecia. Certo dia, muitos anos atrás, perguntaram-no sobre qual era a coisa de que ele mais gostava, no que ele respondeu, depois de pensar um pouco: “ —Maconha e sexo”. Ele não levou mais de trinta segundos para eleger essas duas coisas como as suas preferidas. E pensou em como estava tanto tempo sem fumar um. E pensou também que já não fazia sexo com a freqüência de meses antes — não que n’algum dia estivesse satisfeito com a freqüência de suas relações sexuais. E o fumo… O fato de o fumo ser ilegal o perturbava, pois isso o restringia na impossível liberdade de fumar onde quisesse. Maconha ilegal, sexo restrito. Ah, o sexo… Este requeria um mínimo de paixão, e, ainda, requeria uma outra pessoa, e essa outra pessoa nem sempre estava apaixonada ou presente. Ele buscava na vida o prazer das coisas do corpo – que é o mesmo que alma. Buscava satisfação. Satisfação, para ele, era uma palavra como Comunismo, ou como Extraterrestre: essas coisas que são lindas, mas que não se sabe se um dia poder-se-á ver.

    Numa tarde, ele pegou seu velho carro, que era uma extensão da velha bicicleta — sempre coisas velhas — e foi em direção ao incerto. Uma estradinha de asfalto centenário — datada de quando quase não existia asfalto. O incerto dele nunca era algo muito distante, em termos automobilísticos e viários, dada a situação do tanque com pouco combustível, sempre com pouco combustível. A velha estradinha sempre o esperava. Em silêncio e acolhedora. Ela o recebia, ele, o eterno menino velho — que sempre seria menino e sempre fora um velho –, com seu carro velho e com seu baseadinho, mas sem companhia para sexo. Numa das curvas ele acelerou mais que o considerado seguro, até que colidiu com um animal de grande porte. Era um burro. Na testa agora um pouco de sangue. No burro, caído no chão, não se via sangue, mas se via um animal tentando levantar sem sucesso — provavelmente uma fratura na bacia, ou na perna. Olhou para os olhos tristes, por fim, do burro, que parecia ter, após muitas tentativas, desistido de levantar. Sentou-se na grama, à beira da estrada, a quatro metros do burro e permaneceu, fitando-o. Sentiu vontade de chorar, mas não chegava a chorar em situações trágicas pessoais – os filmes o faziam chorar com muito mais facilidade. A morte de artistas queridos o faziam chorar, fossem contemporâneos seus ou não. Ali não chorou. Aquela situação, no entanto, era muito triste: um rapaz pobre com seu carro velho com o pára-lama direito amassado, sangue descendo na face, um pobre burro deitado na lateral da estrada, a incerteza sobre o que fazer naquele momento. E um burro, por si só, já é uma coisa triste.

    Fugir e abandonar o animal: pensou. Mas que merda… dois burros, sem ação, à beira do caminho: pensou novamente. E pensou um milhão de coisas. E multiplique-se isso pelo efeito da Canabis-sativa em sua mente. Pensamentos de todas as cores, sabores, cheiros, medos e conclusões diversas. Não seria honroso um burro abandonar o outro. Ele pensava em sua honra, ainda que não houvesse expectadores. O sol, o vento frio, o céu que avermelharia com o ir das horas.

    Milagres acontecem. Ela parou seu carro, bem mais novo, vermelho, e o ofereceu solidariedade, perguntando, primeiramente o que havia ocorrido, e como, e o que fazer, e em que posso ajudar, e como posso ajudar, e como isso foi acontecer, e como você pode mesmo ficar aí parado pensando no burro ferido quando podia dar o fora antes que o dono do burro apareça, e achou como ele era bonito, e ele também achou isso dela, e ela pegou na mão dele, e comoveram-se juntos com a situação, e saíram de perto do burro pra pensar na situação sem a imagem triste dos olhos tristes do triste animal, e ultrapassaram uma cerca, e fumaram juntos, e roubaram umas laranjas, e eram azedas, e aquilo era bom, e ela limpou seu rosto com a blusa molhada no riacho, e fizeram amor, e foram felizes, felizes, felizes… Voltando à estrada ela disse: “— Há uma hospedaria de cavalos perto daqui onde podemos avisar que há um pobre burro com a pata quebrada. Tem veterinário lá. Eles poderão dar um jeito. Não precisamos falar que você o atropelou”. E assim foi feito. E assim eles disseram: “— Até qualquer dia!” E eles nunca mais se viram. E o burro viveria feliz até o fim dos seus dias.

    Voltando pra casa com o velho automóvel, de sua pequena viagem, ele trazia na mochila algumas laranjas azedas. Já na cozinha, as chupou com sal.

