Não tô nem aí

  • Não tô nem aí

    Pega fogo, cabaré… Tem dias que só quero sumir, arranjar um jeito de me safar dessa vidinha. Gregório, meu colega, me diz que não vai durar muito na empresa. Cara, se Gregório sair, vai virar um mausoléu de tristeza. Ele que diverte a gente, faz o tempo passar mais rápido com as suas piadas, é um verdadeiro mágico. É assim quase sempre, dia sim, dia não. Ontem meu chefe me deu um rala de graça, sem motivo algum. Disse que eu havia feito um trabalho porco, porque não teria colocado nas fichas a expressão “correta” – para ele, do jeito que ele quer; nos moldes do absolutismo. E isso se repete incontáveis vezes. Parece que sou um menino em suas mãos. Não tenho pulso para enfrentá-lo, não só porque ele é grande, mas porque tem uma cara amarrada de botar medo; é como se em cada erro ele fosse partir para cima de mim e me esfolar vivo. O pior mesmo é que não tenho reação. Sou um fracote, que não sabe responder à altura, e vou engolindo sapo calado. E toda a questão gira em torno de dinheiro. Quando o patrão não tem dinheiro, desconta na gente, como se tivéssemos culpa. Ele faz um escarcéu se não estivermos atentos para as contas do mês, para o que deve entrar. Às vezes, fazemos papel de gerente de banco, arrumando as contas como se fôssemos, todos, contadores ou economistas. Gregório diz que, com razão, tenho medo de sair porque tenho filho e família, e um monte de conta pra pagar. Ele, por sua vez, é solteiro e declara não dever nada a ninguém. Como um excelente profissional, pode botar essa banca. Seria aceito em qualquer empresa séria. E eu também, não posso me menosprezar. Faço muito além das minhas capacidades. Passo dias na frente do computador e mal tenho tempo de ir ao banheiro. Não ganho mal, disso não posso reclamar, mas a relação trabalhista é abusiva (mesmo eu sendo contratado e tendo todas as características de CLT). O homem disse que, se as coisas não mudarem, vai ter de fechar as portas do estabelecimento. É uma ameaça que sempre faz, porque precisamos, não só eu, mas a Maria da limpeza, o Fausto contador, e a Noélia do atendimento. Todo mundo fica em polvorosa quando ele diz, claramente, que vai fechar as portas. Na verdade, ele não sabe lidar com as emoções, é impulsivo e não mede as palavras; torna-se, muitas vezes, um monstro desgovernado. Semana passada pegou Noélia para Cristo e quis que ela atualizasse duas pastas de processos – grossas –, ainda tendo, a pobre, de lidar com os clientes chatos. Estou farto, exausto e sem forças. Não sei até onde darei conta. Essa semana foi difícil, extremamente difícil, e o patrão não vê o esforço. Somos máquinas inúteis, inservíveis, que podem ser trocadas a qualquer momento. Não sei o que fazer, não tenho perspectivas no trabalho. Vou levando como dá. E o fim é só um prognóstico que me espanta.

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