Luiz Divino Lago

  • Desertos

    Os dois esqueletos de um condomínio em construção, voltados para o oeste, acolhem o vento de inverno que rasga as redes de proteção, agora de um laranja desbotado que denuncia o esgotamento de todos os prazos. Assovia por suas entranhas de tijolos cinzentos, cor de sem vida, e ecoa pelos corredores e escadarias e as futuras dependências de 5000 m2 e 800 quartos, o básico de que precisam para viver os que chegarão flutuando sobre tudo e todos, qualquer dia destes. Com suas ideias equivocadas sobre humanidade, graus e degraus.

    De alto a baixo, outra rede de malha fina, como um véu esbranquiçado e vazado de poeira, protege os passantes dos estilhaços de argamassa e blocos, enquanto balança como se fosse um fotograma daquele velho filme sobre prédios que navegam o mundo da contabilidade, do Monty Phyton. A manta que torna invisíveis os corpos que despencam dos andaimes e desaparecem no disco colorido das estatísticas.

    Cá embaixo, neste universo ordinário em que as vidas comuns se colidem, o funcionário baixinho com a aba do seu boné voltada para trás orienta a entrada e saída dos carros no estacionamento junto do metrô. Nos intervalos, dá uma leve polida na sua Mercedes, um Monza Hatch azulado em tons diversos por retoques de spray, e ajusta com chaves de fenda duas caixas de som enormes no espaço do bagageiro. Fala ao celular com sua mulher sobre a feijoada que ela irá deixar no forno, antes de sair para o turno de sábado num hospital na Freguesia, do outro lado da cidade. Coça o rosto cavoucado da idade, passa a flanela para tirar um cisco do teto amassado do carro. Olha para chão junto ao muro e sorri satisfeito. Um sabiá come a quirera espalhada sob uma minúscula edícula que ele tinha arranjado com pedaços de tijolos e uma cobertura de plástico. Um trem emerge por sobre o pontilhão e para na estação do outro lado da avenida. O sabiá estaca por um segundo, um grão suspenso no bico. Não porque o estrondo metálico das rodas sobre os trilhos o incomodasse, mas porque ele percebeu que aquele trem hoje chegara com um minuto de atraso. Em seguida continuou com suas coisas de sabiá.

    O mato cresce sob alguns automóveis abandonados nos fundos do estacionamento, esse deserto, como são desertos as rodoviárias, como é deserto a paisagem daquele velho que fuma, debruçado meio corpo na janela do sobrado espremido entre dois edifícios, do outro lado da rua. Uma senhora desce vagarosamente a rampa do mercado, a bengala na mão esquerda, enquanto com a direita tenta conter o carrinho abarrotado de compras. Elegante, usa sapatinhos cor de rosa e um conjunto de calça e blusa na cor azul turquesa. Colar e brincos de pérolas e anéis prateados nas duas mãos. Uma mulher de cabelos encaracolados vem em seu socorro até que ela consiga sentar-se em um dos bancos perfilados junto a porta de saída. Recupera o fôlego, ergue a cabeça e me olha desolada, como se ponderasse sobre a minha inutilidade de observador. Eu penso em lhe dizer que naquele momento eu rascunhava uma história que iria abalar os alicerces da literatura universal, mas reconsidero. Não é aconselhável dividir segredos com estranhos.

  • INSTANTÂNEOS

    No meio da rua um veio d’água, a luz amarela da madrugada, um homem capengando junto ao muro longo, o som da camisa fina raspando no chapisco de quando em quando. Incertos dias, estes. Em que não somos nem sombra do que pensávamos ser. O sorriso lacônico e de entrega, como se sorri diante da derrota concreta. Um ônibus para o sul, o último da noite. Depois dele, os espaços de silêncio se alongam, ouve-se coisas mínimas, ouve-se dentro, agora que o homem se vê parte do todo, todo o tempo ali, abafado por horas a fio pela insanidade do dia. E dói saber. Ver-se liso de disfarces, o espanto da nudez, os penduricalhos desta vida dita dinâmica arrastados para o sul e para o silêncio pelo último da noite. Ouve-se o coração bater. O som do vento, bravo e tortuoso por entre os labirintos de uma seringueira densa e antiga.

