Poesias de Segunda

  • Poema #05: Não É Aqui, Mas Perto

    Estou debruçado
    sob a fagulha do instante.
    Me distorço enquanto crio
    a ilusão de um esboço para algo
    que sequer sei o quê.

    Ouso um salto, um pêndulo.
    Giro de cá e de lá.
    Laço-me à vertente de um vértice,
    dobro os olhares e os reviro, o sintoma.
    Tu, que me devoraste.

    A vertigem do hoje faz hora
    Há tempo…

    Apressa-te, que o passo é passado.
    Vagueia a tormenta, é futuro.
    Perdoa o vivido, é achado.
    Lamenta, já se fora perdido
    feito pássaro garrido,
    debatendo-se,
    sangrando,
    só,

    estilhaçado.

    Tomba-me a silhueta assombrosa.
    Insinuo que assim continuo.
    Pesa-me o pestanejo, pelos
    entulhos do mundo, filhos
    da moral errante,
    do tocante instrumento de voz,
    secularizado pelo silêncio
    nas penumbras
    corriqueiras, talhados em
    estantes.

    O momento que pulsa tenaz
    é fruto bastardo, pauso.
    Um entrave, acordo
    em um lapso constante.
    O retenho aguçado, assim apazigua-me a
    centelha, o bastante.

    Entrelaço
    um acorde dentre as
    frestas da forma.
    Cravo o risco em páginas

    onde clamo, se por forçosa a teima,
    que ouça o riso da peste
    que sofre, que sonha.

    Estão cansados os poetas.
    Aos retirados à pruma
    surte o rumo da crença.
    E quanto à verdade, meu pai..
    É certo que dela me esqueça
    perene, enquanto perdure
    o delíquio de vossas cabeças
    renques, trépidas de um senso
    cabal,
    diz-se amargo
    o careta.

    A estibordo este vórtice
    que me devora, que me devora..
    Sinuosa esta vida
    que me despoja o agora
    e que sopra, sopra…
    Mas se por dizer
    que escrever possa ser
    velejo,

    e se a vida for mar…
    Viver seja tornar o sopro forte
    E amar, amar bem depressa,
    pois querer vê-la, já
    é tocar
    o amor
    de toda a sorte.

  • Poema #37: Um Vazio Suficientemente Cheio

    Subtraímos da vida
    a sua menor parcela
    para o preenchimento
    de nossas carências.

    Mas ao assumirmos o
    controle desta mínima
    propriedade, sentimos

    que ela não nos basta
    posto que a enxergamos
    apartada de sua totalidade.

    Acrescentamos então à vida
    a parte restante que falta
    para completar a visão que
    nós temos do seu conjunto.

    Mas ao nos atribuirmos a
    capacidade de dispor dos
    elementos de acordo com nossa
    momentânea vontade, a vida

    perde a complacência concedida
    e resgata a sua fração que já
    tínhamos e que era a única que
    podíamos aspirar em nosso desconforto.

    Inventário de Sombras

  • Poema #03: PRESSÁGIO

    Vê onde há dor,
    vá onde se avista,
    doa o que não se pede,
    perca o que não se dói.

    Foi o que não se via,
    viu o que não se achava,
    trouxe o que não devia,
    deveu o que não se tinha.

    “Terei onde ser um outro,
    verei o que há de novo”,
    tentou ser tudo que tinha
    viveu feito vivo-morto.

    “Saudade é da liberdade”,
    cantava o finado rouco;
    mas tudo o que era livre
    fizera de caso pouco.

    Saudade é da boa turma,
    teimosa que só a rima:
    largava, sentia, ouvia;
    era a vida do bicho solto.

    Onde fora tal maledicência
    que só o tombo levava o rito?
    O tinha o decurso, o todo
    fez da fome o que tinha dito.

    Repetiu o que se lembrava,
    calejava o suor da testa,

    uma vida já percorrida
    se de si esquecida,
    de que resta?

    A turma já como desfeita
    anunciava o discurso às pressas;
    foi o que não era
    e não se via.

    Eis a sutileza:
    Viver é afetar a vida com a espera.

  • Poema #02: Trinta e sete tonais de tinta

    Foram precisos tantos
    e tais quais tonais
    de tons entonados
    de tamanho eterno
    e com ternura tal..

    Teria tido eu
    um tempo ao qual
    tenro, turvo, talho,
    traços de tinta em rabiscos

    e tirando tudo de trás…
    teria eu tentado?

    Se tentei foi por tentar.
    Tirava tudo o que me trazia,
    talvez até mais…
    onde coubesse tanto.