    *Publicado originalmente no Crônicas Cariocas em seg., 15 de jun. de 2009, 10:21

  • Doce Maria

    Nada vem por acaso. Acredito no destino, fé e sorte. O que tem de ser será. Marcelo saiu com a mãe para passear. Foram ao restaurante do avô, para visitá-lo e brincar com os primos e amiguinhos que moram nas redondezas, no bairro Antônio Bezerra. Lá, entre brincadeiras, meu filho viu uma gatinha abandonada, que ronronava com ardor, pedindo carinho. Marcelo pegou a pequena e não queria mais soltar. Levou-a à mãe, para mostrar a novidade. A mãe de cara se apaixonou. Todos viam que a gatinha era meiga, carinhosa e precisava de um lar. Mayara logo me mandou mensagens pedindo para trazer a gatinha para a nossa casa. “Mas, Mayara, já temos dois adultos. Não dá certo. Não insista”. Marcelo mandou áudios, dizendo que queria muito e que seria seu presente de aniversário – falta um mês para o grande dia dos seus cinco aninhos. Pegou o pai de jeito. Encarreguei-me de falar com a avó. Também não queria. Mas aí eu já considerava o caso e servia de advogado do meu filho. Amo bichos, nossa casa poderia receber mais um bichano, sim. Expliquei à minha mãe, que mora conosco, e que também deveria aceitar ou não, que a pequena gatinha seria vacinada e banhada no dia seguinte. Minha mãe permaneceu reticente, impondo condições. A gata não poderia ficar circulando em casa, até aprender onde devia fazer cocô e xixi. A gata não poderia sair do perímetro do banheiro. A gata não poderia, ainda, se aliar aos outros gatos. “Meu filho, os gatos já estão estragando o sofá. Mais um gato será o fim”. E indicou mais algumas restrições, com as quais concordamos. Pronto, a matriarca aceitou. Ficamos animados, eu, o meu filho e a Mayara. A gatinha chegou em casa cansada, mas, desbravadora, queria conhecer a sua nova morada. Logo ele me disse que tinha colocado o nome de Dulce Maria, por influência de uma pessoa que estava lá e era fã do RBD. Eu acabei gostando do nome, porque representa Doce Maria. Constatei que realmente ela era muito carinhosa, doce, uma menina que viria para somar. Marcelo, enfim, com o seu amor, nos convenceu de que deveríamos ter mais um membro na família. No sábado de manhã cedo levamos à veterinária, fizemos exames e demos vacinas. Resultou tudo certo. A gatinha era saudável, mas estava magrinha por conta da vida mundana. A médica avisou que ela poderia ficar molinha esse dia. Passou suplementação alimentar, para ganhar logo peso. Disse que ela teria de três a quatro meses e que o peso de um quilo e seiscentos gramas estava muito abaixo da média. Foi um dia puxado para a gatinha, então passou o resto da tarde dormindo – mas feliz e esperta em alguns episódios. E, hoje, um dia depois, nos admiramos e nos encantamos com a bela surpresa que a vida nos proporcionou.

  • Pi-ta-da

    Pitada – palavrinha gostosa de pronunciar e quase sempre de provar. No gosto, desgosto, e até no desacerto. Tudo começou, pelo que sei, com a pitada de rapé (râper, do francês), tabaco em pó usado para cheirar e, segundo uma citação encontrada na obra clássica de João Manuel de Macedo — A Moreninha, avivar o cérebro.

    Do rapé para o uso na culinária foi uma pitada. Seu uso mais comum passou a ser uma medida do sal, recomendada nas receitas, para o desespero de quem não tem prática na cozinha. Aí a pessoa recorre àquele que é o melhor amigo dos desinformados, e lê a definição: “o que se pode segurar entre as pontas de dois dedos”. Dois dedos grandes, de um homem ou de uma mulher de dedos delgados? Dedos apertados um ao outro ou com espaço entre eles? E aí a pobre iniciante é reprovada na mesa.

    Tentar dimensionar corretamente a pitada é quase pior do que descobrir quando um bolo ou um suflê está no “ponto”, outro conceito culinário totalmente abstrato e que depende da perícia do cozinheiro.

    Voltando à pitada, alguns manuais vieram em socorro dos incapazes mestres-cucas, tentando dar uma medida menos especulativa para esse termo. Surgiu, então, um padrão que, a princípio, resolveria o problema: uma pitada equivale a 1/8 de uma colher de chá. Aliviados, os principiantes na cozinha lá se foram tentar dividir o conteúdo de uma colher de chá em oito partes – missão impossível, com potencial de levar alguns ao autoflagelo usando a própria colher, no caso de não haver uma faca por perto.

    Foi assim, creio eu, que começou um movimento de aproveitamento desse termo tão gracioso para outros fins mais poéticos, menos estressantes. A pitada passou a povoar os textos em prosa e verso, em diferentes porções: uma pitada de sorte, de poesia, de magia e, por que não, uma pitada de liberdade.