    No meio da rua, um risco brilhante de luz esticando para o sul. A boca entreaberta da não compreensão, ou da verdade que chegou de repente, ela que rondava por ali dentro há tempos, caindo agora, na hora do grande momento. Um garoto, descansando sobre a moto encostada, acendeu o cigarro e puxou um trago longo que se ouviu do outro lado da rua. E olhou a fumaça fundindo-se com a noite. O outro homem agachou-se e suas costas rasparam pelo chapisco até o chão. O garoto atravessou a rua e lhe entregou o resto do cigarro aceso. Nenhum julgamento, nem perguntas. Um instante, dos muitos por aí, depois que o último da noite some para o sul.

  • Carona

    O cara entrou, bateu a porta e começou. Disse que tinha deixado todos os filhos em casa, um deles, o mais novo tinha morrido dois dias antes, a mulher tinha mudado pra casa da irmã mais velha, tinha ido buscar alguma força pra suportar todo o resto que ainda viria pela frente. Que ela era uma boa mulher, que ele tinha tirado de um grande amigo seu, traição não foi, ele acha, o amigo tratava a mulher muito mal, mulher que nem ela merecia ser bem amada por um homem que nem ele, era morena ele disse, quase mulata, melhor que a outra que ele tinha antes dela, branca que nem leite, aguada de idéias, que deixou ele por causa de um vendeiro da fazenda, matou o sujeito dias depois numa tocaia, e enterrou o corpo embaixo de uma parte esquecida da casa, aquelas casas morrem com o tempo, disse, ninguém mais mexe nelas, vai passando de um pra um até que tudo se acaba. Disse que vai buscar a mulher, deixou comida para os filhos até a noite, um deles vai pra escola, atravessa doze quilômetros até chegar lá, então tem fome, que nem os outros que ficam trabalhando na roça das fazendas vizinhas, agora é tempo de colheita de café, bom de aproveitar porque paga meio ano, o outro meio fica no vazio, não adianta encher a cidade de mais gente, então ficam. Diz que está velho, mas ainda forte, que a vida lhe fez calos no lombo, andou por todo canto deste mundo desde pequeno, sem parada, sempre buscando alguma coisa, mas não sabia dizer o que era, que decerto Deus era que tinha posto aquela sina de andar. Diz que gostava de estrada, do jeito que elas vão esticando pra longe, que pode sempre ter algum outro mundo do lado de lá na outra ponta, que acha triste viver sem saber onde vai dar esse ou outro caminho qualquer. Diz que um dia vai sumir por algum outro lugar, no dia que alguma coisa mudar sua vida de uma hora pra outra, que isto pode bem acontecer, aconteceu com ele muito antes, teve quatro esposas antes da mulata e da branquinha, filhos com quase todas elas, pode ser que alguém deixado lá atrás um dia apareça pra acertar as contas. Chacoalha a cabeça espantando alguma coisa, um instante de silêncio e retoma. Diz que o mundo mudou demais desde que era moço, que apareceu uma coisa que ele não sabia que existia, que era o medo de ficar sozinho, solidão já tinha visto nos outros, no jeito de olhar do seu pai, da última vez que pode encontrar com ele, vinte anos antes, quando o pai olhou pra ele da cama do quarto, sozinho, esperando a morte chegar dali há pouco. Que não sabia que palavra era essa até há pouquinho, quando o mundo cresceu de repente numa hora que ele parou pra olhar o vazio em volta, numa tarde de nuvens de chuva e distância limpa, o mundo quieto. Ele diz que deve ser este o sinal, que a hora que a gente ouve desde pequeno vai chegando, que a gente nunca acredita que um dia ela vem, que vai dando uma vontade de voltar pra trás, de fazer meia volta em certos caminhos por outro lado, pra banda deixada naquele tempo em que teve que escolher uma ou outra estrada, assim é que é a vida, uma fica na frente dos pés vazando pra longe, a outra vai viver nos pés de outro que escolher seguir por ela.