    Traste! – terminei traçando,
    “É o que se diz”, entoei
    “quando muito se tem,
    pouco se tenta”
    .

    Pois quero tentar ter nada.
    Ou mesmo tais tonais quais
    que não tires de mim tanto
    que sou tinta entornada,

    tecido traçado no túnel
    de um tempo tirano;

    em torno de tudo,
    envolto de tanto,
    esboço de lata

  • Poema #01: A Viagem

    A gente corre e esquece
    O tempo aquece, escorre
    Se a vida dança, eu rio
    Se a vida flui, eu sambo

    De lá eu vejo, sinto
    De longe eu peço, e fico
    Da rua, a terra, o transe
    A moita, espreita, um tanto

    Eu tive sede e sonho
    Vivi a luz, a sombra
    Timbrei um brado, um tinto
    Um feixe aceso, o sangue
    Da lua negra, um grito
    Afresco a palo seco
    Memória, o vulto, o vício
    Esqueço, vejo;
    Me desencontro

    Tolice a velha sina
    O ter não quer ser tido
    O lado oposto, o tempo

    Se rompe o véu, um rastro

    Um astro, um sal, um vento
    A pena diz assim levanto
    A vida que se espreita
    Espreme, exprime, espanto

    Domingo eu ligo o rádio
    Disfarço um beijo, encaro
    A rima, um desperdício
    A vida, um ter sem rumo
    O ter, um tempo em branco

    Eu finjo um fato, um feito
    Um tapa, o tom do sério
    Eis a vergonha boba
    Viver é só mistério.

  • Poema #32: Versos Lastimosos

    a gente
    sempre se ressente
    contra quem
    supostamente
    se diz muito
    feliz

    Da Essencialidade da Água

  • Poema #30: A Voz do Silêncio

    Estou acordado
    e não sonho,
    mas a realidade
    antecipada
    me envolve.

    A barba se me
    desprende do rosto
    fio a fio num frio
    maior onde estou
    me enregelando.

    Tudo se dissolve
    na aparência de ossos
    de que fui formado,
    e que é minha forma
    mais resistente no mundo.

    Mas a terra
    (com seus vermes)
    decompõe ao seu contato
    todo o meu aprendizado
    doloroso da vida.

    E uma cova me absorvendo
    transforma tudo o que fui
    num triste resumo de pó
    que um dia se chamou homem.

    E que lhe deram um nome
    (que tive), mas que a terra
    aterra no tempo o traço
    nominal dessa efemeridade.

  • Poema #03: Oferenda

    Da onda ao pé da praia,
    recolho as relíquias do mar:
    sigilo
    deslumbrante encanto
    pronúncia sincera de uma fé sem dogmas.

    Preservo meus amuletos.
    Quisera crer somente na força
    das águas que os trouxeram,
    banhados em luz e sal,
    sutil religação do corpo ao mistério.

    Algo estranho, porém, corta
    minhas mãos, meus pés.
    Fio afiado de faca
    cravado nas costas da mansidão.
    Em vão vasculho a areia:
    misericórdia amor tolerância
    estão enterrados tão fundo
    que sequer a mais teimosa esperança
    pode trazê-los à tona.

    Os detritos e os dejetos
    de uma deturpada devoção
    soterram sem piedade
    o que um dia foi oferenda.

  • Poema #02: Último andar

    Inunda o céu a invasão
    desse voo vadio sem asas
    de volteios fora do tempo
    a trapacear a vertigem.

    Fora de ordem e selvagens
    são as aves que sequer
    as mais hábeis artimanhas
    mantiveram na gaiola.

    Em silêncio, em liberdade
    furam a fila das nuvens
    e enganam sombras e luzes
    no movimento sem freios.

    Ao redor do último andar
    vê o caminhar derradeiro
    que prescinde de convite
    pra lançar-se ao recomeço.

    Faminto de novos ares
    voa pra abocanhar o céu
    pássaro infenso à censura
    tecido de pensamento.

  • Poema #27: Uma Poesia a Marteladas

    eu faço versos
    como quem martela
    as sílabas do vocabulário:
    trôpego quase sempre.

    eu faço poemas
    como quem sofre
    as pancadas do destino:
    difíceis como sempre.

    eu sobrevivo
    como quem hiberna
    na escuridão da noite:
    dilacerado sempre e sempre.

    com a música do Led Zeppelin
    “since i’ve loving you”
    para acompanhar
    o meu enterro.

    Da Essencialidade da Água

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