Poesias de 1 a 99 no Crônicas Cariocas

  • Poema #53: Ciclo II

    Quando a chuva neutralizar
    a esperança das flores, no chão
    uma semente irá se desenvolver
    à imagem e perspectiva de tornar-se,
    sintetizando em si todo o anseio dos homens
    para que de seus ossos não se faça apenas
    um cemitério, mas também um canteiro.

    Areia (À Fragmentação da Pedra)

  • Poema: #12: UM LAÇO E UM NÓ

    Um laço e um nó
    e o engasgo e o silêncio
    a palavra muda amordaçada e nada
    do que fizera antes apaga
    o fluxo do poema e da prosa
    e as mãos frágeis do poeta-cronista
    tentam a todo custo segurar o texto
    o desejo
    a insensatez e a loucura e o rio de letras
    sílabas palavras-peixe e amores brutos
    um laço e um nó e o engasgo e o silêncio
    a palavra mata
    e cala e se cala
    afrouxa e aperta
    afrouxa e aperta
    e joga e rola
    e deita e cola
    afrouxa e aperta e água
    e mais água inundam o ser e o papel
    e o espaço e o universo
    e a tela fala
    aquela fala aquele riso
    aquele pranto
    afrouxa e aperta
    e aperta e afrouxa
    um laço e um nó.

  • Poema #36: Nu

    O teu corpo,
    pássaro esculpido
    no assento do
    sofá da sala
    de visitas,
    é uma ampla sala
    onde te visito
    (abolida a noção
    de sonho
    sob o teu vestido),
    sempre que o desejo
    do corpo desenha
    a moldura de um
    pássaro
    em teu assento

    Inventário de Sombras

  • Poema #03: PRESSÁGIO

    Vê onde há dor,
    vá onde se avista,
    doa o que não se pede,
    perca o que não se dói.

    Foi o que não se via,
    viu o que não se achava,
    trouxe o que não devia,
    deveu o que não se tinha.

    “Terei onde ser um outro,
    verei o que há de novo”,
    tentou ser tudo que tinha
    viveu feito vivo-morto.

    “Saudade é da liberdade”,
    cantava o finado rouco;
    mas tudo o que era livre
    fizera de caso pouco.

    Saudade é da boa turma,
    teimosa que só a rima:
    largava, sentia, ouvia;
    era a vida do bicho solto.

    Onde fora tal maledicência
    que só o tombo levava o rito?
    O tinha o decurso, o todo
    fez da fome o que tinha dito.

    Repetiu o que se lembrava,
    calejava o suor da testa,

    uma vida já percorrida
    se de si esquecida,
    de que resta?

    A turma já como desfeita
    anunciava o discurso às pressas;
    foi o que não era
    e não se via.

    Eis a sutileza:
    Viver é afetar a vida com a espera.

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