    Redimida, a pitada ganhou outro status e a licença de não se atear a nenhuma medida. Pitada é o que cabe na imaginação de cada um, é “a gosto” de quem se apropria dessa dimensão subjetiva para fazer valer a sua vontade, seu desejo, suas esperanças – inclusive de que aquele prato especial do domingo fique saboroso.

  • O crítico perfeito

    Não havia estática no ambiente coabitado por seis espaços, sexta-feira inaugural de um coquetel em meio a formas geométricas suspensas; horas que se observavam tentando segurar a respiração e manter o mesmo compasso entre os minutos.

    Perder-se não é uma brecha no tempo, pelo contrário.

    São chaves que não abrem porta alguma, mas pendulam na possibilidade. Está introduzido o conceito curatorial de luz, memória e tempo.

    São todos os fusos horários em um coro uníssono que nos convida a passar o tempo com quem mais importa: nós mesmos.

    São palavras-abismo, tic-tac fragilizado pelas letras que os retiram das horas e os tornam instalação de arte.

    Na última sala, são as sombras do público — tal corpo heterogêneo e encantado de convidados, artistas e meros transeuntes — transformadas em projeções de luz que revela a história da cidade. É o fazer arte, o abrir dos múltiplos sentidos que fazem algo conceitual existir. Corpos parados, movimento. A estática não existia, e existia: tudo é repouso, sob tensão.

    Enquanto as duas salas centrais introduziam ao mundo, por primeira vez, a versão corpórea do ser que vos fala aos domingos — eu —, em seu corpo dúbio de ser artista e um cpf trivial, abriam-se também, nas telas-smart da fachada principal, janelas outrora fechadas. Elas vazavam a exposição para o presente: o tempo movimental da cidade.

    Câmeras escondidas, como parte da própria resistência artística, desafiavam os limites do espaço físico do centro cultural, deixando escorrer, discretamente, imagens para fora da arquitetura. Palavras em suspensão reagiam aos recortes de acrílicos que desafiavam as leis da gravidade, transfigurando-se em inéditos poemas, de visualização, por vezes, única. As perspectivas beiravam uma infinutude de hipóteses.

    De todas as hipóteses, havia um ser peculiar naquele entardecer. E não se trata dos alguns de quatro patas que zanzaram com seus tutores e não assinaram o livro de presença, mas vieram. Zeca, o meu Zeca, foi um deles. Mas esse, não. Não caminhava ereto como os outros, tampouco observava com a pressa dos sabidos. Preferia o chão. A frieza do piso de pedra, a polidez que refletia o que estava em cima, embaixo. Ali, deitado, encarava o mundo com a solenidade de quem conhece o segredo das coisas que balançam. Em suas mãos, um saco industrializado, aberto e barulhento. O mastigar como forma de não perder o presente.

    Algumas pessoas passavam e notavam. Outras, focadas em suas reflexões artísticas, nada viam além das obras. Havia aqueles que apenas se preocupavam com o enquadramento da selfies perfeita e tropeçavam na existência miúda sem perceber que ali — ao rés do piso encerado — havia filosofia em estado bruto.

    As placas, suspensas por fios de nylon invisíveis, dançavam como se tocadas por uma orquestra de suspiros. Um sopro aqui, um braço ali, e pronto: uma dança ao sabor do inesperado. Eram acrílicos coloridos, mas, vistos de lado, tornavam-se lâminas de tempo, quase perigosas em sua beleza oblíqua.

    Ele — ou seria ela? — permanecia absorto, talvez tentando compreender por que o que aprendera como vermelho parecia tão roxo por baixo, ou por que o verde fazia sombra de ouro. Sons guturais saiam de sua garganta. Palavras disformes como a produção de sentido. Eis que soltou uma risada.

    Não daquelas educadas, mas uma gargalhadinha breve e torta, como quem foi pego de surpresa por uma pequena embriaguez. Silêncio em toda a exposição luminosa.

    Era água com gás.
    Bebida dos deuses, claro — mas só para aqueles que ainda não sabem que deuses existem.

    Em literatura pode-se descrever assim: um espírito antigo num corpo novo. Ou ainda: uma criança-pedra, meio estátua meio relâmpago, comendo batatas como quem consagra o instante; fantasma da manhã seguinte, vinda para lembrar que tudo o que é belo balança — e passa.

    Eu, Bia Mies, apenas observava. No entre, espacial, temporal, emocional e luminoso da minha primeira inauguração artística. Só fui entender tudo quando ouvi minha outrora assistente dizer, com um suspiro de vencida:

    — Athena… Athena. Vamos. Está na hora de dormir.

    Eis o mistério desfeito: o ser filosófico, bêbado de água com gás, era apenas uma criança de quase dois anos, que comera torradinhas demais e decidira deitar-se no chão da exposição para apreciar o tempo à sua maneira. O crítico perfeito.

  • Estou pobre de heroínas…

    Neste site, onde publicamos crônicas, poemas, contos e reflexões, existe uma aba chamada Autores. Lá está a nossa descrição: quem somos, o que nos qualifica como escritores, nossa formação. Enfim, um retrato resumido de cada um.

