Poesias de Felipe Duarte de Paula

  • Poema #09: Dominó

    Não escanda a minha fala.
    Escancarar uma tara
    nem sempre é um bom negócio.

    Esconda, miúdo, as manias que lhe movem.
    Um dia, quando nada sobrar,
    elas ainda farão o seu coração bater.

    É como diziam os romanos:
    tudo em latim.
    Ninguém entende, todo mundo concorda.

  • Poema #07: Ressaca

    onda mortiça,
    que oculta em seu manto de espuma?
    pérola ou lixo?
    fragmento de concha ou ponta de vidro?
    cobertor de areia
    espelho de estrela
    poça onde a sereia afônica afunda os pés sem dedos

    O corpo inteiro afogado no poço sem fundo.
    A memória em desordem de molho no sal.
    O olhar que vacila

    (à procura de terra firme?)
    vê diluir-se um segredo na força da água.

    no avanço
    no refluxo
    o vaivém ritmado
    pinta no chão
    uma sombra ondulada
    que apaga

    São suas ondas, maré postiça,
    que trazem não mais que pistas
    embaralhadas pelo mar,
    que tragam o passo na amarra dura
    da areia úmida de outro lugar.

  • Poema #05: Procura dos sentidos

    Terminantemente cego pelo brilho da sua voz,
    custei a compreender que o farol era oco.
    Lançam-se às ondas os que não veem.
    Os olhos,
    mal acostumados à claridade nua,
    não distinguem o contorno do timbre que os feriu.
    Perfil de muitos rostos
    ou nenhum.

    Vem de lá o jogral que arranha os ouvidos.
    As letras,
    maiúsculas e resolutas,
    marcham e cantam
    cantam e marcham
    em fileiras que se entrelaçam e colidem

    até se emaranhar em mil espinhos
    aptos a ensurdecer o toque.
    O ruído das opiniões encarece o silêncio.

    Mas não há trégua.
    A pele sem pausa se arrepia
    ao cheiro que escorre das redes.
    Pouco se aproveita da pescaria.
    Aqui uma lesma
    ali uma pedra
    o resto é areia
    que os dedos espalham até perder as digitais.

    Melhor seria se recendesse a sal.
    Na disputa amarga das fragrâncias,
    ao nariz resta a fratura.
    E antes que alguma possibilidade de cura se apresente,
    impregna o ambiente o perfume insípido dos infalíveis.

    A língua não quer assepsia.
    Tampouco a visão da terra firme.
    Temperos novos
    híbridos
    em vão buscam os lábios que os perseguem.
    O encontro jamais consumado
    afinal se junta ao rol das coisas que,
    embora não devoradas,
    consomem.
    Qual apetite desaparecido.

    Despojado enfim de todos os sentidos
    o corpo perde a conexão com algo além do sensível.
    Sonâmbulo entre sonâmbulos
    pisoteia bússolas e dicionários

    enquanto flana
    em meio à multidão da praia deserta.

  • Poema #03: Oferenda

    Da onda ao pé da praia,
    recolho as relíquias do mar:
    sigilo
    deslumbrante encanto
    pronúncia sincera de uma fé sem dogmas.

    Preservo meus amuletos.
    Quisera crer somente na força
    das águas que os trouxeram,
    banhados em luz e sal,
    sutil religação do corpo ao mistério.

    Algo estranho, porém, corta
    minhas mãos, meus pés.
    Fio afiado de faca
    cravado nas costas da mansidão.
    Em vão vasculho a areia:
    misericórdia amor tolerância
    estão enterrados tão fundo
    que sequer a mais teimosa esperança
    pode trazê-los à tona.

    Os detritos e os dejetos
    de uma deturpada devoção
    soterram sem piedade
    o que um dia foi oferenda.

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