Poesia de Segunda

  • Poema #04: Sujeito Itinerário

    Sentar-se à varanda e deliciar-se com as
    passadas, dos sons da cidade,
    com a corrente inóspita do tempo…

    Ao silêncio de um lago turvo
    que se desdobra,
    sobre as luzes que escapam, e a vida que
    existe…

    como que o
    mundo as retirasse de si.

    E notar as ondas eternas das horas
    que mergulham sob a vastidão
    de um verso transitório,
    entre aquilo que se é
    e o que se fora.

    Estou farto de uma existência
    relapsa e
    repentina; deste lampejo
    imediato que submerge
    e estilhaça
    o vislumbre do agora,

    que faz do movimento
    um ressentido,
    detrito sintático,
    repleto de esquecimento.

    Quero é olhar o nada e sentir preencher-me,
    poder tocar em volta
    e correr por sobre o vento,

    e sem a permissão do dito tempo
    arriscar-me a
    pensar em tudo;
    a habitar o espaço
    de um momento.

    É… é preciso de pouco nessa vida.
    Ah, como preciso de tão pouco!
    Mas, do que realmente preciso?

    Não sei.
    O jeito mesmo
    é ir vivendo.

  • Poema #4: Rondó randômico

    A tosse que se ouviu pulsar,
    entranhada nas dobras do ar,

    ouvi que nunca houve outra igual,
    engasgo ou sintoma de um mal
    que se ouvisse sem se escutar.

    Como prever em qual lugar,
    incontrolável como o mar,
    recairia o surto canibal
    que se ouviu pulsar?

    Nesse jogo de sorte e azar,
    tecido com ardil no tear
    da imprecisão proposital,
    cada lance adia o final
    do giro sem fim do pesar
    que se ouviu pulsar.

  • Poema #25: Becos e galerias que se bifurcam em T & L

    A paixão
    é a antessala
    de uma paranoia
    na qual entramos
    com um sorriso largo
    de quem não sabe
    que penetrou num túmulo.

    A Sentinela em Fuga e Outras Ausências

  • Poema #21: Eu Queria Fazer um Poema pra Você

    Numa ocasião em que eu estava
    (como das outras vezes) prestes
    a me naufragar no abismo do delírio,
    houve um sorriso de dentes postiços.

    Mas eu já não queria mais cair
    na cilada do amor fugaz e preferia
    estar quieto e fugir para longe do
    alcance de uma outra decepção.

    Então eu me internei num hospício
    e amarrei as minhas mãos ao pé
    de uma árvore frutífera de onde
    eu poderia escavar o chão de barro.

    Ao fim do terceiro dia de psicopatia
    veio a diretora dizer que eu deveria
    partir para um lugar que não sabia
    e me deram um endereço e o contato.

    Era um lugar acolhedor e distante
    coberto de grama e cerca de arame
    mas quando fui atravessar a ponte
    um cão vampiro me atacou de noite.

    Sobrevivi como alguém que se esqueceu
    da longa noite passada e caminha como
    se o dia estivesse amanhecendo de novo,
    apesar do rastro de sangue e a boca seca.

    Havia uma casa deserta e eu pensei em
    largar tudo o que eu não nunca tive e
    vir morar aqui no meio dos bichos que
    comunicam-se através de sinais e apitos.

    Lembro de uma escada pintada de verde
    e uma mulher bonita que veio me atender
    com as mãos estendidas e um sorriso
    encorajador para que eu dissesse tudo.

    Não havia o que contar além do fato
    de eu ter andado ausente e perdido
    e que, nesse período, eu havia criado
    enredos irreais para me manter vivo.

    Tudo era então uma simples questão
    de fechar os olhos para os pássaros e viver
    tranquilo como os homens banidos de si
    e que se refugiam no labirinto do amor.

    Ai que delícia que é poder acordar e dizer
    que estou vivo, mesmo não tendo nada
    ao redor a não ser o microfone em que
    digo isso e acompanhar o seu eco no abismo.

    O Jardim Simultâneo

  • Poema #15 – EUTANÁSIA

    .

    Sob uma chuva de outubro
    o germe penetrou
    no solo árido de mim,
    onde as emoções se resguardavam.

    Mas o sol e o raciocínio
    dos meses subsequentes
    atrofiaram o germe ávido
    que havia trazido o amor.

    E foram tantos os desencontros
    do clima naquele ano
    que a meteorologia afetiva
    justifica-se culpando a ambos.

    Agora, numa sala de espera
    contígua à do esquecimento,
    resta-nos como única saída
    a eutanásia cúmplice
    do que restou do sonho.

    O Acaso das Manhãs

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