    Tenho filhos, netos, família e amigos. Estudo. Publiquei livros de contos e crônicas, além da minha autobiografia. Tenho três graduações, fiz pós-graduação e posso afirmar: estudar foi e, ainda é parte importante de quem sou.

    No entanto, minhas referências como autora em “nosso site” são as pautas que me inquietavam quando decidi me dedicar exclusivamente à escrita: envelhecer e parar de trabalhar.

    Dois dilemas que me ocupavam a mente, provocavam reflexões e despertavam temores.

    Águas passadas…

    Aposentei-me entre os cinquenta e oito e os sessenta e seis anos.

    Nesse intervalo, flertei com a leveza de não ter horários, com a liberdade de escapar da rigidez hierárquica, da dureza das opiniões e de tudo aquilo em que me transformara como funcionária pública.

    Passei a ser uma estagiária sênior.

    Gostei! E, quando cansei, deixei de vez a vida pública e me tornei aposentada.

    Quanto ao envelhecer, só me dei conta quando troquei o batom vermelho pelo “cor de boca”; quando substituí os saltos pelos tênis, seja por conforto, seja por questões físicas.

    Aos sessenta e nove anos, saudei a minha velhice com um poema. Fiz isso com galhardia, consciência e verdade.

    Resolvidos, portanto, os dilemas da idade e do tempo ocioso, restava-me outra inquietação: quem seriam, agora, as minhas heroínas?

    As heroínas!

    Aquelas que, das páginas dos romances, nos forjaram, inspiraram, despertaram inveja ou compaixão.

    Mulheres que nos fizeram pensar não só em nós mesmas, mas no mundo, nas relações, em nossos direitos…

    Ou aquelas de quem apenas copiamos modelos de roupas ou frases de efeito.

    As mocinhas destemidas, submissas ou valentes, lindas e amadas.

    E também as que sofriam, ou faziam sofrer, a quem condenávamos ou aplaudíamos.

    Também conhecemos personagens que, mesmo em sua feiúra ou pequenez, nos fascinaram a ponto de não conseguirmos abandonar a leitura antes do fim.

    Mulheres descritas de forma nua e crua, com falhas humanas, como aquela que, ao perder a beleza e os prazeres da carne, passou a comer sem parar até se tornar obesa em Shangri-la, o Horizonte Perdido?

    Ou a governanta cruel de Primo Basílio?

    O que dizer de Madame Bovary, no misto de idealização romântica, insatisfação crônica e busca por relações insustentáveis?

    Tudo mesmo já foi dito, escrito, lido?

    Não haverá mais heroínas que possam me inspirar?

    Ou será que elas continuam escondidas nas entrelinhas, aguardando que eu as descubra, como quem abre uma janela e deixa entrar um sopro de vento novo?

    Quero ainda me surpreender, enternecer, admirar…

    No meio da multidão, no silêncio dos asilos, nos cabelos brancos exaltados pelo modismo, eu busco, eu quero, eu preciso.

    Onde estão minhas heroínas?

  • Pontuar

    Em uma de suas crônicas, Luis Fernando Veríssimo afirma que nunca usou o ponto e vírgula. A observação do escritor gaúcho, que é antes uma blague contra os gramáticos e puristas, sugere-nos algumas reflexões sobre a arte de pontuar. Ela tem a ver com um dos atributos fundamentais da poesia ou da prosa, que é o ritmo. Literatura é linguagem ritmada, e para se imprimir ao texto o seu ritmo é fundamental o uso desses sinais, que, se a alguns aborrece e inibe, a outros empolga e mesmo encanta.

    O ritmo é uma espécie de virtude metafísica da literatura. Um erro de grafia tem conserto, basta que se consulte um formulário ortográfico. Uma falha na concordância, na regência ou na colocação pode ser sanada com uma consulta gramatical. A falta de ritmo, traduzida entre outros indícios pelo mau emprego dos sinais de pontuação, sugere que o sujeito não dá mesmo para o ofício. É um míope verbal e certamente usará de modo inadequado as palavras. Pois não há semântica adequada sem um adequado suporte rítmico. A palavra errada é sobretudo a palavra fora de tempo.

    Pontua-se como se respira, respira-se como se pontua. E quase sempre ocorrem os exageros. Há os que decompõem o enunciado, abusando do chamado fragmento de frase. E picotam o período. Às vezes sem necessidade. Apenas pelo gosto de fracionar. De separar. De isolar os componentes da oração. Sujeitos. Predicados. Complementos.

