Tenho certeza de que Mabel se esqueceu de mim. Já são muitos anos sem a ver, pelo menos. Fizeram com que se esquecesse, decerto. Eu fui bem quisto na sua família, mas depois passei a ser persona non grata – e o verdadeiro motivo não sei. O momento da ruptura foi abrupto, desproporcional. Meu pai havia falecido há dois meses. Isso foi em meados de 2011. E a namorada não teve a hombridade de estar comigo. Foi um deus nos acuda, com brigas e confusões – para quem gosta de paz, é o inferno. Enfim, isso não vem ao caso. Foi um mal-estar que passou, rasante, na minha vida – arrancando pedaços, é certo –, como tantos com que tive de me virar após a morte de meu pai, meu guerreiro, meu melhor amigo. Deixa eu recontar essa história, porque me vem em momentos de grande saudade: Mabel era apenas uma menina de quase dois anos quando a conheci, por intermédio do namoro que tive com sua mãe. Também fui amigo de seu pai biológico, que me contou quando a então namorada estava grávida, ambos com dezesseis anos, por aí. A pequena nasceu, e a vi, linda e sorridente. Com a aproximação, houve a paquera e o namoro com a sua mãe, que, logicamente, estava livre e desimpedida. Com o tempo, o amor por Mabel foi crescendo, a amizade recíproca e todo o carinho que uma criança merece ter. Me doei. Depois, me doeu por muitos anos a distância. Isso já faz uns bons quinze anos, depois do término do namoro de dez anos que tive com a sua mãe. Rafael, nosso amigo em comum, relata que ela está uma moça linda, talentosa, na área do marketing, e que pretende em breve se casar. Tomei um susto quando soube que já queria se casar. Hoje ela está com vinte e um anos. Acho novinha ainda, tem muito para viver, mas entrego a Deus, que a guarde com um marido bom, porque ela é uma menina boa, merece todo o amor do mundo. Naquela época, ela me chamava de papai dois, porque tinha o avô como pai – este, superpresente. Eu a tratava como filha. Com a separação, me mantive distante, quieto, não quis interferir na sua vida. A família podia não gostar. De fato, não tinha nada a ver, porque não era o seu pai. O pai biológico havia se mudado cedo para a Austrália, logo quando a menina tinha uns dois anos, e de lá não se tinha notícia. Parece que hoje mora no Brasil, mas em outro Estado. Sobre isso, porém, não vale a pena falar. São os estorvos que nos atravessaram. O que é que se pode fazer?! O que queria dizer era que tenho uma saudade danada da pequena Mabel, do tempo em que fomos crianças. Brincávamos juntos, de boneca, de parquinho. Ela que ditava a regra. E hoje não vejo a hora de a reconhecer, abraçá-la e dizer que tudo passou e que podemos recomeçar, se não como pai e filha, mas como grandes amigos.