Pix

  • O que não pode esperar

    A cena é a seguinte: um homem está numa fila de uma clínica médica — mas poderia ser do Detran, de um laboratório, de um cartório, já que o que vai acontecer é muito comum —. Ele, mesmo podendo fazer tudo pelo celular, coloca uma pasta em cima do balcão, apoia os cotovelos, ignora a fila que se formou atrás dele e vai mostrando exames que precisa apresentar para duas médicas, uma delas oftalmologista. São muitos papéis. Ele se confunde.

    Tudo isso de manhã, num sábado, com a cidade aparentemente mais calma. Olho para a máquina de café, quero pegar um cafezinho, mas penso em tomar um depois de passar no guichê, para ganhar tempo. Mas quero ficar ali, ouvir, embora eu não precise falar nada.

    Na fila, posso ver o muxoxo de um e de outro, geralmente jovens, meninos e meninas — acostumados com Pix, QR Code, aplicativos.

    A atendente diz:

    — Não, este aqui… deixa eu ver… este aqui o senhor traz na terça-feira.

    — E este aqui? — pergunta o homem.

    — Este aqui é na quarta-feira.

    Olho a fila: gente de braços cruzados, guardando o celular no bolso e pegando de volta várias vezes.

    O homem debruça os cotovelos no balcão, não olha em volta, não vê a fila se formando atrás dele. Ele, que vem de um outro tempo, parece ter um ritmo próprio, diferente dos outros — mais lento, mais pausado, mais calculado. Ele foi até ali, precisa resolver tudo para não ter que voltar. Vejo que, naquele dia, ele está sozinho — nem um filho, mulher, netos.

    Aí, de repente, me veio ao pensamento a pergunta: “O que não pode esperar?” Às vezes, ao sair de casa para trabalhar ou dar um simples passeio, somos engolidos por uma pressa que nem nos damos conta. Quando é assim, sempre me lembro de um ensinamento do meu pai: “A gente não existe no mundo sozinho.” E, para existir, a gente precisa entender que nem todo mundo vive no mesmo tempo, que, na vida, cada um se vira do jeito que dá.

    De repente, aquele homem que cresceu num mundo de telefone fixo, papéis, guias, boletos, carnês e carimbos acorda e dá de cara com um mundo feito de QR Codes, Pix, inteligência artificial.

    Existimos, sim, no mundo; mas não sozinhos — sempre com os outros. Por isso, do meu canto, tento entender aquele homem, a aparente tranquilidade com que confere os papéis que entrega para a recepcionista. Ela pega um dos documentos das mãos dele e explica calmamente:

    — Não, este aqui é o de terça-feira. Mas o senhor tem que trazer junto com o exame, tá bom?

    A voz da menina é calma, vem acompanhada de um sorriso, um tom afetuoso, de quem fala, talvez, com um pai ou com um avô.

    — Agora o senhor entendeu?

    — Entendi sim, minha filha.

    — Não perde não, tá bom?

    Ele coloca, um a um, todos aqueles documentos numa sacola, devidamente dobrados, dentro de uma pasta.

    Ouvi, certa vez, não me lembro de quem, a seguinte frase: “Quando a gente envelhece, a mochila fica mais pesada.” Naquela idade do homem na fila, os pais já se foram, muitos amigos morreram, talvez ele seja viúvo, aposentado. E, com essa “mochila” que chamo de bagagem de vida, ele foi ali, junto com a atendente, achando um jeito de fazer as coisas do seu próprio jeito, no seu tempo, sem ligar muito para a pressa dos outros.

    Fico pensando que, no passado, ele pode ter sido alguém que organizou a vida de muita gente. Um porteiro? Talvez. Garçom? Pode ser, claro. Fico ali, tentando descobrir — ou inventar — uma profissão para ele. Manobrista, dono de um bar, caseiro. Alguém que, em algum momento da vida, organizou a vida de muita gente, tornou tudo mais fácil, não deixou nada fora de ordem. Agora, ali, com aqueles documentos.

    Ao sair de casa, você e eu — é comum que, ao atravessar a rua, tenhamos aquela sensação: “Puxa, aquele cara anda tão devagar” ou, em determinados dias: “Meu Deus, onde ela vai com essa pressa toda? Precisa?” É como se todo mundo quisesse um mundo só seu, uma rua só sua, um trânsito só seu, um guichê de atendimento próprio.

    Ninguém fala nada. Uns olham o celular, outros fingem conferir uma receita qualquer, gente olhando para um lado e para o outro. Mas todos querendo um mundo só seu.

    Mas, infelizmente, não é assim. Quer seja numa fila de banco, hospital, qualquer lugar, o negócio é encontrar a nossa cadência com a dos outros. Por isso, olho para o velho que estava na fila. O mundo não anda devagar demais nem rápido demais. Afinar nosso tempo com o dos outros — sempre. Não é fácil, mas é o que faz a vida valer a pena.

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