    Há, pelo contrário, os que constroem períodos densos, longos, torrenciais, desses que tendem a abusar da paciência do leitor, coitado, que parece estar atravessando um rio interminável e caudaloso, e fica na expectativa de que aquilo termine, pois, com o tempo, ele até já esqueceu o que foi dito no início da frase e tudo o que deseja, a partir de certo momento, é que o escritor se compadeça da sua paciência e mesmo do seu fôlego, que dentro em pouco lhe faltará como já lhe falta a boa vontade para prosseguir na leitura, e ponha enfim nessa teia aparentemente infindável um ponto final. Ufa!

    Há os que se exaltam à toa e abusam do ponto de exclamação. Sempre! Até sem motivo! Como se vivessem numa perpétua euforia! Ou num perpétuo susto! Há os que abusam das reticências. Esses não dizem logo tudo, fazem …suspense. Preferem deixar sempre alguma coisa no vento, no ar… Imaginam que nesse deliberado laconismo é que mora a sutileza… O gosto de sugerir, explorar as entrelinhas, sabe como é… Pois o texto fala mais, quando… Eu sei que vocês me entendem… 

    Há os que (e esses geralmente são perfeccionistas) gostam de intercalar vários parênteses em seus períodos. Como se fosse necessário (às vezes é, mas eles exageram essa preocupação) fazer contínuas ressalvas às próprias ideias (mesmo as que já se tornaram claras para o leitor). Eles têm receio de que seu discurso (que eles supõem, geralmente, traduzir uma mensagem valiosa e útil) não seja suficientemente vigoroso (e sobretudo claro, inteligível).

    Há os que não resistem ao excessivo emprego dos: dois pontos. Esses parecem estar sempre preparando: uma surpresa, um desenlace inesperado para o leitor. Que acaba deixando de se surpreender, pois os dois pontos terminam previsíveis, constituindo uma espécie de alerta falso. E já deixam o leitor: de orelha em pé.

    Há, enfim, os obreiros da vírgula, que, numa espécie de afã asmático, virgulam, com disciplina espartana, sempre que a norma determina. A esses, pouco importa que o sentido se torne claro, no próprio fluir da corrente verbal. Se a regra manda, mesmo, contra o ritmo natural da fala, eles, prestos e soldados, vão largando, a intervalos breves, curtíssimos, as suas vírgulas, que, para o leitor, equivalem a pedregulhos, ou valas, ou, enfim, a obstáculos, que dificultam o, já difícil, ato de ler.

    E tu, leitor, qual o teu ritmo? Como é que, lendo ou escrevendo, tu respiras?

  • BORNOUT

    Nasci um nada. Fui criado para ser um nada. Desde pequeno, nunca soube que o dinheiro pode ser usado para o lazer. Aliás, qual o significado disso? Meus pais só trabalhavam e tudo era minimamente economizado para podermos pagar as parcelas de nossa casa em um condomínio classe média e do carro do ano, a grande paixão do meu genitor. Objetos nos quais ele empregava seu tempo livre e sua matéria.

    Enfim, fui criado para ser insignificante e decidi vencer esse destino.

    Logo aos dez anos de idade comecei a trabalhar vendendo doce na porta da escola. Era onde eu estudava? Não. Para sustentar seus desejos de aparência, meus pais sempre me matricularam em escolas públicas. Longe da minha casa, é claro. Ninguém tinha grana para comprar doce de criança. Então, eu não podia vender lá. Por isso, ia para um colégio de bacanas onde a playboyzada sempre comprava tudo. Nunca soube se era por pena ou só para se livrar rápido de mim. Foda-se, isso não importava, estava fazendo o meu dinheiro.

    Minha relação com a grana sempre foi de respeito. Ao mesmo tempo em que eu queria juntar cada vez mais, tinha medo de ficar deslumbrado e gastar tudo. Por isso, deixava ela lá, guardada, bem no cantinho dela. O único motivo justificável para mexer nas economias era para investir. Sempre buscava novas formas de aumentar minhas economias.

    Trabalhei durante toda a minha infância e adolescência, nunca tive tempo para brincadeira ou para perder tempo com inutilidades. O trabalho era meu único foco. Quando fiz dezoito anos, peguei o que tinha, comprei uma moto, aluguei uma quitinete e sai da casa dos sonhos. Nunca mais voltei a falar com meus pais, apesar de eles terem tentado muito. Eu não tinha raiva deles. O que não tinha era tempo.

    Passava os dias fazendo entregas em meu “amigo” de duas rodas, quase nunca ia para a casa. Quando raramente estava livre, ficava pensando em qual era a utilidade de pagar aquele lugar. Entretanto, logo caia na real. Ali, ao menos, poderia jogar meu corpo cansado quando precisasse. Não dá para morar em uma moto.

    Por esse motivo, meus anos como motoboy foram sempre objetivando comprar um carro. Não queria um modelo pra aparecer para ninguém. Queria um econômico que não quebrasse muito. Trabalhei como boy por cinco anos até tingir esse objetivo.

