Cinco anos depois da pandemia ser anunciada, revisito este texto que nasceu em meio ao isolamento — ecos de um tempo que ainda ressoa.
O horizonte anunciou um desafio Na época que traria Tanta luz e liberdade Chegaram tempos de trevas Fomos convidados ao exílio Um inimigo invisível Uma tal gripezinha Que surgia na China E, de repente, fez vítima, Seu José da esquina E com o perigo iminente
Me isolei Nos tempos das quaresmeiras Roxas como um suplício Pré-milagre de Cristo
Me isolei Ou melhor, nos isolamos Em um paraíso distante Em um refúgio externo Ou no silêncio que guardo
Me isolei Perdi a vaidade Tentei assumir os brancos Quase raspei os cabelos Mas recobrei a sanidade
Me isolei Adotei duas gatas Meu amor surtou Elas ronronaram Ele se apaixonou
Me isolei Quis morrer Quis sumir Quis viver Ressurgi
Me isolei Perdi um tio Perdi uma prima Chorei Como você também chorou
Me isolei Conversei com amigos Voltei a falar com meus primos Me senti parte de algo Dentro do meu vazio
Me isolei Fiz máscaras de beleza Pintei as unhas Emagreci Engordei
Me isolei Vi ministros humilhados Nossos poderes desnudos Ouvi o que não queria Falaram o que não devia
Me isolei Acordei de maneiras várias TPM´s, alegrias Senti saudades Do que não tinha
Me isolei Li tantos livros Escrevi quase diários Poemas curtos Contos que criei
Me isolei Descobri mais de mim De você Ou até do outro Já nem sei
Me isolei Fui amiga do sol Companheira na chuva Me perdi Me encontrei
O primeiro verso é um pouco como o ar Palavras soltas, palavras para cá e para lá Mas mãos cuidadosas vão caçando no brincar E o céu poético se ordena e tudo lá está.
O quinto verso, já encorpado, é como a terra Palavras fortes e consistentes que criam raiz E mãos habilidosas escolhem no tempo de espera E o chão poético é desejoso e tudo diz.
O nono verso movimenta-se ágil como a água Veloz como as corredeiras e quieto como lago Percorre a vida a noite inteira e depois deságua
E quando tudo parece a morte – derradeira cena As cinzas das brasas voltam ao natural estado O último verso dissolve-se e é o fim do poema.
#05 – EXERCÍCIO POÉTICO
E vai e vem e vem e vai e agora cai Um verso e mais outro e outro mais E de novo, mais um e mais um e mais um E a rima certeira se aconchega em “algum”
E vem e vai e vem e vai e de novo cai Mais um verso e mais outro e outro mais A rima, no momento, se aproxima do “cais” E então, a estrofe, mais uma, vai…
E assim segue o poema um pouco escorregadio Inteiro, em pedaço, movediço e quebrável Todo, completo e depois o vazio e o nada!
E assim segue o poema um pouco vadio O primeiro ou o último, inteiriço, mas mutável Item por item, som a som, palavra por palavra
#04 – TEMPO
Horas… as horas… é o tempo que passa e passa o tempo todo o dia inteiro independente do que faça ou não faça devagar e impreciso ou certo e ligeiro.
Curioso é que tudo muda nessa trama: o sentimento que se sentia já não sente o amor com que se amava já não ama todas as coisas passam, assim, de repente.
No fim de tudo, até os sentidos somem e transitamos entre o que há e o que não há: o improvável, o contraditório, um senão…
Tempo, palavra antiga, antes do homem… Marca do que foi, do que é e do que será máscara de sonhos, momentos, desilusão.
#03 – LÍNGUA
Língua breve, toda clara, toda escura, Aos poucos caminha, para, continua. E entre o areal, a bruma, a leve chuva. A face se mostra, inquieta e muda.
Língua instante – objeto nada – rara, pouca. Para, continua, para, tonta e louca. Ensaia um grito, uma palavra, outra, A voz se insinua, miúda e rouca.
No entanto, nas contradições do descaminho, Faz-se a língua na própria língua Faz-se o verso em todo o canto.
O poeta, imagem irreal, o instinto, Busca a palavra, suga-lhe o sentido. Regurgita o poema sob aplausos e espanto
#02 – SOMBRAS, PEDRAS E RIOS
Sombras, rios, sussurros ou delírios? Delírios, sombras, rios ou sussurros? Pedras, muitas pedras correm com os rios. Com os rios correm os murmúrios.
Rios, sussurros, delírios e sombras. Pedras, muitas pedras correm com os rios. O resto são assombros e tu contas Que escrevo um poema? Delírios!
No primeiro terceto faço questão: Pedras, muitas pedras correm com os rios. Sombras, sussurros, mas o que são delírios?
Imaginar que faço o poema e não Importa-me o verso que segue… São fios E tu a acreditares nas pedras e rios?
#01 – É A ROSA
Nas rodas antigas o freio e a vida É a rosa, desgosto, gosto do mundo Frágil, sublime, aos poucos ferida Viva num instante, morta num segundo.
A entreter o poeta num beijo longo Ao desfalecer é pedra, mar e cio, Conchas de luz no céu onde ponho Um poema um tanto escorregadio.
E foge de mim assim como o mar, E foge de mim sem sequer pensar, E foge de mim sem mesmo olhar.
É a rosa, tanto doce quanto amarga, É a rosa metade da madrugada, É a rosa, poeira e mais nada.
“sob a luz de neon, o silêncio cresce como um câncer. as pessoas se curvaram e rezaram para o deus de neon que elas criaram. as palavras dos profetas estão escritas nas paredes do metrô e nos corredores do cortiço” Simon & Garfunkel
era a noite fria e chuvosa então eu saí como um zumbi para criaturas que, como eu, vivem nas sombras.
sob a luz de neon o câncer se espalha e as pessoas se curvam ao som de Simon & Garfunkel.
rezas, aspersões de água benta e nada resolve: o deus de barro que criaram se esfarela como um pó seco.
as palavras dos profetas estão rabiscadas nas portas dos banheiros sujos das rodoviárias promíscuas.
cortiços, neons resplandecentes, silêncios e o escuro breu da noite sem almas a sufocar nos corredores do metrô 147.
palafitas, águas podres, restos de comida, latas, lixo reciclável, “estercoraria argila preta”. O Déjà Vu.