Naiana não me deixa em paz. Quer que eu mude de vida. Mesmo sabendo que ando muito sedentário, não tenho o menor interesse de ir à academia. Ela chegou a me levar três vezes. Para mim, que tenho autismo, nível de suporte um, é algo arrasador ter de lidar com aquela multidão de gente descolada, revezar máquina, ter de escutar músicas horríveis – levei um fone tapa-ruído, mas não teve o menor efeito ante a descarga de som eletrônico. Bati o pé e disse, novamente, que não iria mais. “Mas você já tem quarenta e três anos, Alberto!”, vem ela com a sua repetida argumentação. Não sou obrigado a fazer academia, mas, me exercitar, sim. Botei na cabeça de comprar uma bicicleta ergométrica, para fazer exercícios em casa, e me matricular no Pilates. A verdade é que ainda não tive tempo de ir ao Pilates. Sempre as prioridades me atulham, tanto do trabalho quanto da minha vida acadêmica, de pesquisador. Não tenho muito tempo. Ainda dou atenção, de muito bom grado, ao meu filho Albertinho, que agora completou seis anos. Estou consciente de que devo mudar, a “catatonia” tem me colocado cada vez mais no buraco da depressão. Compreendo, agora, que o corpo foi feito para se movimentar, como faziam os nossos antepassados Neandertais, em suas caçadas para se alimentarem. Mas ruim, ruim mesmo, é ter de ouvir as queixas de Naiana, que, segundo ela, dentro de vinte quatro horas sempre há tempo para “treinar”. Não minto quando digo que Naiana é um exemplo. Por ser mãe e trabalhar dois expedientes, é uma guerreira, de quem eu me orgulho bastante. Mas esta semana ela me veio com outra ideia singular, para tirar a minha cara dos livros. Naiana me impôs sete dias de beleza. O que isso significa? Contemplação. Olhar os mínimos recursos naturais e encontrar graça mesmo numa caixinha de fósforo, que Naiana pega para transformar em arte – de fato, uma bela arte, que ela junta para dar ao nosso filho, e assim também o orienta a fazer. Naiana é inventiva, e coloca nosso filho para pensar, o que é grande coisa. Eu mesmo, ocupado com as minhas atividades, tenho feito o trivial para Albertinho, e isso me pesa, pois desejo ser lembrado, mais lá na frente, como um pai participativo e brincalhão. Não quero que meu filho reclame da minha ausência. Por ele tenho percebido o mundo, em suas minúcias, como tem, também, me norteado Naiana… Por último, ela veio com a novidade de pedir que eu olhe o mundo com olhos de criança. Talvez pelo fato de eu reclamar muito da dureza do dia a dia. Falou-me de Manoel de Barros e suas delicadezas. Tenho visto coisas fascinantes. Já não sou mais o mesmo, felizmente. Pequenos gestos me fazem chorar. Naiana tem razão. E agora tenho para mim que serei um simpático ermitão.
Neandertais
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Beleza
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Em grupo sempre fomos imensos!
Muitos propósitos acompanham nossa trajetória em vida, porque possuímos livre arbítrio no desenvolver de ideias e atitudes, similares com as de outros, porém, ficamos ansiosos em viver o máximo possível, no tempo que nos foi concedido.
Porque inesperadamente pode encerrar o que chamamos de oportunidade em viver, num momento específico escolhido pelo dedo de Deus.
Outros entusiasmados com frases de efeito, ou livros de auto ajuda, lamentam não terem se esforçado o suficiente, ou alimentado o que seria necessário, sem saber que no relógio biológico está escrito o início e o fim da história humana.
Porém, no meio de um dos caminhos, surge um terremoto, frio calculista, com números objetivos para sua manifestação, com intuito de destruir milhares de sonhos, que já viviam em parcas condições, e caminhavam a beira de muitas oportunidades sem tocá-las. Um movimento brusco aleatório e destruidor, leva consigo fotos, objetos, roupas, móveis, testemunhos vivos de pessoas que foram felizes até então, sinais fáceis de pronta felicidade e muito amor aos seus mais próximos. O desfile da desgraça com morte e solidão, despejou no povo Sírio a palidez no olhar de choque, fria na entrega de um pesar doído pra quem busca nos escombros de pedras, restos de sua vida no local que anteriormente chamavam de lar.
A morte, essa sombria entidade, continua levando consigo gente de todos os lados, se exibindo das piores formas, marcando presença antes do tempo para alguns. Gritos sobre escombros nem sempre cessam após um resgate, mesmo que queiram entender como se safaram e ficaram a sós em meio ao nada.
Até porque o que sobrou em forma de areia não tem identificação de qual construção já foi uma vez.
Fica uma sensação de que alguns povos sofrem muito mais que outros. As forças da natureza impávidas e destemidas, não encontram adversários a sua altura, capazes de saírem ilesas após intenso embate corporal.
Há que respeitarmos e protegermos a contento as possíveis manifestações ditas da mão de Deus. Esse sábio que a muitos põem em teste para medir o valor de sua fé. Nem sempre fomos o mais fraco dos pregos na parede da existência.
Mesmo os Neandertais, inexperientes, ignorantes em tudo ainda, viviam na região central da Alemanha, caçavam os maiores animais terrestres da Era do Gelo; os elefantes-de-presas-retas, que chegavam a 13 toneladas, o dobro dos elefantes africanos de hoje. Em grupo sempre fomos imensos, inteligentes e capazes de nos ajudar no tiro da lança no peito da fera, e com a mão que retira uma vida do escombro.