    Agora, eu precisava de mais, eu sempre quis mais. Meu objetivo era conseguir juntar o meu primeiro milhão. Dá para juntar isso sendo motorista de aplicativo? Impossível? Eu não conhecia essa palavra. Se alguma hora ela viesse em minha cabeça, eu ligava o celular, colocava um vídeo de motivação e assistia focado. Meu pouco tempo livre era unicamente dedicado a assistir um canal de um cara que saiu do nada e ficou rico. Ele ensinava os outros a fazerem o mesmo. Eu ouvia aquilo até cansar para ver se acontecia
    comigo.

    Comecei trabalhando dez horas, muito pouco. Passei para doze, dá pra aumentar. Quatorze, posso fazer um esforço. Dezesseis, foca no seu objetivo. Dezoito? Tá puxado, quase não pareço um ser humano, mas preciso aguentar.

    Certo dia, eu já estava completando umas dezesseis horas de trabalho, meu corpo pedia arrego, mas minha mente me chicoteava pedindo pra aguentar mais. Faltavam “só” duas horinhas. No meio dessa briga, eu apaguei. Quando fui acordar, estava em cima de uma cama de um hospital. Quando acordei, meus pais logo se aproximaram. Olhavam com uma puta cara de tristeza de merda. Eu fiquei puto, falei “o que ta acontecendo“. Minha mãe apenas falou “Filho, sinto muito, você perdeu todos os movimentos da cabeça para baixo“.

  • Poema: #11: REMANSO

    Sem querer descanso
    Um espanto
    Voluptuosa corrente
    Sente que é noite
    Dentro da gente.

    Sem querer remanso
    Manso
    Mato verde molhado
    Sente que é sereno
    Enluarado.

    Sem qualquer pranto
    Pronto:
    Torre de vento e estrela
    Sabe que é madrugada
    Nada.

    Vem molhada de canto
    Quer tanto
    Boca de lua jogada
    Sol quente na estrada

  • Acaso e correlações à brasileira

    Não há o nostálgico soar do ‘tic tac’ de relógios analógicos, mas a tela mágica do meu notebook indica que já ultrapassa a meia-noite. Desato nós de uma miríade de tarefas quando um barulhinho agudo e oco ecoa por cima da lauda da peça teatral que em breve encenarei, em minha improvisada mesa de home office:

    Uma joaninha.

    O corpinho vermelho hesita em emergir por entre asas a se debater, incessantemente. As características pintas pretas estão lá, e eis uma joaninha dentro da minha casa, a pousar sobre os intrincados nós da minha vida presente! Que auspicioso!, reflito comigo mesma. O exíguo inseto caminha um tanto quanto tremelicante sobre o título do espetáculo, passa pelo meu nome artístico, assinado à caneta (como se eu fosse alguém de prestígio na vida) e desliza para fora dos papéis, alcançando a laminação melamínica da chapa de MDF, o improviso de uma superfície de trabalho. Acima, nas paredes com tinta desbotada pelo tempo, veem-se adesivados o cartaz do espetáculo vindouro, desenhos, rabiscos, várias anotações e medidas que, à primeira vista, não fazem sentido. O ventilador às minhas costas tenta assoprar para longe o calor deste ‘pré-verão’, que veremos, sem dúvida, muito mais forte na próxima estação. A primavera já anuncia sua partida, ela que é a mais bonita e majestosa de todos os quatro ciclos, e soma mais um ano à minha vida – 2023 tem se revelado, especialmente, um ano desafiador e habilidoso na criação de emaranhados labirintos.

    Minha cabeça, que estava a mil há pouquíssimos segundos, reseta a si mesma enquanto observa o inseto — que cai por entre o espaço do MDF e da parede, e retorna, triunfante à marcação cênica iluminada pelos holofotes que são meus olhos.

    Joaninha…, mas… Por quê?

    Por qual motivo este minúsculo ser alado carrega o nome de uma dama? Fosse o início do ano, dirigiria a pergunta ao Google, mas temos o ChatGPT — que a esta hora se configura como uma das mais ilustres companhias, sem externar qualquer traço de cansaço; prontamente recebo um breve relato sobre a afinidade de São João e a dama sobre a minha mesa, Joana (peço desculpas pelo apelo ao vocativo, se o inseto em questão for do gênero masculino): geralmente a Coccinellidae aparece em 24 de junho, onomástico de São João Batista. Em outras culturas é ainda conhecida por “vaquinha de Deus” ou “vaca louca” — mais condizente com seu pouso em minha noite.

    Vaca por conta das manchas/ pintas, sublinha o resumo. E ainda compartilha o nome científico de sua linhagem com outros artrópodes, a exemplo das “marias-fedidas”. E ainda assim é associada a um presságio positivo, vai entender. O fato é que, vermelha como a nova tendência nas passarelas milanesas, “Jo” velozmente se adequa ao layout dos meus dilemas, conferindo elegância à minha noite repleta de inquietações. O silêncio da madrugada amplifica cada movimento, tornando os passos desajeitados da pobre criatura ainda mais evidentes e perceptíveis.