    Ele bate a porta e desce num lugar onde não existia nada. Vazio geral ao redor da estrada. E ficou lá esperando, desintegrando-se aos poucos no retrovisor.

  • Olhos de cobra

    Eu gosto de sair andando sem um rumo definido. Desde moleque assim. Lembro-me da felicidade que sentia ao perceber o dia chegando pelos vãos da janela, era como um chamado da liberdade me arrancando da cama de volta para o mundo que o sono da noite anterior havia me tirado a contragosto. Saía descalço, pisando a grama molhada, enquanto os primeiros raios do sol criavam um pano cintilante sobre as várzeas cobertas de orvalho, a névoa rasteira sobre a superfície dos veios d’água. Ali, sem saber do intrincado invisível que me circundava e me atraía, eu observei um fenômeno que me acompanharia pelo resto da vida e que, de alguma forma enviesada, me escancarou um destino além da minha compreensão e controle. Enquanto pisava prazerosamente a grama molhada, eu ouvi um barulho que me era desconhecido, um guincho de algum animal, um som arranhado e ao mesmo tempo sufocado, como quando se tenta tirar um grito da garganta rouca e quase muda. Aquele som ficava cada vez mais próximo e então vi, na beira do rego d’água, frente a frente, uma cobra e um sapo. Ela tinha a bocarra aberta e os olhos arregalados fixos nos olhos do outro, como se o hipnotizasse. E era dele que vinha aquele som gutural, pontuado por alguma estridência, como se gritasse por socorro. Enquanto, num arrastar dramático que ficou tatuado em minha memória, como se eu pudesse ver dentro do seu corpo todas as contrações que tentavam contê-lo e puxá-lo para o sentido contrário, ele ia, em pequenos pulos, para dentro da boca da cobra. E assim se deu, até que ela o engoliu, aquele grito calando-se aos poucos conforme ele afundava para dentro dela, até que a boca se fechou e tudo ficou silencioso. E agora era apenas o som da água que escorria, densa e veloz, enquanto a serpente parecia fechar e abrir os olhos, lentamente, como quando se ativa as papilas gustativas para identificar e apreciar, um a um, a variedade de sabores de uma iguaria. Exceto por aquele fato raro daquela manhã, aqueles passeios nas primeiras horas do dia eram como se eu retomasse meu lugar no mundo, como se de dentro dele viesse um chamado, com letreiros enormes e fanfarras e uma grande faixa que dizia “bem-vindo ao seu lugar”. Mas a visão daquele dia não passou impune, não conseguia retomar meu caminho que era apenas deixar correr as horas enquanto me perdia na contemplação da vida. Sentia-me culpado por não ter salvo aquele sapo, podia ter pego um pedaço de pau e pelo menos espantado a cobra, mas não, fiquei inerte, como se algo dentro de mim dissesse que aquela era uma lição necessária, ou talvez tenha sido mesmo a faceta maquiavélica dessa coisa chamada destino que me fez ser apenas um observador estático dos minutos finais do pobre animal. Não consegui esquecer e ao cair da tarde subi até a igreja que ficava a um quilometro de casa, no alto, em direção ao centro da cidade. Fique lá, sentado em um dos bancos na terceira ou quarta fileira, enquanto olhava a pintura belíssima numa abóboda sobre o altar, um grupo de anjos rechonchudinhos de cabelos encaracolados flutuando em volta de Nossa Senhora com o menino Jesus no colo. Eu pedi encarecidamente que ela me perdoasse por aquele crime, ao mesmo tempo em que esperava algum movimento em seu rosto, talvez ela se voltasse para mim, e através de algum gesto, mínimo que fosse, me fizesse entender que ela tinha recebido o pedido e me perdoaria. Nada disto aconteceu, mas saí de lá certo de que a minha oração teria chegado aos ouvidos de Deus e que a minha fé, ainda que titubeante, haveria de ser suficiente para que eu alcançasse o perdão.

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