Luiz Divino Lago

  • Olhos de cobra

    Eu gosto de sair andando sem um rumo definido. Desde moleque assim. Lembro-me da felicidade que sentia ao perceber o dia chegando pelos vãos da janela, era como um chamado da liberdade me arrancando da cama de volta para o mundo que o sono da noite anterior havia me tirado a contragosto. Saía descalço, pisando a grama molhada, enquanto os primeiros raios do sol criavam um pano cintilante sobre as várzeas cobertas de orvalho, a névoa rasteira sobre a superfície dos veios d’água. Ali, sem saber do intrincado invisível que me circundava e me atraía, eu observei um fenômeno que me acompanharia pelo resto da vida e que, de alguma forma enviesada, me escancarou um destino além da minha compreensão e controle. Enquanto pisava prazerosamente a grama molhada, eu ouvi um barulho que me era desconhecido, um guincho de algum animal, um som arranhado e ao mesmo tempo sufocado, como quando se tenta tirar um grito da garganta rouca e quase muda. Aquele som ficava cada vez mais próximo e então vi, na beira do rego d’água, frente a frente, uma cobra e um sapo. Ela tinha a bocarra aberta e os olhos arregalados fixos nos olhos do outro, como se o hipnotizasse. E era dele que vinha aquele som gutural, pontuado por alguma estridência, como se gritasse por socorro. Enquanto, num arrastar dramático que ficou tatuado em minha memória, como se eu pudesse ver dentro do seu corpo todas as contrações que tentavam contê-lo e puxá-lo para o sentido contrário, ele ia, em pequenos pulos, para dentro da boca da cobra. E assim se deu, até que ela o engoliu, aquele grito calando-se aos poucos conforme ele afundava para dentro dela, até que a boca se fechou e tudo ficou silencioso. E agora era apenas o som da água que escorria, densa e veloz, enquanto a serpente parecia fechar e abrir os olhos, lentamente, como quando se ativa as papilas gustativas para identificar e apreciar, um a um, a variedade de sabores de uma iguaria. Exceto por aquele fato raro daquela manhã, aqueles passeios nas primeiras horas do dia eram como se eu retomasse meu lugar no mundo, como se de dentro dele viesse um chamado, com letreiros enormes e fanfarras e uma grande faixa que dizia “bem-vindo ao seu lugar”. Mas a visão daquele dia não passou impune, não conseguia retomar meu caminho que era apenas deixar correr as horas enquanto me perdia na contemplação da vida. Sentia-me culpado por não ter salvo aquele sapo, podia ter pego um pedaço de pau e pelo menos espantado a cobra, mas não, fiquei inerte, como se algo dentro de mim dissesse que aquela era uma lição necessária, ou talvez tenha sido mesmo a faceta maquiavélica dessa coisa chamada destino que me fez ser apenas um observador estático dos minutos finais do pobre animal. Não consegui esquecer e ao cair da tarde subi até a igreja que ficava a um quilometro de casa, no alto, em direção ao centro da cidade. Fique lá, sentado em um dos bancos na terceira ou quarta fileira, enquanto olhava a pintura belíssima numa abóboda sobre o altar, um grupo de anjos rechonchudinhos de cabelos encaracolados flutuando em volta de Nossa Senhora com o menino Jesus no colo. Eu pedi encarecidamente que ela me perdoasse por aquele crime, ao mesmo tempo em que esperava algum movimento em seu rosto, talvez ela se voltasse para mim, e através de algum gesto, mínimo que fosse, me fizesse entender que ela tinha recebido o pedido e me perdoaria. Nada disto aconteceu, mas saí de lá certo de que a minha oração teria chegado aos ouvidos de Deus e que a minha fé, ainda que titubeante, haveria de ser suficiente para que eu alcançasse o perdão.

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