    Se a esta hora, em meio ao meu inferno astral, surpreendida sou pela visita de toda a sorte do mundo, bem…, é como acertar os números na loteria! Persigo os mais próximos, mais emblemáticos e percebo apenas letras. Construo uma lógica e uma contrária, e ainda outra que transforma o alfabeto em uma equação matemática. No entanto, passa da meia noite; a loteria federal sorteia aos sábados e quartas-feiras, já é domingo… Me resta o jogo do bicho, sorteio único domingueiro, na banca do Chico.

    Hoje vai dar vaca na cabeça!

    *Texto escrito originalmente em 12/11/2023 para o Crônicas Cariocas.

  • O Que Serei Quando Eu Crescer?

    Não… não vou escrever sobre os influencers… nem falar da infância usurpada… tampouco dos “responsáveis” pais… nem se o assunto da semana atende à pauta X ou Y.

    Como bem disse uma colega escritora: “tudo parece ser mais do mesmo.”

    Também não vou falar sobre coisas insanas, ou assuntos pavorosos. 

    Mas a minha inquietude em ver as letrinhas uma atrás das outras, formando palavras, enfileirando emoções, causando aflições, não é fácil de ser administrada.

    Sendo assim, fui lá em meus escritos antigos buscar algo inusitado ou diferente, um “achado”, talvez.

    Minha mente-esponja absorve muito, e dessas memórias escrevo contos: às vezes bobos, outros nem tanto.

    Portanto, a minha crônica semanal será um desses contos singelos, da idosa atual olhando a menina ingênua e curiosa do passado:

    O Menino

    Na missa, ajoelhado, mãos postas, olhos fechados, ele rezava.

    A cena se repetia todos os domingos. Roupa branquinha, cabelos pretos cacheados, olhos pintados, ele rezava.

    A garota se encantava com a sua postura e imaginava qual seria o seu pedido. Não, ela não tinha alcance para se comover com a prece em si, pois tinha uns sete ou oito anos. E, nessa idade, apesar da beleza da cena, o que mais a impressionava eram seus olhos. 

    Por sobre as pálpebras fechadas, ela via o risco preto do lápis.

    E durante a semana o esquecia.

    No domingo seguinte, lá estava ele outra vez: olhos fechados, olhos pintados.

    Com a curiosidade própria das crianças, a garota tentou saber com a irmã por que ele usava “coisas de moças”.

    Levou um pito e foi mandada calar a boca. Nenhuma resposta, nenhum crédito.

    Passaram-se os anos, e ela nunca mais o viu.

    Era meados dos anos 60, em uma cidadezinha provinciana.

    O tempo passou, e a cena foi ficando guardada em um canto chamado memória…

    Em uma cidade pequena, na única igreja local, frequentada pelos idosos de famílias tradicionais, pais e mães jovens com suas barulhentas crianças, mocinhas faceiras, beatas e solteironas, um rapazinho ia à missa de domingo, com os olhos maquiados…

    Era uma grande demonstração de coragem, numa época tão longínqua e num interior tão conservador!

    Anos depois a garota soube que o menino audacioso e corajoso se tornou um ótimo professor e diretor da escola pública do município.

    E a curiosidade da garota se transformou em respeito e admiração.

    Fim.

    Pronto! Com esse pequeno conto minhas palavras voltaram. Não sobre os modismos, as pautas repetidas, nem o que se diz nas redes sociais. 

    Foram lembranças que, ao surgirem como um “serendipity” iluminaram o presente e deram novo fôlego à minha escrita.

    Confesso, porém, que não há como apenas contar algo do passado, sem fazer um paralelo com os jovens que hoje ocupam os noticiários.

    A ousadia e a inquietude da juventude são normais, até necessárias.

    Mas entendo que a formação e os valores recebidos em família são os alicerces para formar um adulto saudável e responsável.

    O dever, a consciência moral , o respeito não são modismos dispensáveis. 

    Há muito tumulto, no que estamos vendo e vivendo, pois o ser humano parece ter se esquecido de que a dimensão da vida é muito maior do que o sucesso instantâneo e a aprovação midiática.

    Nesse papel apenas nos tornamos marionetes, ávidos por validação, a qualquer preço.

    E penso, olhando para trás e para frente, que talvez a resposta à velha pergunta “O que serei quando eu crescer?” esteja menos em escolher uma profissão e mais em perguntar: “alguém um dia contaria a história da minha vida, com admiração e carinho?”

  • “Influencers” e que tais

    O ser humano tem dificuldade de pensar ou agir por conta própria. Necessita de quem o oriente, sugira um roteiro seguro nos descaminhos da vida. Essa característica da nossa espécie é que propicia o aparecimento de orientadores espirituais ou guias de comportamento.

    Não falta quem se aproveite do nosso natural desemparo para nos vender fórmulas ou manuais de conduta, nos quais estaria a chave para a conquista da felicidade. Só que esse caminho não existe fora de nós; deve ser construído por cada um. Nenhum guru conhece das pessoas o que elas intimamente são, por isso não pode apontar a ninguém o caminho que as faça felizes.

    Geralmente os que se dispõem a isso cobram bem pelos conselhos — o que é compreensível; ninguém, afinal, valoriza o que lhe é dado de graça. O problema é que eles ganham por vender aos outros ilusões. Pode-se alegar que muitos preferem mesmo se iludir a enfrentar a dura crueza da vida. Querem que lhes ditem os caminhos, livrando-os da difícil tarefa de fazer escolhas. Há nisso, porém, um grande risco; o medo de se perder pode acabar deixando-os na dependência de algum perdido.

    O mundo digital fez aparecer uma nova modalidade de guru — o “influencer” (grafado em inglês para dar mais prestígio). Que vem a ser ele (ou ela)? Como o nome diz, é uma pessoa que se propõe a nos influenciar em algum domínio do saber ou do comportamento. Também (ou sobretudo) pretende nos orientar quanto às escolhas de consumo — o que comprar, de que marca, quando enjoar de um produto e partir para outro. O “influencer” se aparelha para nos ditar o que devemos fazer (e como) a fim de adquirir habilidade em determinado setor e conquistar o almejado sucesso.

    “Sucesso” é uma palavra-chave no vocabulário deles. Não bem-estar, ou felicidade, mas esse termo que bem resume os anseios de quem vive numa sociedade competitiva e marcada por signos de ostentação como a nossa. O sucesso é um emblema exterior; dimensiona-se mais pelo que o indivíduo aparenta do que pelo que ele é.

    A internet, se não criou, multiplicou o número de indivíduos com essa função. Há “influencers” para todos os gostos (e desgostos). Eles querem sentir por nós, mostrar que a insatisfação com a qual levamos a vida
    decorre de não termos despertado para as atitudes corretas a tomar — atitudes essas que só eles conhecem.

    Não descarto a possibilidade de que haja entre pessoas dessa estirpe as bem-intencionados. As que se comprometem com uma causa, mesmo sendo ela a do enfadonho politicamente correto. Mas fico com o pé atrás. Não suporto a ideia de que tirem do homem a maior riqueza que ele tem — a de pensar por si mesmo.

  • A doença

    Olhei no espelho e vi uns olhos que não eram os meus. Esse rosto assim magro, assim pálido, assim descolorido, não era o meu. No entanto, era eu que estava refletido, era eu que me olhava. Baixei os olhos, quem sabe a imagem do outro lado desaparecesse e eu voltasse a me ver como era antes. Levantei o olhar e vi, de novo, esse rosto assim magro, assim pálido, assim descolorido. Suspirei, conformado, e comecei. Passei a espuma nas bochechas e fiz massagem delicada com o pincel. O cheiro era agradável, mistura de menta e madeira. A lâmina descia suave sobre a pele, arrancando os pelos indesejados.

    Então me lembrei dela, a maldita. A lembrança se materializou e ela surgiu atrás de mim, olhando-me calada. Senti um calafrio na espinha e medo, muito medo. Sua imagem refletida no espelho me assustou, sua aparência não era bonita, mas isso não tinha a menor importância, não naquele momento em que uma fera se prepara para o bote. Virei-me e a encarei. Precisei pensar se a deixaria ficar ali ou não. Decidi que não. Disse num sussurro: “Seu lugar é no inferno, não aqui, no meu corpo. Vá!” Sem nada responder, ela me mostrou sua mão e nela havia uma ferida, como a chaga de Cristo, aquela produzida por obra de prego e martelo impiedosos.

    Parei segurando a lâmina no ar, a cara ainda cheia de espuma. Ela tentou grudar a chaga em meu peito, como uma tatuagem, uma identificação. Fiz um gesto brusco: “Não seja estúpida!” Não queria ficar marcado para sempre — “Ali vai o homem marcado, que o destino escolheu. Coitado.”

    “Não seja estúpida!”, repeti. Ela recuou. Olhou com medo para a lâmina que eu empunhava e desapareceu. Voltei a ficar de frente para o espelho e continuei escanhoando meu rosto. A espuma foi sumindo e o que surgiu foi meu rosto limpo, ainda magro, ainda pálido, ainda descolorido. Mas agora já o considerava meu de novo.

  • Poema #06: Eco

    talvez uma nota só
    surge avulso na meia luz
    monótono feito o canto
    que se destina a embalar
    o teto o chão as paredes

    a coreografia do pó
    projeta no espaço em branco
    o sonho de não morrer
    o ritmo é a bolha que estoura
    no silêncio da distância

    rebate elástico o nó
    duelo que prende a resposta
    ao mesmo som da pergunta
    na teia da repetição
    a voz desafia o infinito

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